26 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Marie Antoinette" (2006)

 Sofia Coppola deixa-nos perante uma visão muito própria da história de Marie Antoinette, com a cineasta a procurar jogar com as convenções dos filmes de pendor biográfico e subverter as mesmas ao longo desta obra cinematográfica que partilha o título com a sua protagonista. É um filme recheado de cor, luxo, ilusão, sentimentos fortes e frustrações, um guarda-roupa sublime e uma banda sonora deliciosamente anacrónica, com Sofia Coppola a procurar explorar as contradições desta figura feminina trágica e complexa. Marie Antoinette (Kirsten Dunst) surge representada como uma figura que inicialmente não se encontra habituada aos protocolos da corte francesa, parecendo um "peixe fora de água" em Versailles. Quando chega, oriunda da Áustria, Marie Antoinette é obrigada a despojar-se dos seus bens, incluindo do seu cão, tendo de se habituar a todo um conjunto de protocolos para os quais não parecia devidamente preparada. A forma como assina o papel do casamento, com o seu nome a ser escrito de forma mais descoordenada e acompanhado por um borrão, deixa bem saliente o não alinhamento desta mulher que inicialmente é alvo de todos os olhares da corte. Este é um espaço pontuado por futilidades e intrigas, luxos e vacuidade a nível do pensamento, com Marie Antoinette a formar amizades e inimizades, enquanto é alvo de rumores devido ao casamento com o futuro Louis XVI da França (Jason Schwartzman) tardar em ser consumado. Se Kirsten Dunst transmite a facilidade com que Marie Antoinette exprime as suas emoções e aos poucos parece sucumbir ao prazer dos luxos, já Jason Schwartzman consegue explorar o lado menos efusivo do personagem que interpreta, um indivíduo que gosta de caçar, tem nas fechaduras o seu hobbie, embora tarde em ter relações sexuais com a esposa. O facto do casamento tardar em ser consumado preocupa quer o Rei de França (Rip Torn), quer Maria Theresa da Áustria (Marianne Faithfull), a Imperatriz consorte do Sacro Império Romano-Germânico. A união entre o futuro Louis XVI e Marie Antoinette é vista como um meio de cimentar a aliança entre a Áustria e a França, com o poder da protagonista em Versailles a depender e muito da possibilidade de poder dar à luz um herdeiro. O casamento entre Marie Antoinette e Louis-Auguste é marcada por uma frieza inicial, algo latente nas cenas onde se encontram juntos na cama, com este a demonstrar pouco entusiasmo em manter relações com a esposa, uma situação que praticamente se torna numa anedota em Versailles. Maria Theresa desespera e envia missivas para a filha, tendo em vista a instigá-la a conseguir compelir o esposo a consumar o casamento, algo que também é desejado por Louis XV. Diga-se que o Rei surge com comportamentos distintos do neto, com o caso entre Louis XV e Madame du Barry (Asia Argento), a sua amante, a ser deveras conhecido. Asia Argento sobressai nos poucos momentos em que a personagem que interpreta surge no ecrã, com a actriz a interpretar uma mulher conhecida pelas suas extravagâncias, comportamentos pouco polidos e outrora ter sido uma prostituta, com Madame du Barry a ser alvo dos mais variados comentários no interior do Palácio de Versailles.

O Palácio de Versailles é representado como um espaço de luxo, poder, intrigas e excessos. A certa altura, Marie Antoinette salienta que o protocolo relacionado com as figuras que têm o privilégio de a vestir é ridículo, algo que a Condessa de Noailles (Judy Davis), a primeira-dama de honor da futura Rainha salienta "Isto, Madame, é Versailles". A Condessa surge como uma figura relativamente austera que procura ensinar e aconselhar Marie Antoinette, com a frase desta mulher sobre Versailles a deixar paradigmaticamente representado que este é um espaço onde os excessos quer a nível dos protocolos, quer a nível da exposição dos sentimentos, quer a nível dos luxos são considerados normais. Outro dos conselheiros de Marie Antoinette é Florimond Claude (Steve Coogan), o Conde de Mercy-Argenteau, um indivíduo que assume ainda as funções de embaixador, com Steve Coogan a interpretar uma figura que apresenta alguma confiança com a futura Rainha, surgindo como um dos vários elementos que procuram ensinar a protagonista a integrar-se no seu novo estilo de vida. Marie Antoinette surge como uma figura que tanto tem de extravagante como de solitária, com os boatos sobre a sua pessoa a serem mais do que muitos, embora a espaços esta contribua para os mesmos. Veja-se as festas em que esta participa, ou as suas roupas luxuosas, ou o caso extraconjugal que inicia com Axel Fersen (Jamie Dornan), um militar sueco. Jamie Dornan interpreta com eficácia um indivíduo galanteador, que desperta a atenção da protagonista num baile de máscaras, com Marie Antoinette a surgir como uma figura que procura preencher o sentimento de vazio que a espaços assola a sua vida através destes eventos. A morte de Louis XV e a coroação de Louis-Auguste como Louis XVI conduz a um aumentar dos excessos, com Sofia Coppola a colocar-nos diante de uma narrativa que é um deleite para os sentidos onde tudo parece pensado ao pormenor. Desde os vestidos e os sapatos da protagonista, passando pelas suas festas e gastronomia requintada, até às propriedades da família real, Sofia Coppola não poupa nos luxos que rodeiam Marie Antoniette, uma figura feminina complexa que procura afugentar a solidão através das mais variadas formas, embora nem sempre seja bem sucedida. Diga-se que a solidão, a complexidade das figuras femininas, o aproveitamento notável dos cenários surgem como temáticas e elementos transversais entre "Marie Antoinette", "The Virgin Suicides" e "Lost in Translation", as duas longas-metragens realizadas anteriormente por Sofia Coppola. Mesmo "Somewhere" aborda a alienação do ser humano e os excessos das figuras financeiramente mais abonadas, enquanto "The Bling Ring" explora questões ligadas com a cultura de massas ao mesmo tempo que exacerba a capacidade da realizadora em criar universos narrativos onde o estilo ultrapassa muitas das vezes a substância. No caso de "Marie Antoinette", Sofia Coppola deixa-nos diante de extremos, parecendo a espaços deixar-se levar por todos estes luxos ao mesmo tempo que aborda questões complexas, mesclando alguns factos históricos com imensa ficção, enquanto permite a Kirsten Dunst ter um dos grandes desempenhos da sua carreira. Esta consegue convencer quer em relação ao tom inicialmente naïve de Marie Antoinette, quer na solidão sentida pela protagonista, quer na capacidade de sedução e enorme carisma desta figura feminina. A espaços encontra conforto junto da Duquesa de Polignac (Rose Byrne), ou dos seus filhos, com "Marie Antoinette" a abordar o período compreendido entre a saída da personagem do título da Áustria até à Tomada da Bastilha e a fuga da família real para o Palácio das Tuileries.

 Com o avançar do filme assistimos aos ecos do descontentamento do povo, bem como do apoio dado pela França aos EUA contra os ingleses, com a miríade de personagens que nos é apresentada a parecer ignorar esta situação, embora "Marie Antoinette" não procure, nem tente explorar as questões de foro político e social. O ambiente que rodeia o Palácio de Versailles e a vida na Corte parece uma realidade completamente à parte, com os luxos dos elementos que rodeiam a realeza a contrastarem com as notícias de falta de pão para o povo. Marie Antoinette surge no meio deste turbilhão, com Sofia Coppola a contribuir para um momento memorável, em particular quando a personagem interpretada por Kirsten Dunst curva-se diante do povo, que se encontra em protesto, exibindo simultaneamente todas as suas forças e fragilidades. A própria cinematografia adensa muitas das vezes a grandeza do espaço do Palácio de Versailles em relação à figura de Marie Antoniette, com o cuidado a nível do design dos cenários interiores e do guarda-roupa a ser notório. Diga-se que Sofia Coppola teve acesso ao Palácio de Versailles para as filmagens de "Marie Antoniette", com a cineasta a procurar efectuar um retrato relativamente simpático desta fascinante figura feminina. É um retrato onde Sofia Coppola mescla factos e ficção, respeita elementos da época e insere ingredientes completamente anacrónicos, criando algo de extremamente apelativo, mesmo nos momentos onde parece ceder aos excessos, embora a artificialidade nunca se sobreponha totalmente ao desenvolvimento dos personagens e ao enredo. Acima de tudo fica a ideia de que Sofia Coppola criou algo cheio de vida, que a apaixonou e encantou, algo que consegue transmitir para o espectador, com "Marie Antoinette" a surgir como uma obra cinematográfica pontuada por momentos de algum fulgor que facilmente compensam os trechos onde a cineasta se deixa levar pelos luxos da sua protagonista. Já Jason Schwartzman consegue explorar a personalidade dicotómica de Louis XVI em relação a Marie Antoinette, com o actor a dar vida a um indivíduo representado como alguém sem pulso quer no casamento, quer como Rei de França. Diga-se que o elenco é relativamente bem aproveitado, com Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Steve Coogan, Asia Argento e Rip Thorne a terem espaço para se destacarem ao longo da narrativa, com Sofia Coppola a não deixar que os seus intérpretes se apaguem diante de todo o aparato colocado em volta dos mesmos. Com um trabalho notável a nível dos cenários, guarda-roupa e caracterização, uma utilização engenhosa e criativa da banda sonora, "Marie Antoinette" surge como um retrato pessoal que Sofia Coppola efectua sobre esta figura histórica, com a cineasta a criar algo que muito tem de seu, numa obra cinematográfica inebriante e interessante, que beneficia ainda de uma interpretação bastante recomendável de Kirsten Dunst.

Título original: "Marie Antoinette".
Realizadora: Sofia Coppola.
Argumento: Sofia Coppola.
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Judy Davis, Rip Torn, Rose Byrne.

Sem comentários: