06 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Shutter Island" (2010)

 A influência de alguns filmes de terror produzidos por Val Lewton parece ser notória em "Shutter Island". Veja-se quando encontramos Edward "Teddy" Daniels e o seu novo parceiro, Chuck Aule (Mark Ruffalo), a chegarem ao local do título, tendo em vista a investigarem o desaparecimento de uma perigosa paciente do Ashecliffe Hospital. É impossível não recordar "Isle of the Dead", onde o General Pherides (Karloff) e o jornalista Oliver Davis (Marc Cramer) deslocaram-se ao local do título, também de barco, deparando-se com um conjunto de situações bizarras e mortes. O terror psicológico e o medo estão presentes em "Shutter Island" e "Isle of the Dead", com ambos os filmes mencionados a não se ancorarem nos sustos gratuitos e gore. Também vários trabalhos de Alfred Hitchcock parecem ter servido como fonte de inspiração, algo demonstrado pela obsessão do protagonista, o receio que o cineasta procura despertar no espectador e o mistério que envolve a narrativa, mas também pelas referências que Martin Scorsese efectuou em relação aos filmes do primeiro ao salientar: "(...) I showed my colleagues his “The Wrong Man”, which is slightly different. The main character in that is innocent but he feels guilt for who he is. In his core, he is guilty. This interests me. I was raised Catholic and I’m interested in that aspect of ourselves. It has to do with guilt or a concept of original sin, if it exists. All these aspects always come to mind. It’s who I am and what I do. I try to be hipper but I can’t". Diga-se que Martin Scorsese não teve problemas em expor as várias referências que o inspiraram e se tornam notórias ao longo de "Shutter Island", algo que realçou com pormenor em entrevista ao IndieLondon: "(...) the first film I showed Leo, Mark Ruffalo and Sir Ben was Laura, Otto Preminger’s film, to get a sense of the war-ravaged hero… world-weary so to speak, the body language of Dana Andrews, the man who falls in love with a ghost. Then we screened Out Of The Past, Jacques Tourneur – the trap, the puzzle, the mystery, the beauty and the poetry of that film. Then there was Cat People and I Walked With a Zombie too. But primarily Out of the Past – for noir. Let There Be Light, the John Huston film. The Steel Helmet… we showed for the nature of the soldier. There were many others for points of reference". As referências são mais do que muitas e de géneros distintos, mas "Shutter Island" destaca-se acima de tudo por surgir como um puzzle que gradualmente se resolve diante de nós e consegue apanhar-nos relativamente desprevenidos. "Shutter Island" procura inquietar-nos com a sua atmosfera gradualmente opressora e por toda a estranheza que rodeia o Ashecliffe Hospital, um espaço destinado a albergar criminosos que padecem de doenças mentais.

A instituição é marcada por enorme segurança, funcionários pouco prestáveis e doentes perturbadores e perturbados, encontrando-se localizada numa ilha onde o Sol é regularmente engolido pelas sombras e nevoeiro, enquanto somos colocados diante de dois inspectores do U.S. Marshals, que parecem uma dupla de detectives saída de um filme noir. De gabardina e fumadores, estes não têm problemas em envolver-se em problemas, sobretudo Teddy, um personagem implacável no cumprimento dos seus objectivos, que Martin Scorsese procurou que se parecesse com o protagonista de "Laura", interpretado por Dana Andrews. Existe uma certa atmosfera de malaise, também presente nos filmes noir, em "Shutter Island" ou não estivéssemos perante um enredo que se desenrola em 1954, com as memórias da participação na II Guerra Mundial e dos campos de concentração a estarem relativamente presentes na mente do protagonista. Este é um homem atormentado que reprime as memórias do passado, surgindo como um dos vários protagonistas das obras de Martin Scorsese que, em determinado momento, lidam com o sentimento de culpa (veja-se o protagonista de "Mean Streets" em relação a Johnny Boy, ou o personagem interpretado por Ray Liotta em "Goodfellas" por quebrar os códigos da máfia). Teddy encontra-se no interior de um território claustrofóbico, algo misterioso e mais inseguro do que poderia inicialmente parecer, tendo em vista a encontrar Rachel Solando (Emily Mortimer), uma paciente que supostamente se encontra desaparecida, tendo sido acusada de assassinar os seus três filhos e de ter criado toda uma realidade na sua mente onde estes ainda se encontram vivos. Também Teddy perdeu a esposa (Michelle Williams), ainda que num incêndio provocado por Andrew Laeddis (Elias Koteas), um elemento que supostamente se encontra internado em Ashecliffe, algo que conduz o protagonista a ter uma agenda escondida que passa por encontrar o criminoso no meio deste espaço que conta com três alas e um misterioso farol. A busca por Rachel não se afigura fácil, algo que Teddy e Chuck percebem desde o início quando são obrigados a deixar as suas armas à entrada deste espaço claustrofóbico. John Cawley (Ben Kingsley), o chefe da ala psiquiátrica e do projecto levado a cabo para tratar os doentes, procura ceder o mínimo de informação possível, bem como o Dr. Jeremiah Naehring (Max Von Sydow), outro dos membros que lideram este local, com a investigação a ganhar contornos ainda mais complicados quando Teddy e Chuck descobrem que o Dr. Sheehan, o médico da fugitiva, se encontra de férias. Naehring não desperta a confiança do protagonista, sobretudo devido a ser alemão, apesar de surgir como um elemento aparentemente ponderado que procura questionar os dois detectives sobre os seus hábitos e comportamentos. Já Cawley mantém sempre um certo mistério em volta da sua pessoa, parecendo a espaços ter pouco interesse na presença dos dois detectives. Estes ainda tentam interrogar as enfermeiras e enfermeiros que laboram no local, embora as informações que obtêm sobre o desaparecimento não sejam conclusivas. Uma tempestade provoca o corte temporário das linhas telefónicas, com as dúvidas de Teddy e Chuck a aumentarem cada vez mais, embora decidam prosseguir com a investigação, enquanto a paranoia parece tomar conta da mente e do corpo do personagem interpretado por Leonardo DiCaprio.

Chuck surge como uma figura mais calma em relação ao protagonista, com Mark Ruffalo a procurar não deixar transparecer a verdadeira identidade do personagem que interpreta, enquanto ajuda Teddy numa missão que a espaços ganha contornos de pesadelo. Envolvem-se pelos espaços exteriores, recheados de arvoredos e montanhas elevadas, em plena tempestade; procuram interrogar alguns detidos, mas as informações que conseguem obter parecem inconclusivas. O que parece ainda mais bizarro são as estranhas alucinações que Teddy tem da falecida esposa, com a personagem interpretada por Michelle Williams a surgir como uma figura que procura comunicar com o esposo e aparece quase como a sua consciência, embora facilmente desapareça pelas brumas da memória. Existe um momento meio idílico, meio assustador e bizarro, onde a esposa de Teddy surge deslumbrante, com o seu cabelo loiro a parecer ter sido penteado para uma ocasião especial, enquanto as chamas consomem gradualmente o cenário e o corpo da personagem interpretada por Michelle Williams, ao mesmo tempo que esta dialoga com Teddy. Ficamos entre o delírio e a realidade, entre a loucura e os traumas do passado, com este momento a demonstrar paradigmaticamente todo o cuidado colocado na utilização da iluminação e da cor ao longo do filme, bem como o estado convulso em que se encontra o interior da mente de Teddy. Será que este apenas nutre saudades em relação à esposa? Uma das vertentes que mais sobressai em "Shutter Island" é a sua capacidade em nos surpreender, em revelar-se um quebra-cabeças que nos instiga a querer descobrir passo a passo o enredo, mesmo que isso implique revelações nefastas para o protagonista. Leonardo DiCaprio consegue compor um personagem complexo, com Teddy a surgir como o elemento que mais sobressai ao longo do filme. É um detective paranoico, que parece competente na sua função e bastante obstinado, encontrando-se sempre pronto a desvendar informações hediondas sobre o hospital. Teddy é um indivíduo marcado pelos traumas da guerra e da perda da esposa, que se encontra pouco preparado para lidar com as verdades sobre o seu passado e a forma como é atraiçoado ou se deixa enganar pela memória. É também uma viagem à mente e aos delírios deste personagem que Martin Scorsese nos apresenta, com muitas surpresas e reviravoltas pelo meio que, infelizmente, não poderão ser totalmente expostas neste texto para não estragar o prazer da visualização daqueles que ainda não viram o filme. Teddy procura encontrar Rachel e Andrew Laeddis, mas as maiores descobertas são aquelas que vai fazer sobre si próprio. Rachel apenas deixou um texto escrito com os dizeres "The law of 4; who is 67?", algo que intriga o protagonista, embora tudo se torne mais estranho quando esta mulher ressurge misteriosamente. A personagem interpretada por Emily Mortimer ainda é questionada por Teddy, com a actriz a ter uns breves momentos para sobressair, sobretudo quando Rachel pensa temporariamente que este é o seu esposo e apresenta comportamentos claramente perturbados.

