29 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Oslo, 31. august" (2011)

 Anders (Anders Danielsen Lie), o protagonista de "Oslo, 31. august", é um toxicodependente que se encontra na fase final de recuperação. Este é um tipo relativamente alto, magro, de cabelo rapado, aparentemente calmo, que conta com um passado conturbado, algo que podemos comprovar nas diversas conversas que mantém com conhecidos ao longo da segunda longa-metragem realizada por Joachim Trier. O argumento é livremente inspirado no livro "Le Feu follet", de Pierre Drieu la Rochelle, uma obra literária que já tinha sido adaptada ao grande ecrã por Louis Malle, com ambos os filmes a abordarem temáticas como a depressão, o suicídio, a solidão, a alienação no interior de um espaço urbano, a incapacidade de aceitar as mudanças, entre outras. Diga-se que "Le Feu Follet" e "Oslo, 31. august" contam com uma estrutura narrativa relativamente semelhante, colocando o protagonista, um indivíduo que padece de depressão e atravessa uma crise existencial, a contactar com diversas pessoas associadas ao seu passado. No prólogo, encontramos diversos discursos em off, onde são abordadas as percepções que alguns elementos apresentam em relação a episódios vividos no interior de Oslo, enquanto Joachim Trier brinda o espectador com algumas imagens desta cidade em constante mudança, até concluir com a exibição da implosão do edifício da Philips. A inclusão da implosão parece propositada, com esta a simbolizar as mudanças do território e das suas gentes, ou seja, algo que Anders tem dificuldade em aceitar. A implosão parece remeter ainda para a vida de Anders, ou este não estivesse prestes a conhecer um destino semelhante ao edifício, com o protagonista a cogitar cometer suicídio, embora pense num método muito mais calmo e silencioso. Diga-se que a narrativa de "Oslo, 31. august" apresenta uma estrutura perturbadoramente circular, ou o início e o final do filme não contivessem uma série de imagens em movimento da cidade, enquanto nos deixa diante da nossa pequenez perante o Mundo que nos rodeia. A própria data para um episódio marcante da vida do protagonista, em particular, o dia 31 de Agosto, remete para o crepúsculo do Verão, uma situação que contribui para exacerbar a melancolia que envolve diversos episódios do filme. Anders é uma das várias figuras anónimas que circulam pela cidade de Oslo, tendo alguma dificuldade em aceitar as mudanças que ocorreram no período de tempo em que esteve internado num centro de recuperação. É certo que aqueles que conhece também não são propriamente felizes, muitos até vivem um quotidiano recheado de aparências, embora Anders denote uma clara dificuldade em seguir em frente com a vida e soltar-se dos grilhões que impôs a si próprio. Queria ser relevante mas apenas parece poder aspirar a ser um tipo banal, um falhado destinado a contar com um estilo de vida e uma profissão que não o estimulem. Diga-se que, em parte, este também é culpado pelo seu destino. Os pais são, ou eram, figuras endinheiradas, que se endividaram para pagar despesas relacionadas com o vício do filho pelas drogas, enquanto o próprio Anders tirou o curso e é alguém descrito como inteligente e culto.

 O vício pelas drogas e a sua personalidade destrutiva contribuíram e muito para o estado em que Anders se encontra no início do filme. Anders recebe ordem para sair do centro de recuperação, durante um dia, tendo em vista a responder a uma entrevista de emprego. A entrevista é para o cargo de assistente editorial de uma revista, algo que não é fantástico mas pode significar um novo início para o protagonista embora este pareça demasiado marcado pelos actos que cometeu no passado e pela forma como é encarado por aqueles que o rodeiam. A pouca confiança que Anders demonstra em si próprio é visível quando se encontra a dialogar com Thomas (Hans Olav Brenner) e comenta que não pode começar do zero. Tem a noção de que já tem trinta e quatro anos, conta com poucos feitos e imensos objectivos falhados, com o argumento de Joachim Trier e Eskil Vogt a colocar-nos diante das frustrações inerentes à incapacidade de realizar os objectivos que preconizámos para o futuro. Thomas era um dos melhores amigos de Anders, sendo o primeiro elemento com quem este contacta antes de ir à entrevista, com o protagonista a procurar diversas pessoas que marcaram a sua vida ou acabou por desiludir (a narrativa acompanha alguns episódios deste dia marcante na vida do protagonista). O amigo de Anders é um académico, que outrora partilhara alguns momentos de diversão com o protagonista embora tenha mudado completamente de estilo de vida ao casar com Rebecca (Ingrid Olava), com quem tem um filho e uma filha. A conversa com Thomas é marcada por alguns desabafos e a noção de que Anders vai ter uma caminhada complicada ao longo deste dia de "soltura". É certo que está a duas semanas de terminar o tratamento, mas isso não impede Anders de tentar cometer suicídio, algo que podemos comprovar no início do filme. A ideia não lhe sai da cabeça, algo que expõe a Thomas. O personagem interpretado por Hans Olav Brenner procura confortar o amigo, embora não deixe de expor algum preconceito, com "Oslo, 31. august" a problematizar um assunto de relevo: a dificuldade de integração dos ex-toxicodependentes quer pelas dificuldades sentidas pelos próprios, quer pelos preconceitos existentes na sociedade. Anders revela a Thomas que existe um procedimento na clínica que consiste nos doentes interpretarem figuras que contam ou contaram com alguma relevância na vida de cada um dos elementos que se encontram internados. O protagonista salienta que um colega interpreta Thomas, algo que este último questiona: "Estás a dizer que há um viciado a fazer de mim?". A cara de Anders não engana, com este a perceber o preconceito inerente à expressão aplicada pelo amigo em relação aos doentes da clínica. No caso, Thomas não nutre preconceitos em relação a Anders, embora tenha cometido um equívoco nas palavras que decidiu utilizar e no tom como proferiu as mesmas. Thomas "esqueceu-se" que o amigo é tão viciado em drogas como o indivíduo que interpretara a sua pessoa, algo que acabou por trazer ao de cima o preconceito que alguns elementos nutrem em relação aos toxicodependentes ou ex-toxicodependentes.

 O deslize de Thomas atribui alguma sinceridade ao diálogo entre este e o amigo, com o argumento de "Oslo, 31. august" a explanar que nem sempre é fácil encontrar a palavra exacta para a altura certa. Diga-se que Thomas também conta com as suas frustrações, com a sua vida como pai de família e marido a estar longe de ser estimulante, com Anders a perceber que a maioria das figuras que o rodeiam nem sempre alcançaram a felicidade, algo que parece adensar ainda mais a sua depressão. Hans Olav Brenner sobressai como esta figura que resolveu mudar a sua conduta e formar família, embora a sua vida social e profissional pareçam pouco estimulantes, com este a surgir como um indivíduo resignado em relação ao destino. Thomas ainda procura ajudar o protagonista, com Anders Danielsen Lie e Hans Olav Brenner a terem a capacidade de nos convencerem dos laços que unem os personagens a quem dão vida. Anders e Thomas ainda têm uma conversa longa e sincera, com o segundo a demonstrar que nutre uma amizade genuína pelo primeiro, embora não saiba o melhor meio para ajudá-lo. A bem ou a mal, Thomas soube aceitar as mudanças que aconteceram na sua vida, enquanto Anders parece incapaz de aceitar que tudo e todos mudam com o passar do tempo, seja o espaço da cidade ou os seres humanos. Diga-se que esta clausura auto-imposta por Anders fica paradigmaticamente representada quando este se prepara para despedir de Thomas, com Joachim Trier a praticamente "emoldurar" os dois personagens no espaço de uma espécie de túnel que remete para os grilhões que parecem impedir o protagonista de se soltar, algo revelador do cuidado colocado na composição de alguns planos. A entrevista de trabalho começa relativamente bem, até o passado de Anders relacionado com as drogas surgir ao de cima, algo que parece perturbar o protagonista. Anders sai imediatamente da entrevista. Não sabemos se o entrevistador iria aceitar ou não o passado de Anders. Aquilo que parece relativamente certo é a incapacidade de Anders em escapar ou tentar ultrapassar o passado. A próxima pessoa que procura reencontrar é a irmã, um desejo que não consegue cumprir. Anders acaba por se deparar apenas com a companheira da irmã, que exibe o receio da familiar em reunir-se consigo. O passado conturbado de Anders parece estar bem vivo na mente daqueles que o rodearam, bem como na alma do próprio, algo que explica a procura constante deste indivíduo em contactar com Iselin, uma ex-namorada que parece ter marcado a sua vida. Liga por diversas vezes para Iselin mas esta não atende, até decidir ir a uma festa onde não resiste aos vícios antigos.

 Mais do que ceder aos vícios, Anders indica desistir da vida, com os seus objectivos a parecerem ter sido destruídos quer pelo próprio, quer pelo destino, quer pela incapacidade daqueles que o rodeiam em compreendê-lo. Veja-se os convites que alguns personagens fazem para que Anders consuma álcool, mesmo sabendo que este se encontra em recuperação, ou os diálogos que remetem para episódios nem sempre recomendáveis do passado do protagonista. Anders tem consciência que errou imenso, com "Oslo, 31. august" a fazer uso da narração em off de forma pertinente e assertiva, com este recurso a permitir fornecer alguma informação sobre a forma como o protagonista encara o passado e a relação com os pais. O personagem interpretado por Anders Danielsen Lie é uma figura atormentada e deprimida, que parece ter desperdiçado os melhores momentos da sua vida ao ponto de parecer não conseguir sentir quase nada, algo que o próprio comenta com Thomas. Todos descrevem-no como alguém que outrora foi um conquistador, com Anders a ter noção disso, embora esses tempos pareçam memórias vagas que se encontram perdidas num presente de incertezas. Num determinado momento de "Oslo, 31.august", encontramos Anders no interior de um café, onde ouve as conversas alheias. Umas jovens gozam com um suicídio, algumas mulheres falam sobre os seus rebentos, duas figuras femininas falam sobre os seus desejos, enquanto Anders surge como um entre as muitas figuras anónimas deste café. Se estivéssemos na vida real, Anders seria uma das muitas pessoas que passam por nós no meio da rua, sem que soubéssemos aquilo que pensam ou sentem. A própria utilização do rack focus, num momento no interior do café, permite exacerbar esse quase anonimato do protagonista em relação aos restantes elementos que o rodeiam no espaço do estabelecimento, ao mesmo tempo que espelha as dificuldades que este apresenta no regresso a Oslo (existe uma estranha relação de atracção/rejeição por parte de Anders em relação a esta cidade), após um largo período de tempo na clínica. Diga-se que alguns planos são compostos com algum brio. Veja-se os planos em que Anders parece enclausurado pelos espaços dos cenários, ou o estilo quase documental com que a cidade é filmada. Anders Danielsen Lie tem uma interpretação marcada pela sobriedade, com o actor a conseguir transmitir a letargia que afecta o protagonista no presente mas também os sentimentos que este tem para exprimir e parecem poder soltar-se a qualquer momento.

 É sobre esta figura atormentada que incide boa parte do enredo de "Oslo, 31. august", com Anders e a cidade de Oslo a serem os grandes protagonistas deste filme. A cidade de Oslo como um espaço cosmopolita, recheado de gentes, mas incapaz de integrar todos os seus elementos, com a cinematografia a exacerbar a relevância deste espaço urbano em constante mudança que tanto propicia a solidão como as tentações. Veja-se a facilidade com que o protagonista consegue comprar droga, ou os momentos delirantes nos espaços nocturnos do último terço, com a cinematografia e a banda sonora a parecerem acompanhar os sentimentos do protagonista. Ainda encontra uma jovem que parece atraída pela sua pessoa, com quem se diverte durante a noite, embora este pareça ser o Canto do Cisne da vida do protagonista, um elemento com uma capacidade latente para atrair as pessoas, embora seja incapaz de enfrentar os seus demónios interiores. Este é um elemento inconformado com a vida, que parece decidido a terminar com a sua existência após um conjunto de erros que marcaram a sua pessoa e aqueles que o rodeiam. Acima de tudo, Anders parece ter perdido a fé em si próprio. Teve e talvez ainda tenha ambições mas desperdiçou parte da sua vida a consumir drogas, uma situação que o conduziu a não desfrutar de tudo aquilo que viveu ao mesmo tempo que desiludiu uma série de pessoas que sempre acreditaram em si. Como combater a depressão? Como confrontar os erros do passado? Como arranjar forças quando já não se parece conseguir sentir nada? Será possível evitar cometer os erros de outrora? Estas são perguntas que parecem ocorrer na mente de Anders, com "Oslo, 31. august" a surgir como uma obra cinematográfica relevante e pertinente, capaz de nos fazer reflectir sobre as temáticas e sobre nós próprios. Existe uma certa melancolia a envolver a história de Anders, com este a ter a noção de que se arrisca a ser uma figura irrelevante. Diga-se que aqueles com quem contacta não parecem totalmente felizes, algo notório nos diálogos que o protagonista mantém com Thomas ou Mirjam (Kjærsti Odden Skjeldal). Esta é uma das suas várias ex-namoradas, uma mulher que vive de forma aparentemente feliz, embora apresente uma frustração notória por ainda não ter um filho. É na festa de Mirjam e do esposo desta que o protagonista começa a ceder e exibe a sua personalidade destrutiva, com o tratamento que efectuou na clínica a parecer completamente ineficaz diante das tentações do espaço citadino. Drama profundamente humano, capaz de problematizar as temáticas que aborda e brindar o espectador com um conjunto de diálogos acima da média, "Oslo, 31. august" surge como uma obra cinematográfica envolvente e competente, pontuada por uma interpretação notável de Anders Danielsen Lie e uma capacidade notória para nos arrasar do ponto de vista emocional.

Título original: "Oslo, 31. august".
Título em Portugal: "Oslo, 31 de Agosto".
Realizador: Joachim Trier.
Argumento: Joachim Trier e Eskil Vogt.
Elenco: Anders Danielsen Lie, Hans Olav Brenner, Ingrid Olava.

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