11 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Mustang" (2015)

 Entre o conservadorismo de alguns sectores da sociedade turca que parecem rejeitar os direitos das mulheres, um grupo de jovens adolescentes rebeldes que se encontra a descobrir a sua sexualidade, a sua personalidade e o seu corpo, casamentos arranjados e sentimentos que parecem tão difíceis de controlar como a espécie de cavalos do título, "Mustang" surge como uma estreia bastante interessante de Deniz Gamze Ergüven na realização de longas-metragens. É um filme que nos embala inicialmente para a felicidade e candura de Sonay (İlayda Akdoğan), Selma (Tuğba Sunguroğlu), Ece (Elit İşcan), Nur (Doğa Zeynep Doğuşlu) e Lale (Güneş Nezihe Şensoy), as cinco protagonistas, até estas serem colocadas diante de episódios que prometem afectar o seu futuro e união. Estas procuram afirmar a sua identidade e personalidade no interior de uma sociedade patriarcal onde os direitos das mulheres estão longe de se encontrarem garantidos, enquanto a câmara de filmar parece acompanhar os ritmos dos sentimentos e emoções destas figuras femininas. No início de "Mustang" encontramos Sonay, Selma, Ece, Nur e Lale, cinco irmãs, órfãs, a conviverem com um grupo de rapazes no meio da praia, algo que é considerado como um escândalo por parte da avó (Nihal Koldaş) destas jovens, uma mulher que se encontra a tomar conta das mesmas desde que os pais do quinteto faleceram. O episódio que decorreu na praia não conta com malícia, embora uma vizinha logo denuncie o mesmo, com as protagonistas a preparem-se para lidar com uma realidade que nem sempre é fácil de enfrentar. Sonay é a mais velha, aquela que parece mais adulta e à vontade com a sua sexualidade, algo que contrasta com a jovem Lale, a mais nova das cinco irmãs, contando com cerca de onze ou doze anos de idade. É através do olhar de Lale que observamos muitos dos episódios que envolvem estas jovens que são sujeitas a violência física e psicológica por parte de Erol (Ayberk Pekcan), o tio do quinteto, com a personagem interpretada por Güneş Nezihe Şensoy a surgir como a narradora de serviço. Nos momentos iniciais de "Mustang", mais do que nos dar as diferentes nuances de cada uma das jovens, Deniz Gamze Ergüven procura explorar a dinâmica destas em grupo, com a cineasta a descrever o quinteto como uma espécie de hidra: "The uncle is a sort of Minotaur in his maze, the girls are like a hydra, a body with five heads of very different dispositions that allowed me to explore the five possible fates of one woman on different levels". Erol surge como uma figura violenta, completamente machista e extremista na exposição das suas opiniões, algo visível ao não ter problemas em tentar agredir as jovens quando sabe do episódio que ocorreu na praia. Estes habitam numa pequena vila situada a mais de mil quilómetros de Istambul, com este território a parecer contribuir ainda mais para o estilo conservador dos seus habitantes ao mesmo tempo que transmite uma sensação claustrofóbica para o espectador. Como será possível fugir deste meio tão fechado? Esta é uma questão que parece surgir na mente de algumas personagens femininas, com o destino das cinco irmãs a ser relativamente distinto. Estas jovens parecem praticamente impossibilitadas de fugir deste meio, embora a certa altura algumas decidam desafiar o destino, seja numa escolha distinta para um casamento, num suicídio ou numa fuga imprevista.

Após o episódio na praia, algumas das irmãs são obrigadas a efectuar testes de virgindade, embora todas sejam trancadas no interior da casa e proibidas de sair da habitação. O trabalho a nível da decoração do cenário da casa, a arquitectura deste espaço e o seu aproveitamento contribuem para que "Mustang" mantenha um tom entre o realismo e a fantasia, algo pretendido pela realizadora, como a própria salienta ao site Filmmaker Magazine: The architecture had something of Psycho and German Expressionism, something eerie and not-naturalistic. I was trying to move away from a potentially gloomy reality". A casa é pontuada pelas tonalidades azuis, sobretudo nos portões e gradeamentos que a certa altura começam a fazer parte da decoração, com esta cor a surgir associada à monotonia que vai afectar o quotidiano da maioria destas figuras femininas. Os computadores são escondidos, bem como todos os aparelhos que possibilitem a "corrupção" da alma destas jovens ou que estas contactem com rapazes, com os gradeamentos a contribuírem para transmitir a ideia de que a casa se transformou numa espécie de prisão. O trabalho de David Chizallet e Ersin Gok na cinematografia contribui para exibir e exacerbar a claustrofobia que envolve o quotidiano das protagonistas, com a câmara de filmar a procurar captar as sensações e emoções destas jovens no interior deste espaço habitacional. Veja-se os momentos em que Sonay, Selma, Ece, Nur e Lale se encontram a brincar no quarto, com a luz solar a penetrar bem forte no interior deste espaço, enquanto as irmãs procuram divertir-se e a câmara é situada bem próxima das jovens, algo que permite que estas ocupem boa parte destes planos que simbolizam a clausura do quinteto. O facto de estarem trancadas, enquanto se encontram a ser educadas para serem esposas, não impede que estas jovens tenham alguns momentos de rebeldia, desafiem o status quo e exibam os laços que as unem, com Deniz Gamze Ergüven a explorar as dinâmicas entre as cinco protagonistas ao mesmo tempo que permite que as actrizes sobressaiam. Diga-se que esta abordagem delicada de Ergüven contribui para que o espectador consiga compreender cada vez mais estas personagens e as pequenas nuances que muito dizem sobre as suas personalidades, com todas a apresentarem longos cabelos indomáveis que parecem longe do seu habitat quando alguém procura que sejam "domesticados". Sonay é a mais velha das cinco irmãs, mantendo um caso secreto com Ekin (Enes Sürüm), aquele que será o seu esposo, com esta a conseguir vincar a sua vontade junto dos familiares. Selma acaba por ser praticamente obrigada a casar com um indivíduo que não conhece, com o rosto que apresenta na festa de casamento a indicar um estado espírito semelhante a alguém que se encontra num velório. Ece vai surpreender-nos com um acto extremo, enquanto Nur é alvo de abusos e prepara-se para aderir às ideias da irmã mais nova. Lale é a figura mais complexa da narrativa, com Güneş Nezihe Şensoy a sobressair como esta jovem que se encontra a lidar com as alterações no seu corpo, a descoberta da sexualidade e as mudanças bruscas que ocorrem na sua vida.

No início do filme, Lale encontra-se na praia em momentos de alguma diversão com as irmãs. Com o avançar do enredo, Lale percebe que a vida do quinteto nunca mais vai ser a mesma, enquanto "Mustang" explora temáticas como a transição para a idade adulta, a pouca influência da mulher na sociedade turca, o conservadorismo na Turquia, a formação da personalidade por parte de um grupo de jovens, o choque de gerações, a descoberta da sexualidade, entre outras, com a banda sonora a contribuir para que a narrativa a espaços ganhe um tom que fica entra a melancolia e a fantasia. "Mustang" está longe de ser uma obra panfletária ou um filme-denúncia, embora consiga despertar a atenção do espectador para a realidade destas figuras ficcionais que a espaços se tornam bem reais, com o meio que as rodeia a ser inspirado na realidade turca contemporânea. Essa capacidade de Deniz Gamze Ergüven em conseguir criar personagens credíveis e complexas, que protagonizam situações que soam reais ao olhar do espectador, aos poucos conduz a que sejamos envolvidos para o interior deste universo narrativo onde um momento de humor pode ser rapidamente contrastado por um episódio emocionalmente violento. Veja-se quando as jovens fogem de casa para assistirem a um jogo entre Trabzonspor e o Galatasaray que apenas pode contar com mulheres no público, devido a uma sanção da Liga, com "Mustang" a inserir um episódio real no interior desta narrativa ficcional. A fuga é marcada por episódios paradigmáticos da rebeldia destas jovens que procuram desafiar um pouco o sistema, ainda que à sua maneira, com Lale (uma adepta do "desporto-rei") e companhia a contarem com a ajuda inesperada de Yasin (Burak Yiğit), um camionista que vai ter um papel fulcral no enredo. Quando descobrem que as jovens fugiram, as familiares do quinteto procuram a todo o custo que os elementos masculinos não assistam à transmissão televisiva do jogo, em momentos hilariantes que contrastam com a crueza de situações como a casa ser "decorada" com mais gradeamento e material que enclausure as protagonistas. Outro dos momentos marcantes acontece quando a avó das jovens resolve colocá-las na rua, vestidas e penteadas de acordo com a tradição, tendo em vista a "mostrá-las" para conseguir "atrair" maridos para as mesmas, com estas a serem tratadas quase como um "produto" que é exposto numa montra. "Mustang" não explora estas questões de forma maniqueísta, procurando antes uma abordagem subtil e delicada, embora a denúncia esteja implícita, enquanto estas jovens começam a ver o seu quotidiano a ser completamente alterado devido a valores tradicionais que coartam o livre-arbítrio, impossibilitam que continuem os estudos (veja-se que uma colega destas continua a frequentar a escola, algo que indica que nem todas as jovens são sujeitas a este tratamento na Turquia) e praticamente obrigam a que tenham de obedecer aos elementos masculinos. Se Nihal Koldaş interpreta eficazmente uma personagem conservadora, que apenas parece querer o bem das suas netas, embora os seus valores colidam com os desejos das jovens, já Ayberk Pekcan tem um desempenho que sobressai pela capacidade do actor em atribuir uma faceta temível a Erol, uma figura violenta que nos consegue surpreender sempre pela negativa.

O tio das protagonistas é o representante máximo desta Turquia conservadora e machista que "Mustang" pretende questionar, enquanto Deniz Gamze Ergüven cria uma obra cinematográfica que nos faz sentir uma miríade de emoções. Desde os sorrisos despertados devido às brincadeiras e peripécias destas jovens, passando pela apreensão em relação ao futuro das mesmas, até desferir-nos alguns murros no estômago com as atitudes de algumas figuras, "Mustang" tem o condão de nos fazer acreditar nas suas personagens. Diga-se que não vão faltar murros desferidos no estômago do espectador. Veja-se quando Selma casa e não sangra no acto sexual. Os momentos têm tanto de caricatos como de paradigmáticos de uma sociedade conservadora, ou a família do esposo não estivesse à porta enquanto espera pelo "troféu", ou seja, o lençol manchado de sangue. Perante o facto de Selma não sangrar, devido a um problema no hímen, o esposo e a família logo transportam a jovem para um centro médico para comprovar se esta é ou não virgem, algo que é inspirado em casos reais, uma situação que a cineasta comentou em entrevista ao Film Comment: "For instance, the scene in which Selma is taken to the hospital on her nuptial night, is real. Someone who works in a public hospital in Ankara told it to me. It was a situation that he encountered often during wedding seasons, in the spring and summertime, like police stops. Suspicious families would come and check their bride’s virginity". O fado destas jovens é bastante distinto, algo latente no casamento de Sonay, com esta a conseguir casar com o namorado, ao contrário de Selma que é obrigada a contrair matrimónio com alguém que não conhece, com Deniz Gamze Ergüven a procurar explorar as diferentes matizes destas personagens e os destinos distintos do quinteto, com a realizadora a colocar as mulheres no centro da narrativa, contrariando e bem o meio patriarcal no qual se inspirou. Diga-se que Sonay encara o casamento com alegria (algo que reforça o facto de "Mustang" não procurar uma abordagem maniqueísta), enquanto Nur e Lale não parecem partilhar esse entusiasmo, com "Mustang" a espaços a trazer-nos ecos de "Orgulho e Preconceito". Não temos uma Elizabeth Bennet ou um Mr. Darcy mas encontramos uma sociedade pontuada por valores tradicionais, com o casamento a parecer algo de imensamente relevante para diversos elementos, sobretudo para a avó das protagonistas. “Mustang” traz-nos ainda ecos de “The Virgin Suicides”, com quem tem sido comparado de forma amiúde: temos cinco irmãs educadas por uma família conservadora; as protagonistas são “trancadas” a certa altura da narrativa devido a uma delas ter cometido um acto considerado pouco correcto; existe toda uma atmosfera opressora em volta da casa e uma abordagem da sexualidade feminina, mas o contexto distinto das obras cinematográficas praticamente exige que exista alguma parcimónia nas comparações. Estas jovens apresentam personalidades muito próprias, procurando afirmar-se no interior de uma sociedade patriarcal, enquanto "Mustang" explora questões relevantes com a complexidade necessária, exibindo um meio pontuado por diversas contradições. Veja-se a intimidade entre Sonay e o namorado, com ambos a praticarem sexo antes do casamento, ainda que anal para esta manter a "virgindade", com o casal a revelar uma maior abertura do que diversos adultos que os rodeiam. "Mustang" surge como uma estreia bastante feliz de Deniz Gamze Ergüven na realização de longas-metragens, com a cineasta a brindar o espectador com uma narrativa capaz de colocar questões pertinentes e abordar assuntos relevantes, sempre num tom entre o realismo e a fantasia, enquanto o elenco tem espaço para sobressair e deixar a sua marca. 

Título original: "Mustang".
Título no Brasil: "Cinco Graças".
Realizadora: Deniz Gamze Ergüven.
Argumento: Deniz Gamze Ergüven e Alice Winocour.
Elenco: Güneş Nezihe Şensoy, Doğa Zeynep Doğuşlu, Tuğba Sunguroğlu, Elit İşcan, İlayda Akdoğan, Ayberk Pekcan, Nihal Koldaş.

Sem comentários: