Jake LaMotta é incontrolável, indomável, violento, possessivo,
ciumento e algo inseguro. Pode conseguir reunir algumas pessoas junto
de si, mas facilmente afasta as mesmas com os seus comportamentos irascíveis
ao longo de "Raging Bull", uma das obras mais populares da
carreira de Martin Scorsese, com Robert De Niro a confirmar
novamente o seu enorme talento para a representação. O actor
transforma-se fisicamente e a nível dos comportamentos, criando um "animal feroz" altamente
auto-destrutivo, machista e pouco dado a grandes amizades ou
simpatias, que apenas parece estar bem quando se encontra no ringue a
distribuir e levar pancada. Inspirado no livro
"Raging Bull: My Story" de Jake LaMotta, Martin Scorsese apresenta-nos à ascensão
e queda do protagonista, entre 1941 e 1964, com "Raging Bull" a surgir como uma obra
cinematográfica que se desenrola a um ritmo intenso, ao mesmo tempo
que é capaz de nos dar a perfeita noção da complexidade deste
pugilista nascido no Bronx e do meio que o rodeava. Na cena do
genérico inicial, encontramos Jake LaMotta sozinho, num ringue de boxe. As
imagens são a preto e branco, marcadas pelo fumo que rodeia muitos
dos cenários que encontramos nos combates. É um dos vários
momentos de "Raging Bull" que ficam gravados na memória. O pugilista solitário,
pronto a combater tudo e todos, incluindo a si próprio,
esquecendo-se muitas das vezes do papel essencial dos outros na sua
vida. Jake tem em Joey LaMotta (Joe Pesci), o seu irmão mais novo, aquele
que talvez seja o seu maior apoio, embora até com este arranje
problemas. Estes partilham vários momentos e comportamentos em comum, seja
a violência descontrolada, o machismo, ou um sentido muito próprio de
família. Joe Pesci tem em "Raging Bull" o primeiro grande papel do seu currículo, após ter participado no telefilme "The
Death Collector", com o actor a dar vida a Joey, um indivíduo que vive na sombra do
irmão, procurando ajudá-lo na sua carreira, trabalhando como o seu
agente, algo que o leva a manter uma relação nem sempre clara com
elementos como Tommy Como (Nicholas Colasanto) e Salvy (Frank
Vincent), dois mafiosos ligados ao ramo das apostas. A certa altura
do filme, Jake pede a Joey para esmurrar-lhe a cara. Joey fica meio
estupefacto mas acede ao pedido do irmão. A relação entres estes
dois irmãos é marcada por muitos momentos onde a violência é notória,
seja esta física ou verbal, sobretudo quando estão a lidar com as
mulheres. No início do filme, Jake é casado, mantendo uma relação
pouco cordial com a esposa, com um simples bife bem passado a servir
para um discussão violenta. Este combatera há pouco tempo com Jimmy
Reeves, naquela que foi a sua primeira derrota num combate de boxe,
algo que nos é exposto no início de "Raging Bull", com os comportamentos de Jake a exibirem paradigmaticamente a
incapacidade do protagonista em lidar com o insucesso. Não
é só o combate que é violento, também o ambiente que o envolve é
fervilhante, com a decisão final a favor de Reeves a ser acompanhada
de um enorme burburinho por parte dos espectadores, com "direito"
a uma cadeira a ser atirada para o ringue. Os combates não se ficam
por aqui. Jake ainda defrontaria por mais duas vezes Sugar Ray Robinson (Johnny Barnes), em 1943, tendo vencido o primeiro combate e perdido o
segundo, com a derrota neste último a ser atribuída por decisão do
júri, especulando-se que a opção tomada pelos jurados se deve ao facto do rival do protagonista se
preparar para integrar o exército.
Os combates são expostos com
brutalidade e realismo (até o sangue que cai nas cordas do ringue é
exibido), com Martin Scorsese a criar momentos intensos e memoráveis. Diga-se que, quando os combates são considerados pouco relevantes, Martin Scorsese não tem problemas em exibir os mesmos em trechos rápidos que se limitam a salientar as
vitórias do protagonista. No entanto, quando as lutas são expostas
em toda a sua magnitude, o espectador é colocado diante de momentos magnificamente
coreografados e realistas, onde o ringue facilmente se transforma num
espaço onde a violência e os sentimentos esvoaçam. O trabalho de
montagem de Thelma Schoonmaker é mais uma vez fundamental para
Martin Scorsese, com este a conseguir atribuir uma enorme fluidez e
sentido de ritmo à sua obra e aos combates,
enquanto que a cinematografia de Michael Chapman concede algum
lirismo a estes momentos de grande violência. Diga-se que as polémicas de Jake não se limitam aos ringues. Jake acaba por iniciar uma relação com Vickie (Cathy
Moriarty), uma jovem de quinze anos de idade, loira, belíssima,
apesar de ser casado e esta ser menor, algo que não impede o
protagonista de cortejar a mesma. Vickie e Jake acabam por casar e ter filhos, mas a violência do segundo logo acaba por vir ao de cima, com esta mulher a procurar obter alguma independência, embora seja constantemente alvo dos
actos menos próprios do pugilista e do irmão dele. Joey também
está longe de ser um exemplo no tratamento dado às mulheres, com
este e Jake a serem dois misóginos e machistas do pior. O personagem interpretado por Joe
Pesci tenta tratar do lado mais pragmático da carreira de Jake, embora este último nem sempre compreenda a situação, procurando seguir
sobretudo os seus instintos. Quando vence Tony Janiro (Kevin Mahon), Jake LaMotta
espera finalmente ter uma oportunidade de disputar o título de
peso-médio, mas logo cai na realidade e percebe que apenas poderá
entrar nessa contenda com a ajuda de Tommy e da máfia. Joey serve sobretudo de
mediador, mas é impossível não ver e sentir a desilusão de Jake por ter de
perder um combate de propósito para os mafiosos conseguirem ganhar
dinheiro nas apostas e proporcionarem a oportunidade para o personagem interpretado por Robert De Niro poder disputar o
combate do título. Este é um lutador e vencedor nato para quem uma derrota
comprada é capaz de deixá-lo num pranto latente, numa das raras
vezes em que assistimos a sinais de fragilidade por parte de Jake. A derrota
é contra Billy Fox, um pugilista medíocre, com o caso a suscitar a
atenção dos media devido à forma pouco convincente como LaMotta perdeu
o combate. Dois anos depois, a 16 de Junho de 1949, venceria Marcel
Cerdan e conquistaria o título de campeão, um estatuto que manteria
até perder para Sugar Ray Robinson em 1951, naquela que seria a sua
entrada em declínio no ponto de vista profissional. Os filmes sobre
pugilistas não são uma novidade. Desde "Kid Galahad",
passando por "Champion", "The Harder They Fall"
(onde o papel da máfia foi fundamental para a ascensão de um
incompetente), até à emotiva saga de "Rocky", o dramático
"Million Dollar Baby" e o irregular "Southpaw", não faltam exemplos de obras
cinematográficas centradas nestes atletas. Martin Scorsese opta por
uma vertente mais realista, menos "feel good", contando com um protagonista complexo, que apresenta uma
enormidade de defeitos e comportamentos violentos que nem sempre
despertam a nossa simpatia e empatia.
Estamos longe de ficar perante
um herói em "Raging Bull", com Martin Scorsese a colocar-nos diante de um ser humano complexo e violento, com
todas os seus defeitos (que são muitos) e virtudes, com estas a
serem sobretudo a habilidade para o combate. Jake LaMotta faz justiça
ao título de Touro Enraivecido, enquanto Martin Scorsese faz
questão de expor o quão auto-destrutivo era este homem quer nos
ringues, quer no plano familiar, quer nas amizades. Diga-se que
raramente encontramos Jake a formar uma amizade verdadeira. A relação com Vickie floresce
com facilidade, com esta a parecer ficar encantada com os bens
adquiridos por Jake, mas rapidamente percebemos que o vínculo entre ambos não vai durar muito tempo. Cathy Moriarty interpreta convincentemente esta jovem que fica a
conhecer da pior maneira o lado violento e possessivo de Jake,
surgindo inicialmente fascinada e posteriormente desencantada com o
estilo de vida do protagonista, um elemento que procura provar constantemente o seu valor nos ringues, embora aparente contar
com complexos de inferioridade. Veja-se quando se chateia veemente
com a esposa por esta descrever Janiro como um lutador "bonito" e "popular", ou os ataques de ciúmes quando encontra Vickie a conversar com outros homens, chegando até a duvidar das intenções de Joey. Aos
poucos tudo parece servir como motivo de discussão, com Vickie a perceber que a relação caminha para um abismo difícil
de sair, quer pela violência crescente de Jake devido aos ciúmes
constantes do pugilista, quer por este estar mais preocupado nos
combates do que na vida sexual de ambos. LaMotta surge como mais um personagem de um filme de Martin
Scorsese que não confia totalmente nas mulheres (veja-se o
protagonista de "Casino"). Pensa que Vickie pode ter
mantido um caso extraconjugal com Salvy, bem como com Joey,
procurando a todo o custo que esta conviva o menos possível com
outros homens, algo que contrasta com os momentos (a cores - num dos trechos mais inspirados de "Raging Bull") meio idílicos que serviram para Martin Scorsese ilustrar o casamento entre a primeira e o protagonista. Temos ainda a presença da máfia,
influente para a ascensão e queda de um pugilista, embora o maior
inimigo de Jake pareça ser ele próprio. Ao invés de investir imenso nas cenas de treino de LaMotta ou em
combates de boxe excessivos, Martin Scorsese procura desenvolver com
alguma profundidade a personalidade deste homem, um indivíduo que descura muitas das vezes a sua forma física. Robert De Niro
encarna este personagem de corpo e alma. Transforma-se no mesmo.
Emagrece, engorda, fica mais musculado, expõe as fragilidade e
forças de LaMotta, bem como a sua capacidade de destruir. Destrói
relações amorosas e de amizade, destrói os adversários no ringue
e em certa medida até se destrói a si próprio ao longo desta
história apresentada em flashback, inspirada numa figura real.
Estamos longe do simpático e inspirador Rocky Balboa, num filme de
boxe que procura sempre dar mais atenção à personalidade do
protagonista e ao meio que o rodeia do que propriamente aos treinos e
combates.
A narrativa começa inicialmente em 1964, retrocedendo até
1943, com "Raging Bull" a deambular no tempo enquanto nos
apresenta à história deste homem complexo e violento. A rivalidade
com Sugar Ray Robinson fica bem saliente, bem como o estilo indomável
de LaMotta nos ringues, com os combates a serem expostos de forma
precisa, concisa e imensamente violenta. Veja-se quando temos LaMotta
a recusar-se a cair, algo que o leva a ser violentamente espancado no
ringue por Sugar Ray Robinson, parecendo no final ficar orgulhoso
pelo feito de não ter sido derrubado. Mais do que estar em causa o
seu talento, estava em jogo o seu amor próprio, com Jake LaMotta a procurar
nos ringues o sucesso que nem sempre consegue alcançar no plano privado. LaMotta parece ainda procurar encontrar uma espécie de redenção nos ringues, algo que facilmente nos traz à memória a busca por redenção de
Charlie (Harvey Keitel) nas idas à igreja em
"Mean Streets", com a arena de combate a surgir como o espaço sagrado do personagem interpretado por Robert De Niro. A cinematografia, a preto e branco,
contribui ainda mais para atribuir um tom intemporal ao filme,
enquanto assistimos por vezes a uma utilização expressionista da
iluminação, numa obra cinematográfica realizada num período pouco positivo da vida privada de
Martin Scorsese. Terá sido Robert De Niro a
convencer Martin Scorsese a envolver-se no desenvolvimento do filme,
algo que resultou em mais uma grande colaboração entre ambos, após
a recepção pouco calorosa de "New York, New York".
"Raging Bull" consegue ainda transportar-nos para o
território do Bronx deste período, enquanto nos apresenta as suas gentes, as suas
habitações e clubes nocturnos, bem como a máfia local, com o
enredo a acompanhar um período de tempo que varia entre a II Guerra
Mundial e o pós-Guerra, existindo sempre um cuidado notório na representação da época. A influência da máfia é exposta através de elementos como os
personagens interpretados por Nicholas Colasanto e Frank Vincent, com
este último a surgir como uma presença relativamente regular em alguns filmes de Martin
Scorsese, destacando-se em "Raging Bull" pela carga de pancada que leva de
Joey, com Joe Pesci a protagonizar um momento de enorme violência (algo que viria a ser uma imagem de marca nos filmes deste
actor com Martin Scorsese). A máfia está presente, bem como o
desporto e o drama humano que envolve os personagens, com Martin
Scorsese a ter em "Raging Bull" uma obra cinematográfica
que transcende o rótulo de "filme de boxe" e "filme
biográfico", tendo como base a história verídica de Jake
LaMotta. Este encontra-se longe de gerar uma enorme simpatia ou de ser um dos personagens mais agradáveis de seguir, embora Martin Scorsese, o magnífico argumento de Paul Schrader e Mardik Martin e a interpretação de Robert De Niro consigam que Jake LaMotta se transforme numa figura intrigante e complexa, pronta a despertar a nossa atenção, enquanto pretende provar o seu valor nos
ringues, um espaço onde exibe uma competência que não consegue transportar para a vida privada e social. O resultado final é um
triunfo magistral de Martin Scorsese e do cinema, um drama humano
emocionalmente potente e envolvente, onde os elementos de boxe
apresentam grande relevância e realismo.
Título original: "Raging Bull".
Título em Portugal: "O Touro Enraivecido".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Paul Schrader e Mardik Martin.
Elenco:
Robert De Niro,
Cathy Moriarty,
Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto.

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