13 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Raging Bull" (1980)

 Jake LaMotta é incontrolável, indomável, violento, possessivo, ciumento e algo inseguro. Pode conseguir reunir algumas pessoas junto de si, mas facilmente afasta as mesmas com os seus comportamentos irascíveis ao longo de "Raging Bull", uma das obras mais populares da carreira de Martin Scorsese, com Robert De Niro a confirmar novamente o seu enorme talento para a representação. O actor transforma-se fisicamente e a nível dos comportamentos, criando um "animal feroz" altamente auto-destrutivo, machista e pouco dado a grandes amizades ou simpatias, que apenas parece estar bem quando se encontra no ringue a distribuir e levar pancada. Inspirado no livro "Raging Bull: My Story" de Jake LaMotta, Martin Scorsese apresenta-nos à ascensão e queda do protagonista, entre 1941 e 1964, com "Raging Bull" a surgir como uma obra cinematográfica que se desenrola a um ritmo intenso, ao mesmo tempo que é capaz de nos dar a perfeita noção da complexidade deste pugilista nascido no Bronx e do meio que o rodeava. Na cena do genérico inicial, encontramos Jake LaMotta sozinho, num ringue de boxe. As imagens são a preto e branco, marcadas pelo fumo que rodeia muitos dos cenários que encontramos nos combates. É um dos vários momentos de "Raging Bull" que ficam gravados na memória. O pugilista solitário, pronto a combater tudo e todos, incluindo a si próprio, esquecendo-se muitas das vezes do papel essencial dos outros na sua vida. Jake tem em Joey LaMotta (Joe Pesci), o seu irmão mais novo, aquele que talvez seja o seu maior apoio, embora até com este arranje problemas. Estes partilham vários momentos e comportamentos em comum, seja a violência descontrolada, o machismo, ou um sentido muito próprio de família. Joe Pesci tem em "Raging Bull" o primeiro grande papel do seu currículo, após ter participado no telefilme "The Death Collector", com o actor a dar vida a Joey, um indivíduo que vive na sombra do irmão, procurando ajudá-lo na sua carreira, trabalhando como o seu agente, algo que o leva a manter uma relação nem sempre clara com elementos como Tommy Como (Nicholas Colasanto) e Salvy (Frank Vincent), dois mafiosos ligados ao ramo das apostas. A certa altura do filme, Jake pede a Joey para esmurrar-lhe a cara. Joey fica meio estupefacto mas acede ao pedido do irmão. A relação entres estes dois irmãos é marcada por muitos momentos onde a violência é notória, seja esta física ou verbal, sobretudo quando estão a lidar com as mulheres. No início do filme, Jake é casado, mantendo uma relação pouco cordial com a esposa, com um simples bife bem passado a servir para um discussão violenta. Este combatera há pouco tempo com Jimmy Reeves, naquela que foi a sua primeira derrota num combate de boxe, algo que nos é exposto no início de "Raging Bull", com os comportamentos de Jake a exibirem paradigmaticamente a incapacidade do protagonista em lidar com o insucesso. Não é só o combate que é violento, também o ambiente que o envolve é fervilhante, com a decisão final a favor de Reeves a ser acompanhada de um enorme burburinho por parte dos espectadores, com "direito" a uma cadeira a ser atirada para o ringue. Os combates não se ficam por aqui. Jake ainda defrontaria por mais duas vezes Sugar Ray Robinson (Johnny Barnes), em 1943, tendo vencido o primeiro combate e perdido o segundo, com a derrota neste último a ser atribuída por decisão do júri, especulando-se que a opção tomada pelos jurados se deve ao facto do rival do protagonista se preparar para integrar o exército.

Os combates são expostos com brutalidade e realismo (até o sangue que cai nas cordas do ringue é exibido), com Martin Scorsese a criar momentos intensos e memoráveis. Diga-se que, quando os combates são considerados pouco relevantes, Martin Scorsese não tem problemas em exibir os mesmos em trechos rápidos que se limitam a salientar as vitórias do protagonista. No entanto, quando as lutas são expostas em toda a sua magnitude, o espectador é colocado diante de momentos magnificamente coreografados e realistas, onde o ringue facilmente se transforma num espaço onde a violência e os sentimentos esvoaçam. O trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker é mais uma vez fundamental para Martin Scorsese, com este a conseguir atribuir uma enorme fluidez e sentido de ritmo à sua obra e aos combates, enquanto que a cinematografia de Michael Chapman concede algum lirismo a estes momentos de grande violência. Diga-se que as polémicas de Jake não se limitam aos ringues. Jake acaba por iniciar uma relação com Vickie (Cathy Moriarty), uma jovem de quinze anos de idade, loira, belíssima, apesar de ser casado e esta ser menor, algo que não impede o protagonista de cortejar a mesma. Vickie e Jake acabam por casar e ter filhos, mas a violência do segundo logo acaba por vir ao de cima, com esta mulher a procurar obter alguma independência, embora seja constantemente alvo dos actos menos próprios do pugilista e do irmão dele. Joey também está longe de ser um exemplo no tratamento dado às mulheres, com este e Jake a serem dois misóginos e machistas do pior. O personagem interpretado por Joe Pesci tenta tratar do lado mais pragmático da carreira de Jake, embora este último nem sempre compreenda a situação, procurando seguir sobretudo os seus instintos. Quando vence Tony Janiro (Kevin Mahon), Jake LaMotta espera finalmente ter uma oportunidade de disputar o título de peso-médio, mas logo cai na realidade e percebe que apenas poderá entrar nessa contenda com a ajuda de Tommy e da máfia. Joey serve sobretudo de mediador, mas é impossível não ver e sentir a desilusão de Jake por ter de perder um combate de propósito para os mafiosos conseguirem ganhar dinheiro nas apostas e proporcionarem a oportunidade para o personagem interpretado por Robert De Niro poder disputar o combate do título. Este é um lutador e vencedor nato para quem uma derrota comprada é capaz de deixá-lo num pranto latente, numa das raras vezes em que assistimos a sinais de fragilidade por parte de Jake. A derrota é contra Billy Fox, um pugilista medíocre, com o caso a suscitar a atenção dos media devido à forma pouco convincente como LaMotta perdeu o combate. Dois anos depois, a 16 de Junho de 1949, venceria Marcel Cerdan e conquistaria o título de campeão, um estatuto que manteria até perder para Sugar Ray Robinson em 1951, naquela que seria a sua entrada em declínio no ponto de vista profissional. Os filmes sobre pugilistas não são uma novidade. Desde "Kid Galahad", passando por "Champion", "The Harder They Fall" (onde o papel da máfia foi fundamental para a ascensão de um incompetente), até à emotiva saga de "Rocky", o dramático "Million Dollar Baby" e o irregular "Southpaw", não faltam exemplos de obras cinematográficas centradas nestes atletas. Martin Scorsese opta por uma vertente mais realista, menos "feel good", contando com um protagonista complexo, que apresenta uma enormidade de defeitos e comportamentos violentos que nem sempre despertam a nossa simpatia e empatia.

Estamos longe de ficar perante um herói em "Raging Bull", com Martin Scorsese a colocar-nos diante de um ser humano complexo e violento, com todas os seus defeitos (que são muitos) e virtudes, com estas a serem sobretudo a habilidade para o combate. Jake LaMotta faz justiça ao título de Touro Enraivecido, enquanto Martin Scorsese faz questão de expor o quão auto-destrutivo era este homem quer nos ringues, quer no plano familiar, quer nas amizades. Diga-se que raramente encontramos Jake a formar uma amizade verdadeira. A relação com Vickie floresce com facilidade, com esta a parecer ficar encantada com os bens adquiridos por Jake, mas rapidamente percebemos que o vínculo entre ambos não vai durar muito tempo. Cathy Moriarty interpreta convincentemente esta jovem que fica a conhecer da pior maneira o lado violento e possessivo de Jake, surgindo inicialmente fascinada e posteriormente desencantada com o estilo de vida do protagonista, um elemento que procura provar constantemente o seu valor nos ringues, embora aparente contar com complexos de inferioridade. Veja-se quando se chateia veemente com a esposa por esta descrever Janiro como um lutador "bonito" e "popular", ou os ataques de ciúmes quando encontra Vickie a conversar com outros homens, chegando até a duvidar das intenções de Joey. Aos poucos tudo parece servir como motivo de discussão, com Vickie a perceber que a relação caminha para um abismo difícil de sair, quer pela violência crescente de Jake devido aos ciúmes constantes do pugilista, quer por este estar mais preocupado nos combates do que na vida sexual de ambos. LaMotta surge como mais um personagem de um filme de Martin Scorsese que não confia totalmente nas mulheres (veja-se o protagonista de "Casino"). Pensa que Vickie pode ter mantido um caso extraconjugal com Salvy, bem como com Joey, procurando a todo o custo que esta conviva o menos possível com outros homens, algo que contrasta com os momentos (a cores - num dos trechos mais inspirados de "Raging Bull") meio idílicos que serviram para Martin Scorsese ilustrar o casamento entre a primeira e o protagonista. Temos ainda a presença da máfia, influente para a ascensão e queda de um pugilista, embora o maior inimigo de Jake pareça ser ele próprio. Ao invés de investir imenso nas cenas de treino de LaMotta ou em combates de boxe excessivos, Martin Scorsese procura desenvolver com alguma profundidade a personalidade deste homem, um indivíduo que descura muitas das vezes a sua forma física. Robert De Niro encarna este personagem de corpo e alma. Transforma-se no mesmo. Emagrece, engorda, fica mais musculado, expõe as fragilidade e forças de LaMotta, bem como a sua capacidade de destruir. Destrói relações amorosas e de amizade, destrói os adversários no ringue e em certa medida até se destrói a si próprio ao longo desta história apresentada em flashback, inspirada numa figura real. Estamos longe do simpático e inspirador Rocky Balboa, num filme de boxe que procura sempre dar mais atenção à personalidade do protagonista e ao meio que o rodeia do que propriamente aos treinos e combates.

A narrativa começa inicialmente em 1964, retrocedendo até 1943, com "Raging Bull" a deambular no tempo enquanto nos apresenta à história deste homem complexo e violento. A rivalidade com Sugar Ray Robinson fica bem saliente, bem como o estilo indomável de LaMotta nos ringues, com os combates a serem expostos de forma precisa, concisa e imensamente violenta. Veja-se quando temos LaMotta a recusar-se a cair, algo que o leva a ser violentamente espancado no ringue por Sugar Ray Robinson, parecendo no final ficar orgulhoso pelo feito de não ter sido derrubado. Mais do que estar em causa o seu talento, estava em jogo o seu amor próprio, com Jake LaMotta a procurar nos ringues o sucesso que nem sempre consegue alcançar no plano privado. LaMotta parece ainda procurar encontrar uma espécie de redenção nos ringues, algo que facilmente nos traz à memória a busca por redenção de Charlie (Harvey Keitel) nas idas à igreja em "Mean Streets", com a arena de combate a surgir como o espaço sagrado do personagem interpretado por Robert De Niro. A cinematografia, a preto e branco, contribui ainda mais para atribuir um tom intemporal ao filme, enquanto assistimos por vezes a uma utilização expressionista da iluminação, numa obra cinematográfica realizada num período pouco positivo da vida privada de Martin Scorsese. Terá sido Robert De Niro a convencer Martin Scorsese a envolver-se no desenvolvimento do filme, algo que resultou em mais uma grande colaboração entre ambos, após a recepção pouco calorosa de "New York, New York". "Raging Bull" consegue ainda transportar-nos para o território do Bronx deste período, enquanto nos apresenta as suas gentes, as suas habitações e clubes nocturnos, bem como a máfia local, com o enredo a acompanhar um período de tempo que varia entre a II Guerra Mundial e o pós-Guerra, existindo sempre um cuidado notório na representação da época. A influência da máfia é exposta através de elementos como os personagens interpretados por Nicholas Colasanto e Frank Vincent, com este último a surgir como uma presença relativamente regular em alguns filmes de Martin Scorsese, destacando-se em "Raging Bull" pela carga de pancada que leva de Joey, com Joe Pesci a protagonizar um momento de enorme violência (algo que viria a ser uma imagem de marca nos filmes deste actor com Martin Scorsese). A máfia está presente, bem como o desporto e o drama humano que envolve os personagens, com Martin Scorsese a ter em "Raging Bull" uma obra cinematográfica que transcende o rótulo de "filme de boxe" e "filme biográfico", tendo como base a história verídica de Jake LaMotta. Este encontra-se longe de gerar uma enorme simpatia ou de ser um dos personagens mais agradáveis de seguir, embora Martin Scorsese, o magnífico argumento de Paul Schrader e Mardik Martin e a interpretação de Robert De Niro consigam que Jake LaMotta se transforme numa figura intrigante e complexa, pronta a despertar a nossa atenção, enquanto pretende provar o seu valor nos ringues, um espaço onde exibe uma competência que não consegue transportar para a vida privada e social. O resultado final é um triunfo magistral de Martin Scorsese e do cinema, um drama humano emocionalmente potente e envolvente, onde os elementos de boxe apresentam grande relevância e realismo.

Título original: "Raging Bull".
Título em Portugal: "O Touro Enraivecido".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Paul Schrader e Mardik Martin.
Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto.

Sem comentários: