23 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "One Flew Over the Cuckoo's Nest" (1975)

 O hospital psiquiátrico onde se desenrola boa parte da narrativa de "One Flew Over the Cuckoo's Nest" surge como um espaço pontuado por um conjunto de regras rígidas e uma panóplia de funcionários prontos a coartarem o livre arbítrio dos pacientes. O quotidiano neste local é deprimente e modorrento, marcado por rotinas pouco dinâmicas, que não parecem contribuir para a melhoria dos pacientes, algo que fica latente nas diversas figuras que nos são apresentadas ao longo da narrativa. Uns divertem-se a jogar às cartas, ou a limpar o chão, outros encontram-se doentes ao ponto de não se conseguirem locomover, com "One Flew Over the Cuckoo's Nest" a colocar o espectador diante de um espaço que a certa altura parece uma metáfora para o estado em que alguns sectores da sociedade dos EUA se encontravam na época em que o filme foi lançado, em particular, na década de 70 (1975). O estado é letárgico, com Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson) a surgir como o elemento improvável que promete despertar sentimentos díspares no interior da instituição e quebrar as regras que toldam a liberdade dos pacientes. Jack Nicholson dá um recital de interpretação em "One Flew Over the Cuckoo's Nest", com o actor a encarnar uma figura complexa e impulsiva que ganha toda uma dimensão superior graças ao talento e carisma do intérprete. Nicholson consegue exprimir a personalidade problemática de Randle, as suas inseguranças e excentricidades, bem como a sua procura em mexer com o quotidiano dos pacientes do hospital psiquiátrico e a enorme humanidade e intensidade desta figura, algo que contrasta com a marcante enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher). Se Randle é um indivíduo expansivo e politicamente incorrecto, já a enfermeira Ratched é uma figura fria, implacável e pouco dada a facilitar a vida aos pacientes, com a personalidade da dupla a ser amplamente distinta. Esta é a representante da ordem e da boa moral, do lado conservador de uma sociedade a necessitar de mudanças. Escusado será dizer que Randle e Ratched vão entrar em conflito em diversos momentos de "One Flew Over the Cuckoo's Nest", um drama emocionalmente envolvente, recheado de alguns momentos perturbadores, bem como de trechos pontuados por humor. Jack Nicholson está no epicentro de boa parte dos acontecimentos que rodeiam a narrativa de "One Flew Over the Cuckoo's Nest", com o personagem que este interpreta a protagonizar uma miríade de episódios que prometem não terminar da melhor maneira, uma situação que se torna cada vez mais evidente com o desenrolar da narrativa. Randle McMurphy está longe de ser um exemplo, bem pelo contrário. Este é um recluso que se encontra a cumprir pena de prisão devido a ter efectuado sexo com uma jovem de quinze anos de idade, sendo conhecido pela sua personalidade problemática, algo que outrora conduzira a que tenha sido detido por cinco vezes devido a agressões. A presença no hospital psiquiátrico é simples: os responsáveis da prisão pretendem saber se Randle é mesmo louco ou se procura apenas escapulir-se às tarefas dos campos de trabalho da instituição prisional. Diga-se que a chegada deste indivíduo ao hospital psiquiátrico é marcada por uma felicidade latente, exposta de forma efusiva junto dos guardas, num misto de alegria e loucura, com a retirada das algemas a permitir uma liberdade temporária.

De gorro na cabeça, roupa informal, uma personalidade peculiar, Randle parece apresentar uma saudável loucura e um feitio capaz de despertar os sentimentos mais variados. Os pacientes do hospital psiquiátrico parecem admirá-lo, ou pelo menos tolerá-lo, os médicos e as enfermeiras consideram-no praticamente um pesadelo, com Randle a colocar em causa o status quo e as rotinas desta instituição. A presença de Randle McMurphy é sentida logo nos momentos iniciais, com este a não ter problemas em intrometer-se no quotidiano de diversos pacientes e começar a desafiar as regras desta instituição, enquanto "One Flew Over the Cuckoo's Nest" aproveita para desenvolver alguns dos elementos secundários que povoam a narrativa. Randle é o foco principal de "One Flew Over the Cuckoo's Nest", embora exista espaço para diversos personagens secundários sobressaírem, apesar de representem muitas das vezes arquétipos de doentes. Veja-se o caso de "Chief" Bromden (Will Sampson), um nativo americano, aparentemente surdo-mudo, com quem Randle goza inicialmente, embora até acabe por formar amizade com este indivíduo de enorme estatura física. Temos ainda figuras como Billy Bibbit (Brad Dourif), um jovem com tendências suicidas que apresenta uma falta de confiança latente a lidar com as mulheres; Max Taber (Christopher Lloyd), um paciente brusco na exposição das suas opiniões; Martini (Danny DeVito), um tipo que gosta de ver as cartas dos outros, apresentando alguns problemas do foro mental; Dale Harding (William Redfield), um indivíduo paranoico que acredita ter sido enganado pela esposa, entre outros. Estes reúnem-se regularmente para sessões de grupo deprimentes, lideradas por Ratched, embora estas iniciativas apenas pareçam piorar o estado mental dos pacientes. Billy praticamente desfaz-se do ponto de vista mental, Dale exibe parte dos seus problemas, enquanto Randle decide tomar acções ao procurar instigar os colegas a votarem para mudar o horário das sessões de terapia tendo em vista a visionarem os jogos de basebol. Aos poucos, Randle consegue estimular alguns dos pacientes a desafiarem o sistema, algo que irrita Ratched e a direcção do hospital. Veja-se quando Ratched proíbe que vejam o jogo na televisão, com Randle a fingir que se encontra a visualizar o mesmo, enquanto Jack Nicholson brinda-nos com um momento memorável. Randle finge que se encontra a ver o jogo, exprime as emoções inerentes a um episódio do género e contagia aqueles que o rodeiam. Diga-se que Jack Nicholson tem diversos momentos memoráveis como Randle, seja num jogo de basquetebol com os enfermeiros, ou numa fuga que proporciona alguns trechos de liberdade e alegria aos outros doentes, com "One Flew Over the Cuckoo's Nest" a apresentar-nos a um indivíduo esgrouviado que se prepara para colocar um hospital psiquiátrico em polvorosa. Este é o agitador das gentes letárgicas, embora acabe por ser alvo de um conjunto de procedimentos e armadilhas por parte de Ratched e dos restantes médicos que prometem arrasar com sua a sanidade, com Milos Forman a questionar alguns dos métodos de tratamento destas instituições, ainda que de forma algo maniqueísta. Milos Forman apresenta uma segurança assinalável na realização desta adaptação cinematográfica do livro homónimo de Ken Kesey, com o cineasta a convencer o espectador em relação a esta realidade apresentada ao longo da narrativa, incluindo na representação do hospital psiquiátrico.

O cenário do hospital é aproveitado de forma exímia, com Forman a explorar diversos pormenores associados ao local, incluindo a música colocada supostamente para acalmar os doentes, com o personagem interpretado por Jack Nicholson a surgir como a figura que desestabiliza por completo o dia-a-dia desta instituição. Tudo parecia desenrolar-se conforme o rigoroso planeamento da enfermeira Ratched, embora Randle não pareça disposto a aceitar regras que perpetuam e instigam a apatia. O argumento é dotado de algumas falas bem construídas, enquanto Milos Forman consegue extrair interpretações convincentes de boa parte do elenco, em particular de Jack Nicholson e Louise Fletcher. Nicholson e Fletcher representam dois polos opostos, com a personagem interpretada por esta última a apresentar uma frieza e dissimulação que contrastam com a imprevisibilidade do protagonista. O filme permite abordar questões associadas ao tratamento dos doentes destas instituições, aos receios das figuras que se encontram internadas nestes espaços mas também a complexidade que apresentam a nível comportamental. Em certa medida, "One Flew Over the Cuckoo's Nest" traz à nossa memória "Shock Corridor" de Samuel Fuller, uma obra cinematográfica que nos colocou diante de um jornalista que se decidiu envolver no interior de uma hospital psiquiátrico para descobrir quem assassinou um paciente. Tal como no filme de Samuel Fuller, também em "One Flew Over the Cuckoo's Nest" são efectuados comentários sobre a sociedade dos EUA, para além da sanidade do protagonista começar a ser colocada à prova. "One Flew Over the Cuckoo's Nest" apela à diferença e à tolerância, bem como à capacidade de agir, enquanto utiliza um personagem recheado de contradições como motor de mudança para a luta contra a letargia num hospital psiquiátrico que pouco ou nada parece contribuir para melhorar a saúde dos pacientes. É certo que os enfermeiros do hospital surgem representados de forma maniqueísta, com quase todos a apresentarem atitudes frias e pouco humanas, com Ratched a ser o ponto máximo dessa ideia. Os close-ups no rosto desta mulher permitem exprimir o seu tom ameaçador e a sua capacidade de coagir diversos pacientes, algo latente no último terço, quando desfaz emocionalmente Billy. Este é um paciente emocionalmente instável, com baixa auto-estima, que parece temer aquilo que os outros pensam sobre si, uma situação que promete trazer estragos no último terço. Entre momentos de humor sinceros, falas e situações marcantes, um final emocionalmente arrasador e uma interpretação de grande nível de Jack Nicholson, "One Flew Over the Cuckoo's Nest" arrasta-nos para a miríade de emoções que envolvem o quotidiano dos pacientes de um hospital psiquiátrico, conseguindo despertar a sensação de que vivemos estes episódios com Randle, um protagonista carismático e inesquecível.

Título original: "One Flew Over the Cuckoo's Nest".
Título em Portugal: "Voando Sobre Um Ninho de Cucos".
Realizador: Milos Forman.
Argumento: Lawrence Hauben e Bo Goldman.
Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Will Sampson, Brad Dourif, Christopher Lloyd, Danny DeVito.

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