12 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "The Lobster"

 Retrato ácido, bizarro, perturbador e peculiar sobre os relacionamentos humanos e a sociedade que nos rodeia, "The Lobster" transporta-nos para o interior de uma realidade paralela onde tudo parece controlado, incluindo os diálogos, na qual sobressaem dois grupos com ideologias distintas mas igualmente extremadas. De um lado temos um grupo que segue as regras da Cidade e obriga os seres humanos a formarem um relacionamento no prazo de quarenta e cinco dias. Esta situação obriga os homens e as mulheres a deslocarem-se até ao espaço do Hotel, uma instituição pontuada por regras totalitárias, onde a direcção procura que cada hóspede encontre a sua cara-metade. Quem não conseguir encontrar uma parceira ou um parceiro no prazo de quarenta e cinco dias é transformado num animal irracional à sua escolha. Do outro lado encontramos um grupo de "solitários" que proíbe os relacionamentos e encara o estado celibatário como algo quase sagrado. Não existe meio termo para boa parte das figuras que rodeiam o enredo de "The Lobster", a primeira longa-metragem falada em inglês do realizador Yorgos Lanthimos, com o cineasta a criar algo que tanto tem de surreal como de real e palpável. O elenco é composto por nomes tão distintos como Colin Farrell, Léa Seydoux, Rachel Weisz, Ben Whishaw, Angeliki Papoulia, John C. Reilly, entre muitos outros, com boa parte deste actores e actrizes a terem espaço para sobressaírem ao longo de "The Lobster", com o primeiro a dar vida a David, o protagonista, um indivíduo recentemente divorciado. David tem de encontrar uma parceira, ou será transformado num animal irracional, tal como acontecera com o seu irmão que, agora, é um cão. Caso falhe a obtenção do seu desiderato, David pretende ser transformado numa lagosta, o animal do título do filme, algo que procura evitar. É no Hotel que David conhece um indivíduo que coxeia de uma perna (Ben Whishaw), bem como outro que tem dificuldades latentes a nível de dicção (John C. Reilly), com o protagonista a criar alguns conhecimentos no interior deste espaço, enquanto procura encontrar uma parceira, visita os eventos peculiares que são organizados pela direcção do estabelecimento e protagoniza alguns momentos de lazer. Os relacionamentos são organizados consoante aquilo que os personagens têm em comum, com o indivíduo coxo a procurar por uma mulher coxa e por aí fora. Se David procura manter a sua integridade, pelo menos a nível inicial, já o personagem interpretado por Ben Whishaw prefere fingir que sangra do nariz, tendo em vista a iniciar uma relação com uma mulher que padece desse problema (Jessica Barden). O personagem interpretado por Ben Whishaw permite que "The Lobster" aborde, ainda que de forma metafórica, ácida, mordaz e a espaços violenta, a procura de alguns seres humanos em modificarem a sua forma de ser e pensar, tendo em vista a envolverem-se com outras pessoas, algo que raramente dá bom resultado, com as relações a começarem com uma mentira que geralmente se dilui com o passar do tempo. Diga-se que podemos ainda encarar esta situação como uma necessidade do ser humano, com Yorgos Lanthimos a levantar diversas questões sobre as temáticas e os personagens que povoam "The Lobster". David ainda tenta copiar o amigo ao fingir que é um indivíduo frio, tendo em vista a conquistar a "mulher sem coração" (Angeliki Papoulia), embora tudo se esfume quando esta elimina brutalmente o irmão do protagonista. Yorgos Lanthimos não poupa na violência, seja esta física ou sentimental, algo latente quando encontramos o irmão de David, um canídeo simpático, envolto em sangue devido a ter sido espancado até à morte pela personagem interpretada por Angeliki Papoulia. A actriz concede um tom deliciosamente negro à personagem que interpreta, uma mulher fria, niilista, sem problemas em desprezar os outros, com David a não conseguir esconder a sua fúria quando se depara com a morte do irmão.

 A "mulher sem coração" é perita num jogo que consiste em disparar dardos tranquilizantes sobre "solitários" que se encontram foragidos, tendo em vista a ganhar "dias extra" no Hotel, enquanto David demonstra uma inabilidade notória para esta actividade, exibindo por diversas vezes que não se adapta a esta mini-sociedade totalitária que é formada no interior deste local pontuado por regras muito próprias. As roupas utilizadas pelos homens são semelhantes, algo que também acontece com as mulheres, as falas e os gestos parecem demasiado coordenados, as crianças são utilizadas para salvar relações, com "The Lobster" a efectuar diversos comentários sobre a sociedade do nosso tempo. Veja-se as relações que se iniciam mais para o casal fugir à solidão do que por amor, ou a tentativa efectuada por alguns homens e mulheres de "moldarem" a sua personalidade para se aproximarem de alguém, ou as dificuldades que alguns elementos apresentam a nível de comunicação, com "The Lobster" a procurar utilizar esta realidade alternativa para questionar a sociedade do nosso tempo. Será que esta sociedade se encontra assim tão distanciada da realidade? Será que a nossa sociedade aceita facilmente a diferença? "The Lobster" parte de uma premissa que tanto tem de absurda como de intrigante para nos colocar diante de questões completamente contemporâneas e bem reais sobre os relacionamentos humanos, com Yorgos Lanthimos a pegar em temáticas complexas, gerar dúvidas e confrontar o espectador. Yorgos Lanthimos opta por nos expor a dois extremos distintos, com David a parecer um dos poucos elementos que ficam a meio caminho. Colin Farrell consegue transmitir as dúvidas do personagem que interpreta, um indivíduo que não consegue seguir totalmente as regras dos dois grupos. O grupo dos celibatários é liderado pela personagem interpretada por Léa Seydoux, uma mulher implacável para com os prevaricadores, de gestos e expressões frias, com a actriz a criar uma figura que tanto tem de carismática como de extremista. É no interior do grupo de solitários que David conhece uma mulher (Rachel Weisz) que desperta a sua atenção, com ambos a partilharem diversos gostos e a miopia. David junta-se a este grupo após uma fuga aparatosa do Hotel, com os solitários a parecerem inicialmente os membros que se escondem na floresta de "Fahrenheit 451". No entanto, facilmente percebemos que os solitários não apresentam assim tantas diferenças em relação ao grupo do Hotel, com as suas regras a serem igualmente extremistas e as punições dolorosas e tirânicas. Diga-se que ambos os espaços são claustrofóbicos, apesar dos solitários viverem na floresta, ao ar livre, com "The Lobster" a explorar assertivamente os cenários ao serviço do enredo. Veja-se quando encontramos David, num momento da fuga, a transportar uma personagem para a "sala de transformação", com Lanthimos a colocar-nos diante de um plano onde o protagonista se encontra enclausurado entre as paredes e o tecto do Hotel, com a alcatifa azul e alaranjada/avermelhada que se encontra no chão a sobressair e a expor que até a decoração deste cenário é bizarra e capaz de adensar a atmosfera opressora do local. Outro exemplo que pode ser dado é a floresta, com esta a ser composta por um conjunto de árvores e arvoredos que parecem praticamente sufocar os espaços livres do cenário, tal como as regras da líder dos solitários cerceiam a liberdade de alguns dos seus membros. Aos poucos, os sentimentos entre os personagens interpretados por Farrell e Weisz começam a ser mais evidentes quer para o espectador, quer para os "solitários", algo que promete trazer dissabores para ambos os elementos, com "The Lobster" a surgir como uma obra cinematográfica peculiar, que tanto nos intriga como afasta, com Yorgos Lanthimos a criar algo de complexo e provocador, pronto a gerar duvidas, debates e opiniões díspares.

 O cineasta atribui a "The Lobster" um tom que inicialmente se estranha e depois se entranha, enquanto somos colocados diante dos dilemas do protagonista e um enredo que tanto tem de real como de fantasioso, com o argumento de Efthimis Filippou e Yorgos Lanthimos a explorar temáticas que entroncam na realidade, estimulando o espectador a questionar aquilo que lhe está a ser apresentado. Não faltam personagens que procuram fazer de tudo para se sentirem integrados, elementos que encaram a solidão ou o celibato como algo pouco natural, o extremismo ideológico, entre outros exemplos que dialogam com a realidade da sociedade contemporânea, enquanto somos colocados diante de um conjunto alargado de figuras que permitem que os seus intérpretes sobressaiam. Colin Farrell e Rachel Weisz são os nomes que mais se destacam, com ambos a apresentarem uma dinâmica convincente quando se encontram em conjunto. Farrell como um indivíduo de barriga saliente, personalidade aparentemente passiva e resignada, que procura fugir ao destino que tinham preparado para si, envolvendo-se no interior de um grupo com regras tão rígidas como aquele do qual fugira. David procura manter a sua integridade e personalidade, encontrando aparentemente o amor junto da personagem interpretada por Rachel Weisz, com Lanthimos a parecer deixar o cinismo de lado quando se trata destas figuras que parecem nutrir afecto e amor uma pela outra. Weisz surge como uma mulher sem problemas em expor o desejo que sente por David, que desafia as regras dos seus superiores ao iniciar uma relação com o protagonista, com o romance entre estes dois elementos a parecer credível e sincero. O romance entre David e esta mulher exibe paradigmaticamente a complexidade desta obra que consegue ziguezaguear entre o cinismo e o romantismo, a violência e o humor, o drama e a comédia. A personagem interpretada por Rachel Weisz surge ainda como a narradora de serviço, com esta opção a espaços a adicionar alguma informação, embora em alguns momentos se torne redundante, com o tom de voz da actriz a parecer indicar muitas das vezes que esta se encontra a ler um texto, algo que pode estar ligado à figura a quem dá vida, embora não conceda pertinência a este recurso. Weisz e Farrell não são os únicos elementos a sobressair. Veja-se o caso de Ashley Jensen como uma mulher que gosta de biscoitos e apresenta uma personalidade relativamente apagada e carente, ou Olivia Colman como a fria gerente do Hotel. Temos ainda figuras como Ben Whishaw, com este a interpretar um indivíduo frágil, que se procura adaptar da melhor forma possível tendo em vista a não se transformar num animal irracional, com o personagem que este interpreta a permitir mais uma representação sarcástica da nossa sociedade. Qualquer semelhança entre "The Lobster" e a realidade não é mera coincidência, com Yorgos Lanthimos a apresentar um retrato mordaz, violento, alegórico e pessimista sobre a nossa sociedade ao mesmo tempo que destrinça as relações humanas. A banda sonora contribui para a atmosfera algo opressora que envolve a narrativa de "The Lobster", enquanto o enredo é pontuado por algum drama, romance e humor negro. Veja-se uma demonstração efectuada no Hotel onde são exibidos alguns benefícios de viver acompanhado, ou as excentricidades de algumas figuras. Diga-se que o humor negro a espaços aparece de braço dado com a tragédia, com muitos dos personagens a apresentarem uma dificuldade latente em comunicar. Yorgos Lanthimos utiliza um tom aparentemente fantasioso para explorar a complexidade dos relacionamentos, abordar a dificuldade do ser humano em comunicar e levantar questões pertinentes sobre a sociedade contemporânea, com "The Lobster" a surgir como uma obra cinematográfica intrigante, complexa e provocadora, que inicialmente se estranha e depois se entranha.

Título original: "The Lobster".
Realizador: Yorgos Lanthimos.
Argumento: Efthimis Filippou e Yorgos Lanthimos.
Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, Jessica Barden, Angeliki Papoulia, John C. Reilly, Ben Whishaw.

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