30 novembro 2015

Resenha Crítica: "Le voleur" (O Ladrão de Paris)

 O crime percorre as veias de Georges Randal (Jean-Paul Belmondo), inquieta a sua alma e oferece-lhe um prazer que nem um grande amor consegue dar. Não são crimes de sangue que este pratica. Georges é um assaltante de enorme perícia, inteligência e astúcia, capaz de se envolver nos meandros da alta sociedade e fingir que é um arquitecto de construções particulares e enganar quase todos aqueles que não o conhecem. Tal como em várias das obras de Louis Malle, a narração é essencial para nos apresentar ao protagonista de "Le voleur", com o cineasta a colocar-nos desde logo com Georges em plena prática de um assalto enquanto o protagonista nos explica o seu ofício e o seu modus operandi: "Às vezes, alguns ladrões passam por muitas dificuldades para não causarem danos no mobiliário. Eu não. Outros, cuidadosamente, colocam tudo de volta no lugar antes de saírem. Eu, nunca. Faço um serviço sujo. Mas há um motivo. Faço o serviço. Além do mais, não tenho tempo a perder. Para uma casa como esta, olhar tudo, selecionar e escolher, levaria a noite inteira...ou mais. Eu sei do que estou a falar. Sou um ladrão. Essa é a minha vida. Não escolhemos nosso destino. Mas não estou a reclamar". Ficamos desde logo com a exposição de parte da personalidade do protagonista, enquanto Louis Malle o transporta de local em local para praticar o seu ofício e afasta-o do amor. Georges é um indivíduo sempre bem vestido, de bigode, galanteador quando tem belas mulheres por perto, que apresenta uma enorme perícia a colocar os seus crimes em prática. No início, Georges apresenta-se como um ladrão experiente, com Louis Malle a deixar-nos perante a história deste homem num longo flashback, estabelecendo a sua personalidade e como chegou a esta situação. Este perdeu os pais ainda durante a juventude, tendo ficado a viver com Urbain Randal (Christian Lude), o seu tio e Charlotte (Geneviève Bujold), a sua prima. Se Urbain é um homem algo odioso e desprezível, capaz de se aproveitar da herança deixada pelos pais de Georges, já Charlotte desperta o interesse do primo, que se apaixona pela mesma, um sentimento que parece recíproco. No entanto, essa união foi impossibilitada devido a Urbain querer casar a filha com alguém de famílias abastadas, com Louis Malle a explorar mais uma vez as distinções entre as classes sociais ao mesmo tempo que assistimos novamente a um comentário nem sempre positivo sobre a burguesia conservadora (algo que já tinha acontecido em obras como "Les Amants", “Le feu follet” e até no destravado "Viva Maria!"). Estamos em plena França da última década do Século XIX, com "Le voleur" a não poupar no guarda-roupa e comportamentos associados ao período histórico, valendo ainda a pena realçar o trabalho de Jacques Saulnier (é sempre bom recordar o seu magnífico trabalho em "L'Année dernière à Marienbad" de Alain Resnais) na preparação e decoração dos cenários, ou Louis Malle não nos colocasse diante de um protagonista habituado a visitar locais marcados pelo luxo e requinte tendo em vista a esvaziar os mesmos. O primeiro assalto de Georges acontece na casa de Armand de Montareuil (Christian de Tillière), o noivo de Charlotte, um homem oriundo de uma família abastada que conta com um conjunto de joias valiosas no interior do seu cofre.

A Madame de Montareuil retirou as joias do cofre para que Charlotte escolhesse o seu anel de noivado, algo que vai conduzir Georges a vingar-se do tio e sabotar o evento ao roubar os objectos de valor desta família. É também neste local que Georges conhece Félix La Margelle (Julien Guiomar), um suposto padre que procura recolher fundos para supostamente criar uma igreja na China. Félix é um assaltante, ou melhor, organiza parte dos assaltos, tendo em Roger Voisin (Paul Le Person), um especialista em arrombar cofres, um aliado de peso. O protagonista vai colaborar com esta dupla, após ser bem sucedido a furtar o noivo da prima. Charlotte descobre que o primo foi o assaltante das joias da família do noivo, embora não o denuncie, com este a partir depois da amada não querer sair da casa de Urbain. O personagem interpretado por Christian Lude é um indivíduo avarento, que colecciona casos com mulheres e desperta o desprezo de Georges, tendo certamente contribuído para o desejo de ascensão rápida por parte do protagonista. O casamento de Charlotte acaba por ser cancelado devido à falta de fundos da família de Armand, com Georges a viajar em direcção à Bélgica, encontrando pelo caminho o padre. No comboio, a dupla conhece Emile Van der Busch (Fernand Guiot), um empresário que ascendeu graças ao fabrico de tintas e a explorar os seus funcionários, falador e pronto a revelar inconfidências, tais como o facto de guardar o seu dinheiro e os títulos do tesouro no cofre da sua casa. Escusado será dizer que Georges e Félix vão preparar o assalto, com o segundo a instalar o protagonista no Hotel Rei Salomão, um local conhecido por albergar os ladrões. Georges é apresentado a Roger, com a dupla a exibir desde logo a sua competência para a função. Georges e os seus colegas apenas parecem furtar elementos de finanças abastadas, assaltando cofres, roubando joias e títulos, contando com uma rede montada e uma enorme perícia tendo em vista a não serem capturados pelas autoridades. Diga-se que estes procuram sempre evitar mortes, com o pároco a salientar para o protagonista: "Evita qualquer morte desnecessária. É vulgar, desagradável, e tão fora de moda! O caminho mais seguro para o coração de um burguês é o seu cofre". Posteriormente, Roger e Georges deslocam-se a Londres, descrita como "capital mundial dos ladrões", tendo em vista a trocarem o material roubado com um negociante. É neste local que Georges conhece Broussaille (Marlène Jobert), a irmã de Roger, ficando temporariamente instalado na casa desta, até regressar ao seu país com Ida (Françoise Fabian), uma parisiense que tem uma loja de roupa na capital francesa, embora também se dedique a outros negócios menos lícitos. Georges viaja com Ida até Paris, de comboio, de forma a preparar uma série de roubos na cidade. Um desses assaltos é efectuado a um banqueiro, o marido de Geneviève (Marie Dubois), uma oportunista com quem o Georges se envolve. Esta irá ainda ter um caso com o tio do protagonista, enquanto Georges se envolve temporariamente no mundo da política, reencontra Charlotte e tarda em largar o vício de roubar. Em alguns momentos quase que é apanhado, mas nem por isso deixa de sentir um gostinho especial pelos furtos cometidos, algo que efectua mais pelo prazer do que pelo dinheiro e poder. Jean-Paul Belmondo constrói um personagem que está longe de ser um exemplo a seguir, embora consiga gerar alguma empatia junto do espectador, com o actor a expor com competência o lado frio de Georges nos assaltos e a sua faceta menos pragmática com as mulheres, sobretudo com Charlotte. No entanto, é demasiado viciado neste jogo proporcionado por cada assalto, onde os alarmes são cada vez mais eficazes e este tem de procurar ser astuto o suficiente para acompanhar a mudança dos tempos.

Quase todos os elementos que o rodeiam deixam o ofício, procurando seguir um rumo mais calmo, incluindo Roger e o padre, mas existe algo que compele o protagonista a não conseguir largar os furtos, tornando-se num "lobo solitário" para quem o crime é uma paixão. É uma droga que o consome e vicia, com a adrenalina de cada furto a parecer essencial para sentir-se vivo e manter o estatuto de melhor entre os melhores na área. Louis Malle elabora um interessante estudo de personagem, exibindo-nos a personalidade do seu protagonista, o seu sentimento de dor por não poder casar com a amada devido ao fraco estatuto social e financeiro, com os assaltos a parecerem uma vingança constante de Georges em relação aos elementos da burguesia ao mesmo tempo que tira algum prazer a colocar os furtos  em prática e ganhar algum estatuto no seio de um grupo restrito. Georges não é politicamente engajado como Canonnier (Charles Denner), um assaltante que fugiu da prisão e defende a anarquia e a diluição das distinções entre grupos sociais, com "Le voleur" a apresentar um comentário político e social. Cannonier é um assaltante com uma enorme reputação, procurando despertar o medo na burguesia, causar o caos e rebentar com o status quo da sociedade do seu tempo. Georges quer ser o melhor no ofício ao qual dedica a sua vida, parecendo mais interessado em executar os furtos com sucesso do que em mudar o Mundo. Os políticos não são representados da forma mais simpática ao longo de "Le voleur", com o protagonista a conhecer Courbassol (Jacques Debary), um político algo demagogo, através de um amigo, uma figura descrita como pouco inteligente. A própria igreja é subtilmente criticada através de Félix, um elemento disposto a quase tudo para conseguir fundos, acumulando as funções de padre e ladrão. Ora está num noivado a pedir dinheiro para uma igreja na China, ora trabalha com assaltantes, ora não se importa com a falsificação de um testamento desde que a paróquia seja beneficiada, entre outros gestos pouco recomendáveis, com Julien Guiomar a incutir quase sempre uma mescla de malícia e alguns princípios a este padre. Este acaba por formar uma relação de proximidade com Georges, enquanto Charlotte ainda se volta a reunir com o protagonista embora o romance entre ambos pareça fadado ao insucesso. Ela não o quis seguir na altura certa. Ele não consegue deixar os crimes. Os dois poderiam ter sido felizes, mas voltamos a estar perante uma das narrativas negras de Louis Malle onde a felicidade nem sempre é conhecida pelo casal de amados, que o digam os protagonistas de "Ascenseur pour l'échafaud". O papel de criminoso não é propriamente novo para Jean-Paul Belmondo. Veja-se os seus trabalhos em obras como "À Bout de Souffle", "Le Doulos", "Pierrot le Fou", entre outros, tendo em Georges um elemento complexo, que procura preparar cada crime com o máximo detalhe de forma a cumprir os seus intentos, mesmo que para isso tenha de destruir o mobiliário das vítimas. Para este os assaltos são uma profissão e um modo de vida que consome o seu quotidiano, formando pelo meio algumas parcerias até acabar praticamente isolado. Sabe que mais cedo ou mais tarde poderá ser capturado pelas autoridades, mas nem essa possibilidade leva a que abandone esta actividade, procurando desafiar a morte e a moral. Quando comete os assaltos está no poder e consegue o controlo que nunca teve na vida, surgindo como um anti-herói que despreza a burguesia embora até seja capaz de andar nos seus meandros. O momento em que falsifica o testamento do tio, em frente deste, quando o mesmo já não se pode mover e falar, surge exposto num misto de humor negro e crueldade, com Georges a vingar-se do familiar, procurando que o dinheiro fique para Charlotte, para além de fingir que Urbain pretende um funeral civil de características modestas, provocando o personagem interpretado por Christian Lude nos últimos minutos da vida do idoso, exibindo uma frieza impressionante para cumprir o ditado "a vingança serve-se fria".

O humor negro também está presente em algumas situações, tais como Urbain ter mantido um caso com Geneviève, uma oportunista que se relaciona com quem lhe der mais luxos, incluindo com o protagonista. Marie Dubois atribui uma enorme malícia e sensualidade a esta personagem que sabe aproveitar a sua beleza para cumprir os seus intentos, sendo uma das muitas personagens imorais do filme. Temos ainda Renée (Martine Sarcey), uma mulher que costuma vender informações aos criminosos, com Martine Sarcey a destacar-se como esta figura feminina que tenta utilizar a sua beleza para atrair aos homens ao mesmo tempo que procura lucrar com os furtos de Georges e companhia. Outro dos personagens pouco recomendáveis é Urbain, um elemento desprezível, cujos actos imorais aliam-se a uma personalidade atroz, ao contrário de Georges, embora este último esteja longe de ser alguém imaculado, com os dois a terem alguns momentos de tensão que são elevados pelas interpretações da dupla formada por Jean-Paul Belmondo e Christian Lude. Já Geneviève Bujold procura que a sua personagem não se apague diante dos homens, embora a personalidade frágil da mesma torne complicado que esta se imponha junto dos mesmos, sobretudo do seu tio. Baseado no livro homónimo de Georges Darien, "Le voleur" conta com um argumento relativamente eficaz a explorar a faceta de assaltante do protagonista, colocando-o a viajar de local em local, a conhecer uma diversidade de pessoas que em certa medida acabam por influenciar o seu comportamento ao longo do tempo. Louis Malle nem sempre atribui a tensão necessária aos assaltos, embora em alguns momentos pareça certo que o protagonista pode correr perigo de vida, sobretudo quando vê um colega de profissão ser assassinado diante de si. A sua maior preocupação é conseguir ser bem sucedido, mesmo que para isso tenha de descurar uma relação estável e possivelmente feliz com Charlotte. Ainda os encontramos reunidos e existe alguma química entre Geneviève Bujold e Jean-Paul Belmondo, mas "Le voleur" não é um filme para grandes momentos de romantismo. Por vezes imaginamos como será a vida deste personagem daqui a uns anos. Provavelmente será um pouco como os protagonistas de "Touchez Pas au Grisbi" e "Bob le Flambeur", dois assaltantes envelhecidos que contam com algum espírito de lealdade. Temos ainda alguma camaradagem entre assaltantes, em particular entre Georges, o padre e Roger, com o argumento a conseguir explorar esta mini-sociedade que formam temporariamente. Georges é um anti-herói fadado a não ter sucesso no amor mas a ter uma enorme eficácia nos assaltos, qual jogador que coloca a sua vida como garantia numa aposta arriscada, numa obra marcada por bons valores de produção, uma cinematografia sempre certeira de Henri Decaë e uma interpretação de um nível que o melhor Jean-Paul Belmondo nos habituou.

Título original: "Le voleur".
Título em Portugal: "O Ladrão de Paris".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Jean-Claude Carrière e Louis Malle.
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Geneviève Bujold, Marie Dubois, Paul Le Person, Christian Lude, Julien Guiomar.

"The Revenant" - TV Spot

Foi divulgado um TV Spot de "The Revenant", um filme realizado por Alejandro González Iñárritu ("Birdman"). O filme conta no elenco com Leonardo DiCaprio, Domhnall Gleeson, Tom Hardy, Will Poulter, entre outros. O argumento do filme é baseado no livro "The Revenant: A Novel of Revenge" de Michael Punke.

Sinopse: Perdido no inexplorado deserto Americano, o caçador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é gravemente ferido e deixado como morto por um membro traidor da sua equipa, John Fitzgerald (Tom Hardy). Com a força de vontade como sua única arma, Glass enfrenta um ambiente hostil, um inverno brutal e tribos em guerra, lutando pela sua sobrevivência e motivado pela sede de vingança.

"The Revenant" estreia a 25 de Dezembro de 2015 nos EUA (em circuito limitado).

29 novembro 2015

Resenha Crítica: "Journal d'une femme de chambre" (Diário de Uma Criada de Quarto)

 Não faltou coragem a Benoît Jacquot ao aventurar-se por terrenos arriscados tendo em vista a adaptar "Le Journal d’une femme de chambre", um livro escrito por Octave Mirbeau. Veja-se que nomes incontornáveis como Jean Renoir e Luis Buñuel já tinham realizado adaptações cinematográficas do livro, algo que nos faz questionar a pertinência de pegar novamente nesta obra literária como ponto de partida para desenvolver mais um filme. Jacquot não teve problemas em expor as suas motivações para elaborar mais uma adaptação cinematográfica desta obra literária, com o cineasta a aproveitar o facto do enredo se desenrolar no passado para explorar temáticas que continuam relativamente actuais: "I detected a direct echo in it of our current socio-political climate. In a roundabout way, Mirbeau’s novel, which takes place at the beginning of the twentieth century, gave me the opportunity to deal with issues that our society no longer does, other than in a roundabout way: salaried slavery, anti-Semitism, sexual discrimination". A espaços podemos criticar a falta de desenvolvimento de alguns personagens secundários e a abertura de subtramas que pediam maior conteúdo, embora Benoît Jacquot tenha em Léa Seydoux uma aliada de peso, com a actriz a brindar o espectador com uma interpretação praticamente inatacável que eleva o nível de "Journal d'une femme de chambre". Léa Seydoux exibe mais uma vez o seu talento para a representação, com a personagem que interpreta a estar quase sempre em destaque ao longo de uma obra cinematográfica que surge dotada de todo um cuidado a nível do design do cenário interior da habitação onde a protagonista trabalha e do guarda-roupa dos personagens. As roupas com que Célestine (Léa Seydoux) se apresenta são consideradas demasiado luxuosas para a profissão de criada de quarto, o seu comportamento é irreverente e impertinente, enquanto os seus comentários sardónicos sobre a realidade que a rodeia são expostos em voiceover ou num tom de sussurro ao longo de "Journal d'une femme de chambre", a quarta adaptação cinematográfica do livro homónimo de Octave Mirbeau. Em bom tempo Benoît Jacquot recuperou a colaboração com Léa Seydoux após "Les Adieux à la reine", com a actriz a elevar uma obra cinematográfica onde parece circular como "peixe na água" ou a personagem que interpreta não mesclasse um misto de rebeldia, sensualidade, mordacidade e espírito de sobrevivência, surgindo como alvo de desejo por parte da maioria das figuras masculinas. No início do filme encontramos esta jovem camareira, habituada aos luxos de Paris e a um estilo de vida mais aberto, a ser designada para ir trabalhar numa propriedade localizada na Normandia. Esta vai trabalhar para a casa dos Lanlaire, um casal burguês que habita numa mansão situada no interior de uma vasta propriedade que é cuidada por Joseph (Vincent Lindon). O casal que a emprega não poderia ser mais distinto a nível de personalidade. O Monsieur Lanlaire (Hervé Pierre) assedia constantemente Célestine, surgindo como um tarado que não pode ver a esposa à frente. A Madame Lanlaire (Clotilde Mollet) aparece como uma mulher frígida e austera que gosta de usar e abusar da paciência dos seus funcionários.

