Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um mistério que parece difícil de
decifrar. Os alunos e (sobretudo) as alunas admiram-no. Os colegas
questionam-se em relação a este indivíduo inteligente e deprimido,
que pouco comunica com os elementos que o rodeiam. Joaquin Phoenix
incute um estilo inicialmente algo descuidado e passivo ao personagem
que interpreta, um professor que foi contratado para integrar o Departamento de Filosofia da Braylin College, uma universidade
ficcional situada em Rhode Island. Abe conta com a fama de mulherengo e problemático, preparando-se para leccionar um curso de Verão nesta universidade, um espaço onde desperta a curiosidade de alunos e professores. Os seus trabalhos são
capazes de despertar as opiniões mais distintas, embora Abe se depare com um bloqueio criativo difícil de ultrapassar, algo que
dificulta a escrita de novas obras literárias. Outrora procurou
mudar o Mundo. Nos dias de hoje, Abe apenas parece contentar-se em
beber vários goles do whisky que guarda nas suas vestimentas,
enquanto procura encontrar um significado para a vida e questiona o Mundo que o
rodeia. Abe é o típico personagem que encontramos em alguns filmes
de Woody Allen, com o cineasta e argumentista a criar mais uma vez um
universo narrativo que parece dialogar com outros trabalhos que
figuram no seu currículo. Não falta o protagonista que é um
intelectual com ideias e ideais muito próprios, as frustrações e o
desejo de cariz sexual, um divórcio que marcou o personagem
principal, as figuras femininas complexas e distintas, os diálogos
que variam muitas das vezes para temáticas mais profundas, a
colocação em prática do crime perfeito (com direito a mais uma
referência a "Crime e Castigo" de Fyodor Dostoyevsky), a
narração em off, entre outros exemplos. "Irrational Man"
tem ainda o condão de nos transportar para uma realidade muito
própria que apenas parece existir na mente de Woody Allen, com os
diálogos a serem maioritariamente bem construídos (mais uma fala
para a colecção: "boa parte da filosofia não passa de masturbação
verbal"), enquanto o cineasta se envolve novamente pelos
meandros da comédia negra, num estilo que muito tem de "Crimes
and Midemeanors" e "Match Point", duas obras
cinematográficas onde, tal como em "Manhattan Murder Mystery",
o crime perfeito surgia como uma das temáticas em destaque. No caso
de "Irrational Man", é exactamente a possibilidade de
cometer o crime perfeito e assim fazer justiça pelas próprias mãos
que parece tirar Abe da letargia. Inicialmente desperta a atenção
de duas mulheres, ambas comprometidas, embora o nível da relação
de cada uma se encontre em estágios diferentes, com Rita Richards
(Parker Posey) e Jill Pollard (Emma Stone), a apresentarem
personalidades e comportamentos distintos.
Rita é uma professora neurótica, que trabalha na Braylin College
e pretende viajar para Espanha e estabelecer a sua vida neste país,
mantendo casos extraconjugais apesar de ser casada. Jill é uma aluna
da universidade, curiosa e inteligente, embora algo ingénua. Esta
mantém uma relação aparentemente segura com Roy (Jamie Blackley),
um jovem calmo e ponderado, que ama a primeira e forma planos a longo
prazo para viver com a mesma. Se Abe surge como uma figura errática
e anti-establishment, sempre disponível para colocar em causa a relação
entre a teoria e a prática, já Roy aparece como um jovem apagado,
que respeita e ama Jill embora não pareça trazer nada de novo ao
quotidiano desta mulher. Jill começa a ficar intrigada em relação
a Abe, um indivíduo complexo, que tanto parece apresentar laivos de
genialidade como uma personalidade destrutiva e letárgica, surgindo
como um mistério para a maioria daqueles que o rodeiam. O personagem
interpretado por Joaquin Phoenix também parece interessado nesta
aluna que não tem problemas em refutar as suas teorias ou questionar
os seus trabalhos. Abe procura inicialmente que a relação com Jill
não ultrapasse a barreira da amizade, embora essa tarefa pareça
deveras complicada. Ela insinua-se, é bela, inteligente, tem charme
e apresenta uma personalidade fascinante. Ele parece encontrar nesta
jovem algo que o atrai de forma indelével. Por sua vez, Roy já não
suporta ouvir falar de Abe, parecendo prever aquilo que aí vem,
sobretudo devido à fama que precede o personagem interpretado por
Joaquin Phoenix, em particular, os rumores de manter casos com
alunas. Roy é uma figura algo apagada, pouco explorada e
desenvolvida pelo argumento, com o próprio Jamie Blackley a
contribuir para que este personagem surja como o elo mais fraco de
"Irrational Man", a par do marido de Rita. Blackley
apresenta uma falta de carisma notória, bem como uma incapacidade em
fazer com que nos acreditemos no personagem que interpreta, com o
actor a destoar das interpretações meritórias de Joaquin Phoenix,
Emma Stone e Parker Posey. Emma Stone e Parker Posey apresentam
dinâmicas distintas mas credíveis com Joaquin Phoenix, algo
inerente às características das personagens interpretadas pelas
primeiras. A personagem interpretada por Emma Stone é uma jovem
curiosa, que gosta de tocar piano, ainda inexperiente em relação à vida, com a actriz a
incutir uma personalidade vincada a esta mulher questionadora, que
procura conquistar o seu professor, embora não esteja disposta a
largar os seus valores morais para manter uma relação com o mesmo.
Stone e Phoenix convencem quer quando Abe se encontra num estado
letárgico e Jill procura despertar o lado mais vivaz do professor,
quer nos momentos em que este reencontra o gosto por viver. Tudo
acontece quando se encontram num café e ouvem uma mulher a dialogar
com um conjunto de conhecidos. O momento é paradigmático da relação
de proximidade que Woody Allen pretende formar entre os protagonistas
e o público: inicialmente apenas ouvimos sussurros, até Abe se
sentar ao lado de Jill e ouvir, em conjunto com o espectador, a
conversa da mesa de trás.
Uma mulher revela que se encontra prestes a perder a guarda
dos filhos para o esposo devido ao facto do advogado do mesmo ser
amigo do juiz Spangler (Tom Kemp). Esta encontra-se desesperada,
enquanto Jill e Abe apresentam uma consternação latente. É então
que Abe parece ter uma epifania, com a descoberta desta injustiça a
fazer com que o protagonista formule um plano para cometer o crime
perfeito. Abe decide eliminar o juiz, com esta decisão a permitir
que o protagonista reencontre o gosto por viver. O personagem
interpretado por Joaquin Phoenix parece finalmente ter nas suas mãos
a hipótese de fazer algo de relevante, enquanto Woody Allen coloca
diante do espectador a decisão de julgar a moralidade ou imoralidade
deste acto. Allen consegue que geremos alguma simpatia por esta
figura que cita Kant, Hannah Arendt, entre outros, demonstrando uma
cultura acima da média embora questione muitas das teorias que
ensina. Este parece algo desencantado com a sua profissão e o rumo
da sua vida. Veja-se quando decide pegar numa pistola, no meio de uma
festa, começando a jogar à roleta-russa diante do olhar estupefacto
de todos os seus alunos, algo que expõe paradigmaticamente o estado perturbado da sua mente. Abe pensa ter planeado o crime perfeito,
embora se esqueça da personalidade questionadora e criativa de Jill.
Por sua vez, Rita mantém a sua faceta algo insegura, embora desfrute
da "libertação" deste personagem, pelo menos até Abe
parecer mais inclinado para manter uma relação com Jill. Estamos
numa situação que a espaços nos traz à memória obras
cinematográficas como "Manhattan", "Crimes and
Misdemeanors" e "Match Point" onde um dos personagens
principais mantinha um caso duplo, ou pelo menos com figuras
femininas distintas, com "Irrational Man" a remeter
sobretudo para estas duas últimas. Não falta a colocação em
prática do crime perfeito (aqui também a remeter para filmes de
Alfred Hitchcock como "Rope", "Strangers on a Train",
"Dial M for Murder"), a procura em lidar com um acto
macabro, mas também o papel do destino (neste quesito, "Irrational
Man" entronca e muito em "Match Point"). Em "Crimes
and Misdemeanors", Judah Rosenthal (Martin Landau) decide mandar
eliminar a sua amante, tendo em vista a manter a sua reputação e o
casamento. Em "Match Point", Chris (Jonathan Rhys Meyers)
decide eliminar Nola (Scarlett Johansson), a sua amante. No caso de
"Irrational Man", Abe decide assassinar um desconhecido,
assumindo uma faceta transviada de justiceiro, com o filme a levantar
questões pertinentes sobre a imoralidade ou moralidade deste acto
que subverte as leis. O que fazer quando um cidadão que deveria
contribuir para a lei e a justiça, como um juiz, também subverte
esse sistema? Woody Allen questiona o espectador, utiliza o humor e
algumas referências inteligentes, enquanto deixa Joaquin Phoenix a
interpretar uma figura que tanto tem de trágica como de cómica e
perigosa. Joaquin Phoenix é o elemento em maior destaque, com Woody
Allen a exibir que mantém um talento notório para extrair boas
interpretações dos elementos do seu elenco, embora não faça
milagres, como é possível ver no caso de Jamie Blackley. É através
de Abe que Woody Allen aborda temas como a depressão, a justiça, a
utilização na prática do saber adquirido no plano teórico, entre
outras temáticas que são exploradas pelo argumento, com "Irrational
Man" a surgir com um conteúdo sumarento, enquanto balanceia com
agilidade entre as barreiras do humor e do lado mais negro do
cineasta e argumentista. A figura de Abe simboliza isso mesmo.
Beberrão, com uma barriga saliente e uma visão desencantada da
vida, Abe encontra um sentido para a sua existência através do
desejo de uma morte, ou melhor, de cometer um assassinato que, na
cabeça do protagonista, pode trazer alguma justiça.
Joaquin Phoenix não é o único elemento do elenco a surgir em
destaque. Veja-se Emma Stone como uma figura radiante, questionadora,
apaixonada e apaixonante, embora algo inexperiente em relação à
vida, ou Parker Posey como uma mulher que já conheceu diversas
dúvidas e frustrações ao longo da sua existência. O trio
principal sobressai, bem como os seus intérpretes, enquanto Woody
Allen desenvolve as relações entre Abe e estas mulheres de forma
eficaz, embora a espaços pareça faltar a capacidade apresentada em
trabalhos como "Hannah and Her Sisters" e o (bastante)
citado "Crimes and Misdemeanors" de explorar mais os
personagens secundários tendo em vista a incutir mais substância ao enredo. Veja-se o
caso do namorado de Jill, ou o esposo de Rita, com estes elementos
masculinos a surgirem como figuras apagadas. As próprias figuras que
rodeiam o campus universitário nem sempre sobressaem, com este a ser
um espaço onde as fofocas são mais do que muitas, que o diga Abe,
com a sua entrada em cena na universidade a ser marcada por um
conjunto avultado de historietas e rumores sobre o seu passado.
Embora não crie uma multitude de personagens secundários que deixem
marca, Woody Allen elabora algumas cenas deveras inspiradas. Veja-se
a ida de Abe e Jill a um parque de diversões, com a reprodução dos
personagens nos espelhos distorcidos a indicar algo de problemático
para o futuro de ambos, embora a situação até seja de romantismo
(e efectue um piscar de olho a "The Lady From Shanghai",
também citado em "Manhattan Murder Mystery"). Abe
inicialmente hesita em iniciar uma relação com a aluna, embora
pareça óbvio que esta pretensão não se vai manter durante muito
tempo ao longo de uma obra onde Woody Allen volta a pegar em questões
existenciais e em diversas temáticas transversais a diversos filmes
que realizou. A duração de "Irrational Man" ronda cerca
de uma hora e trinta, embora o filme pudesse durar bastante mais
tempo, quer para desenvolver mais as figuras secundárias, quer pelo
prazer de ouvir os personagens a dialogarem e a interagirem, com
Woody Allen a conceder um tom enxuto e provocador a uma obra
cinematográfica que comprova a vitalidade deste cineasta. Diga-se
que Allen beneficia ainda de mais uma parceria com Darius Khondji, um
director de fotografia capaz de captar o calor e os espaços de
Newport, para além de contribuir para alguns planos belíssimos.
Também o guarda-roupa do elenco e o design dos cenários denotam um
cuidado latente, com Woody Allen a jogar muitas das vezes com as
cores. Veja-se os lençóis vermelhos na casa de Abe, após um
momento mais quente (a simbolizar esse momento mais caloroso), ou a
tonalidade arroxeada das flores do parque onde o juiz corre, com as
mangas da camisola deste personagem a condizerem com as plantas (vai
existir muito este jogo entre as cores de elementos que povoam os
cenários e o guarda-roupa dos personagens), entre outros exemplos.
Com interpretações de bom nível de Joaquin Phoenix, Emma Stone e
Parker Posey, alguns diálogos típicos dos filmes de Woody Allen e
uma realização assertiva, "Irrational Man" surge como
mais uma entrada interessante no currículo de um cineasta que alia
proficuidade e qualidade.
Título original: "Irrational Man".
Título em Portugal: "Homem Irracional".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Jamie Blackley.




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