16 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "L'Avventura" (1960)

 Os sentimentos humanos nem sempre são compreensíveis ou passíveis de serem completamente justificados, algo que "L'Avventura", uma das obras-primas de Michelangelo Antonioni, exibe de forma paradigmática. Os comportamentos dos protagonistas de "L'Avventura" são imprevisíveis, com o desejo a levar muitas das vezes a melhor sobre a razão, com Michelangelo Antonioni a estar longe de nos procurar dar lições de moral. As traições são imensas, a alienação, a incompreensão e a vacuidade marca o quotidiano de diversas figuras que povoam o enredo, enquanto um estranho desaparecimento promete deixar marca em alguns personagens de "L'Avventura". Anna (Lea Massari) é a mulher que desaparece, com a sua presença a ser sentida, mesmo quando não está fisicamente presente. No início do filme encontramos Anna a deslocar-se a casa de Sandro (Gabriele Ferzetti), o seu noivo, um indivíduo misterioso e mulherengo, que não parece ser apreciado pelo pai da primeira. Diga-se que o namoro entre Anna e Sandro é marcado pelo ressentimento desta mulher em relação ao amado, com "L'Avventura" a deixar claro que diversos personagens contam com alguns problemas no seio dos respectivos relacionamentos. No caso específico, um simples diálogo entre Anna e Sandro permite expor que estes se encontraram separados durante um período de tempo considerável, com esta a parecer colocar em causa a continuidade da relação. Temos ainda um diálogo que ocorre no início do filme entre Anna e o pai (Renzo Ricci), onde este expõe o desagrado em relação ao namoro entre a filha e Sandro, com "L'Avventura" a deixar latente que existe uma enorme fragilidade a marcar o envolvimento entre os personagens interpretados por Lea Massari e Gabriele Ferzetti. Anna dirige-se a casa de Sandro na companhia de Claudia (Monica Vitti), a sua melhor amiga, com o trio a planear viajar num cruzeiro com um grupo de amigos em comum. Se Anna aparece como uma jovem morena, de personalidade algo fleumática e irascível, que vive uma relação pontuada pela instabilidade, já Claudia surge como uma loira com uma enorme amizade pela primeira, que se encontra solteira e procura divertir-se no cruzeiro que vão fazer até às Ilhas Eólias. Para além de Sandro, Claudia e Anna, o barco conta ainda com a presença de um conjunto de figuras de posses elevadas e valores diminutos: Giulia (Dominique Blanchar) e Corrado (James Addams), um casal que mantém uma relação marcada por alguma frieza, com a beleza da primeira a contrastar com o pragmatismo do segundo, um homem mais velho que não parece ter paciência para os comentários pueris da esposa; Raimondo (Lelio Luttazzi), um indivíduo falador que corteja Patrizia (Esmeralda Ruspoli), uma mulher casada, com todas estas figuras a procurarem desfrutar de um período de descanso. A viagem é marcada pela turbulência a nível dos sentimentos, com Giulia a não esconder o desagrado pela forma como o esposo a trata, enquanto Anna toma uma série de atitudes que surpreendem tudo e todos. Veja-se quando decide saltar do barco a meio da viagem para mergulhar, ou finge que viu um tubarão, com estes actos a tanto parecerem medidas para despertar a atenção dos outros como a indicarem que algo vai mal no interior da mente desta mulher. O quotidiano destes personagens é alterado quando Anna desaparece misteriosamente nos territórios rochosos desta ilha. Anna não deixa rasto, com tudo e todos a ficarem preocupados, embora pareçam incapazes de descobrir o paradeiro desta jovem.

O pai de Anna chega ao território, bem como as autoridades e as nuvens cinzentas, prontas a exibirem que vem aí tempestade quer a nível do clima, quer a nível dos sentimentos, enquanto as buscas apenas parecem adensar o sentimento de desespero. Os planos permitem expor a ferocidade deste território que tanto tem de belo como de perigoso, com Antonioni a procurar muitas das vezes exacerbar este espaço, enquanto nos coloca diante das estranhas dinâmicas entre os personagens que povoam o enredo. As buscas conduzem a sentimentos díspares por parte dos diversos personagens, com Claudia e Sandro a parecerem viver os acontecimentos de forma mais intensa. Giulia parece apenas interessada em si própria, uma situação que se mantém ao longo de todo o filme, com Dominique Blanchar a conseguir exprimir de forma convincente o egoísmo desta personagem, uma figura que facilmente cede aos prazeres, algo latente quando trai o esposo com Goffredo (Giovanni Petrucci), um jovem pintor. Corrado surge como um indivíduo mais pragmático e frio, que parece incapaz de comunicar com a esposa. Por sua vez, Sandro decide seguir algumas pistas relacionadas com Anna, embora comece a demonstrar sentimentos mais tórridos por Claudia. Esta encontra-se inicialmente num pranto devido ao desaparecimento da amiga, procurando encontrá-la a todo o custo. No entanto, Claudia também começa a nutrir sentimentos por Sandro, embora procure resistir aos seus instintos mais primitivos e ao desejo que nutre pelo namorado da amiga, enquanto viaja por uma miríade de locais. Os cenários são um elemento fulcral do filme, com Michelangelo Antonioni a aproveitar os mesmos de forma paradigmática ao serviço do enredo quer para expor o contacto dos personagens com os espaços, quer para explanar o efeito que estes territórios parecem causar nestas figuras e no espectador. Veja-se desde logo os planos gerais que nos permitem ficar diante da vastidão dos territórios rochosos das Ilhas Eólias, com este espaço a ganhar características misteriosas e claustrofóbicas a partir do momento em que Anna desaparece. O cenário encontra-se cercado pelo mar, pelas nuvens cada vez mais cinzentas, pelos sentimentos fervilhantes, enquanto o mistério em relação ao desaparecimento é imenso, com Michelangelo Antonioni a jogar com as nossas emoções e sensações mas também com os tabus da sociedade da época ao construir uma série de relações intrincadas. A relação entre Sandro e Anna era complexa, embora não chegue ao nível intrincado dos sentimentos vividos pelo primeiro e Claudia. Monica Vitti concede carisma, presença e dimensão a Claudia, uma mulher que procura conter os seus sentimentos, que tanto parece querer ceder ao desejo como logo de seguida desespera perante os pensamentos que surgem na sua cabeça. Inicialmente desconfia de Sandro, procura afastá-lo, embora acabe por se encontrar de forma amiúde com este homem enquanto procuram por pistas, apesar de nem sempre parecerem  querer concluir esta busca com sucesso. Não falta uma ida de Sandro a Milazzo tendo em vista a ouvir um grupo de contrabandistas que passou pelas imediações do local onde Anna desaparecera, uma visita do personagem interpretado por Gabriele Ferzetti a Zuria (Renato Pinciroli), um jornalista, entre outros episódios, com os destinos do primeiro e Claudia a acabarem muitas das vezes por se reunir. Veja-se a viagem de comboio que antecede o encontro entre Sandro e Zuria, onde existe a noção que Claudia e o primeiro se desejem embora a personagem interpretada por Monica Vitti pareça temer a possibilidade de ceder aos seus instintos. Aos poucos começam a ceder, embora a relação pareça sempre atormentada pela noção de Claudia se estar a envolver com o namorado da melhor amiga. A juntar a todas estas situações temos ainda o facto de Anna continuar desaparecida, sem ninguém saber ao certo se esta se encontra viva ou morta, se cometeu suicídio ou foi assassinada, ou se simplesmente fugiu de tudo e todos. Em certa medida as comparações efectuadas com "Psycho", de Alfred Hitchcock, contam com alguma pertinência, ou Michelangelo Antonioni não se decidisse "livrar" da sua protagonista numa fase relativamente precoce da narrativa, com o desaparecimento de Anna a marcar uma "fatia" importante da narrativa.

 A forma distinta como cada um lida com o desaparecimento de Anna diz muito sobre estes personagens, com Roger Ebert a efectuar uma descrição precisa sobre os mesmos: "It is about the sense in which all of the characters are on the brink of disappearance; their lives are so unreal and their relationships so tenuous they can barely be said to exist. They are like bookmarks in life: holding places, but not involved in the story". O desaparecimento de Anna não vai ser o único destaque de "L'Avventura", embora seja um mistério que vai assolar a alma de diversos personagens, ainda que temporariamente. Michelangelo Antonioni procura fugir de caminhos fáceis ao elaborar uma obra cinematográfica que se desenrola a um ritmo contemplativo, na qual os pequenos episódios podem contar com mais relevância do que podemos esperar. Veja-se a entrada em cena de Gloria Perkins (Dorothy de Poliolo), uma celebridade, pseudo-escritora, aspirante a actriz, sensual e provocadora. Gloria Perkins é o paradigma das celebridades sem grande talento que procuram fazer de tudo para serem conhecidas, com o argumento a apresentar alguma mordacidade, embora esta personagem até permita expor a enorme capacidade destrutiva do ser humano, que o diga Sandro. Este é interpretado de forma sublime por Gabriele Ferzetti, com o actor a conseguir mesclar a personalidade mulherenga do protagonista com um lado mais sério, ou Sandro não fosse uma figura com uma enorme facilidade em ceder ao desejo, embora pareça assolado por uma sensação de vazio que é difícil de preencher. Veja-se a facilidade com que se pretende envolver com Claudia, ou os episódios que testemunhamos durante o decorrer do enredo. Os sentimentos de Claudia são mais difíceis de discernir, com o argumento a explorar a situação intrincada em que esta se encontra, enquanto "L'Avventura" nos coloca diante de um grupo de personagens cujos comportamentos desafiam muitas das vezes a moral da sociedade do seu tempo. A maioria dos personagens não parece encontrar a felicidade nos seus relacionamentos, com Michelangelo Antonioni a colocar-nos diante do sentimento de vazio e tédio que parece rodear muitos destes elementos: a relação entre Anna e Sandro parecia estar no seu ocaso; o relacionamento entre Claudia e Sandro parece desde o início fadada ao fracasso, embora o desejo seja mútuo e exista alguma esperança para ambos; Giulia não tem problemas em trair o esposo, enquanto Corrado demonstra pouco interesse na esposa; o casamento entre Patrizia e Ettore (Cucco) parece estar longe de conhecer momentos de grande fervor, com ambos a dormirem em quartos separados. A juntar a estes personagens temos os territórios que nos são expostos por Michelangelo Antonioni, com este a contar com o notável contributo de Aldo Scavarda na cinematografia. Os planos são muitas das vezes de longa duração, prontos a deixarem-nos observar e apreciar aquilo que se encontra a decorrer, com "L'Avventura" a surgir como o primeiro volume da "trilogia da alienação", que contaria ainda com "La Notte" (1961) e "L'Eclisse" (1962). Não faltam elementos e temáticas a unirem os três filmes citados: a alienação do ser humano no espaço urbano, as relações humanas complexas, as traições, as crises existenciais e do foro sentimental, os momentos de silêncio que transmitem imenso, os personagens que ganham mais relevância do que esperamos, os planos de longa duração, o aproveitamento do espaço dos cenários e da arquitectura local, entre outros exemplos. Como salienta James Brown no seu interessantíssimo artigo sobre Antonioni no site Senses of Cinema, esta trilogia surge ainda unida pelo interesse crescente do cineasta em relação à "(...) abstraction of space: for instance, the shot of the church in the deserted village in L’Avventura; the opening shot of La Notte that tracks down the Pirelli building; and the final seven minute montage of L’Eclisse".

No caso de "L'Avventura", um desaparecimento conduz a uma miríade de episódios, enquanto Claudia e Sandro encontram-se regularmente no cerne de uma narrativa povoada por figuras cujos desejos não parecem durar muito tempo. Sandro é o paradigma dessa situação quer a nível da sua vida sentimental, quer a nível da sua vida profissional, com este arquitecto a exibir numa determinada fase da narrativa que se encontra frustrado com o rumo tomado pela sua carreira. Quase todos os personagens de "L'Avventura" parecem marcados por frustrações, embora viajem imenso, participem em festas e contem com finanças relativamente sólidas. Aos poucos, a busca por Anna parece perder interesse, com "L'Avventura" a concentrar-se antes em situações como a relação entre Claudia e Sandro (exacerbada pela boa dinâmica entre Monica Vitti e Gabriele Ferzetti), a falta de diálogo entre diversos personagens, o desejo e o sexo como um meio utilizado pelos personagens para fugirem às rotinas e à vacuidade que marca o seu quotidiano. Michelangelo Antonioni apresenta uma enorme inspiração a expor e explorar os cenários e sentimentos que rodeiam estes personagens, enquanto nos coloca diante das inquietações e sensações que envolvem estas figuras. Veja-se quando encontramos Claudia e Sandro a falarem sobre Anna no topo da ilha montanhosa, com o som do vento a ser bem audível, o sentimento de desalento pelo desaparecimento da personagem interpretada por Lea Massari a ser latente na face dos dois primeiros, enquanto as nuvens ganham destaque, bem como todo o espaço que circunda os personagens. A profundidade de campo é bem utilizada, tal como a sonoplastia, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor. A ausência de Anna deixa Claudia inicialmente desolada e desesperada, pelo menos até começar a sentir algo mais forte por Sandro e desejar que a amiga não regresse, com Antonioni a abordar a complexidade dos relacionamentos e sentimentos humanos. Essa situação é visível quando encontramos Claudia a dançar no interior de um quarto, com o casal a viver momentos de aparente felicidade até um episódio menos positivo prometer trazê-los de volta para a realidade. O momento é antecedido de outro episódio não menos memorável, com Claudia a tocar por engano os sinos da Chiesa del Collegio, enquanto fala abertamente com Sandro e observam os cenários a partir do alto do edifício. Diga-se que Antonioni aproveita muitas das vezes para nos colocar diante de planos abertos dos cenários sem a presença dos personagens, com o cineasta a explorar estes espaços de forma exímia, enquanto exibe a sua vastidão diante das figuras que povoam estes territórios. Com um aproveitamento notável e belíssimo dos cenários, uma representação complexa dos sentimentos e relações humanas, "L'Avventura" começa com chave de ouro esta trilogia informal realizada por Michelangelo Antonioni.

Título original: "L'Avventura".
Título em Portugal: "A Aventura".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Elio Bartolini, Tonino Guerra.
Elenco: Gabriele Ferzetti, Monica Vitti, Lea Massari, Dominique Blanchar.

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