Apesar da descoberta da suposta Rachel, algo continua a não jogar bem. Teddy sabe disso e nós também. O que fazer? Ficar quieto ou investigar mais a fundo? Já foi escrito sobre as influências noir do filme, não foi? Escusado será dizer que o personagem interpretado por Leonardo DiCaprio procura descobrir incessantemente a verdade sobre Ashecliffe, mesmo que isso implique envolver-se em problemas e confusões, enquanto uma femme fatale atormenta o seu pensamento. É então que o protagonista decide quebrar as regras e visitar a Ala C, um espaço marcado por pouca iluminação e doentes potencialmente mais perigosos do que aqueles que se encontram internados nas outras alas, reencontrando George Noyce (Jackie Earle Haley), um elemento que outrora supostamente falara consigo sobre esta divisória da instituição, com o personagem interpretado por Jackie Earle Haley a salientar que no farol do hospital, um local do qual Teddy e Chuck foram praticamente afastados, são feitas experiências moralmente questionáveis com os doentes. Jackie Earle Haley interpreta uma figura algo desfigurada que culpa o protagonista pela sua segunda detenção ao mesmo tempo que o instiga a fugir, com o actor a ser um dos vários elementos secundários que tem espaço para sobressair. Teddy sai deste espaço, deparando-se com uma estranha mulher num local semelhante a uma gruta, com esta a deixar o protagonista diante de mais revelações sobre o hospital. Esta mulher apresenta-se como a verdadeira Rachel Solando (Patricia Clarkson), algo que ainda nos traz mais duvidas e ao protagonista, com "Shutter Island" a procurar jogar com os nossos sentidos e a nossa capacidade de percepção dos acontecimentos. Aos poucos parece que estamos perante uma conspiração contra o protagonista, mas Martin Scorsese logo nos surpreende e a Teddy com algumas revelações que prometem transfigurar a vida deste elemento, com John Cawley a ter um papel fulcral no último terço. Ben Kingsley consegue manter o mistério necessário em volta do personagem que interpreta. Será que este indivíduo se encontra a esconder algo sobre a fuga de Rachel? O que pretende de Teddy? Qual o seu papel no hospital? Kingsley consegue que o mistério apenas seja desfeito perto do final, tal como Mark Ruffalo, com este último a surgir como um elemento secundário de luxo, enquanto Martin Scorsese gere de forma exímia os ritmos da narrativa e das revelações. Temos ainda a marcante presença de Michelle Williams, com a actriz a interpretar uma personagem que é fundamental para diversos acontecimentos que ocorrem no filme, com a falecida mulher de Teddy a surgir como uma recordação bem mais dolorosa do que poderíamos imaginar. O fogo pode ter queimado esta mulher e os seus filhos nas memórias de Teddy, mas é nas profundezas da sua alma e do seu cérebro que este irá encontrar alguns episódios macabros sobre esta mulher e a sua pessoa. O argumento de Laeta Kalogridis, adaptado do livro homónimo de Denis Lehane, consegue mesclar os diversos géneros cinematográficos e povoar a narrativa de figuras que despertam a nossa atenção, enquanto o design de produção e a cinematografia transformam Ashecliffe num local que facilmente nos sufoca e ao protagonista, com Martin Scorsese a efectuar um aproveitamento exímio dos cenários interiores e exteriores.

 O espaço que rodeia Teddy parece saído dos filmes de terror quer pelos elementos já salientados, quer pela banda sonora, quer pelas gentes encontradas, quer pela tempestade, quer pelo turbilhão de sentimentos que se assomam do protagonista. O facto do Ashecliffe encontrar-se povoado de criminosos que padecem de doenças mentais é motivo de sobra para nos deixar de pé atrás em relação à investigação iniciada pelo protagonista mas, com o avançar da narrativa, percebemos que estamos perante um thriller psicológico bem mais complexo. De descoberta em descoberta, "Shutter Island" arrasta-nos para a prisão onde se encontra o protagonista, para a sua alma e o seu âmago, enquanto Martin Scorsese "obriga" Leonardo DiCaprio a exibir mais uma vez a sua versatilidade, numa obra que varia entre o filme noir, thriller psicológico e terror. No entanto, o maior terror é a chegada da verdade, quando o sentimento de culpa parece toldar o passado e procura afastar o presente. É a verdade que nos surpreende e ao protagonista, com Martin Scorsese a conseguir jogar com os elementos de diferentes géneros e a utilizar a sua cinefilia ao serviço do seu trabalho como realizador. Não faltam influências das obras cinematográficas de terror produzidas por Val Lewton onde a atmosfera valia por vezes muito mais do que os sustos avulsos (veja-se a ligação que podemos efectuar entre o espaço que envolve a instituição e o território onde se desenrola o enredo de "I Walked With a Zombie", um local onde a protagonista se depara com episódios aparentemente impensáveis), dos filmes noir (o protagonista que se envolve numa investigação intrincada, a narrativa labiríntica, os personagens fumadores, a atmosfera de malaise, entre outros exemplos), mas também elementos de época, ou o enredo não se desenrolasse em pleno ano de 1954. Temos ainda a recordação do final da II Guerra Mundial, da libertação de Dachau e da bomba atómica, embora em "Shutter Island" as memórias por vezes tragam alguma distorção e nem sempre seja possível confiar em tudo aquilo que nos é contado. Quanto mais confiamos mais somos surpreendidos por Martin Scorsese que, aos poucos, nos deixa sem saber o que pensar sobre tudo aquilo que envolve o protagonista até largar-nos a "bomba" nas mãos. Já é tarde para o espectador e para o protagonista. Já não vamos a tempo de evitar a surpresa. Algumas verdades que tínhamos como absolutas tornam-se meras divagações, outras eram variações da realidade, enquanto o papel da memória e a repressão da mesma surgem como temáticas exploradas ao longo de um enredo com mais densidade do poderíamos inicialmente pensar (por vezes a fazer recordar "Shock Corridor" de Samuel Fuller, onde um jornalista procura descobrir informações sobre um elemento que foi assassinado numa clínica psiquiátrica). Revelados os segredos, quando voltamos a pegar no filme logo procuramos encontrar outros pormenores que nos pareciam inicialmente pueris. Veja-se por exemplo o personagem interpretado por Ben Kingsley a fumar cachimbo enquanto dialoga com Teddy, algo que remete para trechos de "Out of the Past" onde o fumo dos cigarros parecia surgir para marcar uma posição, uma situação que acontece na cena mencionada, com Martin Scorsese a revelar-se exímio na criação de toda uma estranha atmosfera que envolve as figuras que povoam o enredo de "Shutter Island". Temos ainda a colocação dos quadros no gabinete onde John Cawley se encontra instalado, com as obras de arte a apresentarem figuras disformes e práticas pouco recomendáveis, com a disposição dos mesmos a incrementar a estranheza deste local, enquanto exibe mais uma vez todo o cuidado colocado no design dos cenários interiores. A atmosfera que rodeia o filme é relativamente estilizada, com Martin Scorsese a realizar uma obra que nos oprime, agarra e tarda em sair da memória, enquanto nos faz ser parte activa de uma investigação que decorre num conjunto de espaços que são aproveitados ao pormenor. Entre o sonho apolíneo e o pesadelo, memórias distorcidas e uma realidade dolorosa, "Shutter Island" revela-se um thriller inteligente, intenso e inquietante, com Martin Scorsese a conseguir surpreender e intrigar o espectador.

Título original: "Shutter Island".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Laeta Kalogridis.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Patricia Clarkson, Max von Sydow.

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