10 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "The Danish Girl" (A Rapariga Dinamarquesa)

 Os filmes realizados por Tom Hooper contam na maioria das vezes com uma atenção latente aos cenários e ao guarda-roupa, para além de ser notório que o cineasta consegue extrair algumas interpretações de relevo por parte dos elementos que compõem o elenco das suas obras cinematográficas. Em "The Danish Girl", Tom Hooper deixa Eddie Redmayne e Alicia Vikander sobressaírem, naquele que é um filme de cariz biográfico bem intencionado mas demasiado simplista na abordagem das temáticas, parecendo ter problemas em envolver-se em situações mais complexas e ferir a susceptibilidade de alguns espectadores. Tom Hooper quer agradar a Gregos e a Troianos, quase que o consegue, mas as figuras históricas que retrata pediam algo mais do que aquilo que o cineasta parece disposto a oferecer. É um filme que procura a beleza e o glamour, mesmo em momentos em que se pedia mais contenção, embora a dinâmica entre Alicia Vikander e Eddie Redmayne, bem como todo um conjunto de elevados valores de produção, consigam esconder diversas lacunas. "The Danish Girl" aborda livremente parte da história de Einar (Eddie Redmayne) e Gerda Wegener (Alicia Vikander), um casal de pintores dinamarqueses, que alcançaram um sucesso relativamente notório. A história começa por volta da década de vinte, do Século XX, com Gerda a apresentar uma mentalidade e postura aberta, alguma criatividade e elegância embora ainda não se tenha imposto no ramo da pintura como Einar. É então que Ulla (Amber Heard), uma modelo, falta a uma das sessões de pintura de Gerda. Esta decide vestir Einar de mulher, algo que o esposo acede, procurando aos poucos copiar os gestos das figuras femininas. Tudo começa como um jogo. Einar é a boneca improvável de Gerda, bem como o seu maior confidente, com os quadros que contam com Lili, o pseudónimo do primeiro, a serem um sucesso. Ambos apresentam uma cumplicidade latente, algo notório quando o Einar decide utilizar roupa interior de Gerda, com esta a não parecer incomodada. Diga-se que Gerda até chega a incentivar Einar a visitar um evento público como Lili, com esta a começar a ser a sua faceta principal. No evento, Lili desperta a atenção de Henrik (Ben Whishaw), um indivíduo homossexual que parece causar algum impacto no pintor que, aos poucos, começa a deixar sobressair a sua orientação sexual. Eddie Redmayne consegue compor um personagem que foge à caricatura, embora a espaços quase que perigue a cair na mesma, ao mesmo tempo que apresenta delicadamente as transformações vividas por Einar. Este começa a imitar os gestos de mulheres, a vestir-se e a maquilhar-se como tal, até sentir que deixou de ser Einar e passou a ser Lili. A situação afecta o casamento com Gerda. É através desta que acompanhamos diversas transformações de Einar, incluindo o maior à vontade do personagem interpretado por Eddie Redmayne como Lili. Alicia Vikander acompanha Eddie Redmayne com uma interpretação de relevo (é uma idiotice que esteja nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Secundária quando é claramente uma das protagonistas do filme), conseguindo expressar o turbilhão de sentimentos que perpassa pela alma de Gerda. Esta começa inicialmente a incentivar o esposo a vestir-se como uma mulher, embora perceba gradualmente, tal como Einar, que este é um caminho sem retorno.

 "The Danish Girl" apresenta-nos a procura de Einar em assumir a sua sexualidade como mulher, algo proibido na época, uma situação demonstrada nas consultas médicas que este frequenta. Einar é confrontado com relatórios médicos a indicarem perversão sexual ou esquizofrenia, embora este saiba que não é louco, tal como Gerda percebe que o esposo não ensandeceu, apenas assumiu a orientação sexual e a identidade que reprimia. O sucesso dos quadros de Gerda conduz o casal a Paris, um local onde Lili volta a aparecer, mesmo quando a primeira contacta com Hans Axgil (Matthias Schoenaerts), um negociador de arte, amigo de infância de Einar. Hans apresenta algum interesse em Gerda, embora Matthias Schoenaerts interprete um dos vários personagens secundários que raramente é devidamente aproveitado ao longo do filme. Parece que existe medo ou receio de tirar o foco de Gerda e Lili, algo que torna o filme demasiado dependente de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. É então que, após consultas com diversos especialistas, Lili encontra no Dr. Kurt Warnekros (Sebastian Koch) a figura que parece ter a solução para o seu dilema. Kurt Warnekros propõe uma operação pioneira, em particular uma cirurgia de confirmação de género. Este procedimento obriga a diversas operações e coloca a vida de Lili em risco, embora a personagem interpretada por Eddie Redmayne decida avançar para a cirurgia. O filme apresenta um pouco da complexidade desta cirurgia, embora o argumento de Lucinda Coxon, inspirado no livro "The Danish Girl" de David Ebershoff, falhe em conseguir explanar o processo intrincado da mesma, tal como a espaços parece apresentar uma falta de coragem a abordar a temática da transexualidade. Tom Hooper encontra beleza em quase tudo, evita explorar temáticas mais problemáticas, tais como o modo como Einar ou melhor Lili era encarada por aqueles que outrora o rodeavam, ou os preconceitos na sociedade de Copenhaga, ou o processo que conduziu à oficialização da mudança de nome, ou a forma como foi recebido pelos familiares, entre outros exemplos. "The Danish Girl" é um filme bem intencionado, disso não parece existir dúvida, mas isso não chega para deixar de lado a sensação de que Tom Hooper tinha matéria-prima à disposição para fazer algo mais. A falta de aproveitamento de elementos secundários como Matthias Schoenaerts ou Amber Heard exibe algum descuido, tal como o pouco desenvolvimento da relação entre Lili e Henrik. No entanto, é notório que existe todo um cuidado a nível do guarda-roupa, dos cenários e da caracterização tendo em vista a transmitir o espírito da época (ainda que o filme assuma diversas liberdades históricas), bem como uma atenção aos gestos da personagem interpretada por Eddie Redmayne, em particular a sua relação com o corpo. A relação entre Lili e o corpo surge pontuada por toda uma sensação de descoberta, com Eddie Redmayne a explorar que inicialmente a personagem procura acima de tudo imitar as mulheres com quem contacta. Veja-se quando decide entrar numa cabine para ver o espectáculo de uma stripper, começando a emular os gestos da mesma, ou quando utiliza as vestimentas da esposa. A transformação é gradual, implica mudanças na forma de agir e vestir, com Eddie Redmayne a compor o personagem com assertividade. A dinâmica entre Alicia Vikander e Eddie Redmayne é fundamental para o filme funcionar, com a dupla a convencer como este casal dotado de enorme intimidade, que procura conviver com toda uma nova realidade. Gerda procura apoiar o esposo, embora em alguns momentos apresente dúvidas em relação aos novos acontecimentos que pontuam a sua vida. Tudo começa numa mera brincadeira, na casa do casal, na Dinamarca, um espaço decorado com um primor assinalável, pontuado por diverso material de pintura, quadros e um simpático cachorrinho que faz companhia à dupla de protagonistas. A vida de ambos muda a partir do momento em que Einar se assume como Lili, algo demonstrado por Tom Hooper ao longo de "The Danish Girl", uma obra cinematográfica pontuada por bons valores de produção e interpretações de relevo por parte de Eddie Redmayne e Alicia Vikander, embora pareça certo que o cineasta poderia ter feito bem mais com o material que tinha à disposição.

Título original: "The Danish Girl".
Título em Portugal: "A Rapariga Dinamarquesa".
Realizador: Tom Hooper.
Argumento: Lucinda Coxon.
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Sebastian Koch, Amber Heard.

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