Comédia negra completamente alucinante, frenética, rocambolesca
e imprevisível, "After Hours" apresenta-nos a uma noite
que Paul Hackett (Griffin Dunne) não irá esquecer tão depressa. Depois de mais um dia
de trabalho, este indivíduo que labora num escritório decide ir a um café onde é interpelado por Marcy
Franklin (Rosanna Arquette) devido ao facto de se encontrar a ler "Trópico de
Câncer", um livro de Henry Miller, um autor que esta aprecia.
Marcy vive com Kiki Bridges (Linda
Fiorentino), uma escultora que vende obras de arte, tais como uns
pisa-papéis em forma de bagels. A personagem interpretada por
Rosanna Arquette é uma mulher algo nervosa e neurótica, que esconde uma série de segredos e surge como
uma das várias figuras meio bizarras e complexas que marcam a noite de Paul. Veja-se desde logo o empregado que trabalha no café, um indivíduo que efectua poses
como se estivesse a dançar, incluindo quando lhe pedem uma caneta emprestada. O espaço
do café é paradigmático do cuidado apresentado no aproveitamento da paleta cromática, bem como na
decoração dos cenários. Recheado de cores vermelhas e quentes, o
local é indicador dos acontecimentos fervilhantes que vão marcar a
noite de Paul, algo que ainda se torna mais latente quando este aponta o
número do estúdio de Kiki, localizado no SoHo, em Nova Iorque, no livro escrito por
Henry Miller. Pouco tempo depois de chegar a casa, Paul decide telefonar
para o estúdio, tendo em vista a combinar um encontro com Marcy, algo que esta aceita. Voltamos mais uma vez a salientar a importância
da cor em "After Hours", quer na decoração dos cenários, quer no guarda-roupa dos personagens, com a casa de Paul a ser
marcada por tonalidades brancas e acastanhadas, bem como as vestes do protagonista,
algo que permite realçar personalidade discreta deste indivíduo. Esta saída nocturna de Paul é marcada pela loucura, com a narrativa a exibir uma faceta delirante. O taxista conduz a uma
velocidade estonteante e vertiginosa, indo ao ponto de Paul não conseguir segurar uma nota de vinte dólares, algo que o impede de
pagar a conta. Kiki surge de soutien e saia curta, acabando por pedir
ajuda ao protagonista para concluir uma obra de arte na qual se encontra a trabalhar, enquanto esperam
pela chegada de Marcy devido a esta ter ido à farmácia. A personagem interpretada por Linda Fiorentino é uma artista que apresenta um enorme à vontade para andar com pouca
roupa, fã de sadomasoquismo, que se encontra a elaborar uma escultura semelhante a "O
Grito" de Edvard Munch, embora quem se prepare para entrar em
desespero seja Paul. É então que Marcy regressa. A conversa de que esta foi violada e a possibilidade de Marcy contar com
várias cicatrizes devido a queimaduras, associadas à personalidade estranha desta mulher e a alguns segredos sobre o seu passado, conduzem a que Paul decida fugir à pressa.
Acaba por tentar apanhar o metro, embora não consiga concluir esse desiderato devido ao facto do bilhete
deste meio de transporte ser mais caro à noite, uma situação que o leva a entrar num bar
enquanto se abriga da chuva. No bar este conhece Julie (Teri Garr),
uma empregada que se encontra farta do seu emprego, algo que faz
questão de salientar num guardanapo deixado a Paul. Este entretanto
mete conversa com Tom (John Heard), o dono do estabelecimento, um indivíduo que acede a emprestar a verba para o protagonista regressar a casa. No entanto, a
caixa registadora não abre algo que conduz Tom a confiar em Paul
para ir a sua casa buscar a chave que permite destrancar a primeira,
mesmo sabendo que um grupo de assaltantes anda a atemorizar o
território.
Escusado será dizer que a odisseia de Paul não irá ficar por
aqui. Paul aventura-se por clubes nocturnos, é perseguido
por vigilantes que pensam que o personagem interpretado por Griffin Dunne é um assaltante, contacta
temporariamente com mulheres que facilmente se tornam hostis, tem
de lidar com um suicídio inesperado e estranhas reviravoltas, ao
mesmo tempo que Martin Scorsese se parece divertir imenso ao
deixar-nos perante esta história alucinante, marcada por vários
episódios rocambolescos e um sentido de humor negro aguçado.
Curiosamente, "After Hours" encontrou-se inicialmente
ligado a Tim Burton, mas Martin Scorsese decidiu assumir o projecto
devido a na época ainda não ter conseguido o financiamento total de
"The Last Temptation of Christ", um filme que apenas
realizaria após "The Color of Money". Diga-se que Martin Scorsese realizou "After
Hours" após "The King of Comedy",
uma obra onde o humor negro também se encontrava presente, tendo surgido como uma sátira à procura de obter fama a todo o custo. Em
"After Hours" assistimos a uma obra ainda mais leve, mas
nem por isso menos intensa e por vezes violenta, com o protagonista a
procurar inicialmente conhecer uma bela mulher e a acabar por desejar
regressar a casa a todo o custo. A noite de Paul é frenética. Ele
corre, vê o seu cabelo a ser parcialmente cortado, é acusado de
cometer assaltos e perseguido, conhece diversas mulheres, enquanto protagoniza uma série de
episódios rocambolescos que tornam "After Hours" numa das
propostas mais peculiares e marcantes de Martin Scorsese, com o cineasta a exibir
toda a sua versatilidade. Não existem grandes momentos para pensar
ou reflectir, com tudo a ser desenvolvido a um ritmo frenético,
enquanto Griffin Dunne explora a forma meio caricata como o personagem que interpreta se acaba por envolver e ver envolvido em situações algo
surreais. Os próprios diálogos por vezes são meio caricatos.
Veja-se quando Marcy revela que o seu marido, de quem se encontra
separada, tinha um fetiche relacionado com "O Feiticeiro de Oz", ou a
forma como Julie varia de humor com enorme facilidade, já para não falar de
Gail (Catherine O'Hara), uma vendedora de gelados que conduz uma
carrinha e facilmente muda a faceta de mulher amigável para "caçadora" pronta a acusar Paul de ser um assaltante. Os verdadeiros
assaltantes são Pepe (Tommy Chong) e Neil (Cheech Marin), dois indivíduos que
conseguem efectuar os furtos praticamente nas calmas já que
Paul é que se encontra a ser perseguido pelos populares. Este depara-se ainda com uma série de reviravoltas e
revelações que o surpreendem e nos surpreendem, com o argumento de
Joseph Minion, a realização de Martin Scorsese e o
trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker a contribuírem para a intensidade destes
momentos frenéticos, recheados de humor e alguma acção. A
cinematografia contribui para todo este dinamismo que pontua a narrativa, mas também para dar
alguma beleza à obra, enquanto que o elenco consegue sobressair como
estes elementos peculiares. Veja-se a forma como a personagem interpretada por Rosanna Arquette tanto parece doce e frágil, como logo de
seguida surge algo neurótica, já para não falar de Teri Garr como uma
empregada de mesa e de uma loja de fotocópias que apresenta baixa
autoestima e um estranho vício de utilizar os vinis que tem à
disposição para acompanhar o ritmo dos diálogos que protagoniza. A casa
de Julie é marcada por diversas ratoeiras para se livrar dos ratos,
embora mais facilmente afaste o protagonista do que os roedores, enquanto Paul procura um meio de chegar à sua
habitação. O território do SoHo testemunha os episódios vividos
por Paul, um indivíduo solitário que procura regressar a casa, embora esta missão se revele assaz complicada, com
este a ver a sua integridade física e mental a ser constantemente
colocada em causa.
Paul tarda em
conseguir chegar à sua casa. Tenta várias vezes, junto de
diferentes pessoas, mas quanto mais contacta com outros seres humanos
mais se envolve em problemas. Griffin Dunne interpreta Paul com uma enorme eficácia e subtileza, conseguindo transmitir para o espectador que o protagonista é um indivíduo relativamente comum que se envolve em situações delirantes que ocorrem numa noite de
muito azar e estranhas coincidências. A banda sonora é
paradigmaticamente utilizada por Martin Scorsese, com esta a servir
muitas das vezes para intensificar o pânico do protagonista, não
faltando pelo meio temas musicais como "Sevillanas" dos
Manitas de Plata a adensar o inquietante momento do táxi, ou "Chelsea
Morning" e "I Don't Know Where I Stand" de Joni
Mitchell, entre muitas outras. "Chelsea Morning" é
utilizada por Julie numa conversa em sua casa, após o protagonista ser praticamente obrigado a ter de se deslocar ao local. Esta expõe
as suas frustrações, enquanto Paul ouve imenso,
desloca-se para os mais variados locais, mas tarda em conseguir
efectuar aquilo que mais pretende: regressar a casa. Tudo começa com
uma mera conversa de café sobre Henry Miller, até Martin Scorsese nos deixar perante um
efeito bola de neve em que as confusões pelas quais Paul se envolve ganham proporções gigantescas. Pelo meio ficamos perante a paranoia
colectiva, espaços nocturnos recheados de bizarria, vigilantes
prontos a fazerem justiça a qualquer custo, uma escultora com gosto
pelo sadomasoquismo, uma loira
típica das obras de Scorsese em quem o protagonista nem sempre pode
confiar, um suicídio surpreendente, obras de arte feitas literalmente
à base do Homem, entre muitos outros episódios. A relação entre
Peter e Marcy nunca chega a evoluir como este inicialmente pensava.
Ele tem algumas culpas no cartório, enquanto ela assusta-o. Não
será certamente a única figura a atormentá-lo ao longo desta noite
que Paul terá imensas dificuldades em esquecer. Diga-se que nós
também temos dificuldade em tirar da cabeça tudo o que vemos em
"After Hours", com Martin Scorsese a realizar uma obra cujo
argumento não tem problemas em explorar as situações caricatas
em volta do protagonista. Estas por vezes quase terminam em
violência, enquanto Martin Scorsese explora este espaço de Nova Iorque e as gentes peculiares que povoam o território "fora de horas". Nem sempre tudo é coerente ao longo de "After Hours", nem
precisa, com a anarquia a dominar a noite de Paul e por vezes a
narrativa, algo notório quando assistimos a um escalar de ameaças
que colocam em causa a integridade física do protagonista. Por vezes tenso, por vezes
recheado de humor, por vezes pontuado por algum dramatismo e violência,
"After Hours" surge como um filme delirante, frenético e alucinante, com Martin Scorsese a exibir mais uma vez que é um cineasta magnífico.
Título original: "After Hours".
Título em Portugal: "Nova Iorque Fora de Horas".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Joseph Minion e Martin Scorsese.
Elenco: Rosanna Arquette, Verna Bloom, Thomas Chong, Griffin Dunn, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Richard Cheech Marin.

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