Os sentimentos humanos nem sempre são compreensíveis ou
passíveis de serem completamente justificados, algo que
"L'Avventura", uma das obras-primas de Michelangelo
Antonioni, exibe de forma paradigmática. Os comportamentos dos
protagonistas de "L'Avventura" são imprevisíveis, com o
desejo a levar muitas das vezes a melhor sobre a razão, com
Michelangelo Antonioni a estar longe de nos procurar dar lições de
moral. As traições são imensas, a alienação, a incompreensão e
a vacuidade marca o quotidiano de diversas figuras que povoam o
enredo, enquanto um estranho desaparecimento promete deixar marca em
alguns personagens de "L'Avventura". Anna (Lea Massari) é
a mulher que desaparece, com a sua presença a ser sentida, mesmo
quando não está fisicamente presente. No início do filme
encontramos Anna a deslocar-se a casa de Sandro (Gabriele Ferzetti),
o seu noivo, um indivíduo misterioso e mulherengo, que não parece
ser apreciado pelo pai da primeira. Diga-se que o namoro entre Anna e
Sandro é marcado pelo ressentimento desta mulher em relação ao
amado, com "L'Avventura" a deixar claro que diversos
personagens contam com alguns problemas no seio dos respectivos
relacionamentos. No caso específico, um simples diálogo entre Anna
e Sandro permite expor que estes se encontraram separados durante um
período de tempo considerável, com esta a parecer colocar em causa
a continuidade da relação. Temos ainda um diálogo que ocorre no
início do filme entre Anna e o pai (Renzo Ricci), onde este expõe o
desagrado em relação ao namoro entre a filha e Sandro, com
"L'Avventura" a deixar latente que existe uma enorme
fragilidade a marcar o envolvimento entre os personagens interpretados
por Lea Massari e Gabriele Ferzetti. Anna dirige-se a casa de Sandro
na companhia de Claudia (Monica Vitti), a sua melhor amiga, com o
trio a planear viajar num cruzeiro com um grupo de amigos em comum.
Se Anna aparece como uma jovem morena, de personalidade algo
fleumática e irascível, que vive uma relação pontuada pela
instabilidade, já Claudia surge como uma loira com uma enorme
amizade pela primeira, que se encontra solteira e procura divertir-se
no cruzeiro que vão fazer até às Ilhas Eólias. Para além de
Sandro, Claudia e Anna, o barco conta ainda com a presença de um
conjunto de figuras de posses elevadas e valores diminutos: Giulia
(Dominique Blanchar) e Corrado (James Addams), um casal que mantém
uma relação marcada por alguma frieza, com a beleza da primeira a
contrastar com o pragmatismo do segundo, um homem mais velho que não
parece ter paciência para os comentários pueris da esposa; Raimondo
(Lelio Luttazzi), um indivíduo falador que corteja Patrizia
(Esmeralda Ruspoli), uma mulher casada, com todas estas figuras a
procurarem desfrutar de um período de descanso. A viagem é marcada
pela turbulência a nível dos sentimentos, com Giulia a não
esconder o desagrado pela forma como o esposo a trata, enquanto Anna
toma uma série de atitudes que surpreendem tudo e todos. Veja-se
quando decide saltar do barco a meio da viagem para mergulhar, ou
finge que viu um tubarão, com estes actos a tanto parecerem medidas
para despertar a atenção dos outros como a indicarem que algo vai
mal no interior da mente desta mulher. O quotidiano destes
personagens é alterado quando Anna desaparece misteriosamente nos
territórios rochosos desta ilha. Anna não deixa rasto, com tudo e
todos a ficarem preocupados, embora pareçam incapazes de descobrir o
paradeiro desta jovem.
O pai de Anna chega ao território, bem como as autoridades e as
nuvens cinzentas, prontas a exibirem que vem aí tempestade quer a
nível do clima, quer a nível dos sentimentos, enquanto as buscas
apenas parecem adensar o sentimento de desespero. Os planos permitem
expor a ferocidade deste território que tanto tem de belo como de
perigoso, com Antonioni a procurar muitas das vezes exacerbar este
espaço, enquanto nos coloca diante das estranhas dinâmicas entre os
personagens que povoam o enredo. As buscas conduzem a sentimentos
díspares por parte dos diversos personagens, com Claudia e Sandro a
parecerem viver os acontecimentos de forma mais intensa. Giulia
parece apenas interessada em si própria, uma situação que se
mantém ao longo de todo o filme, com Dominique Blanchar a conseguir
exprimir de forma convincente o egoísmo desta personagem, uma figura
que facilmente cede aos prazeres, algo latente quando trai o esposo
com Goffredo (Giovanni Petrucci), um jovem pintor.
Corrado surge como um indivíduo mais pragmático e frio, que parece
incapaz de comunicar com a esposa. Por
sua vez, Sandro decide seguir algumas pistas relacionadas com Anna,
embora comece a demonstrar sentimentos mais tórridos por Claudia.
Esta encontra-se inicialmente num pranto devido ao desaparecimento da
amiga, procurando encontrá-la a todo o custo. No entanto, Claudia
também começa a nutrir sentimentos por Sandro, embora procure
resistir aos seus instintos mais primitivos e ao desejo que nutre
pelo namorado da amiga, enquanto viaja por uma miríade de locais. Os
cenários são um elemento fulcral do filme, com Michelangelo
Antonioni a aproveitar os mesmos de forma paradigmática ao serviço
do enredo quer para expor o contacto dos personagens com os espaços,
quer para explanar o efeito que estes territórios parecem causar
nestas figuras e no espectador. Veja-se desde logo os planos gerais
que nos permitem ficar diante da vastidão dos territórios rochosos
das Ilhas Eólias, com este espaço a ganhar características
misteriosas e claustrofóbicas a partir do momento em que Anna
desaparece. O cenário encontra-se cercado pelo mar, pelas nuvens
cada vez mais cinzentas, pelos sentimentos fervilhantes, enquanto o
mistério em relação ao desaparecimento é imenso, com Michelangelo
Antonioni a jogar com as nossas emoções e sensações mas também
com os tabus da sociedade da época ao construir uma série de
relações intrincadas. A relação entre Sandro e Anna era complexa,
embora não chegue ao nível intrincado dos sentimentos vividos pelo
primeiro e Claudia. Monica Vitti concede carisma, presença e
dimensão a Claudia, uma mulher que procura conter os seus
sentimentos, que tanto parece querer ceder ao desejo como logo de
seguida desespera perante os pensamentos que surgem na sua cabeça.
Inicialmente desconfia de Sandro, procura afastá-lo, embora acabe
por se encontrar de forma amiúde com este homem enquanto procuram
por pistas, apesar de nem sempre parecerem querer concluir esta busca com sucesso. Não falta uma ida de Sandro
a Milazzo tendo em vista a ouvir um grupo de contrabandistas que
passou pelas imediações do local onde Anna desaparecera, uma visita
do personagem interpretado por Gabriele Ferzetti a Zuria (Renato
Pinciroli), um jornalista, entre outros episódios, com os destinos
do primeiro e Claudia a acabarem muitas das vezes por se reunir.
Veja-se a viagem de comboio que antecede o encontro entre Sandro e
Zuria, onde existe a noção que Claudia e o primeiro se desejem
embora a personagem interpretada por Monica Vitti pareça temer a
possibilidade de ceder aos seus instintos. Aos poucos começam a
ceder, embora a relação pareça sempre atormentada pela noção de
Claudia se estar a envolver com o namorado da melhor amiga. A
juntar a todas estas situações temos ainda o facto de Anna
continuar desaparecida, sem ninguém saber ao certo se esta se
encontra viva ou morta, se cometeu suicídio ou foi assassinada, ou
se simplesmente fugiu de tudo e todos. Em certa medida as comparações
efectuadas com "Psycho", de Alfred Hitchcock, contam com
alguma pertinência, ou Michelangelo Antonioni não se decidisse
"livrar" da sua protagonista numa fase relativamente
precoce da narrativa, com o desaparecimento de Anna a marcar uma
"fatia" importante da narrativa.
A forma distinta como cada um lida com o desaparecimento de
Anna diz muito sobre estes personagens, com Roger Ebert a efectuar
uma descrição precisa sobre os mesmos: "It
is about the sense in which all of the characters are on the brink of
disappearance; their lives are so unreal and their relationships so
tenuous they can barely be said to exist. They are like bookmarks in
life: holding places, but not involved in the story". O
desaparecimento de Anna não vai ser o único destaque de "L'Avventura", embora seja
um mistério que vai assolar a alma de diversos personagens, ainda
que temporariamente. Michelangelo Antonioni procura fugir de caminhos
fáceis ao elaborar uma obra cinematográfica que se desenrola a um ritmo
contemplativo, na qual os pequenos episódios podem contar com mais
relevância do que podemos esperar. Veja-se a entrada em cena de
Gloria Perkins (Dorothy de Poliolo), uma celebridade,
pseudo-escritora, aspirante a actriz, sensual e provocadora. Gloria
Perkins é o paradigma das celebridades sem grande talento que
procuram fazer de tudo para serem conhecidas, com o argumento a
apresentar alguma mordacidade, embora esta personagem até permita
expor a enorme capacidade destrutiva do ser humano, que o diga
Sandro. Este é interpretado de forma sublime por Gabriele Ferzetti,
com o actor a conseguir mesclar a personalidade mulherenga do
protagonista com um lado mais sério, ou Sandro não fosse uma figura
com uma enorme facilidade em ceder ao desejo, embora pareça assolado
por uma sensação de vazio que é difícil de preencher. Veja-se a
facilidade com que se pretende envolver com Claudia, ou os episódios
que testemunhamos durante o decorrer do enredo. Os sentimentos de Claudia
são mais difíceis de discernir, com o argumento a explorar a
situação intrincada em que esta se encontra, enquanto "L'Avventura"
nos coloca diante de um grupo de personagens cujos comportamentos
desafiam muitas das vezes a moral da sociedade do seu tempo. A
maioria dos personagens não parece encontrar a felicidade nos seus
relacionamentos, com Michelangelo Antonioni a colocar-nos diante do
sentimento de vazio e tédio que parece rodear muitos destes
elementos: a relação entre Anna e Sandro parecia estar no seu
ocaso; o relacionamento entre Claudia e Sandro parece desde o início
fadada ao fracasso, embora o desejo seja mútuo e exista alguma
esperança para ambos; Giulia não tem problemas em trair o esposo,
enquanto Corrado demonstra pouco interesse na esposa; o casamento
entre Patrizia e Ettore (Cucco) parece estar longe de conhecer
momentos de grande fervor, com ambos a dormirem em quartos separados.
A juntar a estes personagens temos os territórios que nos são
expostos por Michelangelo Antonioni, com este a contar com o notável
contributo de Aldo Scavarda na cinematografia. Os planos são muitas
das vezes de longa duração, prontos a deixarem-nos observar e
apreciar aquilo que se encontra a decorrer, com "L'Avventura"
a surgir como o primeiro volume da "trilogia
da alienação", que contaria ainda com "La Notte"
(1961) e "L'Eclisse" (1962). Não faltam elementos e
temáticas a unirem os três filmes citados: a alienação do ser
humano no espaço urbano, as relações humanas complexas, as traições, as crises existenciais e do foro
sentimental, os momentos de silêncio que transmitem imenso, os
personagens que ganham mais relevância do que esperamos, os planos
de longa duração, o aproveitamento do espaço dos cenários e da arquitectura local, entre
outros exemplos. Como salienta James Brown no seu interessantíssimo
artigo sobre Antonioni no site Senses of Cinema, esta trilogia surge
ainda unida pelo interesse crescente do cineasta em relação à
"(...) abstraction
of space: for instance, the shot of the church in the deserted
village in L’Avventura; the opening shot of La Notte that tracks
down the Pirelli building; and the final seven minute montage of
L’Eclisse".
No caso de "L'Avventura", um desaparecimento conduz a
uma miríade de episódios, enquanto Claudia e Sandro encontram-se regularmente no cerne de uma narrativa povoada por figuras cujos
desejos não parecem durar muito tempo. Sandro é o
paradigma dessa situação quer a nível da sua vida sentimental,
quer a nível da sua vida profissional, com este arquitecto a exibir
numa determinada fase da narrativa que se encontra frustrado com o
rumo tomado pela sua carreira. Quase todos os personagens de
"L'Avventura" parecem marcados por frustrações, embora
viajem imenso, participem em festas e contem com finanças
relativamente sólidas. Aos poucos, a busca por Anna parece perder
interesse, com "L'Avventura" a concentrar-se antes em
situações como a relação entre Claudia e Sandro (exacerbada pela
boa dinâmica entre Monica Vitti e Gabriele Ferzetti), a falta de
diálogo entre diversos personagens, o desejo e o sexo como um meio
utilizado pelos personagens para fugirem às rotinas e à vacuidade
que marca o seu quotidiano. Michelangelo Antonioni apresenta uma enorme inspiração a expor e explorar os cenários e sentimentos que rodeiam estes
personagens, enquanto nos coloca diante das inquietações e
sensações que envolvem estas figuras. Veja-se quando encontramos Claudia e Sandro a
falarem sobre Anna no topo da ilha montanhosa, com o som do vento a
ser bem audível, o sentimento de desalento pelo desaparecimento da
personagem interpretada por Lea Massari a ser latente na face dos
dois primeiros, enquanto as nuvens ganham destaque, bem como todo o
espaço que circunda os personagens. A profundidade de campo é bem
utilizada, tal como a sonoplastia, com tudo a parecer ter sido
pensado ao pormenor. A ausência de Anna deixa Claudia inicialmente
desolada e desesperada, pelo menos até começar a sentir algo mais
forte por Sandro e desejar que a amiga não regresse, com Antonioni a
abordar a complexidade dos relacionamentos e sentimentos humanos.
Essa situação é visível quando encontramos Claudia a dançar no
interior de um quarto, com o casal a viver momentos de aparente
felicidade até um episódio menos positivo prometer trazê-los de
volta para a realidade. O momento é antecedido de outro episódio
não menos memorável, com Claudia a tocar por engano os sinos da
Chiesa del Collegio, enquanto fala abertamente com Sandro e observam
os cenários a partir do alto do edifício. Diga-se que Antonioni
aproveita muitas das vezes para nos colocar diante de planos abertos
dos cenários sem a presença dos personagens, com o cineasta a
explorar estes espaços de forma exímia, enquanto exibe a sua
vastidão diante das figuras que povoam estes territórios. Com um
aproveitamento notável e belíssimo dos cenários, uma representação
complexa dos sentimentos e relações humanas, "L'Avventura"
começa com chave de ouro esta trilogia informal realizada por
Michelangelo Antonioni.
Título original: "L'Avventura".
Título em Portugal: "A Aventura".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Elio Bartolini, Tonino Guerra.
Elenco: Gabriele Ferzetti, Monica Vitti, Lea Massari, Dominique Blanchar.

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