A certa altura de "La Notte", o segundo volume da
“trilogia da alienação” realizada por Michelangelo Antonioni,
iniciada em "L'Avventura", Giovanni Pontano (Marcello
Mastroianni) comenta que já não tem ideias, apenas tem memórias.
Esta frase é proferida durante uma saída nocturna que Giovanni
efectua com Lidia (Jeanne Moreau), a sua esposa, uma mulher elegante
e distinta. Diga-se que este é um casal que parece viver de forma
financeiramente desafogada, desfrutando de alguns luxos embora quer
Giovanni, quer Lidia pareçam encontrar-se constantemente entediados.
A relação entre Lidia e Giovanni já parece ter conhecido melhores
dias. Diga-se que Michelangelo Antonioni faz questão de separar a
dupla em vários momentos da narrativa, enquanto Lidia e Giovanni
vivem episódios isoladamente, são colocados diante de tentações e
longos momentos de tédio, até serem obrigados a confrontar-se e a
avaliar o estado em que se encontra a relação. O tédio parece
marcar o quotidiano destas duas figuras. Giovanni é um escritor de
sucesso. Lidia vive de rendimentos, apresentando finanças abastadas.
Giovanni e Lidia pouco parecem sair, embora uma visita a um clube
nocturno e a uma festa prometam expor o quão distantes parecem estar
um do outro, enquanto Michelangelo Antonioni explora de forma
contemplativa aquilo que une e separa estas duas figuras que a
espaços se transformam em verdadeiros enigmas para o espectador. A
alienação do ser humano diante do Mundo que o rodeia e a vacuidade
da sociedade burguesa é algo que Michelangelo Antonioni abordou em
"L'Avventura", com o cineasta a voltar a repetir diversos
temas e elementos que atravessam diversas das suas obras
cinematográficas. Não falta o casal a viver uma crise, os planos de
longa duração, os silêncios que tanto conseguem exprimir, as
traições, um aproveitamento notável dos cenários exteriores e
interiores, a atenção à arquitectura local, o sentimento de vazio
que parece rodear o casal de protagonistas, os luxos que escondem
temporariamente alguma vacuidade, a entrada em cena de figuras que
nos surpreendem pela sua importância na narrativa, entre outros
elementos. Nos momentos iniciais de "La Notte" encontramos
Lidia e Giovanni a visitarem Tommaso Garani (Bernhard Wicki), um
amigo de ambos que se encontra internado num hospital em Milão.
Tommaso encontra-se em estado terminal, algo que afecta Lidia, uma
situação que se torna latente quando esta decide abandonar o local
num choro convulsivo. Mais tarde descobrimos que Tommaso esteve
interessado em Lidia, embora esta tenha avançado para Giovanni,
apesar de manter a amizade com o primeiro, um indivíduo que se
encontra num estado depressivo perante os feitos que não conseguiu
alcançar. Giovanni fica mais tempo, procurando aceder ao desejo do
amigo em beber um copo de champanhe, embora o sofrimento de Tommaso
seja notório. Tommasso ainda elogia "La stagione", o novo
livro de Giovanni, com este último a dirigir-se a Milão não só
para visitar o amigo mas também para apresentar o livro.
