02 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "La Notte" (1961)

 A certa altura de "La Notte", o segundo volume da “trilogia da alienação” realizada por Michelangelo Antonioni, iniciada em "L'Avventura", Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni) comenta que já não tem ideias, apenas tem memórias. Esta frase é proferida durante uma saída nocturna que Giovanni efectua com Lidia (Jeanne Moreau), a sua esposa, uma mulher elegante e distinta. Diga-se que este é um casal que parece viver de forma financeiramente desafogada, desfrutando de alguns luxos embora quer Giovanni, quer Lidia pareçam encontrar-se constantemente entediados. A relação entre Lidia e Giovanni já parece ter conhecido melhores dias. Diga-se que Michelangelo Antonioni faz questão de separar a dupla em vários momentos da narrativa, enquanto Lidia e Giovanni vivem episódios isoladamente, são colocados diante de tentações e longos momentos de tédio, até serem obrigados a confrontar-se e a avaliar o estado em que se encontra a relação. O tédio parece marcar o quotidiano destas duas figuras. Giovanni é um escritor de sucesso. Lidia vive de rendimentos, apresentando finanças abastadas. Giovanni e Lidia pouco parecem sair, embora uma visita a um clube nocturno e a uma festa prometam expor o quão distantes parecem estar um do outro, enquanto Michelangelo Antonioni explora de forma contemplativa aquilo que une e separa estas duas figuras que a espaços se transformam em verdadeiros enigmas para o espectador. A alienação do ser humano diante do Mundo que o rodeia e a vacuidade da sociedade burguesa é algo que Michelangelo Antonioni abordou em "L'Avventura", com o cineasta a voltar a repetir diversos temas e elementos que atravessam diversas das suas obras cinematográficas. Não falta o casal a viver uma crise, os planos de longa duração, os silêncios que tanto conseguem exprimir, as traições, um aproveitamento notável dos cenários exteriores e interiores, a atenção à arquitectura local, o sentimento de vazio que parece rodear o casal de protagonistas, os luxos que escondem temporariamente alguma vacuidade, a entrada em cena de figuras que nos surpreendem pela sua importância na narrativa, entre outros elementos. Nos momentos iniciais de "La Notte" encontramos Lidia e Giovanni a visitarem Tommaso Garani (Bernhard Wicki), um amigo de ambos que se encontra internado num hospital em Milão. Tommaso encontra-se em estado terminal, algo que afecta Lidia, uma situação que se torna latente quando esta decide abandonar o local num choro convulsivo. Mais tarde descobrimos que Tommaso esteve interessado em Lidia, embora esta tenha avançado para Giovanni, apesar de manter a amizade com o primeiro, um indivíduo que se encontra num estado depressivo perante os feitos que não conseguiu alcançar. Giovanni fica mais tempo, procurando aceder ao desejo do amigo em beber um copo de champanhe, embora o sofrimento de Tommaso seja notório. Tommasso ainda elogia "La stagione", o novo livro de Giovanni, com este último a dirigir-se a Milão não só para visitar o amigo mas também para apresentar o livro.

 Antes de sair do hospital, Giovanni é confrontado com uma doente mentalmente perturbada mas de enorme beleza. Já se tinha cruzado com esta estranha mulher, embora não resista a deixar que esta o beije, até as enfermeiras travarem a doente. Quando desce, Giovanni conta o episódio a Lidia. A personagem interpretada por Jeanne Moreau exibe indiferença em relação ao acto do esposo, um sentimento que se parece repetir quando se depara com este a beijar outra mulher numa festa organizada por Gherardini (Vincenzo Corbella), um empresário poderoso, com uma visão prática da vida, que pretende que o protagonista trabalhe para si e escreva um livro sobre a história da sua empresa. Diga-se que a relação entre Lidia e Giovanni é pontuada pela estranha sensação de que ambos não parecem sentir ciúmes em relação às pessoas que rodeiam o respectivo cônjuge. A festa ocupa boa parte da segunda metade da narrativa, com Michelangelo Antonioni a conseguir captar os ritmos das emoções e sensações, dos sentimentos dos personagens e dos inúmeros episódios que ocorrem durante a noite. A música povoa boa parte destes episódios, ou não existisse uma banda a tocar ao vivo, enquanto quase todos os convidados bebem, falam, divertem-se, entediam-se, com a noite a ser palco de um conjunto de situações marcadas pela vacuidade. Lidia inicialmente nem pretendia aceder ao convite de Gherardini, algo latente quando convence Giovanni a visitar um clube nocturno. O bar é marcado por um número musical protagonizado por um bailarino e uma bailarina, com Antonioni a expor o momento de forma contemplativa ao mesmo tempo que explora o efeito deste espaço junto dos protagonistas. "La notte" coloca-nos perante algo transversal a diversos filmes de Michelangelo Antonioni, tais como "L'Avventura" e "L'Eclisse", com o cineasta a atribuir um enorme relevo aos cenários, bem como à arquitectura local. Não são raras as vezes em que Antonioni nos coloca diante de planos onde os protagonistas não se encontram presentes, com muitos destes cenários a acabarem por influenciar o quotidiano das figuras que povoam o enredo. Veja-se os comportamentos de Lidia e Giovanni na festa de Gherardini, um evento que tem lugar na vasta propriedade deste último. Lidia acede ao desejo de Giovanni em participar no evento, com ambos a unirem-se e separarem-se por diversas vezes nesta larga propriedade. O espaço é enorme, embora pareça demasiado pequeno para as emoções que atravessam diversos personagens, que o digam Lidia e Giovanni. A cinematografia é elegante e capaz de exacerbar os ritmos e os sentimentos que se extravasam nesta noite, com Antonioni a aproveitar o deep focus de forma exímia. Veja-se quando encontramos Lidia e uma conhecida a dialogarem ao mesmo tempo que podemos visualizar a habitação com paredes espelhadas que se encontra um pouco mais atrás da dupla, ou quando encontramos o personagem interpretado por Marcello Mastroianni a observar um vizinho a fumar, ou a quantidade de eventos que ocorrem em simultâneo na festa, algo notório quando começa a chover e diversas figuras decidem extravasar as suas emoções. Os planos são elaborados de forma meticulosa, algo latente durante os episódios que marcam a festa, enquanto Antonioni nos deixa diante da vacuidade destes elementos da alta sociedade e a solidão que afecta diversas figuras. A personagem interpretada por Jeanne Moreau é uma dessas figuras solitárias, com a actriz a surgir mais uma vez magistral, conseguindo atribuir presença, carisma e dimensão a Lidia, uma mulher que parece estar perdida num mar de indecisões. Moreau consegue expressar as inquietações de Lidia, as suas dúvidas e melancolia, a incerteza que tem em relação à possibilidade de ainda amar Giovanni. Lidia parece ter a perfeita noção que a relação com Giovanni conheceu diversas alterações, com ambos a apresentarem um distanciamento cada vez mais notório, algo que se adensa no interior da festa. É no interior da festa que Giovanni conhece Valentina Gherardini (Monica Vitti), a filha do anfitrião, uma jovem que tanto tem de vivaz como de depressiva, com Monica Vitti a sobressair em mais um filme de Antonioni. Valentina entra como um furacão na vida de Giovanni, com este a sentir-se atraído por esta jovem sedutora, com o desejo a parecer mútuo, pelo menos até a personagem interpretada por Monica Vitti descobrir que o protagonista é casado.

O momento em que encontramos Lidia a visualizar Giovanni e Valentina a beijarem-se é revelador do estado em que se encontra a relação do casal. Diga-se que Lidia também é cortejada, com esta a despertar a atenção de Roberto (Giorgio Negro), embora não avance para nada muito concreto, com "La Notte" a desafiar muitas das vezes as nossas expectativas. Tanto Roberto como Valentina foram colocados na narrativa como se nada fosse, até ganharem uma relevância inesperada, algo que a espaços traz à memória a figura de Gloria Perkins em "L'Avventura", uma personagem exposta num momento aparentemente anódino, embora a aspirante a actriz tenha um enorme relevo no último terço. Diga-se que o final de "La Notte" e "L'Avventura" parecem "casar" relativamente bem, com Michelangelo Antonioni a deixar-nos na dúvida se a relação da dupla de protagonistas tem ou não condições para continuar, embora exista a esperança de que se consigam refazer dos erros que cometeram e ultrapassar aquilo que os separa. Antonioni é sublime a explorar a complexidade das relações e dos sentimentos humanos, com "La Notte" a exibir isso mesmo, enquanto Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni brilham como um casal que parece cada vez mais entediado com as rotinas que pontuam o seu casamento. Moreau e Mastroianni interpretam um casal bem parecido, que parece ter vivido alguns momentos de maior fulgor no passado (algo paradigmaticamente representado na leitura de uma carta), embora a rotina inerente ao matrimónio pareça bloquear as hipóteses de serem felizes. Mastroianni interpreta um escritor que parece estar diante de uma espécie de bloqueio na vida profissional e sentimental (tal como o protagonista de "L'Avventura), com o actor a conseguir transmitir as dúvidas deste indivíduo mulherengo que não parece saber muito bem aquilo que pretende da vida. Também Monica Vitti tem espaço para brilhar, ou não interpretasse uma figura que facilmente rouba as atenções quando se encontra presente. Valentina parece deprimida com a vida e a falta de ideias para o seu futuro, com esta a contar com o dinheiro da família embora não consiga ter a criatividade para desfrutar das possibilidades que esta fortuna lhe poderia proporcionar. A festa exibe uma miríade de personagens maioritariamente vazios a nível do pensamento, que procuram exorcizar o tédio, embora apenas exibam a sua vacuidade, enquanto um casal deixa a ideia que a sua relação está a envolver-se por caminhos pantanosos que podem conduzir ao final do casamento. Diga-se que anteriormente já tínhamos encontrado Lidia e Giovanni separados, com esta a abandonar a apresentação do livro, enquanto decide passear pela cidade, sem rumo aparente, deparando-se com episódios tão distintos como uma luta ou foguetes a serem lançados para o ar, enquanto Antonioni aproveita para explorar os espaços que rodeiam esta mulher. Vale sempre a pena reforçar todo o cuidado que Antonioni colocou no aproveitamento dos cenários e na composição dos planos, algo comentado por Glenn Erickson na sua magnífica crítica no DVD Talk: “Antonioni carefully stages and lights everything, but his camera technique rarely draws attention to itself. Images in the millionaire's house frequently involve reflections in the glass walls that make people look like ghost figures, or duplicates of themselves. It's a house for vain, ostentatious creatures. The shots can be disorienting, but angles are never chosen simply for pictorial effect. We feel as if we're inside a cinematic equation that relates interpersonal relationships with architectural forms.”. No final resta apenas desfrutar deste trabalho maravilhoso de Michelangelo Antonioni, com o cineasta a explorar de forma sublime a complexidade das relações e sentimentos humanos, enquanto aproveita de forma exímia os cenários e o elenco que tem à sua disposição, com "La Notte" a surgir como uma obra-prima que clama para ser vista, revista, reverenciada e amada.

Título original: "La Notte".
Título em Portugal: "A Noite".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Ennio Flaiano, Tonino Guerra.
Elenco: Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Monica Vitti, Bernhard Wicki.

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