20 janeiro 2016

Resenha Crítica: "The King of Comedy" (1982)

 A procura por uns minutos de fama e o desejo de exibir o seu suposto talento conduzem Rupert Pupkin (Robert De Niro), um aspirante a comediante, a fazer de tudo para se encontrar com Jerry Langford (Jerry Lewis), um conhecido humorista e apresentador televisivo. Rupert, o protagonista de "The King of Comedy", é um falhado a nível profissional e pessoal, que habita com a mãe e delira com hipotéticos diálogos com Jerry. Com um bigode e penteado peculiares, fatiotas que contribuem muitas das vezes para a pouca seriedade com que é encarado por aqueles que o rodeiam, Rupert procura ainda conquistar Rita (Diahnne Abbott), a empregada de um bar e antiga colega de escola, ao fingir ser amigo de várias celebridades, embora esse desejo pareça quase tão complicado como conseguir uma oportunidade para mostrar o seu "talento" a Jerry. O prólogo de "The King of Comedy" é acalorado, com os fãs a não darem descanso a Jerry, incluindo Masha (Sandra Bernhardt), uma stalker do comediante e apresentador, que logo se enfia no interior do carro do mesmo. Rupert procura ajudar Jerry, tendo em vista a entrar no veículo do comediante e praticamente implorar por uma oportunidade para exibir o seu talento. Jerry diz para este marcar uma reunião com Cathy (Shelley Hack), a sua secretária, algo que o personagem interpretado por Robert De Niro leva demasiado a sério, sobretudo se tivermos em conta que esta foi uma medida para o primeiro se livrar do protagonista. São várias as cenas dos delírios do protagonista que Martin Scorsese nos apresenta, por vezes interrompidas pelos berros da mãe de Rupert no fora de campo a pedir para o filho fazer menos barulho. Estes momentos variam entre o hilariante e o constrangedor, ao mesmo tempo que Martin Scorsese ironiza com o culto às celebridades e a procura da obtenção da fama a todo o custo. Perante várias tentativas fracassadas de se reunir com Jerry e a rejeição da produtora do programa, Rupert acaba por tomar medidas drásticas. Inicialmente visita a casa de Rupert para impressionar Rita, algo que não cai bem junto do personagem interpretado por Jerry Lewis e deixa a jovem envergonhada, até decidir raptar o apresentador com a conivência de Masha. O pedido para deixarem Jerry sair é simples: Rupert apresentar os dez minutos iniciais do programa de Jerry, onde contam com um momento de stand-up comedy. De forma rocambolesca, Rupert consegue o seu momento de fama, proclamando-se como o "Rei da Comédia", enquanto aguarda pela detenção. É um personagem trágico e patético, iludido pela fama e pelos seus próprios delírios, embora até se safe no seu primeiro número ao vivo, procurando exibir o seu suposto talento diante do grande público, mesmo que para isso tenha de saltar etapas e cometer um crime. Robert De Niro tem aqui um personagem bem mais leve do que aqueles que interpretar(i)a em filmes realizados por Martin Scorsese como "Mean Streets", "Taxi Driver", "Raging Bull", "Goodfellas", "Casino" e "Cape Fear", embora Rupert esteja longe de ser uma figura pouco complexa, com este aspirante a comediante a surgir como um indivíduo solitário que está disposto a tudo para alcançar a fama. Este procura ter uns minutos de sucesso, surgindo como o produto de uma sociedade capaz de "criar" celebridades com a mesma facilidade que as deixa cair no ocaso. Rupert quer uma oportunidade, apesar de ser largamente desprezado, incluindo por parte de Jerry, embora não pareça disposto a esforçar-se para comprovar e aprimorar o seu talento. Em certa medida, Rupert até nos remete para o desejo de ascensão do personagem interpretado por Harvey Keitel em "Mean Streets" ou a procura de Henry Hill (Ray Liotta) em integrar o mundo da máfia em "Goodfellas", embora raramente acreditemos que o primeiro consiga vir a ter sucesso.

Os momentos finais deixam o espectador na dúvida se os acontecimentos apresentados serão realidade ou ilusão, tal a forma como os delírios do protagonista por vezes entram sem aviso na narrativa, com estes a assumirem uma grande influência na vida de Rupert, sobretudo devido ao facto do personagem interpretado por Robert De Niro não parecer conseguir manter a barreira entre as suas divagações e a realidade. A cena em que visita a casa de Jerry de forma a dar a ideia de que é amigo do apresentador exemplifica paradigmaticamente a forma como Rupert transporta as suas ilusões para a realidade, parecendo que acredita na possibilidade de ter criado uma relação de amizade com o personagem interpretado por Jerry Lewis. É também um momento revelador da perturbação deste personagem e do quão perigoso e hostil pode ser ao invadir a casa de um elemento que praticamente lhe é um estranho. Jerry Lewis tem uma interpretação de enorme destaque, num papel que parece inspirado em episódios da sua vida (a cena em que uma fã deseja que este tenha cancro, depois de Jerry dizer que estava com pressa, foi baseada num episódio real, com Martin Scorsese a deixar o actor a coordenar o timing do trecho para incutir maior veracidade ao mesmo). Lewis é conhecido por protagonizar filmes de humor, embora interprete uma figura de características mais sérias e comedidas em "The King of Comedy", incutindo o carisma necessária a esta lenda da comédia, um indivíduo que praticamente não consegue ter descanso, sendo constantemente assediado pelo público. Existe um momento em que Jerry salienta "Sou apenas um ser humano, com todos os defeitos e fraquezas. O programa, a pressão, as groupies, os caçadores de autógrafos, a equipa. Os incompetentes que pensas serem teus amigos, sem saberes se sobreviverás por causa deles. Pressões maravilhosas que fazem os teus dias radiantes". Este desabafo acaba por descrever um pouco o quotidiano deste personagem e o lado mais desencantado dos talk shows e do humor, num filme que procura apresentar-nos às dificuldades em ascender neste meio, bem como a faceta mais trabalhosa do mesmo. Jerry trabalhou imenso para merecer a sua oportunidade, tendo conquistado o direito a apresentar o seu próprio programa e a granjear uma base de fãs, mas o seu quotidiano está longe de ser marcado apenas pela felicidade, bem pelo contrário, ou este não surgisse como uma figura solitária que praticamente não pode confiar em ninguém (quase todos os personagens acabam por ter as suas frustrações ao longo do filme). Veja-se quando tem de lidar com Rupert, mas também com Masha, a mulher que fica a tomar conta do apresentador durante o sequestro, dois elementos que ficam obcecados por aquilo que a estrela representa. Masha é uma figura feminina desequilibrada e instável, interpretada com a eficácia necessária por Sandra Bernhard, com a actriz a conseguir expor a obsessão desta mulher em relação ao personagem interpretado por Jerry Lewis. Tenta contactá-lo imensas vezes, mas Jerry nunca corresponde aos anseios desta perigosa stalker. O ambiente que esta cria quando tem a estrela em cativeiro é de algum intimismo, rodeado da luz das velas, embora o apresentador esteja atado e sinta tudo menos amor e/ou desejo por esta. Masha é uma mulher frustrada que surge como o paradigma das obsessões que alguns elementos geram pelas estrelas e pela imagem que criam em volta das mesmas, com Martin Scorsese a realizar uma comédia negra que nos expõe ao lado nem sempre positivo do show business e da cultura de massas.

Rupert é o paradigma desse lado negativo da obsessão pelas estrelas, surgindo como alguém que toda a vida ambicionou ser rico e famoso, embora continue a viver com a mãe aos trinta e poucos anos de idade, parecendo incapaz de alterar esta situação. As suas longas esperas na recepção do estúdio são penosas e degradantes, as ilusões que cria de ter uma amizade com Jerry também, num filme que procura incutir algum humor negro, dramatismo e estranheza a estas situações mencionadas. A certa altura do filme Rupert salienta: "É melhor ser rei por uma noite do que idiota a vida inteira". Esta frase resume na perfeição as razões para ter tomado o acto drástico de raptar Jerry com o auxílio de Masha, com o protagonista a encontrar nesta acção desesperada uma medida para poder apresentar o seu número de stand-up ao vivo na televisão. Este anseia pela sua oportunidade. Ela não chega mas Rupert força a sua chegada. Em certa medida Rupert faz-nos recordar Travis Bickle, o protagonista de "Taxi Driver", e o seu estranho sentimento de justiça. Ambos são personagens solitários, algo psicóticos e psicopatas, capazes de cometerem crimes em situações extremas, ao mesmo tempo que parecem quase sempre desfasados do mundo que os rodeia. Rupert necessita de atenção, do reconhecimento daqueles que nunca confiaram em si, mas nem por isso deixa de apresentar uma perigosa instabilidade emocional que o torna num personagem nem sempre agradável de seguir. O resultado final é inesperado, com "The King of Comedy" a apresentar-nos a um personagem disposto a tudo para conseguir apresentar o seu número, que se encontra obcecado com a ideia de ser famoso, embora também surja como o representante de alguém que nunca teve a oportunidade desejada para singrar na vida. Será que trabalhou para isso? Será que este quer ser comediante ou famoso? Ainda não tinha casa dos segredos e reality shows do género para ter fama temporária, mas parece desejar sobretudo alcançar a adoração ao nível de Jerry, ao mesmo tempo que também quer provar o seu valor. Algo parece certo, Rupert mostra-se sempre indisponível para provar inicialmente o seu valor em clubes nocturnos e ser observado in loco pela equipa de produção do programa, algo que demonstra alguma da sua falta de esforço e humildade. Por vezes faz-nos rir com os seus actos, por vezes gera desconforto, com "The King of Comedy" a não ter problemas em deixar o espectador diante de diversas situações desconfortáveis e algumas temáticas pertinentes. É uma comédia negra, mesclada com algum dramatismo e sátira social, com Rupert a surgir como indivíduo complexo, enquanto Martin Scorsese realiza de forma imaculada uma obra cinematográfica capaz de abordar questões complexas e extrair interpretações de peso a Robert De Niro e Jerry Lewis.

Título original: "The King of Comedy".
Título em Portugal:"O Rei da Comédia".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Paul D. Zimmerman.
Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Tony Randall, Diahnne Abbott, Sandra Bernhard.

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