Antes de sair do hospital, Giovanni é confrontado com uma
doente mentalmente perturbada mas de enorme beleza. Já se tinha
cruzado com esta estranha mulher, embora não resista a deixar que
esta o beije, até as enfermeiras travarem a doente. Quando desce,
Giovanni conta o episódio a Lidia. A personagem interpretada por Jeanne Moreau exibe indiferença em relação ao acto do esposo, um
sentimento que se parece repetir quando se depara com este a beijar
outra mulher numa festa organizada por Gherardini (Vincenzo
Corbella), um empresário poderoso, com uma visão prática da vida,
que pretende que o protagonista trabalhe para si e escreva um livro
sobre a história da sua empresa. Diga-se que a relação entre
Lidia e Giovanni é pontuada pela estranha sensação de que ambos
não parecem sentir ciúmes em relação às pessoas que rodeiam o
respectivo cônjuge. A festa ocupa boa parte da segunda
metade da narrativa, com Michelangelo Antonioni a conseguir captar os
ritmos das emoções e sensações, dos sentimentos dos personagens e
dos inúmeros episódios que ocorrem durante a noite. A música povoa
boa parte destes episódios, ou não existisse uma banda a tocar ao
vivo, enquanto quase todos os convidados bebem, falam, divertem-se,
entediam-se, com a noite a ser palco de um conjunto de situações
marcadas pela vacuidade. Lidia inicialmente nem pretendia aceder ao
convite de Gherardini, algo latente quando convence Giovanni a
visitar um clube nocturno. O bar é marcado por um número musical
protagonizado por um bailarino e uma bailarina, com Antonioni a expor
o momento de forma contemplativa ao mesmo tempo que explora o efeito
deste espaço junto dos protagonistas. "La notte"
coloca-nos perante algo transversal a diversos filmes de Michelangelo
Antonioni, tais como "L'Avventura" e "L'Eclisse",
com o cineasta a atribuir um enorme relevo aos cenários, bem como à
arquitectura local. Não são raras as vezes em que Antonioni nos
coloca diante de planos onde os protagonistas não se encontram
presentes, com muitos destes cenários a acabarem por influenciar o
quotidiano das figuras que povoam o enredo. Veja-se os comportamentos
de Lidia e Giovanni na festa de Gherardini, um evento que tem lugar
na vasta propriedade deste último. Lidia acede ao desejo de Giovanni
em participar no evento, com ambos a unirem-se e separarem-se por
diversas vezes nesta larga propriedade. O espaço é enorme, embora
pareça demasiado pequeno para as emoções que atravessam diversos
personagens, que o digam Lidia e Giovanni. A cinematografia é
elegante e capaz de exacerbar os ritmos e os sentimentos que se
extravasam nesta noite, com Antonioni a aproveitar o deep focus de
forma exímia. Veja-se quando encontramos Lidia e uma conhecida a
dialogarem ao mesmo tempo que podemos visualizar a habitação com
paredes espelhadas que se encontra um pouco mais atrás da dupla, ou
quando encontramos o personagem interpretado por Marcello Mastroianni
a observar um vizinho a fumar, ou a quantidade de eventos que ocorrem
em simultâneo na festa, algo notório quando começa a chover e
diversas figuras decidem extravasar as suas emoções. Os planos são
elaborados de forma meticulosa, algo latente durante os episódios
que marcam a festa, enquanto Antonioni nos deixa diante da vacuidade
destes elementos da alta sociedade e a solidão que afecta diversas
figuras. A personagem interpretada por Jeanne Moreau é uma dessas
figuras solitárias, com a actriz a surgir mais uma vez magistral,
conseguindo atribuir presença, carisma e dimensão a Lidia, uma
mulher que parece estar perdida num mar de indecisões. Moreau
consegue expressar as inquietações de Lidia, as suas dúvidas e
melancolia, a incerteza que tem em relação à possibilidade de
ainda amar Giovanni. Lidia parece ter a perfeita noção que a
relação com Giovanni conheceu diversas alterações, com ambos a
apresentarem um distanciamento cada vez mais notório, algo que se
adensa no interior da festa. É no interior da festa que Giovanni
conhece Valentina Gherardini (Monica Vitti), a filha do anfitrião,
uma jovem que tanto tem de vivaz como de depressiva, com Monica Vitti
a sobressair em mais um filme de Antonioni. Valentina entra como um
furacão na vida de Giovanni, com este a sentir-se atraído por esta
jovem sedutora, com o desejo a parecer mútuo, pelo menos até a personagem interpretada por Monica Vitti
descobrir que o protagonista é casado.
