25 janeiro 2016

Resenha Crítica: "45 Years" (2015)

 Quando encontramos Kate Mercer (Charlotte Rampling) a largar a mão de Geoff (Tom Courtenay), o seu esposo, após um momento de dança que gradualmente se transforma em algo simplesmente doloroso e arrasador, percebemos definitivamente o quanto esta relação foi afectada devido a uma notícia recebida no início do filme. É com Kate e Geoff que passamos boa parte da duração de "45 Years", a terceira longa-metragem realizada por Andrew Haigh, uma obra cinematográfica marcada pela subtileza e contenção na exposição dos sentimentos. Um momento de silêncio pode esconder uma dor arrasadora. Uma carta pode trazer consigo uma série de memórias que pareciam perdidas no passado. Um diário pode abalar os alicerces de um casamento aparentemente feliz. Uma troca de palavras pode conter um significado bem mais complexo do que o sentido aparente desses diálogos. Tudo parece simples mas ao mesmo tempo tão asfixiante e doloroso, com Andrew Haigh a colocar-nos diante de um casal que se prepara para comemorar os quarenta e cinco anos de casamento numa fase em que tudo aquilo que viveram parece ser colocado em causa ou questionado. O episódio fulcral acontece logo no início de "45 Years", com Geoff a receber uma carta enviada pelas autoridades suíças. O conteúdo da carta encontra-se relacionado com a descoberta do corpo de Katya, a falecida namorada de Geoff. Esta caíra numa fenda nos Alpes, há cinquenta anos, num acidente que ocorrera quando o casal se encontrava a caminhar pelas montanhas. Entretanto, parte da neve derretera, algo que permitiu encontrar o cadáver de Katya, embora o corpo ainda esteja preso no interior do gelo. Geoff fica perplexo com a notícia. É notório que as recordações que guarda desta mulher ainda se encontram bem vivas na sua memória, embora estivessem reprimidas no seu âmago. Tom Courtenay exibe nos seus gestos e no seu olhar que o personagem a quem dá vida ficou completamente abalado com a carta, parecendo que esta trouxe consigo um turbilhão de memórias. A preparação da festa dos quarenta e cinco anos de casamento entre Kate e Geoff é abalada por esta carta, com a missiva a trazer consigo uma miríade de questões e revelações. Kate exibe inicialmente alguma abertura para falar sobre o assunto, embora pareça assustar-se com a ideia de não conhecer alguns episódios relevantes sobre a pessoa com quem partilhou quarenta e cinco anos da sua vida.

 A certa altura de "45 Years", Kate decide abrir uma mala antiga de Geoff, encontrando diversos objectos pessoais do esposo, entre os quais, um diário e um conjunto de fotografias. A iluminação, o trabalho de câmara e o olhar de Charlotte Rampling contribuem para o impacto provocado por este momento, parecendo que conseguimos partilhar o sentimento de surpresa da protagonista em relação à descoberta de uma série de segredos que se encontram relacionados com o passado de Geoff e o envolvimento deste com Katya. É simplesmente arrasador, com Kate a perceber que Geoff continua a guardar segredos sobre o passado, algo que parece mexer com tudo aquilo que pensa sobre o mesmo. Não grita. Não levanta a voz. Não efectua longas questões ou reprimendas. No entanto, o rosto de Charlotte Rampling não engana. A desilusão de Kate é grande, bem como as suas dúvidas, com um diálogo sincero entre esta última e o esposo, no último terço da narrativa, a expor paradigmaticamente que nada será como antes, por muito que tentem esquecer a situação, ou os segredos que são revelados não viessem colocar em causa diversas opções que ambos tomaram ao longo do casamento. Geoff nem sempre consegue justificar tudo aquilo que sente ou sentiu, bem como os episódios que omitiu. É verdade que namorara com Katya antes de conhecer Kate, embora esta última pareça sentir-se traída, enquanto "a presença" da primeira é imensamente sentida. Kate percebe que Geoff encara a relação de modo diferente, enquanto este se depara com uma série de memórias que o perturbam, uma situação que não consegue esconder. Charlotte Rampling e Tom Courtenay brilham e convencem como este casal que se encontra unido há praticamente quarenta e cinco anos, que apresenta uma intimidade latente ao ponto de cada elemento parecer saber interpretar um simples gesto ou uma fala do outro cônjuge. Um segredo mexe com os alicerces da relação deste casal que habita numa casa de campo, localizada em Norfolk, pontuada por imenso espaço, estantes recheadas de livros e um simpático cão. Boa parte da narrativa tem como pano de fundo esta habitação, com Andrew Haigh a procurar explorar a intimidade de um casal de reformados que se prepara para lidar com aquela que provavelmente será a maior crise da sua relação. "45 Years" procura acima de tudo levantar questões, sejam estas sobre um casamento, o estado de alma dos protagonistas, a possibilidade de nunca conhecermos totalmente aqueles que nos são mais próximos, entre outras, com Andrew Haigh a não entrar por caminhos fáceis. Aos poucos enclausura-nos ao ponto de parecermos sentir as inquietações deste casal, enquanto nos torna cúmplices das suas descobertas, dúvidas e sentimentos. Existe algo quase voyeurista no acto de observar a relação entre Geoff e Kate, com Andrew Haigh a fazer questão de reforçar que somos os únicos a testemunhar esta crise, enquanto o casal procura esconder a mesma daqueles que se encontram de fora.

O argumento, baseado no conto "In Another Country", é de uma subtileza arrasadora que ganha outra dimensão se tivermos em conta que os diálogos contribuem para o impacto dos diversos silêncios que pontuam a narrativa. Veja-se quando Kate questiona o esposo sobre os planos que este e Katya tinham efectuado em relação ao futuro, ou o modo bem vivo como o protagonista fala da antiga namorada. É óbvio que Katya ainda mexe com Geoff, apesar deste amar Kate. Por sua vez, a personagem interpretada por Charlotte Rampling começa a questionar aquilo que viveu com o esposo ou, pelo menos, a intensidade emocional daquilo que partilharam, parecendo a espaços que se sente como uma segunda escolha. Andrew Haigh foi ao sótão deste casal e trouxe ao de cima uma série de segredos e memórias que prometem abalar uma relação que parecia estável. Ambos contam com alguns amigos, embora Geoff não seja das pessoas mais faladoras, enquanto Kate parece reservar para si os sentimentos que se encontra a viver. Geoff é um indivíduo de esquerda, que aparentemente não gosta de tirar fotografias e parece algo preso ao passado, embora continue a procurar manter o casamento bem vivo, incluindo a nível sexual, apesar da "máquina" já não funcionar como outrora. Kate é uma antiga professora, de personalidade ponderada, que gosta de passear o cão e ir à cidade. Esta é amiga de Lena (Geraldine James), uma figura feminina afável, que é casada com um antigo colega de trabalho de Geoff. Lena é uma das poucas amigas que parece apresentar alguma proximidade latente com a protagonista, embora boa parte de "45 Years" esteja centrado quase exclusivamente em Geoff e Kate quer quando estão juntos, ou a efectuar actividades separadamente. Veja-se logo no início do filme quando ficamos diante de um plano aberto, onde somos expostos ao território verdejante que rodeia a habitação do casal, com Kate a encontrar-se a passear o cão, com o nevoeiro a permear o cenário, surgindo quase como uma metáfora para o estado nebuloso da relação entre a protagonista e o esposo. O trabalho de câmara é sublime, com "45 Years" a tanto parecer distanciar-nos dos seus protagonistas, como logo de seguida nos apresenta planos bem fechados, com um momento de maior intimidade a poder ganhar outra dimensão graças à proximidade entre o espectador e o casal. Essa proximidade entre o espectador e o casal contribui e muito para o impacto causado por alguns episódios protagonizados por Kate e Geoff. Os comportamentos de Geoff mudam ao longo da narrativa. Volta a fumar, procura ler livros que deixara de lado, visita a cidade às escondidas, parecendo fisicamente desgastado, embora continue a preservar as suas faculdades mentais. O papel da memória também é uma das temáticas em análise ao longo do filme. Geoff questiona se guarda as recordações do passado ou um ideal que criara na sua memória. Kate começa a duvidar de algumas opções e episódios vividos com o esposo. Não duvida que este estes episódios aconteceram. Aquilo que esta questiona é o verdadeiro significado destes episódios e o valor que Geoff atribui aos mesmos. Será que não gosta mesmo de tirar fotografias? Quais as razões para não terem filhos? Qual é o verdadeiro motivo para Geoff não apreciar Jack Kerouac? São várias as questões que atormentam o casal e o espectador a partir do momento em que chega a carta, enquanto Andrew Haigh exibe uma subtileza latente quer a explorar as temáticas, quer a levantar interrogações, quer a gerir os ritmos da narrativa e a conduzir a sua dupla de protagonistas.

O trabalho de Haigh parece simples. Com o avançar da narrativa e o término de "45 Years" percebemos o quão inspirado foi o trabalho do realizador e argumentista, com Andrew Haigh a conseguir criar um drama emocionalmente potente e devastador. Haigh divide a narrativa em pequenos capítulos que coincidem com cada dia da semana, entre a chegada da carta (Segunda-Feira) e a celebração dos quarenta e cinco anos de casamento (Sábado), enquanto ficamos com pequenos pedaços do quotidiano do casal. É Kate quem se encontra a planear o evento da comemoração dos quarenta e cinco anos de casamento, algo que, aos poucos, parece perder algum significado junto desta mulher. Como conviver com as dúvidas em relação àqueles que amamos? Será possível que uma mentira consiga colocar em causa uma relação de quarenta e cinco anos? É possível ter ciúmes de alguém que já morreu? Como encarar a comemoração como se nada tivesse acontecido? Ironicamente, a cerimónia vai decorrer no mesmo espaço do Baile de Trafalgar, um evento organizado para comemorar a vitória da Marinha Real, na Batalha de Trafalgar, a 21 de Outubro de 1805, algo realçado pelo responsável do local que contacta com Kate. Esta comenta que Horatio Nelson foi morto, embora o seu interlocutor logo saliente: "Mas a batalha foi vencida. E isso precisava ser comemorado, não é?". Existe um paralelo algo irónico entre este episódio e o casamento de Kate e Geoff, com a união a ter sofrido um rude golpe, embora o feito de quarenta e cinco anos de casamento precise ser comemorado, com o argumento a exibir mais uma vez a sua inteligência, bem como alguma mordacidade. A personagem interpretada por Charlotte Rampling selecciona a canção "Smoke Gets in Your Eyes", dos "The Platters", para abrir o baile da comemoração, uma escolha efectuada devido a ter sido a música do casamento do casal, ou seja, aparentemente perfeita para o evento. No entanto, Kate não parece estar inicialmente consciente de que a letra dessa canção pode ganhar outro significado e interpretação consoante o estado de espírito de cada um, algo que promete ter um efeito devastador. Andrew Haigh arrasa-nos emocionalmente, enquanto nos transporta para o interior de um retrato complexo e sublime sobre um casamento que é claramente afectado por um segredo. Os episódios do passado são reavaliados, bem como a relação, enquanto Charlotte Rampling e Tom Courtenay contam com interpretações de relevo que permitem incrementar os momentos entre os personagens que interpretam.

Título original: "45 Years".
Título em Portugal: "45 Anos".
Realizador: Andrew Haigh.
Argumento: Andrew Haigh.
Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James.

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