18 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "L'Eclisse" (1962)

 Sensual, misteriosa, indecisa em relação ao futuro, pronta a amar e a afastar aqueles que se aproximam da sua pessoa, Vittoria (Monica Vitti) é uma tradutora que apresenta uma personalidade complexa e enigmática. Vittoria é uma das protagonistas de "L'Eclisse", a obra cinematográfica que termina a trilogia informal do "isolamento", formada ainda por "L'Avventura" e "La Notte", com Michelangelo Antonioni a apresentar novamente uma habilidade inolvidável para captar os ritmos dos sentimentos e sensações humanas, bem como a alienação no interior dos espaços urbanos. Todas estas obras cinematográficas abordam relações complexas, crises existenciais, a alienação do ser humano no espaço urbano, a incerteza em relação ao futuro, embora o final de "L'Eclisse" seja bem mais pessimista. Diga-se que o início de "L'Eclisse" é desde logo marcado pelo final da relação entre Vittoria (Monica Vitti) e Riccardo (Francisco Rabal), uma decisão que parte desta mulher e deixa o namorado devastado. Tal como é apanágio de diversos filmes realizados por Michelangelo Antonioni, a arquitectura local e os cenários apresentam uma relevância notória ao serviço da narrativa, com estes a surgirem muitas das vezes quase como personagens, enquanto o cineasta explora os mesmos de forma imaculada. O design a nível dos cenários interiores é sublime, com um simples cinzeiro recheado de cigarros, aliado aos diálogos entre Vittoria e Riccardo, a permitir que o espectador perceba que o casal esteve a falar durante toda a noite. As falas parecem ter sido relativamente inconclusivas. Diga-se que a falta de diálogo ou a incapacidade de alguns personagens em compreenderem a cara-metade é algo que marca esta trilogia, com o término da relação a parecer apanhar Riccardo de surpresa. Até o espectador é surpreendido, enquanto Antonioni evita seguir uma estrutura narrativa certinha, ou pronta a fornecer todas as respostas. Veja-se que nos coloca desde logo diante de uma separação de um casal que não conhecemos, embora facilmente nos apercebamos das dúvidas de Vittoria em relação ao futuro deste namoro. Vittoria é um mistério, com Monica Vitti, uma actriz brilhante, a conseguir explorar o lado enigmático desta figura feminina que vai facilmente da alegria à tristeza, da euforia ao tédio, tendo muitas dúvidas e poucas certezas em relação à vida. Não tem ambições de ser rica, ao contrário da sua mãe (Lilla Brignone), uma mulher que gasta boa parte dos seus dias a comprar e vender acções na Bolsa de Roma. "L'Eclisse" apresenta este espaço da bolsa quase como se fosse um ringue de boxe, onde vários correctores procuram fazer os melhores negócios, as finanças de diversas pessoas estão em jogo e o ritmo das transacções é frenético, com todos os intervenientes a procurarem desferir o golpe certo para conseguirem lucrar. É neste local, exposto de forma semi-documental, que Vittoria conhece Piero (Alain Delon), um corrector de bolsa que efectua os negócios da progenitora da protagonista.

Se Vittoria parece uma jovem algo indecisa, calma e sensível, já Piero surge como um indivíduo frenético, sem tempo a perder, dinâmico, materialista e pragmático, com ambos a contarem com características transversais a diversos personagens desta trilogia informal de Antonioni. Veja-se que estes vivem no meio dos luxos, entediam-se com alguma facilidade, não conseguem manter uma relação sólida, surgindo como duas figuras complexas e intrigantes. Vittoria e Piero iniciam um romance que tem tudo para fracassar ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica que surge como o culminar de uma trilogia pontuada pelas dificuldades do ser humano em comunicar ou encontrar a felicidade. Michelangelo Antonioni não procura caminhos fáceis ou oferecer conclusões peremptórias, com o cineasta a conseguir captar mais uma vez a complexidade dos sentimentos e relações humanas, algo visível ao longo de "L'Eclisse", uma obra cinematográfica belíssimamente filmada a preto e branco onde cada plano parece ter sido pensado ao pormenor. Veja-se quando encontramos os personagens a saírem do edifício da Bolsa de Roma, com a porta a surgir quase como uma moldura, ou a utilização exímia do deep focus, ou os momentos em que Vittoria e Piero aparecem separados pelas grades que antecedem a entrada no prédio da tradutora, algo simbolicamente relevante, ou a relação entre a dupla não se encontrasse agrilhoada pelas indecisões. Tudo parece pensado ao pormenor, incluindo as deambulações dos personagens pelo espaços urbanos, ou a exibição dos cenários sem a presença dos protagonistas, com Antonioni a brindar-nos com um final que tem tanto de poético como de arrasador, com o destino a seguir o seu curso, algo que também se aplica a Vittoria e Piero. Alain Delon e Monica Vitti brindam-nos com interpretações brilhantes. Ela pelos elogios que já lhe foram efectuados, mas também pela estranha dinâmica que Vittoria cria com Piero e aqueles que a rodeiam. Veja-se quando passa a noite com Anita (Rosanna Rory) e Marta (Mirella Ricciardi), duas vizinhas, com a casa desta última a exibir uma série de objectos que o esposo trouxe do Quénia. Marta apresenta uma atitude algo xenófoba em relação aos habitantes do Quénia, embora aprecie o local, encontrando-se sozinha, tal como Vittoria. Diga-se que esta noite é marcada por alguma bizarria e momentos meio surreais, não faltando uma pata de elefante como suporte de mesa, Vittoria a dançar como se fosse uma indígena do Quénia (ou pelo menos como esta idealiza uma indígena do Quénia), ou a personagem interpretada por Monica Vitti a procurar um cão no meio da rua. No dia seguinte, as personagens interpretadas por Rosanna Rory e Monica Vitti efectuam um passeio de avião, ou o marido da primeira não fosse um piloto, com "L'Eclisse" a deleitar-nos com alguns belos planos aéreos. Antonioni faz questão de realçar a enorme dimensão do espaço citadino de Roma e a pequenez do ser humano diante dos territórios que o rodeiam ao mesmo tempo que evidencia as idiossincrasias de cada personagem de relevo da narrativa. Diga-se que qualquer personagem pode ganhar relevo num determinado momento do enredo, incluindo um indivíduo alcoolizado que furta o veículo de Piero. Ao outro dia, o carro é retirado do fundo do rio, numa das várias cenas marcantes do filme, com o condutor a encontrar-se morto no interior do bólide, enquanto Piero aproveita para exibir mais uma vez a sua personalidade fútil e materialista ao preocupar-se apenas com o veículo. A espaços Piero consegue trazer à nossa memória os personagens burgueses pontuados por enorme vacuidade de "L'Avventura" e "La Notte", com Antonioni a exibir uma visão algo cínica em relação à humanidade.

Com tanta divagação, praticamente saímos dos elogios a Monica Vitti sem abordar a interpretação de Alain Delon, com este a incutir um estilo frenético e pragmático a Piero. Veja-se as cenas no interior do edifício da Bolsa, com Alain Delon a incutir uma energia notável ao personagem que interpreta, com este indivíduo a ter que lidar quer com o sucesso, quer com o insucesso nos seus negócios. Diga-se que "L'Eclisse" surpreende ainda pela quantidade de temáticas que aborda e pela facilidade que tem em despertar a sensação de que é praticamente impossível captar tudo aquilo que Antonioni tem para nos dar. Não falta a solidão do ser humano, as relações que se iniciam e terminam, a complexidade do mercado da Bolsa e as suas perigosas oscilações, os resquícios do colonialismo através de uma mulher que despreza os negros, a forma como os cenários parecem afectar os personagens, a atmosfera de malaise que rodeia os territórios citadinos, entre outras temáticas. No caso do cenários é impossível não efectuar uma dicotomia entre o edifício da bolsa e os momentos quase infantis entre Vittoria e Piero no parque. Na bolsa aquilo que conta é o negócio, enquanto que no parque a dupla tem alguns raros momentos de diversão e sedução. Antonioni consegue ainda explorar a capacidade de sedução da sua protagonista, com um simples descoser de uma alça do vestido da personagem interpretada por Monica Vitti a surgir como um toque sublime que parece aumentar o desejo de Piero por Vittoria e adensar vulnerabilidade e sensualidade da mesma. Não vão ainda faltar outros momentos marcantes entre Vittoria e Piero. Veja-se quando se beijam, com uma porta vidrada a dividir os corpos de ambos, uma cena que tanto tem de infantil como de romântica e simbólica. Existe muito a dividir estas duas figuras, incluindo as suas personalidades. Piero é materialista, seguro na sua pessoa, algo frio e pragmático, não tendo tempo a perder, incluindo a exibir o interesse na protagonista. Vittoria é mais insegura, algo latente quando exibe as suas dúvidas quer diante de Riccardo, quer de Piero, com esta a parecer simbolizar uma geração que vive o clima de incertezas deste período do pós-Guerra. Alain Delon e Monica Vitti convencem, com "L'Eclisse" a contar ainda com uma série de personagens secundários que sobressaem, incluindo Riccardo, um indivíduo desesperado devido ao facto da protagonista ter finalizado a relação; a mãe de Vittoria, uma mulher que teme voltar a ser pobre, que arrisca boa parte das suas poupanças em acções da Bolsa; Marta uma mulher que tem uma quinta no Quénia, um local onde reside o seu esposo, entre outros personagens. A cidade de Roma e os seus cenários surgem como uma peça relevante deste tabuleiro onde Antonioni joga de forma exímia com as peças que tem à sua disposição ao mesmo tempo que cria uma obra cinematográfica de enorme beleza, onde os sentimentos são expostos e explorados de forma complexa.

 É praticamente impossível ficar indiferente a estas figuras que "L'Eclisse" coloca diante do espectador, com Antonioni a explorar os sentimentos das mesmas a um ritmo bem real. Os planos são elaborados com um cuidado notório, com o cineasta a parecer aproveitar cada pedacinho das imagens que tem para nos exibir, enquanto nos deleita com esta obra cinematográfica memorável. Michelangelo Antonioni consegue deleitar-nos não só por aquilo que "oferece" em "L'Eclisse", mas também pelos elementos que deixa ao critério da imaginação do espectador e para a capacidade de interpretação do mesmo, ou Vittoria e Piero não fossem duas figuras difíceis de decifrar, embora os seus sentimentos sejam e soem bem reais. Os silêncios desta dupla por vezes significam tanto como as suas palavras, com Antonioni a exacerbar muitas das vezes a alienação dos personagens através dos planos ou dos cenários que os rodeiam, algo comentado por Susan Doll no seu artigo para o TCM: "Vittoria lives in the EUR in a modern-looking building devoid of decorative detail or visual interest. Antonioni depicts her in long shots tightly framed within her window or doorway, visually underscoring her isolation and alienation". A alienação e o desprovimento de valores desta classe burguesa é ainda visível no espaço da Bolsa de Roma, onde um minuto de silêncio em memória a um membro que faleceu é interrompido constantemente pelos telefonemas, ou pelo enfado do protagonista para quem o tempo é dinheiro. Vittoria e Piero desfrutam de alguns dos luxos aparentes desta sociedade do pós-Guerra, uma prosperidade tão ilusória como a riqueza que é obtida na Bolsa. Veja-se quando encontramos um indivíduo que perdeu uma quantia elevada de dinheiro a sair do edifício da Bolsa, algo cabisbaixo, ou não tivesse acabado de perder parte dos seus bens, com "L'Eclisse" a colocar-nos diante do lado negro de quem joga com as suas poupanças. No final fica a certeza de que é impossível absorver tudo aquilo que "L'Eclisse" tem para nos dar apenas com uma visualização. Diga-se que, após um segundo visionamento, fica sempre a sensação de que existe algo a pedir para ser revisitado, com "L'Eclisse" a parecer sair valorizado a cada nova visualização. Entre sentimentos que nascem e se perdem, planos elaborados de forma meticulosa e relações complexas, interpretações de grande nível de Monica Vitti e Alain Delon e uma realização exemplar de Michelangelo Antonioni, "L'Eclisse" termina com chave de ouro uma trilogia informal brilhante na qual as qualidades deste magnífico cineasta são expostas de forma clarividente.

Título original: "L'Eclisse".
Título em Portugal: "O Eclipse".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra, Elio Bartolini, Ottiero Ottieri.
Elenco: Alain Delon, Monica Vitti, Francisco Rabal, Louis Seigner.

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