01 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Victoria" (2015)

 Capaz de nos fazer partilhar as emoções da sua protagonista e das figuras que a rodeiam, "Victoria" surge como uma obra cinematográfica brilhantemente filmada que procura escapar a catalogações fáceis, enquanto nos delicia com o seu longo plano-sequência e a interpretação sublime de Laia Costa. O primeiro nome a surgir em destaque nos créditos finais de "Victoria" pertence ao director de fotografia Sturla Brandth Grøvlen, algo que é revelador do contributo deste indivíduo para a mestria com que esta magnífica obra cinematográfica é filmada. Inteiramente filmado num único e inspirado plano-sequência, "Victoria" é um hino ao cinema e ao trabalho do actor, com Sebastian Schipper, o realizador, a nunca deixar que este recurso se sobreponha a algo de essencial: a construção do enredo e dos personagens. Diga-se que o trabalho meritório de Sebastian Schipper e Sturla Branth Grøvlen de pouco ou nada valeria se não servisse os propósitos da narrativa, com este impressionante plano-sequência, que dura as cerca de duas horas e dezoito minutos de duração de "Victoria", a contribuir para a facilidade com que somos compelidos a acreditar nos personagens. Os elementos do elenco são competentes a explorar as dinâmicas criadas entre os personagens que interpretam, enquanto Sebastian Schipper tem o mérito de nos compelir a sentir que somos parte activa dos episódios que se desenrolam e a criar empatia entre os protagonistas e o espectador. Nesse sentido, o facto de ter sido filmado em plano-sequência, em tempo real, permite criar toda uma sensação de imediatismo, com "Victoria" a ter sido rodado entre as 4h:30 e 7h:00 da manhã, nas redondezas de Kreuzberg e Mitte. A câmara acompanha sobretudo Victoria (Laia Costa), a personagem do título e protagonista, uma jovem que nasceu e estudou em Espanha, tendo ido viver e trabalhar para Berlim após os seus sonhos se terem esfumado. Laia Costa tem uma daquelas interpretações que facilmente ficam na memória e deixam marca no espectador, com a actriz a conseguir transmitir as incertezas e fragilidades da personagem que interpreta mas também a imprevisibilidade de Victoria, uma jovem que estudou no Conservatório, onde procurou aperfeiçoar a sua técnica como pianista, embora os dezasseis anos e meio que passou a treinar a sua arte não lhe tenham servido para muito. Victoria não sabe praticamente nada de alemão, contactando com os seus interlocutores em inglês, algo que Sebastian Schipper retrata como uma situação completamente normal, com a protagonista a ser uma das muitas imigrantes que laboram nesta cidade em busca de melhores condições de vida. No início do filme encontramos Victoria no interior de uma discoteca, a dançar de forma libertadora, com as luzes e a música a contribuírem para um momento palpitante que está longe de representar a tensão e claustrofobia do último terço. Esta é uma jovem algo solitária, que não parece saber bem aquilo que pretende para o futuro, encontrando-se a dançar sozinha na discoteca, embora desperte facilmente a atenção das figuras masculinas, algo comprovado quando sai do estabelecimento e é interpelada por "Sonne" (Frederick Lau), "Boxer" (Franz Rogowski), "Blinker" (Burak Yigit) e "Fuss" (Max Mauff). Estes quatro indivíduos formam um grupo peculiar e heterogéneo que protagoniza uma série de episódios com Victoria. Os episódios vão desde o acto mais simples e divertido, ao mais terno e romântico, até ao mais tenso e perigoso, com a noite destes personagens a revelar-se uma montanha-russa de emoções, enquanto somos compelidos a "viver" os mesmos de forma intensa.

Sonne é o indivíduo mais afável e carismático do grupo, procurando despertar a atenção de Victoria, enquanto protagoniza inicialmente alguns episódios que contribuem para que comecemos a gostar de ver esta dupla reunida. Roubam bebida alcoólica numa loja de conveniência, bebem mais do que a conta, andam de bicicleta, divertem-se, expõem os seus sentimentos, com Sebastian Schipper a conseguir desenvolver os relacionamentos entre os diversos elementos de forma orgânica ao mesmo tempo que nos dá a conhecer vários pormenores relacionados com o passado de ambos. Veja-se quando Sonne acompanha Victoria até ao café, tendo em vista a esta ficar no local de trabalho até o estabelecimento abrir ao público. Ela fala sobre o seu passado, exibe o seu talento para tocar piano e expõe o seu estado de alma, enquanto Laia Costa sobressai pela dimensão que atribui a esta personagem. Diga-se que boa parte dos diálogos de "Victoria" são improvisados, com o argumento a contar apenas com doze páginas, embora muito tenha sido trabalhado durante as filmagens, algo comentado por Sebastian Schipper no press kit do filme: "There was no script. We had twelve pages. Scenes, locations and general actions of the characters were written down. Everything else, and especially dialogue, was improvised. But at the same time this description does not really capture what we did at all. Since we shot the film in one take – and, yes, we did it more than once – we were able to see the (complete) film very early on. So we had the chance (and the challenge) to develop the ideas, the characters, the plot, the motivations much earlier than in a classic setup". Nesse sentido, existe espaço para os actores e para a actriz principal improvisarem, enquanto exibem um enorme à vontade entre si: Frederick Lau concede ambiguidade e "presença" a "Sonne", um indivíduo de aparente boa índole, falador, dotado de espírito de liderança, capaz de cometer actos pouco recomendáveis, embora desperte alguma da nossa simpatia; Franz Rogowski surge de cabelo rapado, dotando Boxer de uma personalidade lacónica e violenta; Burak Yigit aparece como o expansivo Blinker, enquanto Max Mauff interpreta "Fuss", um indivíduo beberrão que faz anos na noite em que se desenrola a narrativa. Todos estes personagens contam com um passado algo nebuloso, que o diga Boxer, com este a ser obrigado a efectuar um assalto a um banco tendo em vista a pagar a um gangster (André Hennicke) que lhe prestou protecção nos tempos em que esteve preso. A partir do momento em que o quarteto tem de colocar o assalto em prática, acabando por arrastar Victoria para o acto criminoso, a narrativa começa a assumir contornos mais tensos e violentos, bem como a banda sonora e o trabalho de câmara. Victoria não sabe inicialmente àquilo que vai, acabando por se envolver num episódio que promete mudar a sua vida e dos quatro elementos que acabara de conhecer. Não vamos revelar o resultado do assalto, embora seja necessário salientar que Sebastian Schipper raramente se encontra interessado na colocação do mesmo em prática, procurando antes explorar os acontecimentos que antecedem e se sucedem ao acto criminoso. Gera-se uma atmosfera claustrofóbica, com os momentos mais apolíneos vividos pelo quinteto durante a primeira metade de "Victoria", onde parecia existir uma mescla de realismo e fantasia, a darem lugar a episódios tensos e inquietantes. É certo que Sebastian Schipper nem sempre parece ter o discernimento para agilizar a narrativa, quando parece notório que esta conta com uns trinta minutos a mais e uns plot holes pelo meio (a não ser que a tecnologia para analisar impressões digitais ainda não tenha chegado à Alemanha), embora seja notório que o cineasta cria algo estranhamente envolvente, com o trabalho de Sturla Brandth Grøvlen a ser fundamental para o resultado final de "Victoria".

Filmar uma obra cinematográfica num único plano-sequência não é algo novo, tal como esta técnica está longe de ser inovadora, embora isso não retire mérito ao feito de "Victoria", com Sebastian Schipper a criar um filme que tanto tem de belo como de violento, ao mesmo tempo que deixa o elenco sobressair e explanar o seu talento. Laia Costa e Frederick Lau são os nomes do elenco que mais se destacam, com os personagens que interpretam a gerarem empatia entre si e com este espectador, com o argumento a dar espaço para os intérpretes improvisarem, embora exista sempre a noção de que muito daquilo que nos é apresentado é fruto de imenso talento e trabalho. Veja-se as cenas no terraço onde os silêncios por vezes valem tanto como os diálogos, ou um trecho no interior de um elevador onde a banda sonora sobrepõe-se aos diálogos, com Sebastian Schipper a criar uma obra cinematográfica que está longe de se ater a catalogações como "filme de assalto", "drama" (a jovem solitária, sem um futuro profissional definido), "romance" (entre Victoria e Sonne), "acção" (os trechos que se seguem ao assalto), mesclando ingredientes de todos estes géneros e subgéneros. Embora não seja um filme inovador, "Victoria" é uma experiência e tanto, com o seu requinte a nível técnico a nunca sobressair em relação ao enredo e aos personagens, com a protagonista a ser uma figura complexa e intrigante. Nem sempre compreendemos as atitudes desta jovem. Diga-se que a certa altura esta parece tão surpreendida como nós, deixando-se levar pelo destino, tal como o espectador é compelido por Sebastian Schipper a seguir estes episódios. Sentimos as dúvidas dos protagonistas, as suas inquietações e sensações, com "Victoria" a ter o mérito de conseguir que os sentimentos dos diversos personagens sejam transmitidos para o espectador, ou pelo menos para o blogger que escreve esta resenha sobre o filme. O cineasta arriscou, tendo visto essa audácia recompensada com um trabalho final muito recomendável, a espaços belíssimo, por vezes violento e dramático, com "Victoria" a ter sido resultado da terceira filmagem da obra cinematográfica após duas iniciativas iniciais que não foram do agrado de Sebastian Schipper. Este coordena uma equipa competente, sobressaindo desde logo o magnífico trabalho de Sturla Brandth Grøvlen, com a câmara de filmar a surgir quase como uma personagem ao longo do filme. A câmara segue os personagens, irrequieta-se ao sabor dos sentimentos dos protagonistas, deixando-nos muitas das vezes perante o ponto de vista de Victoria, algo que é essencial para criar uma certa empatia entre o espectador e a mesma, bem como para termos a noção daquilo que esta se encontra a vivenciar e sentir. A luz natural é utilizada de forma exímia, bem como a câmara na mão, com "Victoria" a envolver-nos para o interior desta montanha-russa de emoções. Tecnicamente brilhante, acompanhado por uma banda sonora que incrementa a narrativa, "Victoria" consegue aliar estilo e substância, com as dinâmicas entre os personagens e a interpretação de Laia Costa a serem alguns dos pontos fortes desta bela surpresa oriunda da Alemanha.

Título original: "Victoria"
Realizador: Sebastian Schipper.
Argumento: Olivia Neergaard-Holm, Sebastian Schipper, Eike Frederik Schulz.
Elenco: Laia Costa, Frederick Lau, Franz Rogowski, Max Mauff, Burak Yigit.

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