O momento em que encontramos Lidia a visualizar Giovanni e
Valentina a beijarem-se é revelador do estado em que se encontra a
relação do casal. Diga-se que Lidia também é cortejada, com esta
a despertar a atenção de Roberto (Giorgio Negro), embora não
avance para nada muito concreto, com "La Notte" a desafiar
muitas das vezes as nossas expectativas. Tanto Roberto como Valentina
foram colocados na narrativa como se nada fosse, até ganharem uma
relevância inesperada, algo que a espaços traz à memória a figura
de Gloria Perkins em "L'Avventura", uma personagem exposta
num momento aparentemente anódino, embora a aspirante a actriz tenha
um enorme relevo no último terço. Diga-se que o final de "La Notte" e "L'Avventura" parecem "casar"
relativamente bem, com Michelangelo Antonioni a deixar-nos na
dúvida se a relação da dupla de protagonistas tem ou não condições
para continuar, embora exista a esperança de que se consigam refazer
dos erros que cometeram e ultrapassar aquilo que os separa. Antonioni
é sublime a explorar a complexidade das relações e dos sentimentos
humanos, com "La Notte" a exibir isso mesmo, enquanto
Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni brilham como um casal que parece
cada vez mais entediado com as rotinas que pontuam o seu casamento. Moreau e Mastroianni
interpretam um casal bem parecido, que parece ter vivido alguns
momentos de maior fulgor no passado (algo paradigmaticamente
representado na leitura de uma carta), embora a rotina inerente ao
matrimónio pareça bloquear as hipóteses de serem felizes.
Mastroianni interpreta um escritor que parece estar diante de uma
espécie de bloqueio na vida profissional e sentimental (tal como o
protagonista de "L'Avventura), com o actor a conseguir
transmitir as dúvidas deste indivíduo mulherengo que não parece
saber muito bem aquilo que pretende da vida. Também Monica Vitti tem
espaço para brilhar, ou não interpretasse uma figura que facilmente
rouba as atenções quando se encontra presente. Valentina parece
deprimida com a vida e a falta de ideias para o seu futuro, com esta
a contar com o dinheiro da família embora não consiga ter a
criatividade para desfrutar das possibilidades que esta fortuna
lhe poderia proporcionar. A festa exibe uma miríade de personagens
maioritariamente vazios a nível do pensamento, que procuram
exorcizar o tédio, embora apenas exibam a sua vacuidade, enquanto um
casal deixa a ideia que a sua relação está a envolver-se por
caminhos pantanosos que podem conduzir ao final do casamento. Diga-se
que anteriormente já tínhamos encontrado Lidia e Giovanni
separados, com esta a abandonar a apresentação do livro, enquanto
decide passear pela cidade, sem rumo aparente, deparando-se com
episódios tão distintos como uma luta ou foguetes a serem lançados
para o ar, enquanto Antonioni aproveita para explorar os espaços que
rodeiam esta mulher. Vale sempre a pena reforçar todo o cuidado que
Antonioni colocou no aproveitamento dos cenários e na composição
dos planos, algo comentado por Glenn Erickson na sua magnífica
crítica no DVD Talk: “Antonioni
carefully stages and lights everything, but his camera technique
rarely draws attention to itself. Images in the millionaire's house
frequently involve reflections in the glass walls that make people
look like ghost figures, or duplicates of themselves. It's a house
for vain, ostentatious creatures. The shots can be disorienting, but
angles are never chosen simply for pictorial effect. We feel as if
we're inside a cinematic equation that relates interpersonal
relationships with architectural forms.”. No final resta apenas
desfrutar deste trabalho maravilhoso de Michelangelo Antonioni, com o
cineasta a explorar de forma sublime a complexidade das relações e
sentimentos humanos, enquanto aproveita de forma exímia os cenários
e o elenco que tem à sua disposição, com "La Notte" a
surgir como uma obra-prima que clama para ser vista, revista,
reverenciada e amada.
Título original: "La Notte".
Título em Portugal: "A Noite".
Realizador:
Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Ennio Flaiano, Tonino Guerra.
Elenco: Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Monica Vitti, Bernhard Wicki.

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