20 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Professione: reporter" (1975)

 Em "Il deserto rosso", Giuliana (Monica Vitti), a protagonista, encontra-se a atravessar uma enorme crise existencial. Esta é um enigma difícil de decifrar, que tanto aproxima como afasta aqueles que a rodeiam, incluindo o seu esposo. "Il deserto rosso" foi a primeira longa-metragem a cores realizada por Michelangelo Antonioni, com o cineasta a apresentar diversos traços transversais em relação a trabalhos como "L'Avventura", "La Notte" e "L'Eclisse". Não faltam temáticas e elementos como a solidão e as crises existenciais, a utilização paradigmática da arquitectura local ao serviço do enredo, um aproveitamento exímio dos espaços dos cenários interiores e exteriores, os silêncios que são capazes de transmitir imenso, enquanto somos colocados diante de figuras complexas que nem sempre são fáceis de avaliar. David Locke (Jack Nicholson), o protagonista de "Professione: reporter", não é diferente, com este a surgir como um jornalista que parece desiludido com as rotinas que pontuam o seu quotidiano, bem como com a sua existência, decidindo assumir a identidade de um indivíduo que faleceu. Esse indivíduo é David Robertson (Charles Mulvehill), um traficante de armas que faleceu devido a um ataque cardíaco. Locke e Robertson conheceram-se durante a estadia de ambos no Chade, algo exposto quer em flashback, quer numa conversa gravada pelo protagonista no seu gravador. Robertson encontra-se no local para tratar do tráfico de armas junto das forças guerrilheiras que se revoltaram contra o Governo, embora o protagonista apenas descubra esta informação quando assume a identidade do falecido. Locke é um jornalista que procura entrevistar os revoltosos, tendo em vista a reunir informação para um documentário. Diga-se que o jornalista não é bem sucedido nessa tarefa, conhecendo uma série de contratempos como a fuga do guia e o jipe ter ficado atolado no deserto do Saara, com Michelangelo Antonioni a aproveitar paradigmaticamente os cenários desérticos, pontuados por um enorme calor e uma sensação de vazio. A temperatura elevada é captada com mestria pela câmara, com o trabalho de Luciano Tovoli na cinematografia a contar com toques de brilhantismo. O calor é ainda transmitido pelo guarda-roupa utilizado pelos personagens, com Locke a surgir quase sempre de camisa desabotoada e roupas leves. Jack Nicholson consegue apresentar a subtileza necessária para transmitir a complexidade de Locke, uma figura que nem sempre conseguimos compreender, algo comum a diversas obras de Antonioni. O cineasta volta a construir uma obra cinematográfica capaz de questionar, estimular e envolver o espectador, com tudo a ser aproveitado ao pormenor, incluindo a arquitectura local, sobretudo quando o protagonista se desloca para Espanha. A arquitectura local tem influência na narrativa e nos personagens que a povoam, algo desde logo latente nos momentos iniciais, quando Locke decide assumir a identidade de Robertson, após este último padecer de um ataque cardíaco. O ambiente é quente. O estado de espírito do protagonista parece convulso e ansioso por algo diferente. Não se sabe se Locke pretende mudar para sempre a sua identidade, ou se esta decisão é temporária, embora não deixe de ser um acto meio louco e extemporâneo. Locke abdica de uma profissão segura, de um casamento e de toda uma estabilidade financeira, para apostar em algo incerto e pouco planeado. Diga-se que, gradualmente, compreendemos um pouco o desejo do protagonista em quebrar com o seu quotidiano e assumir uma "nova vida", parecendo ansiar efectuar um "reset" na sua existência e recomeçar como alguém distinto e percepcionar o Mundo que o rodeia de maneira diferente. Claro que esse desiderato é impossível, algo que o próprio Locke percebe, sobretudo quando se depara com os negócios de tráfico de armas de Robertson, um indivíduo procurado pelas autoridades.

 Locke decide seguir o cronograma que consta na agenda de Robertson, algo que conduz o protagonista a Londres, Munique, Barcelona, entre outros espaços citadinos. Diga-se que é exactamente em Londres que se encontra a viver Rachel (Jenny Runacre), a esposa de Locke, uma mulher infiel que procura descobrir o paradeiro de Robertson, o último a falar com o falecido. Quem também tenta encontrar Robertson é Martin (Ian Hendry), um amigo do protagonista, produtor da BBC, que quase se depara com esta figura em Barcelona, embora o personagem interpretado por Jack Nicholson se consiga esconder graças a uma estranha estudante de arquitectura (Maria Schneider). Na agenda de Robertson, encontramos uma série de nomes de mulheres, com especial incidência para Daisy, uma figura que desconhecemos. Não sabemos se a personagem interpretada por Maria Schneider conhecia ou não o falecido, aquilo que temos a certeza é que esta vai embarcar na jornada do protagonista, tendo um papel fulcral na mesma. Os dois conhecem-se pela primeira vez no Palácio Güell, em Barcelona, um dos vários edifícios históricos aproveitados por Antonioni. Esta é uma cidade recheada de História e histórias, onde Locke procura encontrar um rumo para o seu futuro, encontrando-se num enclave entre a sua nova e antiga vida, embora perceba gradualmente que é impossível mudar a sua essência. Por um lado tem a sua esposa e o seu produtor cada vez mais perto de encontrá-lo, por outro arrisca-se a ser morto no negócio do tráfico de armas, sobretudo se descobrirem que se encontra a utilizar uma identidade falsa, enquanto se depara com uma jovem que desperta a sua atenção. Quem não indica estar preocupada com tudo isto é a personagem interpretada por Maria Schneider, com esta a apresentar um misto de curiosidade e irreverência, parecendo encontrar em Locke um meio para quebrar com as rotinas. Ambos são figuras complexas, com Maria Schneider a contar com uma relevância inolvidável na narrativa, com a personagem a quem dá vida a surgir como uma estudante misteriosa, que conhece diversos locais e parece tão curiosa em relação a Locke como o espectador. Nicholson deixa transparecer as inseguranças de Locke, as suas inquietações e desejos, com este a procurar algo que não parece conseguir obter. Este atravessa uma crise existencial, com as regras da sua profissão a não permitirem que consiga efectuar todas as questões que pretende. O próprio casamento do protagonista já parece ter conhecido melhores dias, algo latente no facto de Rachel ter mantido um caso extraconjugal. Diga-se que os problemas conjugais, as traições, as crises existenciais, a influência dos espaços arquitectónicos, os planos compostos com uma subtileza notória, a utilização exímia das elipses, a abstracção, surgem como elementos transversais a trabalhos de Michelangelo Antonioni como "Professione: reporter", "L'Avventura", "La Notte", "L'Eclisse" e "Il deserto rosso". "Professione: reporter" é o terceiro e último filme do acordo entre o produtor Carlo Ponti e a MGM, do qual resultaram anteriormente "Blow-Up" e "Zabriskie Point". No caso de "Professione: reporter", Antonioni procura ainda abordar questões associadas aos países africanos, em Guerra Civil, ou em confrontos internos, com diversos elementos a lucrarem com o tráfico de armas, enquanto a imprensa tarda em conseguir encontrar um equilíbrio entre a informação oficial e não oficial sobre estes eventos. Esta situação fica bem evidente numa entrevista efectuada pelo protagonista ao líder de um país africano, exibida por Martin quando se encontra a recolher trabalhos do amigo para uma hipotética homenagem, com o governante a apresentar uma versão distinta dos acontecimentos em relação aos "rebeldes". Por sua vez, temos ainda a representação de figuras como Robertson, que lucram com a guerra, uma situação exposta paradigmaticamente num encontro entre o protagonista e dois compradores de armas, numa igreja em Munique.

 O edifício da igreja para efectuar a troca de dinheiro relacionada com o tráfico de armas permite uma dicotomia entre o espaço sagrado e o profano, exacerbado num sonoro "Jesus Cristo" do protagonista quando repara na verba que tem entre mãos. No entanto, as cenas mais marcantes vão decorrer em solo espanhol. Veja-se no último terço, a curta estadia da rapariga misteriosa e do protagonista no Hotel de la Gloria, em Osuna. Antonioni brinda-nos com um magnífico plano-sequência, arquitectado de forma a explanar o momento emocionalmente poderoso, enquanto a banda sonora exacerba a situação. A profundidade do campo é aproveitada, bem como o espaço fora do campo, com a inquietação a assolar a alma dos personagens e do espectador. No final, o desfecho é previsível, ou talvez, nem tanto, com Michelangelo Antonioni e Luciano Tovoli a contribuírem para trechos simplesmente brilhantes. O poder da imagem associa-se à força do argumento, com Antonioni a conseguir imensas vezes que os longos momentos de silêncio tenham tanto ou mais poder do que os diálogos, algo que requer um elenco competente e comprometido. Jack Nicholson e Maria Schneider são o rosto mais visível desse comprometimento, numa obra onde as emoções e os episódios fluem a um ritmo certeiro. Veja-se por exemplo a entrada em cena de Maria Schneider, com a personagem que esta interpreta a assumir uma relevância inesperada após ter passado inicialmente despercebida, ou o plano-sequência perto do final de "Professione: reporter". Diga-se que este plano é pontuado pela presença notória de umas grades que envolvem as janelas, com estas a poderem simbolizar a prisão a que o protagonista se encontra sujeito. Locke está constantemente entre o presente e o passado, entre a sua "nova vida" e a identidade que não pode apagar, parecendo tomar consciência, ainda que gradualmente, das implicações inerentes à sua decisão. A entrada em cena da personagem interpretada por Maria Schneider permite que Locke finte temporariamente a solidão, com estes personagens a formarem uma estranha dinâmica, embora a relação entre ambos esteja marcada pelas dúvidas que o rodeiam o passado, o presente e o futuro da dupla. Se o protagonista parece preso entre a identidade do passado e aquela que assumiu no presente, já a câmara de filmar apresenta uma mobilidade assinalável, colocando-nos imensas vezes diante dos cenários, concedendo a noção do espaço que rodeia os personagens e dos territórios por onde estes circulam. Veja-se quando encontramos a câmara de filmar a mover-se delicadamente para a direita, quando David Locke ainda se encontra em África, com Michelangelo Antonioni a deixar-nos diante da aridez do território, ou os edifícios em Barcelona, entre outros exemplos. O risco marca a vida de David Locke, com este a tomar uma decisão que promete mudar a sua existência, enquanto Michelangelo Antonioni realiza mais uma longa-metragem marcante, pontuada por interpretações de relevo de Jack Nicholson e Maria Schneider, uma narrativa estimulante e envolvente, muitas questões e dúvidas existenciais, com "Professione: reporter" a enobrecer o currículo notável do cineasta.

Título original: "Professione: reporter".
Título em Portugal: "Profissão: Repórter".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Mark Peploe, Michelangelo Antonioni e Peter Wollen.
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider, Steven Berkoff, Ian Hendry, Jenny Runacre.

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