Clotilde Mollet sobressai como esta mulher de gestos aparentemente frios, pouco dada a grandes relações de amizade, que procura desafiar a paciência da sua funcionária. Ora pede uma agulha, ora pede uma linha, ora pede uma tesoura, procurando que Célestine suba e desça as escadas a enorme velocidade, enquanto procura testar a capacidade física e mental da protagonista. Léa Seydoux exibe no seu rosto e em voiceover que os pensamentos de Célestine em relação aos patrões nem sempre são os melhores, algo notório quando salienta as maravilhas que uma cozinheira pode fazer se trocar algum dos ingredientes por arsénico. A cozinheira da casa é Marianne, uma mulher anafada e conservadora que procura desde logo rechaçar algumas questões mais incómodas por parte da protagonista. Marianne (Mélodie Valemberg) é alvo de assédio por parte do patrão, acedendo com alguma facilidade aos avanços do mesmo, surgindo como uma figura feminina mais passiva e temerosa do que Célestine. A relação de Marianne com o patrão é o paradigma da sociedade pontuada pelas aparências e falsos moralismos que é criticada ao longo do filme, com o enredo a desenrolar-se no início do século XX, embora algumas temáticas sejam transversais aos dias de hoje. A dicotomia entre o ser e o parecer, os falsos pudores, a xenofobia, os abusos cometidos pelas entidades empregadoras são temas que continuam a fazer parte do nosso quotidiano. A juntar a todo este grupo de personagens, temos ainda Joseph, um indivíduo que parece inicialmente recatado, com Vincent Lindon a atribuir algum mistério e rudeza a este jardineiro anti-semita que observa constantemente Célestine. O desejo sexual parece rodear o quotidiano de Célestine, seja pelos sentimentos desta, ou pelos actos daqueles que a rodeiam. Veja-se um flashback onde encontramos Célestine com a antiga patroa no interior de um comboio, com esta última a procurar evitar abrir uma caixa vermelha quando é revistada. A caixa das "joias" contém um dildo para a ex-patroa de Célestine se acariciar sexualmente, enquanto a empregada logo aproveita para jocosamente salientar que prefere estas "joias" ao natural. Não faltam diálogos mordazes, com a narração em off e os sussurros a permitirem que Célestine seja muitas das vezes a nossa confidente ao longo de uma narrativa pontuada por personagens que nem sempre despertam a nossa simpatia. Veja-se o caso do Capitão Mauger (Patrick d'Assumçao), um indivíduo cruel e peculiar, que tem como hobbie atirar pedras à habitação dos Lanlaire. Quando o encontramos a eliminar brutalmente a doninha que tem como animal de estimação, logo percebemos que o Capitão esconde uma enorme violência por detrás da sua figura aparentemente patética e inofensiva, embora o argumento raramente atribua profundidade a este indivíduo meio tresloucado. A doninha é um dos vários animais irracionais que encontramos a assumirem brevemente algum destaque ao longo do filme. Temos ainda os dois cães que apenas parecem obedecer a Joseph, com estes e o seu dono a parecerem representar uma brutalidade que estranhamente desperta a atenção da protagonista.

Célestine é mordaz e inteligente, embora não pareça opor-se ferozmente à sua profissão, com "Journal d'une femme de chambre" a surgir como uma obra cinematográfica que procura efectuar uma crítica às hipocrisias do meio aburguesado no qual a protagonista se envolve, com esta a deparar-se com uma plêiade de figuras que, na sua maioria, deixam os seus defeitos virem ao de cima. Diga-se que "Journal d'une femme de chambre" também deixa muitas das vezes as suas lacunas sobressaírem em relação às suas virtudes. Os flashbacks surgem como um recurso utilizado de forma amiúde ao longo do enredo, algo que permite expor alguns episódios relacionados com passado da protagonista, que explanam a formação da personalidade desta mulher, embora Benoît Jacquot por vezes pareça introduzi-los a martelo na narrativa quando se pedia maior subtileza. Veja-se quando Célestine recebe a notícia da morte da mãe, apresentando um estado de enorme desespero, com a Madame Lanlaire a exibir uma falta de sensibilidade latente. Esperamos que a notícia tenha algum impacto mas Benoît Jacquot prefere cortar esta cena com um flashback. É certo que o episódio que nos é exposto permite exibir outra perda na vida de Célestine, com a morte a ligar o presente e o passado, com estes flashbacks a exporem alguns dos trabalhos anteriores desta mulher, ao mesmo tempo que nos oferecem uma visão mais aprofundada sobre a personagem interpretada por Léa Seydoux, embora nem sempre sejam introduzidos de forma orgânica no enredo. No presente, Célestine tem nas fofocas com Rose (Rosette) e um grupo de mulheres que se costumam reunir de forma amiúde, alguns momentos de descontração, embora estas personagens secundárias raramente sejam devidamente exploradas (por vezes fica a ideia que Benoît Jacquot tinha material para um filme que durasse bem mais do que cerca de hora e meia). É nesse grupo que descobrimos que a srª Gouin (Yvette Petit) faz "anjos", ou melhor, abortos clandestinos, numa sociedade onde muito se procura esconder embora quase tudo se descubra. É uma cidade onde as notícias voam a grande velocidade, ocorre um assassinato misterioso e os ecos do Caso Dreyfus se encontram bem presentes, embora boa parte do enredo tenha como pano de fundo a habitação dos Lanlaire, um casal que mantém uma relação marcada pela frieza. Ela é frígida e solitária. Ele é um mulherengo que roça o ridículo com as suas atitudes depravadas. Escusado será dizer que o personagem interpretado de forma quase caricatural por Hervé Pierre também se vai interessar por Célestine, embora os seus avanços sejam quase sempre rechaçados por esta jovem que gosta de provocar os homens, embora apenas avance para a fase seguinte com aqueles que pretende.

A protagonista também é alvo dos galanteios de Joseph, com este a esconder uma agenda secreta que exibe paradigmaticamente que a corrupção moral surge como algo transversal a todos os elementos que habitam esta mansão, independentemente do escalão social de cada um. Benoît Jacquot procura exactamente explorar essa faceta imoral que rodeia estes personagens que habitam um espaço recheado de mobiliário e objectos caros, embora o estatuto financeiro dos Lanlaire não se pareça traduzir nos seus comportamentos e educação. Diga-se que este é um filme onde não existem heróis e vilões, com cada elemento a parecer ter que se adaptar da melhor forma ao meio que o rodeia, algo visível na figura de Célestine. Esta procura conseguir sobreviver da maneira que pode, embora acabe por encontrar uma série de contratempos, parecendo incapaz de tomar as melhores decisões, algo notório quando se envolve com Joseph, um indivíduo violento, rude, xenófobo, misógino e pouco polido a nível de educação. Os dois são figuras bastante distintas, sem grande química, embora Célestine pareça encontrar neste homem um modo de fugir ao meio que a rodeia. A relação entre estes dois personagens é marcada pelo desejo de fugirem da casa dos Lanlaire, embora raramente pareça existir sentimentos amorosos fortes entre ambos, bem pelo contrário. Com uma crítica mordaz à sociedade burguesa da época, um guarda-roupa digno de atenção e um trabalho de câmara pronto a fazer-se sentir, "Journal d’une femme de chambre" nem sempre deslumbra, embora esteja longe de ser algo completamente descartável, com o desempenho praticamente imaculado de Léa Seydoux a contribuir para elevar esta nova adaptação cinematográfica do livro de Octave Mirbeau.

Título original: "Journal d'une femme de chambre".
Título em Portugal: "Diário de Uma Criada de Quarto".
Realizador: Benoît Jacquot.
Argumento: Benoît Jacquot e Hélène Zimmer.
Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Clotilde Mollet, Hervé Pierre, Mélodie Valemberg.

28 novembro 2015

Cinco novos posters de "Youth"

Foram divulgados cinco posters de "Youth" (A Juventude), o novo filme do realizador Paolo Sorrentino ("La Grande Bellezza"). O argumento do filme foi escrito por Sorrentino. "Youth" conta no elenco com Jane Fonda ("Fathers and Daughters"),Rachel Weisz ("The Deep Blue Sea"), Harvey Keitel ("The Congress"), Paul Dano (“Prisoners”), Michael Caine ("Mr. Morgan's Last Love"), entre outros. Posters via IMP Awards.



 Sinopse: Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel) são dois velhos amigos com quase oitenta anos que se encontram a desfrutar de um período de férias num hotel encantador, no sopé dos Alpes. Fred é um maestro e compositor aposentado, sem intenção de voltar à sua carreira musical que abandonou há muito tempo, enquanto Mick é um realizador, que ainda trabalha, empenhado em terminar o guião do seu mais recente filme. Ambos sabem que os seus dias estão contados e decidem enfrentar o seu futuro juntos. No entanto, mais ninguém para além deles parece preocupado com o passar do tempo ...

"Youth" estreia a 4 de Dezembro de 2015 nos EUA. "A Juventude" estreia em Portugal a 10 de Dezembro de 2015.

27 novembro 2015

Resenha Crítica: "Ascenseur pour l'échafaud" (Fim-de-Semana no Ascensor)

 O som da música jazz de Miles Davis adorna a narrativa e atribui-lhe por vezes um sentimento de melancolia que se adapta na perfeição à atmosfera de malaise que envolve o enredo de "Ascenseur pour l'échafaud", a primeira longa-metragem de ficção do realizador Louis Malle. Contemporâneo da Nouvelle Vague, sem estar totalmente associado ao movimento, Malle parece ter "bebido" alguma da sua inspiração nos filmes noir dos EUA, transportando alguns dos seus elementos para os cenários franceses, um pouco a fazer recordar obras como "Touchez pas au grisbi", bem como alguns trabalhos de Jean-Pierre Melville, tais como "Bob le Flambeur", onde a atmosfera deste subgénero se encontra muito presente. É uma obra onde não faltam elementos e temáticas dos filmes noir, tais como a presença dos clubes nocturnos, os personagens de carácter dúbio, muito fumo oriundo dos cigarros, o espaço urbano inseguro e conspurcado pelo crime, a mulher fatal, o protagonista que se envolve em problemas, entre outros que pontuam um território francês marcado pelas feridas do pós-Guerra e dos conflitos que ainda se encontram a decorrer. Temos ainda uma boa utilização dos cenários exteriores, bem como a presença de um grupo de personagens relativamente à margem da sociedade que se preparam para conhecer uma série de episódios que certamente não estavam nos seus planos iniciais. Costuma-se dizer que os actos têm consequências. No caso dos protagonistas de "Ascenseur pour l'échafaud" esta velha máxima parece adequar-se na perfeição, ainda que as consequências surjam por caminhos tortuosos e inesperados. Dois dos protagonistas de "Ascenseur pour l'échafaud" são Florence Carala (Jeanne Moreau) e Julien Tavernier (Maurice Ronet), um casal adúltero. Florence é casada com Simon Carala (Jean Wall), um empresário de sucesso, conhecido pelos negócios nem sempre claros, incluindo no ramo do armamento. Julien é um ex-paraquedista que esteve na Indochina e Argélia, a participar nos conflitos que envolveram a França, tendo um caso com Florence, a esposa do seu chefe. Amam-se mas não podem assumir publicamente a relação. Até são vistos juntos mas, por alguma razão, pensam que a melhor maneira para ficarem finalmente livres de Simon é eliminá-lo. Julien parece temer este acto, embora lá se decida a pegar numa corda com um gancho, subir para o andar superior ao seu escritório e eliminar o seu chefe. Desde as luvas, passando pelo silêncio no cumprimento deste acto hediondo até ao posicionamento da arma como se Carala tivesse cometido um suicídio, tudo parece ter sido pensado ao pormenor, embora a presença de um gato preto no local do crime indique que não vem aí coisa boa. Julien ainda tem uma conversa com Carala, mas o destino de ambos já estava traçado. O personagem interpretado por Maurice Ronet anseia ardentemente que a polícia acredite na hipótese de Carala ter cometido suicídio, com o protagonista a preparar-se para ir ao encontro da sua amada. Julien já se encontrava no seu veículo descapotável quando reparou que não tirou a corda do edifício. Percebe que fez merda e regressa rapidamente ao local para tirar a corda. Não consegue. Tudo piora quando entra no elevador e este trava devido ao sistema eléctrico ter sido desligado, com Julien a passar a noite no local, a tentar sair do mesmo, enquanto procura encontrar formas de escapar e ir ter com Florence.

A personagem interpretada por Jeanne Moreau desespera devido à falta de notícias por parte do amado. Os seus pensamentos são muitas das vezes expostos em off. Quando vê o carro de Julien com a presença de uma mulher, Florence logo pensa que o amado está com outra, embora se tenha esquecido de olhar com atenção para o interior do veículo. Dentro do carro de Julien encontravam-se Louis (Georges Poujouly), um criminoso inconsequente e Véronique (Yori Bertin), uma florista que admira o protagonista. Louis aproveitou o facto do ex-militar ter regressado extemporaneamente ao edifício para roubar o carro e passear com a namorada pelas estradas de Paris. Ah, a cidade do amor, tão bela, mas ao mesmo tempo exposta com tanto desencanto e crueza, onde um casal vive momentos ilusórios de felicidade, embora com algum receio, num veículo furtado. Quando o veículo de Louis e Véronique embate no bólide de Horst Bencker (Iván Petrovich) e a sua esposa Frieda (Elga Andersen), os dois casais acabam por meter conversa e formar uma estranha amizade e passar a noite num motel. Temos assim três planos da narrativa: Julien a procurar sair do elevador e do edifício; Florence a deambular pela noite em busca do amado em locais que este costuma frequentar; Louis e Véronique com o casal alemão, registando-se no hotel como Sr. e SrªTavernier. Escusado será dizer que nada vai terminar bem para os quatro elementos. Louis é descoberto por Horst, acabando por eliminar este último e Frieda. Julien é o principal suspeito do crime, com o comissário Cherrier (Lino Ventura) a fazer de tudo para resolver o caso. Entretanto o corpo do marido de Florence é encontrado. Nada de bom se espera. A morte rodeia estes personagens. Foram estes que a procuraram, seja por amor, ou puro receio de uma descoberta, ou simples insensatez. No caso de Julien e Florence até parecemos estar numa situação semelhante a "Double Indemnity", com Louis Malle a explorar os efeitos que a segunda tem no antigo militar. Amam-se ou pelo menos desejam-se a ponto de uma morte parecer algo de razoável. Para a lei não é um acto justificável, algo que promete tramar este casal. No início do filme, os close-ups sobre os seus rostos enquanto comunicam ao telefone, expõem o sentimento de urgência que Julien e Florence apresentam para colocar o assassinato em prática e finalmente poderem ficar juntos. Jeanne Moreau, uma actriz de enorme talento, tem em Florence uma das primeiras personagens de grande destaque da sua carreira. Esta é bela, elegante, apaixonada e ao mesmo tempo fria, procurando que o amante faça o trabalho sujo por si e elimine Simon. Durante a noite, chuvosa e fria como não poderia deixar de ser num filme com características negras, encontramos esta mulher a caminhar, a passar por bares, a procurar aquele que não encontra, o seu amante. Maurice Ronet tem em Julien um personagem que pode ter contado com treino militar e parecer algo frio mas é capaz de cometer erros básicos com uma facilidade impressionante, algo que lhe vai custar bastante caro. É um elemento típico dos filmes noir, um indivíduo moralmente ambíguo, com uma enorme facilidade em envolver-se em problemas, que cai nas garras da figura feminina. A Georges Poujouly cabe ficar com o papel de um assaltante de meia-tigela, que rouba um carro com enorme facilidade, mas parece esquecer as consequências deste acto, sendo ainda avisado por Véronique embora esta até acabe por aderir à festa.

A noite destes dois casais é marcada por alguma ironia por parte do destino (ou se preferirem, por parte do trio de argumentistas): Louis e Véronique encontram-se juntos mas dois actos criminosos prometem colocar essa união em perigo; Julien e Florence anseiam reunir-se mas tardam em conseguir contactar um com o outro, com o primeiro a encontrar-se preso num elevador durante boa parte da noite. Ambos os elementos dos casais cometeram actos reprováveis, enquanto Louis Malle diverte-se a despertar a dúvida em relação ao futuro do quarteto. Ficamos diante de quatro personagens que influenciam o destino uns dos outros, ainda que por meios pouco lineares, com Louis Malle a tecer uma teia narrativa bem ao estilo dos filmes noir, sempre com uma enorme competência, ritmo e um tom deliciosamente negro. Não existe espaço para a felicidade. Esta até pode aparecer mas é temporária, com a música de Miles Davis a adornar o enredo e o poder da fotografia a ser exibido de uma forma que provavelmente não esperaríamos. É uma obra com uma cinematografia pronta a explorar esta atmosfera de desencanto que envolve a narrativa, com Louis Malle a não poupar em alguns momentos de tensão e inquietação. Veja-se quando encontramos Julien preso no elevador ou o interrogatório a que este é sujeito, já para não falar do momento em que Louis dispara contra os alemães. Frieda e Horst até formavam um casal simpático, longe de apreciarem a guerra, mas acabam por ser baleados como se fossem dois germânicos prontos a ocuparem a França em plena II Guerra Mundial. Pelo caminho, Louis Malle fala-no da Guerra da Argélia, da venda de armas e da insegurança, do clima algo pessimista que rodeia França, ainda que subtilmente, através destes quatro personagens de carácter duvidoso. A Lino Ventura cabe interpretar um intrépido e sagaz polícia que aos poucos começa a deslindar o caso e a reunir as peças do puzzle que nem era assim tão fácil de montar. O elenco é competente, com nomes como Jeanne Moreau, Maurice Ronet, Lino Ventura e companhia a sobressaírem, com a primeira a surgir como uma colaboradora habitual de Louis Malle. No final, fica a certeza que os actos têm muitas das vezes consequências, que a felicidade pode ser tão momentânea como o fumo que sai dos cigarros dos personagens, numa obra onde não falta ainda o consumo de álcool, mortes e uma cidade de Paris pontuada por uma enorme melancolia, com Louis Malle a ter uma estreia a solo para recordar na realização de longas-metragens, com "Ascenseur pour l'échafaud" a marcar o início de uma bela carreira.

Título original: "Ascenseur pour l'échafaud".
Título em Portugal: "Fim-de-Semana no Ascensor".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Noël Calef, Louis Malle e Roger Nimier.
Elenco: Jeanne Moreau, Maurice Ronet, Georges Poujouly, Yori Bertin, Jean Wall, Iván Petrovich, Félix Marten, Lino Ventura.

26 novembro 2015

"Star Wars: The Force Awakens" - Extended TV Spot

 Foi divulgado um novo TV Spot de "Star Wars: Episode VII - The Force Awakens". O TV Spot conta com cerca de um minuto de duração e pode ser visto no final do post.

O novo filme da saga "Star Wars" é realizado por J.J. Abrams ("Star Trek Into Darkness"). O argumento ficou a cargo de J.J. Abrams e Lawrence Kasdan.

 "Star Wars: Episode VII - The Force Awakens" conta no elenco com Christina Chong ("W.E."), John Boyega ("Attack the Block"), Daisy Ridley, Adam Driver ("Girls"), Oscar Isaac ("Inside Llewyn Davis"), Andy Serkis ("Dawn of the Planet of the Apes"), Domhnall Gleeson ("About Time"), Max von Sydow ("Flash Gordon"), Lupita Nyong'o ("12 Years a Slave"), Gwendoline Christie ("Game of Thrones"), Crystal Clarke ("The Moon and the Sun"), Iko Uwais ("The Raid"), Yayan Ruhian ("The Raid" e "The Raid 2"), Cecep Arif Rahman ("The Raid 2", Pip Anderson, Harrison Ford, Carrie Fisher, Mark Hamill, Anthony Daniels, Peter Mayhew, e Kenny Baker.

"Star Wars: Episode VII - The Force Awakens" estreia a 18 de Dezembro de 2015 nos EUA.

"Pride and Prejudice and Zombies" - Novo trailer e poster

 Foram divulgados um novo poster e um novo trailer da adaptação cinematográfica de "Pride and Prejudice and Zombies", um livro escrito por Seth Grahame-Smith. Poster via Coming Soon.

O filme é realizado por Burr Steers ("Igby Goes Down"), através do argumento do próprio. "Pride and Prejudice and Zombies" conta no elenco com Charles Dance, Lena Headey, Matt Smith, Lily James, Sam Riley, Bella Heathcote, Jack Huston, entre outros.

O livro "Pride and Prejudice and Zombies" foi publicado em Portugal com o título "Orgulho e Preconceito e Zombies" e conta com a seguinte sinopse (via Wook): É assim que começa Orgulho e Preconceito e Zombies, uma versão alargada do bem amado romance de Jane Austen. Apresenta cenas completamente novas, com a violência capaz de esmagar ossos, ao ser introduzida a presença dos zombies. A destemida heroína Elizabeth Bennet está decidida a varrer a ameaça dos zombies, mas rapidamente se vê afastada desse objectivo com a chegada do altivo e arrogante Mr. Darcy. Segue-se uma encantadora comédia de costume, com inúmeras lutas civilizadas entre os dois apaixonados e com lutas muito mais violentas, em campos de batalha ensopados de sangue.

"Pride and Prejudice and Zombies" estreia a 5 de Fevereiro de 2016 nos EUA.

Resenha Crítica: "La chambre verte" (1978)

 Como lidar com a morte daqueles que nos são próximos? Nunca saberei responder peremptoriamente a esta questão, embora, muito provavelmente, o método seguido por Julien Davenne, o protagonista de "La chambre verte", não seja o mais saudável. "La chambre verte" surge como um filme bastante pessoal de François Truffaut, com o cineasta a tomar a decisão de protagonizar o mesmo, enquanto nos faz reflectir sobre assuntos como a morte, aqueles que perdemos e as maneiras distintas que cada um encontra para enfrentar as perdas que marcam a sua existência. Diga-se que a morte é algo transversal a diversos filmes realizados por François Truffaut. Desde "Tirez sur le pianiste" a "La peau douce", passando por "Jules et Jim" a "La Mariée était en noir", até "La femme d'à Côté" e "Vivement dimanche!" não faltam exemplos de obras cinematográficas realizadas por François Truffaut em que a morte se encontra presente. No caso de "La chambre verte", François Truffaut assume as funções de realizador, argumentista, produtor e protagonista, interpretando Julien Davenne, um indivíduo que tem como profissão escrever os obituários no "Le Globe", um pequeno jornal de uma cidade francesa de dimensões diminutas. A narrativa inicia-se dez anos depois do final da I Guerra Mundial, um conflito bélico que deixou marcas no território e naqueles que sobreviveram. Julien continua a guardar na memória aqueles que viu morrer, tendo regressado do conflito bélico sem um único arranhão, apesar da sua alma se encontrar completamente dilacerada. A perda da esposa, pouco tempo depois de se ter casado com a mesma, conduziu a que Julien se enclausurasse cada vez mais no interior da sua habitação, um espaço onde vive acompanhado por Rambaud (Jeanne Lobre), a sua governanta e o jovem Georges (Patrick Maléon), um surdo-mudo adoptado por esta última. Georges parece manter uma relação de alguma amizade com Julien, enquanto Rambaud apresenta um respeito notório pelo protagonista. No início do filme encontramos Davenne a procurar consolar Gerard Mazet (Jean-Pierre Moulin), um amigo que perdeu a esposa, com o velório a ser marcado pela tentativa do segundo em suicidar-se e um discurso pueril por parte do padre presente no evento. Julien consegue convencer o amigo a não cometer suicídio, ao mesmo tempo que explana os procedimentos que tomou para lidar com a morte da esposa, com François Truffaut a expor desde logo alguns dos traços da personalidade do protagonista. Existe um misto de devoção e obsessão por parte de Julien em relação à falecida esposa, com o personagem interpretado por François Truffaut a contar com um quarto pontuado por tonalidades verdes e diversas velas, onde guarda fotografias emolduradas da amada, chegando a oferecer-lhe um anel adquirido num leilão como se esta ainda estivesse viva.

