15 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Taxi Driver" (1976)

 O que falamos quando falamos de Travis Bickle (Robert De Niro)? Falamos de um antigo marine que ainda parece padecer dos traumas do cumprimento do serviço militar na Guerra do Vietname, um indivíduo solitário que tem enormes dificuldades em comunicar com outros seres humanos, um elemento paranoico e psicótico que se irrita facilmente com as injustiças existentes na sociedade. É também um dos personagens mais marcantes da carreira de Robert De Niro, com "Taxi Driver" a surgir como mais uma das célebres colaborações entre o actor e Martin Scorsese, com o cineasta a voltar a utilizar a narração na primeira pessoa para incrementar a narrativa e expor aquilo que ocorre no interior da mente do protagonista. Travis vive sozinho no seu pequeno apartamento onde não consegue dormir, parecendo atormentado por algo que nem o próprio sabe. Muitas das vezes não sabemos aquilo que este indivíduo pensa embora, quando descobrimos os seus pensamentos, até tenhamos medo daquilo que este pode vir a fazer, algo paradigmaticamente representado quando salienta: "Listen, you fuckers, you screwheads. Here is a man who would not take it anymore. A man who stood up against the scum, the cunts, the dogs, the filth, the shit. Here is a man who stood up". A certa altura do filme podemos encontrar Travis a observar atentamente uma cápsula efervescente a desfazer-se na água. Martin Scorsese dá especial atenção a este pequeno episódio que encontra paralelo na personalidade de Travis ou o ex-marine não surgisse como alguém que a qualquer momento esperamos ver a efervescer ao ponto de praticamente se destruir. Decide inscrever-se como taxista, de forma a encontrar uma ocupação nocturna, mas facilmente se irrita a circular pelas estradas, com Martin Scorsese a deixar-nos diante dos bares, das ruas, dos cinemas, mas também perante a prostituição, o tráfico de droga e a violência presente nos espaços urbanos. Travis revolta-se com aquilo que observa, ao contrário dos seus colegas, uma situação que expõe em vários dos seus pensamentos: "All the animals come out at night - whores, skunk pussies, buggers, queens, fairies, dopers, junkies, sick, venal. Someday a real rain will come and wash all this scum off the streets (...)". É alguém revoltado com a vida, uma bomba relógio que traz consigo todas as contradições de uma sociedade incapaz de reintegrar os seus antigos combatentes, com Travis a parecer ter saído claramente traumatizado pelos serviços militares prestados na Guerra do Vietname. Ainda gera uma obsessão amorosa por Betsy (Cybill Shepherd), uma mulher que se encontra a trabalhar na campanha do Senador Charles Palantine (Leonard Harris) ao cargo de Presidente. Consegue convencer esta mulher a ir consigo ao café e até ao cinema, mas o seu jeito para conviver com outros seres humanos é completamente desastrado, algo notório quando Betsy percebe que o convite é para ver filmes pornográficos numa sala que exibe essas obras cinematográficas. São elementos completamente distintos. Ela é bela, frágil, culta e inteligente, sente alguma curiosidade para descobrir quem é Travis, embora seja notório que ambos pertencem a "dois Mundos" diferentes. Ele é feroz, imprevisível, pronto a expor todas as dicotomias de um território fervilhante e a explanar a sua raiva.

A relação implode antes mesmo de começar, com Travis a apresentar uma revolta cada vez maior em relação à realidade que o rodeia, sobretudo quando é rejeitado por Betsy. Travis considera que é completamente normal ver filmes pornográficos, ou estes acto não fizesse parte da sua rotina. Betsy encara a ida ao cinema como algo insultuoso, com esta saída e os comportamentos meio loucos do protagonista a contribuírem para a primeira decidir findar esta relação pontuada por alguma proximidade e estranheza. Temos ainda alguns momentos do protagonista com os colegas, bem como com um cliente (Martin Scorsese) que procura observar a esposa com o amante através do táxi de Travis, pretendendo eliminar a mesma. Martin Scorsese dispara as suas falas como ritma o seu filme: fulgurante, intenso e sentido. No entanto é a Robert De Niro que cabe o maior destaque, com este a expor toda a psicose e fragilidades emocionais do personagem que interpreta, algo que se adensa quando Travis decide começar a treinar o seu físico e comprar armas, assumindo uma faceta de justiceiro vingador, sobretudo quando conhece Iris (Jodie Foster), uma jovem prostituta que conta com "Sport" (Harvey Keitel) como proxeneta. Iris é uma jovem que inicialmente pretende fugir de "Sport", mas este obriga-a a sair do táxi. Travis volta a encontrá-la, procurando proteger e libertar a jovem, mesmo que esta não pareça ser a vontade da personagem interpretada por Jodie Foster, com a actriz a protagonizar alguns momentos dignos de atenção ao lado de Robert De Niro. O taxista ainda parece preparado para protagonizar um atentado e eliminar Palantine, já com o seu visual com o cabelo à moicano, utilizando trajes muito próprios e um olhar cada vez mais perturbador. A presença de Travis desperta a atenção dos seguranças, com estes elementos a procurarem evitar um possível atentado, com "Taxi Driver" a trazer ecos dos assassinatos de John F. Kennedy e Robert F. Kennedy, enquanto o argumento explora temáticas típicas da atmosfera de malaise deste período da História dos EUA (o filme foi lançado originalmente em 1976). Ficamos perante um thriller psicológico intenso, marcado por um argumento de excelência de Paul Schrader, enquanto Martin Scorsese nos deixa diante da mente complexa deste personagem perturbado. Em certos momentos, Travis até nos faz recordar o protagonista de "The Diary of a Country Priest", um indivíduo que partilha muito do seu quotidiano no diário, apresentando uma enorme incapacidade para lidar com os restantes seres humanos, embora no caso do filme realizado por Robert Bresson a contenção e repressão de sentimentos seja a ordem do dia. Travis é explosivo, inquietante e inquieto, revoltando-se com enorme facilidade, embora reprima inicialmente os seus ímpetos enquanto circula por um espaço citadino representado de forma algo pessimista e violenta. A rotina do protagonista pela noite é marcada por enorme realismo, com as suas viagens solitárias no táxi a serem expostas de forma amiúde, enquanto o personagem deixa-nos perante os seus pensamentos. Robert De Niro chegou a conduzir um táxi durante várias semanas, tendo em vista a preparar-se para interpretar o personagem, para além de ter perdido peso de forma a compor com maior cuidado este ex-marine complexo que se encontra prestes a explodir. Travis não é capaz de iniciar grandes amizades, nem parece ter formado grandes amigos no passado, procurando a determinada altura do filme traçar um plano para eliminar Palantine, exibindo-se incapaz de controlar os seus impulsos violentos, sendo rejeitado por quase tudo e todos aqueles de quem se aproxima. Este surge quase como um vingador que procura exterminar os crimes e pecados da Terra, mas também como alguém perturbado e frágil que aos poucos começa a soltar os seus demónios interiores. É um tipo solitário, algo que tem consciência quando salienta que "Loneliness has followed me my whole life, everywhere. In bars, in cars, sidewalks, stores, everywhere. There's no escape. I'm God's lonely man", embora os seus comportamentos nem sempre ajudem. Ainda conta com alguns momentos de conversa com colegas como Wizard (Peter Boyle), Charlie T (Norman Matlock) e Doughboy (Harry Northup) mas são situações demasiado pueris e momentâneas para causarem qualquer impacto no quotidiano do protagonista.

É o quotidiano de Travis que "Taxi Driver" se propõe a apresentar-nos, bem como a sua personalidade e a sua alma, com a banda sonora de Bernard Herrmann a adornar na perfeição os ritmos do filme, enquanto Martin Scorsese deixa-nos perante uma escalada gradual de violência por parte parte do protagonista, naquela que é uma das obras definidoras da carreira do cineasta. Não faltam momentos marcantes como Travis a treinar com as armas o seu posicionamento e falas, tais como a célebre "You Talkin' to Me?" ou o sangrento último terço onde Martin Scorsese nos deixa mais uma vez perante uma representação visceral da violência. Temos ainda a representação deste espaço citadino, com "Taxi Driver" a surgir como um neo-noir a fazer recordar a atmosfera algo pessimista dos filmes do subgénero noir do pós-II Guerra Mundial, não faltando espaços nocturnos, a criminalidade e insegurança, para além de um protagonista que é muito fruto do seu tempo. Não sabemos grandes pormenores sobre o seu trabalho no Vietname, nem este nos conta grandes elementos sobre o seu passado, tais como possíveis missões, amizades ou traumas. O que sabemos é que o seu presente é complicado e pouco promissor, numa obra marcada por uma atmosfera negra onde a qualquer altura esperamos que Travis expluda e solte todas as suas psicoses. Robert De Niro surge exímio como este indivíduo meio louco, meio justiceiro, enquanto elementos como Cybill Shepherd, Jodie Foster e Martin Scorsese também conseguem sobressair, apesar de "Taxi Driver" ser o "espectáculo" do primeiro. Este encarna todas as dicotomias e complexidade de Travis com um à vontade notável, ao mesmo tempo que ficamos perante a alienação cada vez maior deste personagem perante a sociedade e a sua vontade em efectuar algo de relevante, mesmo que isso implique actos completamente extremistas. Diga-se que "Taxi Driver" surge como um produto que é paradigmaticamente fruto de um período algo pessimista dos EUA, com o final do Código Hays e o contexto histórico a contribuírem para esta representação visceral, algo que a espaços até nos remete para obras cinematográficas desta década como "Death Wish" onde também tínhamos um justiceiro por conta própria, ou "Dirty Harry", uma filme onde Clint Eastwood interpreta um polícia que transgride as regras para deter os criminosos. A violência nos espaços urbanos surge presente nos três exemplos mencionados, com "Taxi Driver" a remeter ainda para os traumas de Guerra e a solidão, num filme onde o génio de Martin Scorsese surge bem patente. Este explora os cenários de Nova Iorque, a complexidade inerente à personalidade do protagonista, extrai interpretações de bom nível por parte do elenco, utiliza de forma amiúde a tonalidade vermelha com enorme inspiração e significado, com "Taxi Driver" a roçar praticamente a perfeição. Com uma interpretação marcante de Robert De Niro e um retrato realista dos espaços nocturnos de Nova Iorque, "Taxi Driver" surge como um filme neo-noir pontuado por uma atmosfera de malaise e traços de thriller psicológico, onde a Guerra do Vietname e os seus efeitos se fazem sentir no protagonista, um homem solitário e pouco falador que tem no seu âmago uma violência irascível difícil de controlar.

Título original: "Taxi Driver".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Paul Schrader.
Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Albert Brooks, Harvey Keitel, Leonard Harris, Peter Boyle, Cybill Shepherd.

Sem comentários: