06 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Irrational Man" (Homem Irracional)

 Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um mistério que parece difícil de decifrar. Os alunos e (sobretudo) as alunas admiram-no. Os colegas questionam-se em relação a este indivíduo inteligente e deprimido, que pouco comunica com os elementos que o rodeiam. Joaquin Phoenix incute um estilo inicialmente algo descuidado e passivo ao personagem que interpreta, um professor que foi contratado para integrar o Departamento de Filosofia da Braylin College, uma universidade ficcional situada em Rhode Island. Abe conta com a fama de mulherengo e problemático, preparando-se para leccionar um curso de Verão nesta universidade, um espaço onde desperta a curiosidade de alunos e professores. Os seus trabalhos são capazes de despertar as opiniões mais distintas, embora Abe se depare com um bloqueio criativo difícil de ultrapassar, algo que dificulta a escrita de novas obras literárias. Outrora procurou mudar o Mundo. Nos dias de hoje, Abe apenas parece contentar-se em beber vários goles do whisky que guarda nas suas vestimentas, enquanto procura encontrar um significado para a vida e questiona o Mundo que o rodeia. Abe é o típico personagem que encontramos em alguns filmes de Woody Allen, com o cineasta e argumentista a criar mais uma vez um universo narrativo que parece dialogar com outros trabalhos que figuram no seu currículo. Não falta o protagonista que é um intelectual com ideias e ideais muito próprios, as frustrações e o desejo de cariz sexual, um divórcio que marcou o personagem principal, as figuras femininas complexas e distintas, os diálogos que variam muitas das vezes para temáticas mais profundas, a colocação em prática do crime perfeito (com direito a mais uma referência a "Crime e Castigo" de Fyodor Dostoyevsky), a narração em off, entre outros exemplos. "Irrational Man" tem ainda o condão de nos transportar para uma realidade muito própria que apenas parece existir na mente de Woody Allen, com os diálogos a serem maioritariamente bem construídos (mais uma fala para a colecção: "boa parte da filosofia não passa de masturbação verbal"), enquanto o cineasta se envolve novamente pelos meandros da comédia negra, num estilo que muito tem de "Crimes and Midemeanors" e "Match Point", duas obras cinematográficas onde, tal como em "Manhattan Murder Mystery", o crime perfeito surgia como uma das temáticas em destaque. No caso de "Irrational Man", é exactamente a possibilidade de cometer o crime perfeito e assim fazer justiça pelas próprias mãos que parece tirar Abe da letargia. Inicialmente desperta a atenção de duas mulheres, ambas comprometidas, embora o nível da relação de cada uma se encontre em estágios diferentes, com Rita Richards (Parker Posey) e Jill Pollard (Emma Stone), a apresentarem personalidades e comportamentos distintos.

 Rita é uma professora neurótica, que trabalha na Braylin College e pretende viajar para Espanha e estabelecer a sua vida neste país, mantendo casos extraconjugais apesar de ser casada. Jill é uma aluna da universidade, curiosa e inteligente, embora algo ingénua. Esta mantém uma relação aparentemente segura com Roy (Jamie Blackley), um jovem calmo e ponderado, que ama a primeira e forma planos a longo prazo para viver com a mesma. Se Abe surge como uma figura errática e anti-establishment, sempre disponível para colocar em causa a relação entre a teoria e a prática, já Roy aparece como um jovem apagado, que respeita e ama Jill embora não pareça trazer nada de novo ao quotidiano desta mulher. Jill começa a ficar intrigada em relação a Abe, um indivíduo complexo, que tanto parece apresentar laivos de genialidade como uma personalidade destrutiva e letárgica, surgindo como um mistério para a maioria daqueles que o rodeiam. O personagem interpretado por Joaquin Phoenix também parece interessado nesta aluna que não tem problemas em refutar as suas teorias ou questionar os seus trabalhos. Abe procura inicialmente que a relação com Jill não ultrapasse a barreira da amizade, embora essa tarefa pareça deveras complicada. Ela insinua-se, é bela, inteligente, tem charme e apresenta uma personalidade fascinante. Ele parece encontrar nesta jovem algo que o atrai de forma indelével. Por sua vez, Roy já não suporta ouvir falar de Abe, parecendo prever aquilo que aí vem, sobretudo devido à fama que precede o personagem interpretado por Joaquin Phoenix, em particular, os rumores de manter casos com alunas. Roy é uma figura algo apagada, pouco explorada e desenvolvida pelo argumento, com o próprio Jamie Blackley a contribuir para que este personagem surja como o elo mais fraco de "Irrational Man", a par do marido de Rita. Blackley apresenta uma falta de carisma notória, bem como uma incapacidade em fazer com que nos acreditemos no personagem que interpreta, com o actor a destoar das interpretações meritórias de Joaquin Phoenix, Emma Stone e Parker Posey. Emma Stone e Parker Posey apresentam dinâmicas distintas mas credíveis com Joaquin Phoenix, algo inerente às características das personagens interpretadas pelas primeiras. A personagem interpretada por Emma Stone é uma jovem curiosa, que gosta de tocar piano, ainda inexperiente em relação à vida, com a actriz a incutir uma personalidade vincada a esta mulher questionadora, que procura conquistar o seu professor, embora não esteja disposta a largar os seus valores morais para manter uma relação com o mesmo. Stone e Phoenix convencem quer quando Abe se encontra num estado letárgico e Jill procura despertar o lado mais vivaz do professor, quer nos momentos em que este reencontra o gosto por viver. Tudo acontece quando se encontram num café e ouvem uma mulher a dialogar com um conjunto de conhecidos. O momento é paradigmático da relação de proximidade que Woody Allen pretende formar entre os protagonistas e o público: inicialmente apenas ouvimos sussurros, até Abe se sentar ao lado de Jill e ouvir, em conjunto com o espectador, a conversa da mesa de trás.

 Uma mulher revela que se encontra prestes a perder a guarda dos filhos para o esposo devido ao facto do advogado do mesmo ser amigo do juiz Spangler (Tom Kemp). Esta encontra-se desesperada, enquanto Jill e Abe apresentam uma consternação latente. É então que Abe parece ter uma epifania, com a descoberta desta injustiça a fazer com que o protagonista formule um plano para cometer o crime perfeito. Abe decide eliminar o juiz, com esta decisão a permitir que o protagonista reencontre o gosto por viver. O personagem interpretado por Joaquin Phoenix parece finalmente ter nas suas mãos a hipótese de fazer algo de relevante, enquanto Woody Allen coloca diante do espectador a decisão de julgar a moralidade ou imoralidade deste acto. Allen consegue que geremos alguma simpatia por esta figura que cita Kant, Hannah Arendt, entre outros, demonstrando uma cultura acima da média embora questione muitas das teorias que ensina. Este parece algo desencantado com a sua profissão e o rumo da sua vida. Veja-se quando decide pegar numa pistola, no meio de uma festa, começando a jogar à roleta-russa diante do olhar estupefacto de todos os seus alunos, algo que expõe paradigmaticamente o estado perturbado da sua mente. Abe pensa ter planeado o crime perfeito, embora se esqueça da personalidade questionadora e criativa de Jill. Por sua vez, Rita mantém a sua faceta algo insegura, embora desfrute da "libertação" deste personagem, pelo menos até Abe parecer mais inclinado para manter uma relação com Jill. Estamos numa situação que a espaços nos traz à memória obras cinematográficas como "Manhattan", "Crimes and Misdemeanors" e "Match Point" onde um dos personagens principais mantinha um caso duplo, ou pelo menos com figuras femininas distintas, com "Irrational Man" a remeter sobretudo para estas duas últimas. Não falta a colocação em prática do crime perfeito (aqui também a remeter para filmes de Alfred Hitchcock como "Rope", "Strangers on a Train", "Dial M for Murder"), a procura em lidar com um acto macabro, mas também o papel do destino (neste quesito, "Irrational Man" entronca e muito em "Match Point"). Em "Crimes and Misdemeanors", Judah Rosenthal (Martin Landau) decide mandar eliminar a sua amante, tendo em vista a manter a sua reputação e o casamento. Em "Match Point", Chris (Jonathan Rhys Meyers) decide eliminar Nola (Scarlett Johansson), a sua amante. No caso de "Irrational Man", Abe decide assassinar um desconhecido, assumindo uma faceta transviada de justiceiro, com o filme a levantar questões pertinentes sobre a imoralidade ou moralidade deste acto que subverte as leis. O que fazer quando um cidadão que deveria contribuir para a lei e a justiça, como um juiz, também subverte esse sistema? Woody Allen questiona o espectador, utiliza o humor e algumas referências inteligentes, enquanto deixa Joaquin Phoenix a interpretar uma figura que tanto tem de trágica como de cómica e perigosa. Joaquin Phoenix é o elemento em maior destaque, com Woody Allen a exibir que mantém um talento notório para extrair boas interpretações dos elementos do seu elenco, embora não faça milagres, como é possível ver no caso de Jamie Blackley. É através de Abe que Woody Allen aborda temas como a depressão, a justiça, a utilização na prática do saber adquirido no plano teórico, entre outras temáticas que são exploradas pelo argumento, com "Irrational Man" a surgir com um conteúdo sumarento, enquanto balanceia com agilidade entre as barreiras do humor e do lado mais negro do cineasta e argumentista. A figura de Abe simboliza isso mesmo. Beberrão, com uma barriga saliente e uma visão desencantada da vida, Abe encontra um sentido para a sua existência através do desejo de uma morte, ou melhor, de cometer um assassinato que, na cabeça do protagonista, pode trazer alguma justiça.

 Joaquin Phoenix não é o único elemento do elenco a surgir em destaque. Veja-se Emma Stone como uma figura radiante, questionadora, apaixonada e apaixonante, embora algo inexperiente em relação à vida, ou Parker Posey como uma mulher que já conheceu diversas dúvidas e frustrações ao longo da sua existência. O trio principal sobressai, bem como os seus intérpretes, enquanto Woody Allen desenvolve as relações entre Abe e estas mulheres de forma eficaz, embora a espaços pareça faltar a capacidade apresentada em trabalhos como "Hannah and Her Sisters" e o (bastante) citado "Crimes and Misdemeanors" de explorar mais os personagens secundários tendo em vista a incutir mais substância ao enredo. Veja-se o caso do namorado de Jill, ou o esposo de Rita, com estes elementos masculinos a surgirem como figuras apagadas. As próprias figuras que rodeiam o campus universitário nem sempre sobressaem, com este a ser um espaço onde as fofocas são mais do que muitas, que o diga Abe, com a sua entrada em cena na universidade a ser marcada por um conjunto avultado de historietas e rumores sobre o seu passado. Embora não crie uma multitude de personagens secundários que deixem marca, Woody Allen elabora algumas cenas deveras inspiradas. Veja-se a ida de Abe e Jill a um parque de diversões, com a reprodução dos personagens nos espelhos distorcidos a indicar algo de problemático para o futuro de ambos, embora a situação até seja de romantismo (e efectue um piscar de olho a "The Lady From Shanghai", também citado em "Manhattan Murder Mystery"). Abe inicialmente hesita em iniciar uma relação com a aluna, embora pareça óbvio que esta pretensão não se vai manter durante muito tempo ao longo de uma obra onde Woody Allen volta a pegar em questões existenciais e em diversas temáticas transversais a diversos filmes que realizou. A duração de "Irrational Man" ronda cerca de uma hora e trinta, embora o filme pudesse durar bastante mais tempo, quer para desenvolver mais as figuras secundárias, quer pelo prazer de ouvir os personagens a dialogarem e a interagirem, com Woody Allen a conceder um tom enxuto e provocador a uma obra cinematográfica que comprova a vitalidade deste cineasta. Diga-se que Allen beneficia ainda de mais uma parceria com Darius Khondji, um director de fotografia capaz de captar o calor e os espaços de Newport, para além de contribuir para alguns planos belíssimos. Também o guarda-roupa do elenco e o design dos cenários denotam um cuidado latente, com Woody Allen a jogar muitas das vezes com as cores. Veja-se os lençóis vermelhos na casa de Abe, após um momento mais quente (a simbolizar esse momento mais caloroso), ou a tonalidade arroxeada das flores do parque onde o juiz corre, com as mangas da camisola deste personagem a condizerem com as plantas (vai existir muito este jogo entre as cores de elementos que povoam os cenários e o guarda-roupa dos personagens), entre outros exemplos. Com interpretações de bom nível de Joaquin Phoenix, Emma Stone e Parker Posey, alguns diálogos típicos dos filmes de Woody Allen e uma realização assertiva, "Irrational Man" surge como mais uma entrada interessante no currículo de um cineasta que alia proficuidade e qualidade.

Título original: "Irrational Man".
Título em Portugal: "Homem Irracional".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Jamie Blackley.

Sem comentários: