Entre o conservadorismo de alguns sectores da sociedade turca que
parecem rejeitar os direitos das mulheres, um grupo de jovens
adolescentes rebeldes que se encontra a descobrir a sua sexualidade,
a sua personalidade e o seu corpo, casamentos arranjados e
sentimentos que parecem tão difíceis de controlar como a
espécie de cavalos do título, "Mustang" surge como uma estreia bastante interessante de Deniz Gamze
Ergüven na
realização de longas-metragens. É um filme que nos embala
inicialmente para a felicidade e candura de Sonay (İlayda Akdoğan),
Selma (Tuğba Sunguroğlu), Ece (Elit İşcan), Nur (Doğa Zeynep
Doğuşlu) e Lale (Güneş Nezihe Şensoy), as cinco protagonistas,
até estas serem colocadas diante de episódios que prometem afectar
o seu futuro e união. Estas procuram afirmar a sua identidade e
personalidade no interior de uma sociedade patriarcal onde os
direitos das mulheres estão longe de se encontrarem garantidos,
enquanto a câmara de filmar parece acompanhar os ritmos dos sentimentos e
emoções destas figuras femininas. No início de "Mustang"
encontramos Sonay, Selma, Ece, Nur e Lale, cinco irmãs, órfãs, a conviverem com um grupo de rapazes no meio da praia, algo que
é considerado como um escândalo por parte da avó (Nihal Koldaş) destas
jovens, uma mulher que se encontra a tomar conta das mesmas desde que
os pais do quinteto faleceram. O episódio que decorreu na praia não
conta com malícia, embora uma vizinha logo denuncie o mesmo,
com as protagonistas a preparem-se para lidar com uma
realidade que nem sempre é fácil de enfrentar. Sonay é a mais velha,
aquela que parece mais adulta e à vontade com a sua sexualidade,
algo que contrasta com a jovem Lale, a mais nova das cinco irmãs,
contando com cerca de onze ou doze anos de idade. É através do
olhar de Lale que observamos muitos dos episódios que envolvem estas
jovens que são sujeitas a violência física e psicológica por
parte de Erol (Ayberk Pekcan), o tio do quinteto, com a personagem
interpretada por Güneş Nezihe Şensoy a surgir como a narradora de
serviço. Nos momentos iniciais de "Mustang", mais do que
nos dar as diferentes nuances de cada uma das jovens, Deniz Gamze
Ergüven procura explorar a dinâmica destas em grupo, com a cineasta
a descrever o quinteto como uma espécie de hidra: "The
uncle is a sort of Minotaur in his maze, the girls are like a hydra,
a body with five heads of very different dispositions that allowed me
to explore the five possible fates of one woman on different levels".
Erol surge como uma figura violenta, completamente machista
e extremista na exposição das suas opiniões, algo visível ao não
ter problemas em tentar agredir as jovens quando sabe do episódio que ocorreu na praia. Estes habitam numa pequena vila situada a mais de
mil quilómetros de Istambul, com este território a parecer
contribuir ainda mais para o estilo conservador dos seus habitantes
ao mesmo tempo que transmite uma sensação claustrofóbica para o
espectador. Como será possível fugir deste meio tão fechado? Esta
é uma questão que parece surgir na mente de algumas personagens
femininas, com o destino das cinco irmãs a ser relativamente
distinto. Estas jovens parecem praticamente impossibilitadas de fugir
deste meio, embora a certa altura algumas decidam desafiar o destino,
seja numa escolha distinta para um casamento, num suicídio ou numa
fuga imprevista.
Após o episódio na praia, algumas das irmãs são obrigadas a efectuar testes de
virgindade, embora todas sejam trancadas no interior da casa e proibidas de sair da habitação. O trabalho a nível da decoração do cenário da casa, a arquitectura deste espaço e o seu aproveitamento contribuem para que "Mustang" mantenha um tom entre o realismo e a
fantasia, algo pretendido pela realizadora,
como a própria salienta ao site Filmmaker Magazine: The
architecture had something of Psycho
and German Expressionism, something eerie and not-naturalistic. I was
trying to move away from a potentially gloomy reality". A
casa é pontuada pelas tonalidades azuis, sobretudo nos portões e
gradeamentos que a certa altura começam a fazer parte da decoração, com esta cor a surgir associada à monotonia que vai afectar o quotidiano da maioria destas figuras femininas. Os computadores são escondidos,
bem como todos os aparelhos que possibilitem a "corrupção" da
alma destas jovens ou que estas contactem com rapazes, com os gradeamentos a contribuírem para transmitir a ideia de que a casa se transformou numa espécie de prisão. O trabalho de David
Chizallet e Ersin Gok na cinematografia contribui para exibir e exacerbar a claustrofobia que
envolve o quotidiano das protagonistas, com a câmara de filmar a procurar captar as sensações e emoções destas
jovens no interior deste espaço habitacional. Veja-se os momentos em que Sonay,
Selma, Ece, Nur e Lale se encontram a brincar no quarto, com a luz solar a
penetrar bem forte no interior deste espaço, enquanto as irmãs
procuram divertir-se e a câmara é situada bem próxima das jovens, algo que permite que estas ocupem boa parte destes planos que simbolizam a clausura do quinteto. O facto de estarem
trancadas, enquanto se encontram a ser educadas para serem esposas,
não impede que estas jovens tenham alguns momentos de rebeldia,
desafiem o status quo e exibam os laços que as unem, com Deniz Gamze Ergüven a explorar as dinâmicas
entre as cinco protagonistas ao mesmo tempo que permite
que as actrizes sobressaiam. Diga-se que esta abordagem delicada de
Ergüven contribui para que o espectador consiga compreender cada vez mais estas personagens e as pequenas nuances que
muito dizem sobre as suas personalidades, com todas a apresentarem
longos cabelos indomáveis que parecem longe do seu habitat quando alguém procura que sejam "domesticados". Sonay é a mais velha das cinco irmãs, mantendo um
caso secreto com Ekin (Enes Sürüm), aquele que será o seu esposo,
com esta a conseguir vincar a sua vontade junto dos familiares. Selma
acaba por ser praticamente obrigada a casar com um indivíduo que não
conhece, com o rosto que apresenta na festa de casamento a
indicar um estado espírito semelhante a alguém que se encontra num
velório. Ece vai surpreender-nos com um acto extremo, enquanto Nur é
alvo de abusos e prepara-se para aderir às ideias da irmã mais
nova. Lale é a figura mais complexa da narrativa,
com Güneş Nezihe Şensoy a sobressair como esta jovem que se encontra a lidar com as alterações
no seu corpo, a descoberta da sexualidade e as mudanças bruscas que
ocorrem na sua vida.
No início do filme, Lale encontra-se na praia em momentos de
alguma diversão com as irmãs. Com o avançar do enredo, Lale
percebe que a vida do quinteto nunca mais vai ser a mesma, enquanto
"Mustang" explora temáticas como a transição para a
idade adulta, a pouca influência da mulher na sociedade turca, o
conservadorismo na Turquia, a formação da personalidade por parte
de um grupo de jovens, o choque de gerações, a descoberta da
sexualidade, entre outras, com a banda sonora a contribuir para que a
narrativa a espaços ganhe um tom que fica entra a melancolia e a
fantasia. "Mustang" está longe de ser uma obra panfletária
ou um filme-denúncia, embora consiga despertar a atenção do
espectador para a realidade destas figuras ficcionais que a espaços
se tornam bem reais, com o meio que as rodeia a ser inspirado na
realidade turca contemporânea. Essa capacidade de Deniz Gamze Ergüven em conseguir criar personagens credíveis e complexas, que protagonizam situações que
soam reais ao olhar do espectador, aos poucos conduz a que sejamos
envolvidos para o interior deste universo narrativo onde um momento de humor pode ser
rapidamente contrastado por um episódio emocionalmente violento. Veja-se
quando as jovens fogem de casa para assistirem a um jogo entre Trabzonspor e o
Galatasaray que apenas pode contar com mulheres no público, devido a uma sanção da Liga, com
"Mustang" a inserir um episódio real no interior desta
narrativa ficcional. A
fuga é marcada por episódios paradigmáticos da rebeldia destas
jovens que procuram desafiar um pouco o sistema, ainda que à sua
maneira, com Lale (uma adepta do "desporto-rei") e companhia a contarem com a ajuda inesperada de
Yasin (Burak Yiğit), um camionista que vai ter um papel fulcral no
enredo. Quando descobrem que as jovens fugiram, as familiares do quinteto procuram a todo o custo que os elementos masculinos não assistam à transmissão televisiva do jogo, em momentos hilariantes que contrastam com a crueza de
situações como a casa ser "decorada" com mais gradeamento
e material que enclausure as protagonistas. Outro dos momentos marcantes acontece quando a avó das jovens resolve colocá-las na rua, vestidas e penteadas de acordo com a
tradição, tendo em vista a "mostrá-las" para
conseguir "atrair" maridos para as mesmas, com estas a serem tratadas quase como um "produto" que é exposto numa montra. "Mustang" não explora
estas questões de forma maniqueísta, procurando antes uma
abordagem subtil e delicada, embora a denúncia esteja implícita,
enquanto estas jovens começam a ver o seu quotidiano a ser completamente alterado devido a valores tradicionais que coartam o
livre-arbítrio, impossibilitam que continuem os estudos (veja-se que
uma colega destas continua a frequentar a escola, algo que indica que
nem todas as jovens são sujeitas a este tratamento na Turquia) e praticamente obrigam a que tenham de obedecer aos elementos masculinos. Se Nihal Koldaş interpreta eficazmente uma personagem
conservadora, que apenas parece querer o bem das suas netas, embora
os seus valores colidam com os desejos das jovens, já Ayberk Pekcan tem um
desempenho que sobressai pela capacidade do actor em atribuir uma
faceta temível a Erol,
uma figura violenta que nos consegue surpreender sempre pela
negativa.
O tio das protagonistas é o representante
máximo desta Turquia conservadora e machista que "Mustang"
pretende questionar, enquanto Deniz Gamze Ergüven cria uma obra
cinematográfica que nos faz sentir uma miríade de emoções. Desde
os sorrisos despertados devido às brincadeiras e peripécias destas
jovens, passando pela apreensão em relação ao futuro das mesmas, até desferir-nos
alguns murros no estômago com as atitudes de algumas figuras, "Mustang" tem o condão de nos fazer acreditar nas suas personagens. Diga-se que não vão faltar murros desferidos no estômago do espectador. Veja-se quando Selma casa e não sangra no acto sexual. Os momentos
têm tanto de caricatos como de paradigmáticos de uma sociedade
conservadora, ou a família do esposo não estivesse à porta
enquanto espera pelo "troféu", ou seja, o lençol manchado de
sangue. Perante o facto de Selma não sangrar, devido a um problema
no hímen, o esposo e a família logo transportam a jovem para um centro
médico para comprovar se esta é ou não virgem, algo que é
inspirado em casos reais, uma situação que a cineasta
comentou em entrevista ao Film Comment: "For
instance, the scene in which Selma is taken to the hospital on her
nuptial night, is real. Someone who works in a public hospital in
Ankara told it to me. It was a situation that he encountered often
during wedding seasons, in the spring and summertime, like police
stops. Suspicious families would come and check their bride’s
virginity". O fado destas jovens é bastante distinto, algo
latente no casamento de Sonay, com esta a conseguir casar com o
namorado, ao contrário de Selma que é obrigada a contrair
matrimónio com alguém que não conhece, com Deniz Gamze Ergüven a
procurar explorar as diferentes matizes destas personagens e os
destinos distintos do quinteto, com a realizadora a colocar as
mulheres no centro da narrativa, contrariando e bem o meio patriarcal
no qual se inspirou. Diga-se que Sonay encara o casamento com alegria
(algo que reforça o facto de "Mustang" não procurar uma
abordagem maniqueísta), enquanto Nur e Lale não parecem partilhar
esse entusiasmo, com "Mustang" a espaços a trazer-nos ecos
de "Orgulho e Preconceito". Não temos uma Elizabeth
Bennet ou um Mr. Darcy mas encontramos uma sociedade pontuada por
valores tradicionais, com o casamento a parecer algo de imensamente
relevante para diversos elementos, sobretudo para a avó das
protagonistas. “Mustang” traz-nos ainda ecos de “The Virgin
Suicides”, com quem tem sido comparado de forma amiúde: temos
cinco irmãs educadas por uma família conservadora; as protagonistas
são “trancadas” a certa altura da narrativa devido a uma delas
ter cometido um acto considerado pouco correcto; existe toda uma
atmosfera opressora em volta da casa e uma abordagem da
sexualidade feminina, mas o contexto distinto das obras cinematográficas
praticamente exige que exista alguma parcimónia nas comparações.
Estas jovens apresentam personalidades muito próprias, procurando
afirmar-se no interior de uma sociedade patriarcal, enquanto
"Mustang" explora questões relevantes com a complexidade
necessária, exibindo um meio pontuado por diversas contradições.
Veja-se a intimidade entre Sonay e o namorado, com ambos a praticarem
sexo antes do casamento, ainda que anal para esta manter a
"virgindade", com o casal a revelar uma maior abertura do
que diversos adultos que os rodeiam. "Mustang" surge como uma estreia bastante feliz de Deniz Gamze Ergüven na realização de longas-metragens, com a cineasta a brindar o espectador com uma narrativa capaz de colocar questões pertinentes e abordar assuntos relevantes, sempre num tom entre o realismo e a fantasia, enquanto o elenco tem espaço para sobressair e deixar a sua marca.
Título original: "Mustang".
Título no Brasil: "Cinco Graças".
Realizadora: Deniz Gamze Ergüven.
Argumento: Deniz Gamze Ergüven e Alice Winocour.
Elenco: Güneş Nezihe Şensoy, Doğa Zeynep Doğuşlu, Tuğba Sunguroğlu, Elit İşcan, İlayda Akdoğan, Ayberk Pekcan, Nihal Koldaş.

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