18 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Carol" (2015)

 Pontuado por uma enorme delicadeza, atenção ao pormenor, um conjunto de valores de produção assinaláveis e desempenhos magníficos de Cate Blanchett e Rooney Mara, "Carol" surge como uma das grandes estreias nas salas de cinema portuguesas em 2016, com Todd Haynes a criar um romance que nos deleita quer pelos pequenos detalhes, quer pela sua dupla de protagonistas, quer pela capacidade do cineasta em conseguir reunir harmoniosamente estilo e substância. Os gestos, os olhares, as palavras, os silêncios, o guarda-roupa, os planos, surgem recheados de significado e intenção, enquanto Cate Blanchett e Rooney Mara teimam em demonstrar que são duas actrizes magníficas, com a dupla a interpretar personagens de características distintas que se parecem complementar na perfeição. Cate Blanchett comprova mais uma vez que é uma das melhores actrizes em actividade, sendo capaz de elevar cada personagem a quem dá vida e transcender regularmente as nossas expectativas. Em "Carol", Blanchett tanto surge no controlo como apresenta sinais latentes de fragilidade, com esta a dar vida à personagem do título, uma mulher elegante, charmosa, fumadora que se encontra a protagonizar um doloroso processo de divórcio. Carol ainda é casada com Harge Aird (Kyle Chandler), de quem tem uma filha, a jovem Rindy, com ambos a disputarem a custódia da mesma. Harge é um indivíduo ciumento e possessivo, que não se conforma com o divórcio, nem consegue esconder o seu desprezo em relação a Abby Gerhard (Sarah Paulson - presença sempre competente), a melhor amiga, ex-namorada e confidente de Carol. A personagem interpretada por Cate Blanchett conhece Therese Belivet (Rooney Mara) numa loja de brinquedos, em Manhattan, durante a época de Natal, em 1952. Therese parece sentir algo de estranho e magnético quando contacta com Carol, uma mulher mais velha, que transmite uma aura digna de uma diva, aparentemente muito segura de si própria, embora esteja a atravessar um período adverso da sua vida. Se Carol vive de forma relativamente segura, utiliza roupas caras e uma maquilhagem saliente, já Therese ainda se encontra a procurar afirmar a sua identidade. Therese trabalha temporariamente numa loja de brinquedos, tendo ambições como fotógrafa, embora tarde em sentir-se à vontade para fotografar seres humanos, pelo menos até conhecer Carol. De unhas pintadas de vermelho, expostas de forma amiúde pela câmara, símbolo de desejo e das emoções descontroladas, Carol procura uma boneca para oferecer à filha no Natal. A boneca já se encontra esgotada, pelo que Therese sugere um comboio e uma pista de brincar, algo que Carol considera uma boa ideia. Carol deixa a morada da sua casa para os elementos da loja transportarem e montarem o brinquedo no domicílio, com Therese a aproveitar o envio para devolver as luvas da protagonista, que ficaram por esquecimento, ou propositadamente na loja. Embora namore com Richard (Jake Lacy), um indivíduo que a propõe em casamento e apresenta largos planos para o futuro, Therese parece sentir uma certa atracção por Carol. Não é algo de fulminante. Diga-se que Todd Haynes oferece-nos muitas das vezes um espectáculo de contenção dos sentimentos, com lampejos de "Brief Encounter" pelo meio, ou os encontros esporádicos entre Carol e Therese não pareçam gradualmente conduzir a algo maior, com estas personagens a conquistarem o coração uma da outra e o nosso, ou pelo menos, o meu.

 Voltando ao filme, antes que me deixe perder por caminhos pouco pragmáticos, ou seja, a salientar repetidamente o quanto estou apaixonado por esta obra cinematográfica magnífica, bela e envolvente. Carol liga a Therese, tendo em vista a agradecer o facto desta última ter enviado as luvas que ficaram esquecidas na loja, aproveitando a oportunidade para convidar a personagem interpretada por Rooney Mara para almoçar. Therese parece nervosa. Carol no controlo. O próprio guarda-roupa indica isso mesmo, com Carol a aparecer com vestes caras, pontuadas por adereços dominados por tonalidades encarnadas, cabelo loiro penteado ao pormenor, batom vermelho, enquanto os seus comportamentos são próprios de alguém experiente e preparado. Therese aparece mais discreta, sem o gorro de Pai Natal que utilizava na loja quando encontrara Carol pela primeira vez, com as suas vestes a apresentarem tonalidades negras (colete) e brancas (camisa), enquanto os seus comportamentos indicam alguma inexperiência e nervosismo. Estamos diante de duas mulheres distintas, igualmente complexas e capazes de desafiarem as nossas expectativas. Todd Haynes desenvolve a relação entre Carol e Therese em lume brando. Concede espaço para Rooney Mara e Cate Blanchett comporem as suas personagens, exporem as personalidades e receios de Therese e Carol, até reunir as protagonistas numa viagem que promete marcar as suas vidas. Estamos em plenos anos 50, um período onde uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo é encarada com enorme preconceito por parte de diversos elementos que rodeiam Carol e Therese. Diga-se que, nos dias de hoje, a intolerância ainda existe, embora esteja relativamente mais matizada, com "Carol" a efectuar um diálogo entre o passado e o presente, ao mesmo tempo que expõe gradualmente que é completamente redutor catalogar o filme em análise com expressões pueris como "romance lésbico". "Carol" é acima de tudo um romance, ou um melodrama, protagonizado por dois seres humanos com sentimentos completamente naturais, com os rótulos fáceis a servirem mais para o clickbait do que para comentar o filme e a subtileza com que Todd Haynes aborda a relação entre a dupla de protagonistas. Cate Blanchett e Rooney Mara elevam as personagens que interpretam, denotando uma química latente, enquanto "Carol" troca as nossas voltas desde o início. Veja-se que ficamos no início do filme com uma cena muito à "Brief Encounter", onde Carol e Therese se encontram no interior de um restaurante, quando são interrompidas por um conhecido da segunda (não falta inclusive uma mão no ombro, semelhante ao gesto do personagem interpretado por Trevor Howard). Só mais tarde saberemos o que antecede e se sucede a esta cena, com Todd Haynes a deixar-nos na dúvida, enquanto efectua quase um movimento circular em volta da narrativa. O argumento, escrito por Phyllis Nagy, inspirado no livro "The Price of Salt", de Patricia Highsmith, é inteligente o suficiente para estabelecer bastante bem estas duas figuras complexas, deixando espaço para evoluírem ao longo da narrativa, enquanto desenvolve subtilmente o nascimento de um romance marcante, com laivos de "Brief Encounter" quer na cena mencionada, quer nos trechos das viagens de Therese no comboio, quer na delicadeza que acompanha a abordagem deste envolvimento. Existe um receio mútuo em relação à exposição dos sentimentos, algo notório nos diálogos e nos silêncios entre Carol e Therese. Uma mão no ombro pode significar muito, tal como uma fotografia ou um disco oferecido. Comecemos pela mão no ombro: o olhar de Rooney Mara exprime o turbilhão de sentimentos que perpassa pela alma de Therese, com Todd Haynes a ter um controlo exímio na forma como gere os timings para exacerbar a relevância desta cena. A fotografia remete para o hobby de Therese, com esta a não ter coragem ou vontade de fotografar seres humanos até conhecer Carol. Therese fotografa Carol a preto e branco, quando esta se encontra desprevenida, mas graciosa e charmosa o suficiente para causar impacto, até se tornar numa espécie de divindade adorada pela objectiva da primeira. O disco oferecido remete para uma música que a personagem interpretada por Rooney Mara toca ao piano, num momento de maior intimidade com Carol, com a primeira a oferecer posteriormente um vinil onde consta essa canção.

 A música tem um papel de relevo, com Todd Haynes a procurar capturar uma atmosfera próxima dos anos 50, uma situação notória na banda sonora de Carter Burwell (um colaborador habitual dos irmãos Coen - mais uma vez excelente), bem como no guarda-roupa, nos cenários, nos veículos, nos gestos e diálogos dos personagens, entre outros exemplos. A banda sonora sobressai muitas das vezes nos momentos de silêncio entre as protagonistas, tais como algumas viagens de carro em que Rooney Mara e Cate Blanchett conseguem transmitir imenso apenas com os seus gestos e olhares. O guarda-roupa é paradigmático do trabalho meticuloso efectuado em "Carol", bem como a maquilhagem. Veja-se quando Cate Blanchett surge com um casaco de peles, uma boina vermelha e luvas, até deixar estas últimas em cima da mesa para assinar um cheque, tendo em vista a adquirir o comboio na loja de brinquedos. A câmara foca as mãos de Carol, enquanto escreve, com o anel a indicar que esta ainda é comprometida. O plano das mãos é inserido de forma orgânica, numa cena que é bem trabalhada quer a nível da cinematografia, quer do trabalho de montagem. O verniz das unhas, vermelho, tal como a cor do batom de Carol, não esconde os sentimentos inquietos desta mulher, mas também o desejo que esta desperta e a curiosidade que parece sentir em relação a Therese. Rooney Mara, nessa cena específica, encontra-se com um gorro de Pai Natal e vestes discretas. As cores das vestimentas de Therese, na loja, quando contacta pela primeira vez com Carol são marcadas por tonalidades neutras, ou discretas, que reforçam o enigma em volta desta mulher. O gorro transmite uma certa inocência a esta figura feminina que se encontra prestes a descobrir uma série de sentimentos que florescem incontroladamente no seu âmago. Rooney Mara consegue muitas das vezes esconder no seu rosto os sentimentos de Therese, com a actriz a explorar o mistério em volta desta mulher. O olhar de Therese parece muitas das vezes vazio. Sente algo novo, que a deixa recheada de dúvidas e muitas incertezas. Não sabe como lidar com os seus sentimentos, muito menos como expor os mesmos diante daqueles que conhece, para além de ser notório que receia a resposta de Carol. Inicialmente procura acima de tudo agradar, até começar a soltar-se um pouco mais diante da personagem do título. Por sua vez, Carol parece mais confiante, embora também denote algumas dúvidas em relação aos sentimentos de Therese. Rooney Mara e Cate Blanchett são simplesmente maravilhosas a desenrolar este novelo sentimental e explorar como Therese e Carol, aos poucos, começam a sentir algo mais forte e apresentam uma abertura gradual para exporem aquilo que sentem. Todd Haynes deixa-nos inicialmente na dúvida se relação vai mesmo avançar, ou se já terá avançado aquando da viagem que a dupla efectua, ao mesmo tempo que explora não só o lado mais cândido dos sentimentos amorosos mas também alguns revezes nem sempre desejáveis. É tudo tão delicado e inserido de forma tão orgânica na narrativa que, quando estas personagens se beijam pela primeira vez, quase que nos sentimos felizes e aliviados por Carol e Therese finalmente soltarem os seus sentimentos e desejos em momentos de enorme beleza. O momento é filmado com bom gosto, enquanto Cate Blanchett e Rooney Mara conseguem incutir a carga emocional necessária para que tudo resulte.

 Carol e Therese são duas figuras complexas que, muito provavelmente, não vamos esquecer tão depressa. Therese é apresentada inicialmente como uma personagem desejada pelas figuras masculinas, que mantém um namoro que parece atravessar uma crise e uma situação profissional pouco segura. Ainda chega a ser incentivada por Dannie (John Magaro), um amigo de Richard, que escreve para o New York Times, para se reunir com o editor da secção de fotografia do jornal, embora Therese inicialmente não avance para essa opção. Dannie é um dos pretendentes de Therese, uma mulher que desperta um enorme fascínio naqueles que a rodeiam, que o diga Carol. Já a personagem interpretada por Cate Blanchett encontra-se a enfrentar um processo de divórcio intrincado, com Kyle Chandler a interpretar um indivíduo magoado e pronto a magoar sentimentalmente a protagonista. Kyle Chandler a espaços consegue sobressair num filme onde Cate Blanchett e Rooney Mara roubam por completo as atenções com interpretações sublimes e marcantes. É certo que o argumento ajuda, mas Blanchett e Mara são as pedras de toque para muito do filme funcionar, com a química entre as personagens que interpretam e a naturalidade que incutem nos gestos, silêncios e diálogos das mesmas a "facilitarem" a tarefa de Todd Haynes. O próprio guarda-roupa das personagens e os seus penteados (reparem no último terço como o penteado de Therese se aproxima daquele que é utilizado por Carol) contribuem para expressar os estados de espírito das mesmas. Veja-se quando partem em direcção incerta, numa viagem de carro de motel em motel, com os sentimentos entre ambas a parecerem começar a aparecer mais à flor da pele. Encontramos pela primeira vez a personagem interpretada por Rooney Mara com vestes vermelhas (se não contarmos com os adereços), algo que simboliza um pouco o seu maior à vontade, com Todd Haynes a certa altura a começar a trocar-nos as voltas. Carol parecia no controlo. Therese aos poucos toma essa papel, sem que Carol deixe de apresentar uma postura digna. A certa altura do filme, Carol é alvo de preconceitos por parte dos familiares e elementos da justiça, com a sua orientação sexual a ser encarada como uma "doença". Therese não é o primeiro caso de Carol com uma mulher. Não é um crime, esta sabe disso, tal como Therese, embora aqueles que as rodeiam tratem de encarar a situação de forma distinta. Todd Haynes não diaboliza os interlocutores, procurando antes exibir o preconceito e, ao mesmo tempo, fazer com que o espectador questione se as mentalidades mudaram assim tanto, repetindo, em parte, algo que efectuara com sucesso em obras cinematográficas como "Far From Heaven". A certa altura, a personagem interpretada por Cate Blanchett tem um momento libertador que quase nos faz levantar da cadeira e aplaudir. O seu discurso é sincero, sem soar a algo que "Carol" procura pregar ao espectador, enquanto a personagem do título exibe o seu carácter forte. Também é frágil, mas parte do interesse deste filme realizado por Todd Haynes resulta exactamente das contradições inerentes à personalidade destas personagens femininas. A própria diferença de idades pode ou não ser encarada como um problema, uma questão levantada por Abby, bem como o facto de Carol e Therese pertencerem a grupos sociais distintos, embora essas barreiras aos poucos pareçam ser diluídas. Vale a pena recuperar o exemplo de "Far From Heaven", uma obra cinematográfica realizada por Todd Haynes, onde o cineasta nos coloca diante de temáticas como o papel da mulher na sociedade, o racismo, as diferenças sociais, a homossexualidade, a solidão, tendo como pano de fundo um espaço nos subúrbios Connecticut, em plena década de 50, algo que, em parte, entronca com o enredo de "Carol".

 "Far From Heaven" e "Carol" contam com a mesma década como pano de fundo, partilhando ainda a capacidade de Todd Haynes em explorar o período que representa quer a nível das temáticas, quer a nível do guarda-roupa, quer a nível dos cenários, embora o primeiro procure espelhar uma realidade que parece saída de um filme dos anos 50, enquanto o segundo coloca o espectador diante de algo mais realista. "Carol" exibe mais uma vez Todd Haynes como um cineasta magnífico a transmitir o espírito da época que representa, algo que tinha efectuado com enorme inspiração em "Safe", "Far From Heaven", bem como no delirante "Velvet Goldmine". Tal como em "Far From Heaven", também em "Carol" a homossexualidade é encarada como uma doença por alguns personagens, enquanto Todd Haynes explora a situação com enorme delicadeza e humanidade. "Carol" exibe ainda a preocupação de Todd Haynes quer a nível do design dos cenários interiores, quer da exposição dos espaços exteriores. O cuidado nos cenários interiores é visível em momentos como Carol a pentear a filha, enquanto se encontra ao espelho, quase como se estivéssemos diante das facetas distintas desta personagem. Diga-se que é através de um espelho que, em parte, somos expostos ao primeiro beijo entre Carol e Therese, algo que exacerba essas dicotomias entre as duas mulheres e as facetas distintas que marcam as suas personalidades complexas. O modo como os espaços citadinos interiores e exteriores são representados e filmados remetem para a época, algo notório em estabelecimentos como o bar onde encontramos Therese, o namorado e os amigos no início do filme, ou a loja de brinquedos onde esta mulher trabalha, um local onde não faltam bonecas de porcelana, pistas de comboios de brincar (cujo movimento circular pode remeter para uma metáfora relacionada com o estado em que se encontra vida das protagonistas no período em que se encontram, ou envolver a própria estrutura narrativa de "Carol"), entre outros materiais para crianças. O próprio cineasta, em entrevista ao Film Comment, salientou ainda a relevância da paleta cromática para a representação da cidade de acordo com a época: "(...) the muted palette, the almost indecipherable temperatures, partly as a result of that palette but also because of how the city looked at this time". Toda esta atenção ao pormenor nunca se sobrepõe ao desenvolvimento dos personagens, à procura em abordar uma relação amorosa complexa e profundamente humana, com a temática da homossexualidade a ser problematizada, embora "Carol" aborde o envolvimento da dupla de protagonistas como este deve ser encarado: naturalidade. Sim, continuam a existir preconceitos, mas aquilo que interessa a "Carol" são os sentimentos da dupla de protagonistas, com estas a desafiarem alguns tabus da época, embora também sejam muitas das vezes afectadas pelos mesmos. Diga-se que Todd Haynes recupera ainda algo transversal a diversos dos seus trabalhos: personagens femininas complexas, algo latente em "Safe" e "Far From Heaven", com Julianne Moore a brilhar em ambos os filmes citados. Com uma atenção ao detalhe primorosa, um trabalho notável e imaculado de Todd Haynes na realização, uma cinematografia pontuada por pormenores de classe, "Carol" promete sobreviver à passagem do tempo, ser reverenciado e apaixonar quem se deixar envolver por este universo narrativo. Como brinde temos ainda interpretações marcantes de Cate Blanchett e Rooney Mara, duas actrizes magníficas que elevam uma obra cinematográfica simplesmente apaixonante.

Título original: "Carol".
Realizador: Todd Haynes.
Argumento: Phyllis Nagy.
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler.