04 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Creed" (2015)

 Um dos elogios que tenho de efectuar a "Creed" centra-se no facto de conseguir reproduzir o efeito que alguns filmes da saga de Rocky Balboa provocaram na minha pessoa: emocionar. Diga-se que é praticamente impossível encarar "Creed" apenas como uma obra cinematográfica isolada, ou muita da densidade emocional não aprouvesse daquilo que conhecemos dos filmes anteriores, embora o argumento procure, em alguns diálogos, deixar breves comentários que apresentam o universo narrativo de Rocky ao espectador que entra pela primeira vez na "Rockylândia". Veja-se quando somos colocados diante de Rocky Balboa (Sylvester Stallone) a deixar uma garrafa de whisky no túmulo de Paulie, o seu cunhado e melhor amigo, bem como a ler as notícias do dia junto da campa da esposa. Percebemos que Rocky visita este espaço regularmente, procurando algum conforto junto daqueles que marcaram a sua vida e desaparecerem deste Mundo, embora permaneçam nas suas memórias, com diversos episódios desta figura ficcional a terem sido partilhados com o espectador ao longo dos filmes da saga. Sylvester Stallone, auxiliado pelo argumento de Ryan Coogler e Aaron Covington, concede novas "camadas" a este personagem icónico, um ex-pugilista que conseguiu feitos grandiosos, que apresenta uma humildade e simplicidade desarmantes, com o actor a exibir a ternura com que Rocky encara os bons momentos do passado mas também a dor pelo destino lhe ter retirado a companhia daqueles que mais ama. Diga-se que a saga sempre contou com mortes marcantes, incluindo de Apollo Creed (Carl Weathers), em "Rocky IV", no célebre combate contra Ivan Drago (Dolph Lundgren). Apollo foi o adversário de Rocky nos dois primeiros filmes da saga, tendo ajudado o mesmo a recuperar o "Eye of the Tiger" em "Rocky III" ao treinar o protagonista contra Clubber Lang (Mr. T). Rocky e Apollo passaram de rivais a amigos, com a morte deste último a surgir como um dos momentos mais emotivos de "Rocky IV". Em "Creed", o protagonista não é Rocky Balboa mas sim Adonis Johnson, ou melhor Adonis Creed (Michael B. Jordan), o filho de Apollo Creed, com o sétimo filme da saga "Rocky" a surgir como uma mescla de sequela/remake/spin-off que honra o legado desta magnífica franquia. Desde a construção dos personagens e o desenvolvimento dos seus relacionamentos, passando pela banda sonora, as falas emotivas e os treinos, até ao desfecho final, "Creed" respeita a saga e insere a possibilidade desta continuar a caminhar com Adonis como protagonista, com Ryan Coogler, o realizador, a revelar um enorme conhecimento do meio no qual se envolveu. Na espécie de prólogo, "Creed" apresenta Adonis, durante a sua juventude, num centro para jovens delinquentes, com o protagonista a ser adoptado por Mary Anne Creed (Phylicia Rashad), a viúva de Apollo Creed, com esta a procurar educar o jovem como se fosse seu filho biológico. Adonis é fruto de um affair entre Apollo e outra mulher, com o jovem a ter nascido após a morte do pai, tendo ainda perdido a mãe biológica bastante cedo. A narrativa logo avança no tempo, com Adonis a ser apresentado como um jovem que teve um período marcado por alguma violência na infância, até ser adoptado por Mary Anne, uma mulher que procura que o filho adoptivo não siga a carreira do pai, ainda que não seja bem sucedida neste quesito.

No presente, Adonis é um pugilista amador que venceu uma série de combates no México, procurando esconder o apelido do pai, tendo em vista a não viver na sombra dos feitos do progenitor. Inicialmente, Adonis trabalha numa empresa, em Los Angeles, embora decida apresentar a demissão, tendo em vista a apostar tudo no pugilismo, algo que não é bem visto pela mãe adoptiva. Adonis ainda tenta ser treinado por Tony "Little Duke" Evers (Wood Harris), o filho de Duke, o treinador do seu pai, com "Creed" a não poupar nas referências que remetem para o "legado" daqueles que antecederam o protagonista. No entanto, Tony Evers rejeita treinar o personagem interpretado por Michael B. Jordan, com Adonis a decidir protagonizar dois combates no ginásio pertencente ao filho de Duke, exibindo o seu carácter destemido, "muito à Apollo Creed", embora também demonstre alguma da sua inexperiência. A determinação de Adonis para se tornar num pugilista profissional leva a que o protagonista se mude para um apartamento barato em Filadélfia, onde procura contactar com Rocky Balboa. O primeiro encontro entre ambos é marcado pela surpresa de Rocky em relação à existência de Adonis, pela troca de palavras sobre o passado e a recusa do personagem interpretado por Sylvester Stallone em treinar o protagonista. Este vai treinar para o ginásio que outrora pertencera a Mickey (Burgess Meredith), embora Pete Sporino (Ritchie Coster), o técnico responsável por gerir este espaço, esteja mais preocupado em ensinar Leo Sporino (Gabriel Rosado), o filho, um pugilista promissor que conta com uma série de vitórias relevantes. Aos poucos, Rocky é compelido a treinar o filho de Apollo, com o jovem a exibir uma personalidade muito própria, embora carregue consigo alguma da irreverência e arrogância do progenitor, mas também a sua perícia para o combate e o espírito de luta do primeiro. Seguem-se os treinos, o combate com Leo e a descoberta por parte da imprensa de que Adonis é o filho de Apollo Creed, algo que coloca alguma pressão sobre o jovem. A vitória surpreendente sobre Leo e a descoberta de que é filho de Apollo Creed, conduz a que Adonis receba uma proposta para enfrentar o britânico Ricky Conlan (Tony Bellew), o campeão do Mundo, um tipo violento, que se encontra com a imagem desgastada devido a alguns problemas fora dos ringues. Escusado será dizer que estamos perante um caso semelhante a "Rocky", onde o personagem do título enfrentou Apollo Creed, o campeão em título, numa jogada inicialmente planeada como um golpe publicitário por parte do segundo, embora o protagonista surpreenda tudo e todos. Pelo caminho, Adonis fortalece a sua relação de amizade com Rocky, embora ambos tenham um ou outro arrufo, a fazer recordar este último e Mickey no primeiro filme da saga. Tal como Rocky tinha contas a ajustar com o destino, também Adonis procura provar o seu valor nos ringues de combate e agarrar com unhas e dentes a oportunidade de uma vida, com a dupla a formar uma relação quase familiar. Michael B. Jordan foi uma escolha deveras inspirada para o papel de Adonis Creed, com o actor a convencer como este jovem que se procura afirmar no mundo do pugilismo, tendo de ultrapassar as dúvidas que são colocadas em relação à sua pessoa. Jordan atribui um carácter simultaneamente afável e rebelde a Adonis, com o actor a apresentar uma dinâmica assinalável com Sylvester Stallone e Tessa Thompson. Veja-se quando encontramos Rocky a conduzir os treinos de Adonis, ou os momentos mais dramáticos protagonizados pela dupla, sobretudo quando é revelado que o personagem interpretado por Sylvester Stallone padece de cancro.

Rocky parece pronto a desistir de tudo e partir deste Mundo. Se Apollo ajudou Rocky a recuperar o "Eye of the Tiger" em "Rocky III", já Adonis procura que personagem interpretado por Sylvester Stallone lute contra a doença e recupere o amor pela vida, com a dupla a formar uma relação de amizade genuína, enquanto protagoniza batalhas distintas. Tessa Thompson interpreta a "Adrian" de Adonis, nomeadamente, Bianca, uma cantora que padece de um problema de audição, com esta a procurar desafiar uma doença que rouba gradualmente algo que é essencial para a prática da sua profissão. Esta é uma jovem bonita, sardónica, que facilmente se transforma num baluarte de Adonis e vice-versa, com Bianca a procurar afirmar-se no mundo da música, enquanto o protagonista anseia conquistar o seu "lugar ao Sol" no pugilismo. Os dois conhecem-se quando Adonis vai habitar para um apartamento em Filadélfia, num prédio pouco faustoso, onde se encontra localizada a habitação de Bianca. A dinâmica do casal é convincente, com Ryan Coogler, o realizador, a explorar uma faceta distinta da saga, com Bianca e Adonis a surgirem como duas figuras diferentes de Rocky e Adrian, embora vivam algumas situações e experiências semelhantes. Ryan Coogler exibe uma enorme humanidade e assertividade a explorar as dinâmicas entre Rocky, Adonis e Bianca, conseguindo ainda gerir os ritmos da narrativa de forma exímia, algo que contribui e muito para que o espectador forme uma sensação de empatia em relação ao trio. Todos parecem ser apresentados no momento certo da narrativa, algo notório no timing seleccionado para a entrada de Rocky em cena. Tal como em "Rocky Balboa", o personagem interpretado por Sylvester Stallone gere o restaurante Adrian's, um espaço onde é contactado por Adonis, num episódio que promete agitar a vida do ex-pugilista. A simplicidade de Rocky é contagiante, bem como o seu espírito de luta, a sua capacidade de nos fazer rir ou derramar uma lágrima, de nos fazer crer que é possível enfrentar o destino, com os efeitos da passagem do tempo a serem notórios no personagem e no seu intérprete. Diga-se que muito do efeito de "Creed" seria impossível sem o carisma e enorme talento que Sylvester Stallone demonstra a interpretar Rocky Balboa, um personagem de ficção que conquistou o seu espaço na Sétima Arte e na cultura popular. Num determinado momento, encontramos Rocky a ter dificuldades em escrever de forma correcta ou sem saber o que é armazenar uma imagem numa cloud. Temos ainda o diálogo com a médica sobre a possibilidade de efectuar quimioterapia, bem como com Adonis, com Stallone a convencer que o personagem se encontra inicialmente resignado perante o destino e a perda de todos os seus entes queridos. São pequenos traços que dizem muito da simplicidade e ingenuidade desta figura profundamente humana, com Sylvester Stallone a ser capaz de atribuir uma dimensão extraordinária às falas deste personagem que inspira tudo e todos à sua volta, incluindo Adonis, enquanto "Creed" volta a explorar a típica história do underdog.

O personagem interpretado por Michael B. Jordan surge como uma figura distinta de Rocky. É certo que ambos passaram por dificuldades na juventude, embora Adonis tenha conhecido uma boa educação a partir do momento em que foi adoptado pela viúva de Apollo. No entanto, tal como acontecera ao personagem interpretado por Sylvester Stallone em "Rocky", também Adonis tem muito a provar no mundo do boxe, com ambos a serem inicialmente alvo de desconfiança por parte dos analistas e daqueles que os rodeiam. O enredo contém elementos transversais a diversos filmes da saga e referências directas aos mesmos, algo que concede a "Creed" uma faceta quase de remake. Não falta o pugilista que é desafiado para lutar contra o campeão, embora poucos acreditem que seja capaz de vencer este último; o romance entre um casal que apresenta uma química notória; as cenas de treino em Filadélfia onde o protagonista é seguido por várias pessoas, com a cidade a ser aproveitada praticamente como uma personagem de relevo; o confronto num ambiente hostil a fazer recordar "Rocky IV"; alguém próximo ao personagem principal que adoece num momento fulcral do treino ("Rocky II"), entre outros exemplos. As referências são imensas, algo latente quando Adonis pergunta sobre o resultado final do combate privado entre Rocky e Apollo, após a luta entre o personagem interpretado por Sylvester Stallone e Clubber Lang em "Rocky III", ou os trechos dos combates entre o pai do protagonista e o seu actual treinador, entre outros elementos. As cenas dos treinos, bem como os combates, são filmados com grande inspiração e engenho, embora Ricky Conlan nunca ganhe a dimensão de um Apollo ou gere o receio provocado por Ivan Drago, com "Creed" a descurar o desenvolvimento dos adversários do protagonista. No final, "Creed" surpreende pelo respeito sincero que tem pela saga, contribuindo para adicionar ainda mais dimensão ao icónico Rocky Balboa, ao mesmo tempo que insere novos personagens relevantes a uma franquia que conta com diversas figuras marcantes, com Ryan Coogler a nunca descurar algo que se revelou essencial em "Rocky", "Rocky II" e "Rocky Balboa": a dimensão humana dos personagens e a capacidade dos protagonistas em desafiarem o impossível e o destino. Mais do que a vitória ou derrota nos combates e as emotivas cenas de treino, aquilo que interessa a "Creed" é a jornada do personagem do título enquanto trilha o seu próprio caminho, constrói o seu legado e procura honrar o apelido que tentou esconder, com o final a ser uma montanha-russa de emoções, onde o nervosismo pode facilmente ceder o seu lugar às lágrimas. "Creed" concede nova vida a esta saga, respeita e sabe jogar com os lugares-comuns da mesma, enquanto abre espaço para que esta siga um novo caminho com o personagem do título como protagonista, embora seja notório que a presença de Sylvester Stallone atribua toda uma emotividade acrescida ao filme, com Rocky a surgir como o personagem da vida do actor. Com um dos melhores desempenhos da carreira de Sylvester Stallone, "Creed" surge como uma obra cinematográfica emotiva e apaixonante, com Ryan Coogler a inserir mais um capítulo brilhante a esta saga marcante.

Título original: "Creed".
Título em Portugal: "Creed: O Legado de Rocky".
Realizador: Ryan Coogler.
Argumento: Ryan Coogler e Aaron Covington.
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashād, Tony Bellew.

2 comentários:

Sarah disse...

Devo dizer que este filme não me estava a puxar muito.. mas agora que li a tua crítica fiquei com imensa curiosidade! Gostei de ler, parabéns

Sarah
http://depoisdocinema.blogspot.pt

Aníbal Santiago disse...

Obrigada. Quem gosta de boa parte dos filmes da saga, muito provavelmente, também vai gostar do Creed. Quem não gostou, sobretudo dos dois primeiros, é provável que também não goste deste. Eu sou fã da saga, pelo que tentar escrever algo de forma ponderada foi complicado, embora tenha visto o "Creed" mais do que uma vez para tentar não cair em "excessos". Aproveito ainda para saudar o regresso em força do Depois do Cinema.