08 janeiro 2016

Resenha Crítica: "After Hours" (1985)

 Comédia negra completamente alucinante, frenética, rocambolesca e imprevisível, "After Hours" apresenta-nos a uma noite que Paul Hackett (Griffin Dunne) não irá esquecer tão depressa. Depois de mais um dia de trabalho, este indivíduo que labora num escritório decide ir a um café onde é interpelado por Marcy Franklin (Rosanna Arquette) devido ao facto de se encontrar a ler "Trópico de Câncer", um livro de Henry Miller, um autor que esta aprecia. Marcy vive com Kiki Bridges (Linda Fiorentino), uma escultora que vende obras de arte, tais como uns pisa-papéis em forma de bagels. A personagem interpretada por Rosanna Arquette é uma mulher algo nervosa e neurótica, que esconde uma série de segredos e surge como uma das várias figuras meio bizarras e complexas que marcam a noite de Paul. Veja-se desde logo o empregado que trabalha no café, um indivíduo que efectua poses como se estivesse a dançar, incluindo quando lhe pedem uma caneta emprestada. O espaço do café é paradigmático do cuidado apresentado no aproveitamento da paleta cromática, bem como na decoração dos cenários. Recheado de cores vermelhas e quentes, o local é indicador dos acontecimentos fervilhantes que vão marcar a noite de Paul, algo que ainda se torna mais latente quando este aponta o número do estúdio de Kiki, localizado no SoHo, em Nova Iorque, no livro escrito por Henry Miller. Pouco tempo depois de chegar a casa, Paul decide telefonar para o estúdio, tendo em vista a combinar um encontro com Marcy, algo que esta aceita. Voltamos mais uma vez a salientar a importância da cor em "After Hours", quer na decoração dos cenários, quer no guarda-roupa dos personagens, com a casa de Paul a ser marcada por tonalidades brancas e acastanhadas, bem como as vestes do protagonista, algo que permite realçar personalidade discreta deste indivíduo. Esta saída nocturna de Paul é marcada pela loucura, com a narrativa a exibir uma faceta delirante. O taxista conduz a uma velocidade estonteante e vertiginosa, indo ao ponto de Paul não conseguir segurar uma nota de vinte dólares, algo que o impede de pagar a conta. Kiki surge de soutien e saia curta, acabando por pedir ajuda ao protagonista para concluir uma obra de arte na qual se encontra a trabalhar, enquanto esperam pela chegada de Marcy devido a esta ter ido à farmácia. A personagem interpretada por Linda Fiorentino é uma artista que apresenta um enorme à vontade para andar com pouca roupa, fã de sadomasoquismo, que se encontra a elaborar uma escultura semelhante a "O Grito" de Edvard Munch, embora quem se prepare para entrar em desespero seja Paul. É então que Marcy regressa. A conversa de que esta foi violada e a possibilidade de Marcy contar com várias cicatrizes devido a queimaduras, associadas à personalidade estranha desta mulher e a alguns segredos sobre o seu passado, conduzem a que Paul decida fugir à pressa. Acaba por tentar apanhar o metro, embora não consiga concluir esse desiderato devido ao facto do bilhete deste meio de transporte ser mais caro à noite, uma situação que o leva a entrar num bar enquanto se abriga da chuva. No bar este conhece Julie (Teri Garr), uma empregada que se encontra farta do seu emprego, algo que faz questão de salientar num guardanapo deixado a Paul. Este entretanto mete conversa com Tom (John Heard), o dono do estabelecimento, um indivíduo que acede a emprestar a verba para o protagonista regressar a casa. No entanto, a caixa registadora não abre algo que conduz Tom a confiar em Paul para ir a sua casa buscar a chave que permite destrancar a primeira, mesmo sabendo que um grupo de assaltantes anda a atemorizar o território.

Escusado será dizer que a odisseia de Paul não irá ficar por aqui. Paul aventura-se por clubes nocturnos, é perseguido por vigilantes que pensam que o personagem interpretado por Griffin Dunne é um assaltante, contacta temporariamente com mulheres que facilmente se tornam hostis, tem de lidar com um suicídio inesperado e estranhas reviravoltas, ao mesmo tempo que Martin Scorsese se parece divertir imenso ao deixar-nos perante esta história alucinante, marcada por vários episódios rocambolescos e um sentido de humor negro aguçado. Curiosamente, "After Hours" encontrou-se inicialmente ligado a Tim Burton, mas Martin Scorsese decidiu assumir o projecto devido a na época ainda não ter conseguido o financiamento total de "The Last Temptation of Christ", um filme que apenas realizaria após "The Color of Money". Diga-se que Martin Scorsese realizou "After Hours" após "The King of Comedy", uma obra onde o humor negro também se encontrava presente, tendo surgido como uma sátira à procura de obter fama a todo o custo. Em "After Hours" assistimos a uma obra ainda mais leve, mas nem por isso menos intensa e por vezes violenta, com o protagonista a procurar inicialmente conhecer uma bela mulher e a acabar por desejar regressar a casa a todo o custo. A noite de Paul é frenética. Ele corre, vê o seu cabelo a ser parcialmente cortado, é acusado de cometer assaltos e perseguido, conhece diversas mulheres, enquanto protagoniza uma série de episódios rocambolescos que tornam "After Hours" numa das propostas mais peculiares e marcantes de Martin Scorsese, com o cineasta a exibir toda a sua versatilidade. Não existem grandes momentos para pensar ou reflectir, com tudo a ser desenvolvido a um ritmo frenético, enquanto Griffin Dunne explora a forma meio caricata como o personagem que interpreta se acaba por envolver e ver envolvido em situações algo surreais. Os próprios diálogos por vezes são meio caricatos. Veja-se quando Marcy revela que o seu marido, de quem se encontra separada, tinha um fetiche relacionado com "O Feiticeiro de Oz", ou a forma como Julie varia de humor com enorme facilidade, já para não falar de Gail (Catherine O'Hara), uma vendedora de gelados que conduz uma carrinha e facilmente muda a faceta de mulher amigável para "caçadora" pronta a acusar Paul de ser um assaltante. Os verdadeiros assaltantes são Pepe (Tommy Chong) e Neil (Cheech Marin), dois indivíduos que conseguem efectuar os furtos praticamente nas calmas já que Paul é que se encontra a ser perseguido pelos populares. Este depara-se ainda com uma série de reviravoltas e revelações que o surpreendem e nos surpreendem, com o argumento de Joseph Minion, a realização de Martin Scorsese e o trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker a contribuírem para a intensidade destes momentos frenéticos, recheados de humor e alguma acção. A cinematografia contribui para todo este dinamismo que pontua a narrativa, mas também para dar alguma beleza à obra, enquanto que o elenco consegue sobressair como estes elementos peculiares. Veja-se a forma como a personagem interpretada por Rosanna Arquette tanto parece doce e frágil, como logo de seguida surge algo neurótica, já para não falar de Teri Garr como uma empregada de mesa e de uma loja de fotocópias que apresenta baixa autoestima e um estranho vício de utilizar os vinis que tem à disposição para acompanhar o ritmo dos diálogos que protagoniza. A casa de Julie é marcada por diversas ratoeiras para se livrar dos ratos, embora mais facilmente afaste o protagonista do que os roedores, enquanto Paul procura um meio de chegar à sua habitação. O território do SoHo testemunha os episódios vividos por Paul, um indivíduo solitário que procura regressar a casa, embora esta missão se revele assaz complicada, com este a ver a sua integridade física e mental a ser constantemente colocada em causa.

 Paul tarda em conseguir chegar à sua casa. Tenta várias vezes, junto de diferentes pessoas, mas quanto mais contacta com outros seres humanos mais se envolve em problemas. Griffin Dunne interpreta Paul com uma enorme eficácia e subtileza, conseguindo transmitir para o espectador que o protagonista é um indivíduo relativamente comum que se envolve em situações delirantes que ocorrem numa noite de muito azar e estranhas coincidências. A banda sonora é paradigmaticamente utilizada por Martin Scorsese, com esta a servir muitas das vezes para intensificar o pânico do protagonista, não faltando pelo meio temas musicais como "Sevillanas" dos Manitas de Plata a adensar o inquietante momento do táxi, ou "Chelsea Morning" e "I Don't Know Where I Stand" de Joni Mitchell, entre muitas outras. "Chelsea Morning" é utilizada por Julie numa conversa em sua casa, após o protagonista ser praticamente obrigado a ter de se deslocar ao local. Esta expõe as suas frustrações, enquanto Paul ouve imenso, desloca-se para os mais variados locais, mas tarda em conseguir efectuar aquilo que mais pretende: regressar a casa. Tudo começa com uma mera conversa de café sobre Henry Miller, até Martin Scorsese nos deixar perante um efeito bola de neve em que as confusões pelas quais Paul se envolve ganham proporções gigantescas. Pelo meio ficamos perante a paranoia colectiva, espaços nocturnos recheados de bizarria, vigilantes prontos a fazerem justiça a qualquer custo, uma escultora com gosto pelo sadomasoquismo, uma loira típica das obras de Scorsese em quem o protagonista nem sempre pode confiar, um suicídio surpreendente, obras de arte feitas literalmente à base do Homem, entre muitos outros episódios. A relação entre Peter e Marcy nunca chega a evoluir como este inicialmente pensava. Ele tem algumas culpas no cartório, enquanto ela assusta-o. Não será certamente a única figura a atormentá-lo ao longo desta noite que Paul terá imensas dificuldades em esquecer. Diga-se que nós também temos dificuldade em tirar da cabeça tudo o que vemos em "After Hours", com Martin Scorsese a realizar uma obra cujo argumento não tem problemas em explorar as situações caricatas em volta do protagonista. Estas por vezes quase terminam em violência, enquanto Martin Scorsese explora este espaço de Nova Iorque e as gentes peculiares que povoam o território "fora de horas". Nem sempre tudo é coerente ao longo de "After Hours", nem precisa, com a anarquia a dominar a noite de Paul e por vezes a narrativa, algo notório quando assistimos a um escalar de ameaças que colocam em causa a integridade física do protagonista. Por vezes tenso, por vezes recheado de humor, por vezes pontuado por algum dramatismo e violência, "After Hours" surge como um filme delirante, frenético e alucinante, com Martin Scorsese a exibir mais uma vez que é um cineasta magnífico. 

Título original: "After Hours".
Título em Portugal: "Nova Iorque Fora de Horas".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Joseph Minion e Martin Scorsese.
Elenco: Rosanna Arquette, Verna Bloom, Thomas Chong, Griffin Dunn, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Richard Cheech Marin.

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