22 janeiro 2016

Resenha Crítica: "The Age of Innocence" (1993)

 Martin Scorsese troca a ferocidade e violência visceral de obras como "Taxi Driver", "Goodfellas" e "Casino" por uma enorme delicadeza e subtileza em "The Age of Innocence", um drama de época sublime. Não temos gangsters a procurarem ascender ou manter o seu estatuto no mundo da máfia, nem um aspirante a comediante capaz de tudo para ser famoso, ou um antigo combatente do Vietname que tem um sentimento de justiça muito próprio. A violência que encontramos não é física, mas sim no plano dos sentimentos, com "The Age of Innocence" a colocar-nos diante de um homem que se apaixona pela prima da noiva, embora nunca se consiga soltar totalmente das amarras dos códigos de boa conduta da sociedade do seu tempo e posteriormente dos seus deveres como esposo. Ficamos perante a alta sociedade de Nova Iorque, durante o final do século XIX, inicialmente em 1870, onde os elementos das famílias de alto escalão aparentam conhecer-se a todos, vivendo imenso de aparências, parecendo guiados muitas das vezes por um código de conduta que não corresponde na prática aos seus comportamentos quotidianos. Baseado no livro homónimo de Edith Wharton, "The Age of Innocence" surge na carreira de Martin Scorsese quase como um corpo estranho, a fazer recordar "Tess" no currículo de Roman Polanski, com o cineasta a realizar um melodrama de época marcado por elevados valores de produção, cenários requintados e sentimentos que nem sempre conseguem ser controlados. Diga-se que "The Age of Innocence" conta com diversos elementos transversais a algumas obras cinematográficas realizadas por Martin Scorsese, incluindo o protagonista com sentimento de culpa; a narração em off a detalhar-nos vários pormenores do enredo e dos personagens (por vezes com alguma ironia à mistura), permitindo agilizar a narrativa e estabelecer este universo narrativo diante de nós; o interesse na história de Nova Iorque (algo que repetirá em obras como "Gangs of New York"); o trabalho de montagem de Thelma Shoonmaker, capaz de incutir uma enorme fluidez no filme; alguns planos que facilmente ficam na memória, entre outros exemplos. Os momentos iniciais de "The Age of Innocence" deixam-nos perante um espectáculo de ópera, no qual encontramos presentes vários elementos da alta sociedade, incluindo Newland Archer (Daniel Day-Lewis), um indivíduo de fino trato, culto, bem vestido, que se prepara para casar com May Welland (Winona Ryder), uma mulher aparentemente inocente em relação ao mundo que a rodeia, parecendo pouco preparada para lidar com o cinismo existente no mesmo. A grande notícia na ópera é o regresso da Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), a prima de May, uma mulher que se casara com um conde polaco mas pretende divorciar-se do mesmo, algo que é considerado um escândalo na época. Se May parece ser o símbolo da candura e inocência, já Mary é o paradigma de uma mulher misteriosa, sensual e sardónica, que carrega consigo um passado nem sempre claro que aguça o apetite por mexericos dos elementos da alta sociedade. Também aguça a curiosidade de Archer que logo procura casar o mais depressa possível com May, numa decisão que parece mesclar o seu desejo por esta mas também o medo que tem de ceder aos sentimentos que nutre por Ellen. Esta é mal vista pela alta sociedade, com a sua possível presença no baile anual dos Beaufort a ser uma das questões colocadas por vários elementos durante o espectáculo de ópera. 
Ellen decide não aparecer no baile, supostamente devido a não ter o vestido adequado, embora esta decisão pareça estar relacionada com uma procura desta mulher em não atrair ainda mais atenções sobre a sua pessoa. Diga-se que esta não é a única a ter os seus "esqueletos escondidos no armário", algo que a narradora faz questão de nos salientar ao apresentar a casa dos Beaufort: "A casa dos Beaufort era uma das poucas, em Nova Iorque, com salão de baile. Uma sala assim, fechada durante 364 dias do ano, parecia compensar algo de lamentável no passado dos Beaufort. Regina Beaufort provinha de uma antiga família da Carolina do Sul. Mas o seu marido, Julius, que passava por inglês, era conhecido por ter hábitos duvidosos, uma língua venenosa, e misteriosos antecedentes. O seu casamento assegurou-lhe uma posição na sociedade, mas não necessariamente o respeito". Julius (Stuart Wilson) é conhecido pela sua habilidade nos negócios mas também pelos casos extraconjugais, com este a deixar implícito que se encontra interessado em Ellen. A casa dos Beaufort surge como um espaço recheado de luxos, pontuado por diversos quadros e outras obras de arte, transmitindo todo o aprumo colocado no design dos cenários interiores, com "The Age of Innocence" a contar com uma representação cuidada do ambiente desta época, com os bailes, as festas e jantares sociais a terem um papel de relevo na alta sociedade de Nova Iorque, sempre dependente da manutenção das aparências. O próprio cuidado colocado em elementos como o guarda-roupa, os penteados e comportamentos dos personagens, tendo em vista a respeitarem o período representado, surge como um dos destaques de "The Age of Innocence", sobretudo no que diz respeito a Ellen, uma mulher elegante, que procura desafiar as regras da sociedade do seu tempo algo que a leva a ser inicialmente mal vista. Esta veio da Europa, procura divorciar-se e parece chocar com os valores algo retrógrados defendidos pelos elementos que a rodeiam. Archer não é propriamente um admirador de toda a puerilidade desta sociedade que é capaz de destroçar outros seres humanos pelas costas, apesar de também procurar não fugir totalmente às regras dos bons princípios que regem os seus pares. Como é salientado pela narradora, este "Era um mundo de equilíbrio tão precário que um sussurro podia destruir a sua harmonia", algo que conduz o protagonista a tentar gerir com pinças o seu discurso em público e em privado, com Ellen a parecer a figura que mais se aproxima da personalidade de Archer. Daniel Day-Lewis tem uma interpretação sublime, marcada pela procura do personagem que interpreta em restringir os seus sentimentos em relação e Ellen e expor o seu amor por May. Ellen representa o desejo pelo fruto proibido, com Michelle Pfeiffer a interpretar uma mulher de personalidade forte, experiente e inteligente que, tal como o protagonista, apresenta um gosto latente pelas artes e um conjunto de ideias e ideais muito próprios. May representa alguém ainda não corrompido por uma sociedade cuja ostentação exterior procura esconder uma vacuidade de ideias. Não faltam personagens secundários de relevo a rodear o trio de protagonistas, incluindo a Sra. Manson Mingott (Miriam Margolyes), a primeira a receber a visita dois noivos. Esta é uma das mulheres mais influentes de Nova Iorque, algo salientado pela narradora: "Ela não era só a matriarca deste mundo. Era quase a sua digníssima imperadora. Grande parte de Nova Iorque era da família dela e conhecia a restante por casamento ou reputação". Mingott é tratada por avó quer por May, quer por Ellen, surgindo como uma mulher relativamente anafada, que pouco se consegue locomover apesar de viver de forma luxuosa numa mansão com dois andares. Esta fica imensamente satisfeita com o casamento de May e Archer, não só por simpatizar com ambos, mas também por esta união permitir reunir duas das famílias mais reputadas de Nova Iorque. Já a Condessa Oleska não reúne tantos consensos quer junto da mãe e irmã de Archer, quer da alta sociedade de Nova Iorque que rejeitou em peso a festa organizada pela Srª Manson Mingott para receber publicamente a sua familiar, com "The Age of Innocence" a contar com uma narrativa povoada de figuras secundárias que nem sempre despertam a nossa simpatia, com diversos elementos a parecerem ter na vida alheia um dos poucos temas de conversa.

Esta rejeição colectiva dos elementos da alta sociedade em relação à personagem interpretada por Michelle Pfeiffer conduz a que Mingott e Archer recorram aos van der Luyden, um casal poderosíssimo que, ao convidar Oleska para o jantar que marca a chegada do Duque de St. Austrey, exibe um sinal de que esta finalmente deverá ser aceite no meio que os rodeia. O jantar permite exibir, mais uma vez, a enorme cumplicidade entre Ellen e Archer, dois elementos que apresentam uma química latente aos olhos de todos, embora May não pareça inicialmente perceber isso. Archer parece amar May, mas existe algo de irresistível em Ellen que o atrai, com o protagonista a evitar manter um affair com esta, embora acabe a certa altura por não conseguir controlar os seus ímpetos. O marido pretende o regresso de Ellen, uma situação que não parece ser o desejo desta mulher, com Archer a ser o advogado contratado para tratar do caso, algo que o coloca ainda mais em contacto com a personagem interpretada por Michelle Pfeiffer. No entanto, ambos são obrigados a fazer escolhas. É verdade que o destino os reúne e afasta diversas vezes, mas Archer parece ter um sentido ético demasiado elevado para fugir de todo às suas responsabilidades perante May, incluindo casar com esta. Ficamos perante um triângulo amoroso em pleno Século XIX, numa sociedade de Nova Iorque marcada por valores conservadores e elementos que vivem de aparências. Os sentimentos entre Ellen e Archer são bem reais, por vezes até a parecerem superar aquilo que este nutre pela esposa, mas as regras sociais e o destino imiscuem-se em demasia no quotidiano de ambos. Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer apresentam uma química latente como este casal de amantes que tarda em consumar o amor que nutre um pelo outro, enquanto Winona Ryder aparece como uma figura inicialmente apagada mas não tão inocente como poderá sempre parecer. Se Michelle Pfeiffer interpreta uma mulher que deslumbra e consegue virar todas as atenções para a sua pessoa, já Winona Ryder dá vida a uma figura feminina aparentemente mais frágil, por vezes pouco confiante e sem grandes opiniões formadas. Posteriormente percebemos que consegue ganhar influência sobre Archer e impor as suas ideias, algo que fica desde logo latente quando evita que o protagonista convide um casal para jantar devido ao amigo do personagem interpretado por Daniel Day-Lewis não ser do agrado desta. Ellen e May têm em comum o amor por Archer, um advogado que parece despertar facilmente a simpatia da maioria dos seus interlocutores. Este é um dos vários personagens dos filmes de Martin Scorsese que conta com um certo sentimento de culpa, tendo de lidar com um código de conduta que parece colidir com os seus sentimentos, acabando por tomar a opção que considera mais correcta para a sua vida. Se terá sido mais feliz assim ou se tivesse tomado outra opção nunca saberemos, embora Martin Scorsese nos deixe muitas das vezes na dúvida em relação a esta situação. A certa altura do filme, Archer encontra Ellen na praia, junto de uma das casas da Srª Mingott, quando este e May visitam a personagem interpretada por Miriam Margolyes. Diz a si próprio que apenas a contactará se esta se virar. Deixa ao destino a escolha de se reunir com Ellen mais uma vez, ou ignorar que encontrara esta bela mulher. Ela não se vira. A imagem dela ao Sol, quase como se estivesse emoldurada na mais bela das pinturas não lhe sai da cabeça, nem da nossa.

O destino tem um papel decisivo nesta relação. Ora os pais de May decidem antecipar o casamento quando Archer parecia disposto a assumir o seu amor por Ellen, ora esta última viaja, ora a esposa fica grávida. O casamento entre May e Archer está longe de ser um conto de fadas, embora este se esforce por esconder aquilo que o atormenta. A certa altura do filme, May salienta que este deixou de lhe ler poesia. É uma pequena constatação mas não deixa de ser reveladora que deixou de haver algum do lirismo inicial que marcara a relação entre ambos, onde até existia tempo para a poesia. Algo mudou em Archer. May sabe ou finge não saber as razões para estas mudanças. São muitos os sentimentos reprimidos ao longo de "The Age of Innocence", uma obra cinematográfica onde Martin Scorsese nos transporta para outros tempos da alta sociedade de Nova Iorque embora estes não estejam assim tão distantes dos dias de hoje com as aparências e a ostentação a continuarem a ter um papel muito importante. Se a poesia por vezes deixa de fazer parte do quotidiano de May e Archer, já a cinematografia de Michael Balhhaus brinda-nos com alguns momentos de grande lirismo, enquanto Martin Scorsese realiza uma obra marcada por algum romantismo e dramatismo, na qual os sentimentos são expostos e por vezes reprimidos com enorme delicadeza. É provavelmente um dos trabalhos mais distintos de Martin Scorsese, comprovando a sua versatilidade como cineasta e o seu enorme talento para gerir os ritmos da narrativa, bem como a sua capacidade para utilizar a banda sonora ao serviço do enredo. A própria paleta cromática é utilizada de forma sublime em diversos momentos, seja na já citada cena na praia marcada por tonalidades quentes, nas rosas amarelas e vermelhas oferecidas a Ellen, no contraste entre o vestido vermelho da personagem interpretada por Michelle Pfeiffer e as vestes brancas de May no jantar em casa dos van der Luyden (sedução vs. pureza), entre vários outros exemplos. Veja-se ainda a forma elegante como a câmara se movimenta e nos transporta para o interior destas casas recheadas de quadros, obras de arte, velas, candelabros, cortinados luxuosos, com os ornamentos a preencherem excessivamente as paredes das habitações, enquanto diversos personagens procuram expor a sua "saúde financeira" através destes objectos e da organização de eventos. Essa ostentação pueril fica paradigmaticamente representada na forma inicial como o salão de baile dos Beaufort é apresentado: uma sala escura marcada por vagas frestas de luz que apenas ganha vida uma vez por ano. O cuidado na elaboração dos planos é visível ainda quando encontramos Archer a jantar com a mãe, a irmã e um amigo da família, com cada um dos personagens a encontrar-se enquadrado entre duas velas de dimensões elevadas, quase que a representar uma sociedade que procura estar sempre no lugar, embora Ellen rompa muitas das vezes com as convenções. No final, "The Age of Innocence" surge como um melodrama de época que nos surpreende não só pelas interpretações e pelos elevados valores de produção, mas também pela forma sincera como Martin Scorsese nos compele a seguir com atenção a história destes personagens, embrenhando-nos para o interior de um triângulo amoroso onde os impulsos nem sempre resistem à racionalidade embora sejam muitas das vezes reprimidos pela mesma.

Título original: "The Age of Innocence".
Título em Portugal: "A Idade da Inocência".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Jay Cocks e Martin Scorsese.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder, Geraldine Chaplin.

2 comentários:

ajanelaencantada disse...

Para mim um dos melhores de Scorsese, embora quase sempre fique de fora das listas, por não parecer um Scorsese "puro". Há muito cinema neste filme que é um dos melhores filmes de época que conheço.

Aníbal Santiago disse...

É um dos meus filmes preferidos do Scorsese, para não dizer que é aquele que gosto mais. Nem sempre foi assim, mas o filme tem o estranho pode de subir na minha consideração a cada nova visualização (o mesmo se aplica ao Tess do Polanski).