15 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Il deserto rosso" (1964)

 Primeira longa-metragem a cores de Michelangelo Antonioni, "Il deserto rosso" coloca-nos diante de Giuliana (Monica Vitti), uma mulher deprimida, algo neurótica e problemática, que teme a solidão embora contribua muitas das vezes para afastar aqueles que se aproximam da sua pessoa. A certa altura de "Il deserto rosso" encontramos diversos personagens envolvidos pelo nevoeiro, algo que torna praticamente impossível visualizar os mesmos de forma clara, com a neblina a parecer simbolizar a confusão que rodeia a mente caótica da protagonista, enquanto Monica Vitti consegue explanar de forma sublime as dúvidas que inquietam esta mulher que tem uma enorme dificuldade em adaptar-se às mudanças do Mundo que a rodeia e deixar de lado alguns episódios negativos que a marcaram de forma indelével. Esta tem imensas duvidas em relação a si própria e àqueles que a rodeiam, teme a solidão embora pareça afastar muitas das vezes a felicidade, com o seu casamento a parecer já ter conhecido melhores dias. Tal como na trilogia informal formada por "L'Avventura", "La Notte" e "L'Eclisse", Michelangelo Antonioni volta a abordar temáticas como as relações amorosas que falham ou as dificuldades de comunicação entre os cônjuges, as traições, a alienação do ser humano no espaço urbano, entre outras. Diga-se que "Il deserto rosso" marca ainda a quarta colaboração seguida entre Michelangelo Antonioni e Monica Vitti, com a actriz a exibir mais uma vez a facilidade indelével que tem para mudar de registos, conseguindo transformar as personagens que interpreta em enigmas e fazer com que acreditemos nas dúvidas que rodeiam a alma das mesmas. Em "L'Avventura", "La Notte" e "L'Eclisse", Michelangelo Antonioni colocou-nos diante de personagens com alguma segurança financeira, muitos deles novos-ricos ou aburguesados, com esta trilogia a sobressair ainda pelo magnífico aproveitamento dos cenários, com o cineasta a atribuir uma enorme relevância à arquitectura local, algo que repete em "Il deserto rosso". A cidade onde se desenrola boa parte do enredo de "Il deserto rosso" é Ravenna, com Antonioni a voltar a explorar os cenários exteriores e interiores de forma sublime ao serviço do enredo, com estes a surgirem cheios de simbolismo, influenciando e muito os personagens, com o cineasta a parecer conseguir captar quer os ritmos destes espaços, quer das emoções das diversas figuras que povoam a narrativa de "Il deserto rosso". Veja-se logo nos momentos iniciais, quando somos colocados diante de Giuliana acompanhada por Valerio, o seu filho, a andarem pelas imediações de uma fábrica. Os sons deste espaço são exacerbados, o fumo que sai da fábrica é imenso, a poluição é latente, os protestos dos operários em greve surgem bem audíveis, enquanto assistimos a Giuliana e o filho a caminharem pelas imediações do local. Michelangelo Antonioni capta os sons e os ritmos da fábrica quer no seu interior, quer no seu exterior, exibindo mais uma vez a relevância da arquitectura local e dos cenários para o enredo dos seus filmes. No caso do espaço industrial, o cenário surge marcado por alguma frieza a nível de tonalidades no seu exterior, embora as emoções estejam ao rubro, com funcionários a protestarem e uma mulher a exibir um comportamento deveras estranho. A primeira impressão que criamos em relação a esta figura feminina não é a melhor, com Giuliana a comprar uma sandes que estava a ser comida por um operário, com a voz da protagonista a denotar um enorme nervosismo enquanto o seu interlocutor apresenta um espanto semelhante ao espectador quando se depara com este episódio peculiar.

Quem gere uma destas fábricas é Ugo (Carlo Chionetti), o esposo de Giuliana, um indivíduo que parece ter algumas dificuldades em compreender a esposa, algo que comenta com Corrado Zeller (Richard Harris), um colega de profissão e amigo. Ugo salienta que Giuliana sofreu um acidente de viação, ainda que pouco grave, embora tenha sido internada durante um mês devido ao choque, com o estado mental desta mulher a revelar-se deveras instável, algo que podemos comprovar ao longo do filme. Mais tarde percebemos que a situação não é tão linear, com as verdadeiras razões do acidente a exibirem que o caso é bem mais complexo. A relação entre Giuliana e Ugo parece encontrar-se numa fase aparentemente complicada, com a falta de comunicação e compreensão entre ambas as partes a ser latente. Diga-se que temáticas como a alienação do ser humano no espaço urbano, as relações complexas entre casais, as traições, a solidão, a relevância que os cenários parecem exercer sobre os personagens, entre outras, já tinham sido abordadas por Antonioni na trilogia informal citada, com o cineasta a voltar a desafiar as nossas expectativas em relação aos protagonistas e ao enredo em "Il deserto rosso". Mais do que oferecer respostas paradigmáticas ou conclusões que nos confortem, "Il deserto rosso" coloca-nos questões complexas, desafia-nos, atormenta-nos, seduz-nos, envolve-nos, atira-nos para fora da narrativa até nos hipnotizar para o interior da mesma. As emoções dos personagens nem sempre são discerníveis, embora seja notório que Corrado começa a sentir uma certa curiosidade e algum desejo por Giuliana, enquanto Ugo pouco parece compreender ou preocupar-se com a esposa. Ugo é o gerente de uma fábrica, amigo de Corrado, com este último a procurar trabalhadores especializados para um projecto na Patagónia, uma tarefa que parece assaz complicada devido a não encontrar mão-de-obra. O diálogo entre Ugo e Corrado é interrompido pela chegada de Giuliana, uma mulher que apresenta um rosto de enorme beleza e uma fragilidade emocional desconcertante. Corrado não fica indiferente a esta mulher. Diga-se que Antonioni faz questão de deixar essa situação bem saliente ao longo do filme, com alguns simples olhares e gestos de Corrado a servirem para expor que este indivíduo deseja a esposa do amigo. Veja-se quando Corrado decide visitar Giuliana no espaço da loja que esta pensa abrir. Esta pretende abrir um negócio, embora não tenha ideias claras sobre aquilo que pretende fazer. Giuliana ainda pensa vender objectos em cerâmica, embora pouco perceba do negócio, com o espaço desta loja a apresentar-se tão caótico e vazio como as ideias desta mulher para o futuro. Esta pensa pintar o local com cores neutras, embora seja notório que as paredes da loja se encontram recheadas de tintas de várias tonalidades, algo que demonstra a indecisão de Giuliana nas suas escolhas. O cuidado a nível do design dos cenários interiores fica paradigmaticamente representado neste espaço praticamente vazio, apenas composto por algumas latas de tintas e paredes com pedaços de cores diferentes, algo que remete para a solidão da protagonista e para a confusão que percorre a sua alma. Corrado parece procurar interpretar e compreender esta figura feminina enigmática, enquanto Giuliana demonstra alguma abertura para falar com este homem sobre o seu passado e os seus sentimentos. Richard Harris tem um desempenho sóbrio e eficaz como Corrado, com o actor a conseguir transmitir a calma do personagem que interpreta, uma figura solitária, sem grandes laços, que se prepara para viajar para a Patagónia, acabando pelo caminho por começar a desejar a esposa do amigo. Corrado parece compreender Giuliana melhor do que o esposo desta, com o personagem interpretado por Carlo Chionetti a apresentar uma postura mais fria. Não é que Ugo pareça não gostar da esposa, embora denote dificuldades em compreender a mesma, algo notório quando Corrado questiona o primeiro sobre aquilo que este efectuou assim que recebeu a notícia do acidente. Ugo permaneceu em Londres, desconhecendo por completo as dúvidas que vão na alma da esposa e a sua tentativa de suicídio. Diga-se que Giuliana apresenta uma complexidade notória, ou esta não fosse uma figura feminina imprevisível que tanto é capaz de parecer estar prestes a entregar-se a alguém como logo de seguida exibe uma série de duvidas, um pouco a fazer recordar a personagem que Monica Vitti interpretou em "L'Eclisse".

Os momentos de silêncio entre estes personagens contam muitas das vezes com tanto impacto como os trechos em que se encontram a dialogar, com Antonioni a demonstrar mais uma vez que é um cineasta exímio a captar os ritmos dos sentimentos humanos, conseguindo transportar as dúvidas e inquietações das figuras que povoam a narrativa das suas obras cinematográficas para o espectador. Antonioni obriga-nos a ser parte activa da narrativa, com "Il deserto rosso" a estar longe de ser uma obra completamente "fechada" ou linear". Os personagens são ambíguos e complexos, as questões que são levantadas nem sempre são respondidas, cada plano parece ser composto com um cuidado exímio, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor. Veja-se por exemplo a dicotomia entre a casa de Giuliana e Ugo e o espaço da casa de um indivíduo que Corrado pretende contratar. A casa da protagonista surge dotada de tonalidades brancas e azuis, arquitectura moderna e obras de arte, dois andares e espaço a mais para apenas três pessoas, embora transmita uma enorme frieza. O quarto de Valerio conta ainda com a presença de um brinquedo em forma de robô, com o jovem a parecer apresentar um maior à vontade com a tecnologia do que a progenitora. A habitação de Mario, o indivíduo que Corrado pretende contratar, é modesta mas acolhedora, com a esposa do primeiro a denotar uma união com o cônjuge dicotómica da relação entre Giuliana e Ugo. O espaço da habitação de Mario é marcado por tons verdes pálidos, com estes a parecerem combinar com as roupas dos personagens. É na casa de Mario que Giuliana revela a Corrado alguns episódios sobre a sua presença na clínica, utilizando para isso uma hipotética figura feminina que supostamente conheceu no local onde se encontrou internada. Monica Vitti compõe esta personagem de forma sublime, conseguindo transmitir-nos uma imensidão de sentimentos, incluindo a insegurança e imprevisibilidade de Giuliana. Essa imprevisibilidade é visível quando encontramos Giuliana, Ugo e Corrado em conjunto com Max e Linda, um casal amigo, num espaço perto do rio, localizado no Porto Corsini. O jantar conta ainda com a presença de Emilia, uma mulher muito cortejada por Max, apesar da esposa estar por perto, com estes momentos a serem marcados por diálogos aparentemente simples, muitas das vezes de cariz sexual, até as diversas figuras se reunirem numa divisória mais pequena deste local. As paredes desta divisória encontram-se pintadas de vermelho e acreditamos que as emoções de Corrado também se encontrem tão quentes como esta cor quando Giuliana se aproxima em demasia do seu corpo. A tonalidade vermelha indica também algum nervosismo, com Antonioni a jogar com as múltiplas interpretações das cores. O espaço é demasiado apertado, embora seja possível discernir que Corrado não é indiferente a Giuliana, enquanto esta mulher tanto apresenta uma postura calma como exibe um lado mais sensual, como entra num enorme histerismo. A saída deste espaço é marcada pelo forte nevoeiro, com Giuliana a encontrar-se em pânico enquanto Michelangelo Antonioni parece estar no controlo de tudo. Veja-se que um quadro colocado perto de um personagem, ou uma simples parede pintada com diversas cores, ou um plano com as imagens mais desfocadas podem simbolizar imenso, com "Il deserto rosso" a deixar mais uma vez a ideia que é impossível absorver tudo aquilo que o cineasta tem para nos dar nas obras cinematográficas citadas ao longo de uma única visualização. Mesmo após uma segunda visualização é latente que Antonioni não nos oferece respostas para tudo, nem esperaríamos isso do cineasta, com "Il deserto rosso" a colocar-nos diante de situações complexas, sentimentos bem reais, personagens que formam relações intrincadas, com o realizador a parecer conseguir captar os ritmos da vida e transportá-los para o grande ecrã.

 Visionar filmes como "L'Avventura", "La Notte", "L'Eclisse", "Il deserto rosso" é algo simplesmente estimulante, com Michelangelo Antonioni a criar experiências únicas para o espectador. As narrativas das obras citadas estão longe de apresentarem um estrutura certinha, os planos contam muitas das vezes com uma duração relativamente longa, o espaço dos planos é explorado ao pormenor, os personagens contam com relacionamentos complexos, os silêncios apresentam um relevo semelhante aos diálogos, os cenários são aproveitados de forma imaculada, com "Il deserto rosso" a exibir ainda o cineasta como alguém brilhante no aproveitamento da paleta cromática. Deixemos de lado as paredes do estabelecimento que Giuliana pretende abrir, uma ideia que duvidamos que esta consiga levar adiante. Veja-se o fumo emanado pela fábrica, ou o rio poluído, ou a forma como Antonioni consegue captar os ritmos de um espaço industrial com um misto de poesia e terror. O espaço industrial é o paradigma da complexidade do filme ou não ficássemos diante de algo que simboliza o progresso, embora os efeitos secundários provocados no território, em particular a poluição, sejam notórios. Veja-se logo nos momentos iniciais do filme quando encontramos um espaço completamente poluído, dominado por tonalidades escuras, com o a paleta cromática a ter sido propositadamente alterada por Antonioni, com o cineasta a mandar colorir diversos cenários e objectos filmados para provocar o efeito desejado no espectador. Esta situação é salientada por Mark Le Fanu no seu artigo escrito para a Criterion: "The publicity for the film made much play with the way Antonioni had instructed his art director, Piero Poletto, in certain sequences, to apply coverings of paint to the living landscape, and to certain objects (like the displayed fruit on the cart); yet the contemporary viewer, half a century later, is struck by how little the film’s total aesthetic effect seems to owe to such overt stylization". Encontramos uma forte ligação entre o cinema e a pintura, com cada plano a ter sido pensado e planeado ao pormenor. Veja-se quando encontramos Corrado na rua onde se encontra localizada a loja de Giuliana: os edifícios são marcados pelas tonalidades cinzentas, surgindo algo degradados, enquanto a roupa do protagonista combina com este espaço. O clima é frio, bem como a atmosfera que rodeia alguns dos cenários, embora as emoções encontrem-se bem vivas, com Antonioni a captar uma certa atmosfera de malaise que parece representada na figura da protagonista, uma mulher recheada de neuroses, que procura cuidar do filho da melhor forma possível, que tenta amar o marido, embora pareça muitas das vezes deprimida e isolada de tudo e todos. Nem sempre a compreendemos, nem Giuliana deve saber propriamente aquilo que pretende para futuro, com este a parecer encontrar-se envolvida numa névoa tão forte como aquela que cobre os personagens num determinado momento da narrativa. Diga-se que esta parece ser afectada pelo espaço que a rodeia, ao contrário do esposo, uma situação comentada de forma bastante assertiva por Jamie S. Rich no seu texto para o DVD Talk: "The smokestacks, hazardous sludge, and industrial grays and browns of her village are like a living metaphor for the disconnect she feels. While her husband and even her son have adapted to modern life, Giuliana has not". Parte daquilo que encontramos e ouvimos ao longo de "Il deserto rosso" também pode reflectir a maneira como a protagonista encara o espaço e as gentes que a rodeiam, com Antonioni a deixar em aberto uma série de interpretações em relação ao filme. A não adaptação de Giuliana às mudanças é algo que parece ficar latente num história que esta conta ao filho sobre uma rapariga que gosta de nadar isolada na praia. O conto é representado com tonalidades mais quentes, com "Il deserto rosso" a expor-nos a alguns momentos que mesclam uma estranha beleza e mistério. Entre relações complexas, sentimentos díspares, planos belíssimos, uma utilização sublime da paleta cromática e da sonoplastia, "Il deserto rosso" inquieta-nos, desperta uma miríade de sentimentos, estimula a nossa capacidade de interpretar as imagens, apoquenta a nossa alma, deleita-nos com a interpretação brilhante de Monica Vitti e um trabalho soberbo de um dos grandes mestres da História do Cinema: Michelangelo Antonioni.

Título original: "Il deserto rosso".
Título em Portugal: "O Deserto Vermelho".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra.
Elenco: Monica Vitti, Richard Harris, Carlo Chionetti, Xenia Valderi.

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