Julien tenta que a amada permaneça viva na sua memória, embora se esqueça muitas das vezes de seguir em frente com a sua vida, procurando que as recordações que guarda da falecida não se desvaneçam diante do avançar do tempo. O personagem interpretado por François Truffaut é uma figura estoica, que parece viver para o passado e para os mortos, com Julien a gerar uma obsessão doentia em relação àqueles que partem. Julien não é uma figura de trato fácil, algo visível quando descobre que Gerard decidiu iniciar uma relação com outra mulher, poucos meses depois da morte da esposa, um acto que o protagonista considera uma falta de respeito. Gerard simboliza o oposto do protagonista, com o personagem interpretado por Jean-Pierre Moulin a procurar seguir em frente com a sua vida ao invés de continuar agrilhoado ao passado. Não quer dizer que se tenha esquecido da falecida esposa, apenas decidiu que a melhor opção seria avançar para outra relação sentimental, com um envolvimento a não apagar o outro. É uma das várias questões complexas que "Le chambre verte" aborda, com o argumento de Jean Gruault e François Truffaut a não ter problemas em explorar temáticas melindrosas. Inspirado livremente nas obras literárias "The Altar of the Dead". "The Beast in the Jungle" e "The Friends of the Friends", ambas da autoria de Henry James, o argumento de "La chambre verte" não só procura abordar questões relacionadas com a morte, mas também as maneiras distintas que cada um procura encontrar para seguir em frente com a sua vida e respeitar aqueles que partem. Diga-se que o argumento também é inspirado nas experiências pessoais de François Truffaut, em particular nas perdas que este foi conhecendo ao longo da sua vida, tais como André Bazin, Françoise Dorléac, Henri Langlois, Roberto Rossellini, Jean Cocteau, entre outros. A morte da esposa marcou Julien de forma indelével, bem como a presença na I Guerra Mundial, algo latente nos seus actos. A certa altura da narrativa, uma tempestade assola esta pequena cidade, enquanto um raio destrói parte do quarto onde o protagonista praticamente criou um altar em honra à sua falecida esposa. É então que Julien decide restaurar uma capela em ruínas, perto do cemitério onde a esposa se encontra enterrada, com o protagonista a procurar utilizar este espaço para honrar os mortos. Nesse sentido, Julien dota a capela de retratos dos falecidos, acendendo um largo conjunto de velas dedicadas a estas figuras. Diga-se que, nesta fase da narrativa, Julien já contactara com Cecilia Mandel (Nathalie Baye), a empregada da casa de leilões onde este conseguira o anel para oferecer à falecida. Cecilia contactara pela primeira vez com Julien quando ainda era uma jovem, reencontrando o mesmo quando este se dirigiu à casa de leilões, com esta mulher a denotar simpatia e alguma delicadeza. Também Cecilia perdeu uma pessoa relevante, surgindo como uma figura recatada que parece algo presa ao passado, começando a nutrir algo mais pelo protagonista, ou não fossem dois personagens peculiares que formam uma estranha relação de respeito. Nathalie Baye interpreta uma figura que parece criar uma ligação de proximidade com o protagonista, com a actriz a apresentar uma dinâmica relativamente convincente com François Truffaut. Cecilia parece, ainda que gradualmente, aceitar algumas das excentricidades do protagonista, com este indivíduo a dar sinais que pretende partilhar algo com esta mulher, embora esteja demasiado preso aos mortos e ao passado.

François Truffaut explora o lado negro das obsessões e depressões, com Julien a surgir como uma figura que se encontra num estado caótico, algo que o leva a apresentar uma série de comportamentos doentios que desafiam os limites do bom senso. Esta situação conduz a que nos deparemos com situações como Julien a parecer preferir o contacto com os mortos ao invés de lidar com os vivos, com François Truffaut a criar um drama que a espaços ganha contornos mais negros e pesados. O cineasta interpreta um indivíduo deprimido que descura os vivos e a sua própria vida, tendo em vista a reverenciar aqueles que partiram, uma situação doentia que exibe mais os desequilíbrios de Julien do que o seu respeito pelos mortos. A certa altura do filme encontramos esta figura a esconder-se atrás de uma porta, com o vidro da mesma a contribuir para que Julien surja distorcido junto do espectador, com este plano a parecer praticamente simbolizar a existência difusa e caótica deste personagem que se parece recusar a lutar contra os seus instintos. A interpretação de François Truffaut permite realçar a incapacidade deste indivíduo em lidar com aqueles que o rodeiam e enfrentar o presente, com o actor a expor ainda as dificuldades de Julien em explanar aquilo que sente. Ainda tem um momento onde exibe que não tem contemplações para com aqueles que o marcaram pela negativa, algo notório quando pedem para que escreva o obituário de Massigny, um indivíduo que desiludiu Julien no passado. Curiosamente, Massigny também se encontra ligado a Cecilia, algo que promete causar alguma irrisão entre esta e Julien, com este último a não perdoar aqueles que outrora o desiludiram. Julien é uma figura solitária, que tem no culto dos mortos um modo de vida, enquanto Truffaut cria algo de muito pessoal, ao mesmo tempo que nos alerta para o perigo de nos deixarmos consumir pela dor relacionada com a perda daqueles que nos são próximos. François Truffaut recupera a colaboração com Néstor Almendros, o responsável pela cinematografia, com este a efectuar uma utilização notável da luz das velas, algo notório na capela que o protagonista reformula ou no quarto do mesmo (existe um tom algo gótico a rodear o filme). A capela é composta por diversos retratos de figuras que marcaram o protagonista, com Truffaut a deixar-nos diante de imagens de elementos como Oskar Werner, Jean Cocteau, Raymond Queneau, Jeanne Moreau, Oscar Wilde, entre outros, algo que transforma este espaço numa espécie de "quem é quem" para o espectador. É nesta capela que assistimos a alguma aproximação e afastamento entre Julien e Cecilia, dois elementos que frequentam regularmente o cemitério, com esta última a estranhamente apreciar este espaço dedicado ao culto dos mortos, para além de gostar da companhia do primeiro, embora pareça praticamente impossível que os personagens interpretados por Nathalie Baye e François Truffaut venham a ser felizes. Truffaut aborda de forma eficaz a incapacidade que este indivíduo tem em conseguir afastar-se das memórias do passado, com o protagonista a apresentar uma postura cada vez mais doentia, uma situação notória quando assistimos a um plano onde as velas e o seu rosto se fundem, parecendo cada vez mais certo que a morte consome a existência de Julien. Com um argumento capaz de abordar temáticas melindrosas e intrincadas, uma interpretação sóbria e eficaz de François Truffaut, uma boa utilização da paleta cromática ao serviço da narrativa e um aproveitamento assertivo dos cenários, "La chambre verte" surge como um drama desgastante onde o cineasta explora com argúcia a história de uma figura complexa e incompreendida que parece incapaz de seguir em frente com a sua vida após a morte de vários elementos que povoaram o seu quotidiano.

Título original: "La chambre verte".
Título em Portugal: "O Quarto Verde".
Realizador: François Truffaut.
Argumento: Jean Gruault e François Truffaut.
Elenco: François Truffaut, Nathalie Baye, Jean Dasté.

25 novembro 2015

Trailer e três posters de "Captain America: Civil War"

Foram divulgados três posters e o trailer de "Captain America: Civil War". Posters via IMP Awards.

 Sinopse: CAPITÃO AMÉRICA: CIVIL WAR começa onde “Vingadores: A Era de Ultron” termina, com Steve Rogers a liderar a nova equipa de Os Vingadores nos seus esforços contínuos para proteger a humanidade. Depois de mais um incidente internacional que envolveu Os Vingadores com danos colaterais como resultado, a pressão política aumenta para instalar um sistema de responsabilização e um corpo diretivo para determinar quando recorrer aos serviços da equipa. O novo status quo de Os Vingadores enquanto tentam proteger o mundo de um novo e nefasto vilão

O filme é realizado por Joe e Anthony Russo, através do argumento de Christopher Markus e Stephen McFeely. "Captain America: Civil War" conta no elenco com Chris Evans, Robert Downey Jr., Sebastian Stan, Paul Rudd, Emily VanCamp, Chadwick Boseman, Daniel Brühl, Martin Freeman, Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, entre outros.

"Captain America: Civil War" estreia a 6 de Maio de 2016 nos EUA.

Resenha Crítica: "Un homme et une femme" (1966)

 Simples, delicado, recheado de romantismo e uma enorme subtileza na abordagem das relações e dos sentimentos humanos, "Un homme et une femme" é um triunfo cinematográfico de Claude Lelouch, com o cineasta a envolver-nos com enorme facilidade para o interior da história da sua dupla de protagonistas. Uma das personagens principais de "Un homme et une femme" é Anne Gauthier (Anouk Aimée), uma mulher que trabalha na escrita e supervisão de argumentos de filmes. Anne é viúva de um duplo (Pierre Barouh) que faleceu ao protagonizar um acto mais arriscado durante as filmagens de uma obra cinematográfica. O momento da morte foi observado de perto por Anne, com Claude Lelouch a expor-nos o mesmo em flashback, com a narrativa a apresentar uma estrutura fragmentada, deambulando entre o presente e o passado, parecendo seguir quase sempre o ritmo das emoções e sentimentos dos personagens. Anne tem uma filha, chamada Françoise (Souad Amidou), uma jovem que estuda num colégio interno localizado em Deauville. As duas parecem apresentar uma relação relativamente próxima e afável, com a jovem Françoise a apreciar a presença da mãe e os passeios que fazem na praia. Outro dos protagonistas é Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant), um piloto de automóveis, um indivíduo ponderado e afável. Valerie (Valerie Lagrange), a esposa de Jean-Louis, cometeu suicídio após receber a notícia de que este último sofrera um grave acidente enquanto competia nas 24 Horas de Le Mans. Jean-Louis é pai de Antoine (Antoine Sire), um rapaz que também estuda no colégio interno de Deauville, com o protagonista a aproveitar para desfrutar as horas de folga para actos tão distintos como ensinar o petiz a conduzir, ou passear com o mesmo. Anne e Jean-Louis conhecem-se por acaso, num momento aparentemente banal que vai marcar as suas vidas. É quase sempre assim que surgem algumas das relações mais marcantes, seja no grande ecrã ou na vida real, com "Un homme et une femme" a expor-nos a duas figuras com personalidades afáveis que facilmente despertam a nossa simpatia. Anne perdera o comboio, algo que conduz uma das professoras da escola a pedir a Jean-Louis se este pode transportar a argumentista até Paris. Os dois metem conversa, de forma simples e sincera, com as falas a praticamente não parecerem encenadas, enquanto Claude Lelouch planta as sementes para algo que promete ser complexo e sublime. Anne e Jean-Louis não sabiam nada um sobre o outro, com a primeira a revelar, ainda que gradualmente, alguns elementos sobre a sua vida, entre os quais a profissão do esposo e a causa da morte deste indivíduo, mas também o enorme amor que continua a sentir pelo mesmo. A descrição bem viva que esta mulher efectua da relação que mantinha com o falecido esposo diz muito da sua visão sobre o amor, ao mesmo tempo que explana paradigmaticamente a capacidade de "Un homme et une femme" de contar com alguns diálogos sublimes que facilmente ficam na memória.

 Quando Jean-Louis salienta que a história do início da relação entre esta e o esposo é completamente banal, Anne logo comenta que: "Não pretendo ser original. Um encontro, um casamento, um filho, são coisas que acontecem com todos. Talvez o que seja original é quem se ama". Veja-se ainda quando esta salienta o gosto do esposo pelo samba, com a banda sonora a sobressair, enquanto Anouk Aimée é capaz de nos convencer de que Anne ainda continua a manter um enorme amor pelo falecido. Não faltam ainda os momentos de convívio que Anne e Jean-Louis protagonizam com os filhos, com os dois visitarem os petizes aos Domingos, ou não tivessem profissões que ocupam boa parte dos seus dias. Estes são alguns dos vários momentos sublimes de "Un homme et une femme", com Claude Lelouch a saber desenvolver com enorme subtileza a relação entre a dupla de protagonistas. Aos poucos ficamos a saber mais sobre o passado de Jean-Louis e Anne, sobre as suas profissões e os episódios que marcaram as suas vidas privadas, enquanto estes combinam sair juntos, levam os respectivos rebentos para passear, com tudo a parecer correr às mil maravilhas. No entanto, as memórias do passado podem nem sempre ser fáceis de desvanecer, que o diga Anne, uma mulher que tanto parece querer avançar para uma nova relação como indica não esquecer o falecido esposo. Anne e o esposo parecem ter vivido algo demasiado forte, com a perda deste último, marcada por contornos trágicos, a continuar ainda demasiado vincada na memória da protagonista. Anouk Aimée transmite uma multitude de emoções através do seu rosto, com a actriz a incutir uma enorme delicadeza, fragilidade e mistério a esta mulher que facilmente desperta a nossa simpatia. A actriz consegue expressar as dúvidas de Anne, o enorme amor que sente pelo falecido esposo e os sentimentos que começa a nutrir em relação a Jean-Louis. Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant exibem uma dinâmica assinalável, algo visível desde os momentos iniciais, em que a dupla fala no carro durante a viagem até Paris, enquanto se começa a conhecer e se expõe diante do espectador. Diga-se que Claude Lelouch convida-nos a participar neste romance quer na sua génese, quer durante o seu desenvolvimento, ao mesmo tempo que nos expõe diante de sentimentos e sensações universais que facilmente conseguem dizer algo ao espectador. Lelouch aproveita a química notória entre a dupla de protagonistas ao mesmo tempo que consegue que Jean-Louis e Anne criem uma empatia notória com o espectador, algo que contribui para que aos poucos tenhamos a sensação inexplicável de torcer para que os dois sejam felizes. Ambos parecem marcados pelos episódios relacionados com a perda dos respectivos cônjuges, embora Anne aparente estar menos preparada para seguir em frente. A narrativa deambula entre o presente e o passado, entre memórias que se criam e aquelas que já não se esquecem, numa obra pontuada ainda por alguma irreverência. Lelouch não poupa em jump-cuts, imagens a cores ou a preto e branco, ou em tom sépia, planos de curtíssima duração, close-ups que exibem uma quantidade assinalável de sentimentos, diálogos sinceros que são contrastados por silêncios que ganham toda uma outra dimensão com a magnífica banda sonora de Francis Lai, ao longo de um romance que tem tanto de simples como de complexo. O contraste entre as diferentes tonalidades e o facto de Claude Lelouch ter filmado "Un homme et une femme" em 35mm, 16mm e Super 8 foi algo que se deveu muito mais a razões pragmáticas do que propriamente simbólicas, algo salientado pelo cineasta numa entrevista interessantíssima ao The Hollywood Interview: "You know the primary reason I used both color and black & white in A Man and a Woman? I was running out of money! (laughs) And black & white was cheaper. (...)  It wasn’t symbolic. It was financial! But that’s one example of how problems and constraints often breed your greatest creative decisions". Diga-se que este foi o primeiro grande sucesso da carreira de Claude Lelouch, com o cineasta a ter contabilizado por fracassos as obras cinematográficas que tinha realizado até então, embora "Un homme et une femme" tenha recebido os elogios do público e da crítica, indo ao ponto de ter sido agraciado com a sempre prestigiante Palma de Ouro no Festival de Cannes (edição de 1966).

O argumento de Claude Lelouch e Pierre Uytterhoeven é aprumado, sobretudo pela capacidade de explorar com enorme delicadeza o iniciar de uma relação entre duas figuras marcadas por tragédias que deixaram feridas mal cicatrizadas nas suas almas, ao mesmo tempo que permite que Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant criem dois personagens especiais. Tudo parece funcionar ao longo de "Un homme et une femme", embora o aparente afastamento que Lelouch procura efectuar dos cineastas da Nouvelle Vague não impeça que existam alguns traços em comum entre a sua obra cinematográfica e os trabalhos de alguns dos seus colegas de profissão: a atenção aos gestos dos personagens numa cena de maior erotismo que culmina numa viagem às memórias do passado remete para obras como "La peau douce" ou "Une femme mariée"; os jump-cuts "à Godard"; a utilização dos espaços citadinos e dos cenários naturais; a montagem algo abrupta, contribuindo para a exposição dos estados de espírito de Anne e Jean-Louis; a irreverência na exposição da narrativa (os diferentes formatos e a paleta cromática até podem ter sido uma solução de recurso mas permitem essa interpretação); os diálogos improvisados, entre outros exemplos. É um filme que facilmente desperta os nossos sentimentos mais quentes, com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant a terem um enorme mérito nesse quesito, enquanto Claude Lelouch conduz a relação dos personagens que estes interpretam com uma sobriedade que joga e muito a seu favor. Esta situação é visível em alguns acontecimentos aparentemente anódinos que nos são apresentados, com um simples telegrama enviado por Anne a surgir recheado de significado, uma música a trazer consigo todo uma paixão pelos ritmos quentes do samba, uma corrida de automóveis a expor a capacidade do ser humano em colocar a sua vida em risco. Também Anne e Jean-Louis precisam arriscar para poderem ser felizes, embora as memórias do passado sejam demasiado fortes, algo que pode impedir esse desiderato. Romance terno e delicado, marcado por uma enorme subtileza e uma capacidade de nos compelir a acreditar nos sentimentos da dupla de protagonistas, "Un homme et une femme" embrenha-nos para o interior da história de Anne e Jean-Louis, deleita-nos com as interpretações de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant, aproveita de forma inspirada a banda sonora de Francis Lai, com Claude Lelouch a elaborar um filme capaz de invadir a nossa mente durante a sua duração e fazer com que partilhemos algumas das sensações destas figuras apaixonantes que povoam a narrativa.

Título original: "Un homme et une femme".
Título em Portugal: "Um Homem e Uma Mulher".
Realizador: Claude Lelouch.
Argumento: Claude Lelouch e Pierre Uytterhoeven.
Elenco: Anouk Aimée, Jean-Louis Trintignant, Pierre Barouh, Valérie Lagrange.

24 novembro 2015

Novo trailer internacional de "Knight of Cups" (Cavaleiro de Copas)

 Foi divulgado um novo trailer de "Knight of Cups" (Cavaleiro de Copas), o novo filme realizado por Terrence Malick, através do argumento do próprio. O filme conta no elenco com Christian Bale, Cate Blanchett, Natalie Portman, Brian Dennehy, Antonio Banderas, Freida Pinto, Wes Bentley, Isabel Lucas, Teresa Palmer, Imogen Poots, entre outros.

Sinopse de "Cavaleiro de Copas": Era uma vez um jovem príncipe cujo pai, o rei do Este, o enviou para o Egipto a fim de encontrar uma pérola. Mas quando o príncipe chegou, o povo serviu-lhe uma taça e, ao bebê-la, este esqueceu-se que era filho do rei, esqueceu-se da pérola e caiu num sono profundo.
 O pai do Rick costumava ler-lhe esta história quando era pequeno. Rick (Christian Bale) é agora um escritor de comédia que vive em Santa Monica. Anseia por algo diferente, algo mais do que a vida que conhece, sem saber muito bem o quê ou como partir para o encontrar. Não sabe para que lado se virar. A morte do seu irmão, Billy, paira sobre ele como uma sombra. O seu pai, Joseph (Brian Dennehy), carrega um sentimento de culpa pela morte de Billy. Outro irmão, Barry (Wes Bentley), numa maré de azar, mudou-se recentemente do Missouri, onde cresceram, para Los Angeles. Rick tem ajudado o irmão a superar esta fase. Rick procura distração na companhia de mulheres: Della (Imogen Poots); Nancy (Cate Blanchett), uma médica com quem foi casado; uma modelo chamada Helen (Freida Pinto); Elizabeth (Natalie Portman), uma mulher que ele engravidou; uma stripper chamada Karen (Teresa Palmer); e Isabel, uma jovem que o ajuda a olhar para o futuro. As mulheres parecem saber mais do que ele próprio. Elas trazem-no para o coração das coisas, mais perto do mistério. As drogas não acrescentam nada. As festas, os engates, a carreira, nada o satisfaz. E no entanto, cada mulher e cada homem que conheceu ao longo da sua vida serviu-lhe, de alguma forma, de guia, de mensageiro. A estrada para Este estende-se diante dele. Será que ele vai avançar? Vai faltar-lhe a coragem? Irá manter-se acordado? Ou será que tudo não vai passar de um sonho, uma esperança, uma passagem imaginária? A viagem ainda agora começou. 

"Knight of Cups" estreia a 4 de Março de 2016 nos EUA. "Cavaleiro de Copas" estreia em Portugal a 21 de Janeiro de 2016.

"Concussion" - Novo poster do filme

 Foi divulgado mais um poster de "Concussion". Poster via IMP Awards. O filme é realizado por Peter Landesman (“Parkland”), através do argumento do próprio. "Concussion" conta no elenco com Will Smith, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Bitsie Tulloch, Eddie Marsan, Albert Brooks, entre outros.

O argumento do filme teve como base o artigo “Game Brain” da GQ, escrito por Jeanne Marie Laskas. Will Smith vai dar vida a Dr. Bennet Omalu, um neuropatologista que diagnosticou encefalopatia crónica a diversos jogadores de futebol americano. O filme vai abordar os efeitos debilitantes das concussões nos jogadores de futebol americano.

"Concussion" estreia a 25 de Dezembro de 2015 nos EUA.

Resenha Crítica: "Anatomy of a Murder" (1959)

 Existem filmes que parecem ter o condão de revigorar a minha paixão pela Sétima Arte. "Anatomy of a Murder" é um desses casos. Confesso que já não visionava o filme há uns quantos anos, embora mantivesse diversos dos seus momentos gravados na memória. Ao voltar a cruzar-me com "Anatomy of a Murder" não só fiquei com uma vontade irresistível de voltar a visualizar o mesmo, mas também com a certeza que nunca conseguirei efectuar justiça ao brilhantismo desta obra-prima de Otto Preminger. O cineasta controla os ritmos da narrativa com uma perícia ao alcance de poucos, transforma um julgamento em tribunal em algo de intenso e memorável onde James Stewart tem espaço para nos brindar com uma grande interpretação, explora de forma assertiva o trabalho relacionado com o exercício da advocacia e a necessidade dos advogados terem um controlo exímio no discurso, para além de brindar o espectador com um final recheado de incertezas que se conjuga na perfeição com o rumo tomado pelo enredo de "Anatomy of a Murder". A certa altura de "Anatomy of a Murder" encontramos o tenente Frederick Manion (Ben Gazzara) a ser julgado em tribunal, enquanto é defendido com enorme engenho, garra e inteligência por Paul Biegler (James Stewart), um advogado perspicaz que não quer perder o controlo de nada. O início do julgamento é desde logo marcado pela estratégia de Biegler em lançar alguns argumentos que não são considerados válidos em tribunal, embora fiquem na memória do júri. A certa altura encontramos Manion a colocar a seguinte questão a Biegler: "Como é que um júri pode ignorar o que já ouviu?". Biegler responde com enorme segurança: "Não pode". Numa simples troca de palavras percebemos que Otto Preminger pretende inculcar uma enorme complexidade a este julgamento, ao mesmo tempo que cria alguns momentos emocionalmente potentes, inesquecíveis e reveladores da qualidade do argumento de Wendell Mayes, do controlo do cineasta e do nível elevado dos intérpretes. Entram e saem testemunhas, os advogados trocam acusações de forma acalorada, as emoções são expostas de forma fervilhante, enquanto as dúvidas em relação ao carácter de Manion são mais do que muitas, com Biegler a ter que jogar com os meios legais disponíveis para que o seu cliente seja considerado inocente. Frederick Manion eliminou "Barney" Quill, disparando cinco tiros sobre este indivíduo, após saber que este violou e espancou a sua esposa. É exactamente Laura Manion (Lee Remick), a esposa de Frederick que contacta Paul Biegler, tendo em vista a que o advogado defenda o esposo em tribunal. Paul é um antigo procurador do Ministério Público, agora um advogado de pouca monta, que tem na pesca e no acto de tocar piano alguns dos seus hobbies. James Stewart desperta facilmente a nossa simpatia como este indivíduo simples, aparentemente sem grande experiência a trabalhar na defesa de clientes em tribunal, tendo em Parnell McCarthy (Arthur O'Connell), um advogado beberrão, um dos seus poucos amigos. Parnell não exerce o seu ofício, embora facilmente se torne num apoio para Paul, com este último a contar ainda com a companhia de Maida Rutledge (Eve Arden), a sua secretária, uma mulher sardónica, de forte personalidade, que é fiel ao seu chefe embora conte com ordenados em atraso.

 Os momentos iniciais de "Anatomy of a Muder" até são de alguma leveza, com Otto Preminger a estabelecer desde logo o protagonista e o meio que o rodeia. A habitação de Paul surge também como o local de trabalho, um espaço que conta com a presença de um piano, diversos livros, um frigorífico recheado de peixe, com este cenário a exibir a simplicidade deste advogado sem dinheiro para grandes luxos. O caso de Frederick Manion promete ser um desafio para Biegler. Paul tem consciência que é complicado defender um indivíduo que eliminou outro, com o próprio protagonista a salientar que a lei invisível não conta embora, na prática, o personagem interpretado por James Stewart procure explorar a mesma. A juntar a essa dificuldade, a personalidade de Paul e a do seu cliente são dicotómicas, algo que explica a irrisão inicial entre ambos. Ben Gazzara incute sempre algum mistério ao personagem que interpreta, uma figura que nunca consegue despertar a nossa confiança, embora Paul tudo faça para o defender em tribunal, ou não fosse um advogado profissional que procura dar o seu melhor para vencer o caso. James Stewart volta a exibir o seu enorme carisma em "Anatomy of a Murder", com o actor a interpretar um advogado, tal como em "The Man Who Shot Liberty Valance", tendo desempenhos assinaláveis em ambos os filmes. O actor consegue sobressair quer nas cenas onde encontramos o advogado a investigar elementos relevantes para o caso, quer nos momentos no tribunal, onde nos brinda com um espectáculo de interpretação. É simplesmente fascinante assistir ao "duelo" entre Paul e Claude Dancer, com James Stewart e George C. Scott a proporcionarem momentos de enorme intensidade. Stewart berra, gesticula, manda pancadas na mesa, com Paul a utilizar metáforas e a memória do júri para ganhar ascendente sobre o rival, enquanto Scott apresenta um atitude menos temperamental mas igualmente estudiosa como um elemento que promete dificultar os planos do protagonista. A certa altura ouvimos Paul a salientar o seguinte: "Sou só um humilde advogado do interior, a dar o melhor contra este brilhante promotor público da grande cidade de Lansing". Um "simples" diálogo permite elogiar o adversário e jogar com o gosto que o júri pode ter pelos underdogs, algo que Paul adensa ao expor a sua desvantagem, embora as suas atitudes indiquem que estamos diante de um advogado competente. Tem uma interpretação menos apolínea da lei do que Ransom, o personagem que James Stewart interpretou em "The Man Who Shot Liberty Valance", com Paul a ter a noção de que para ganhar nem sempre é possível jogar limpo ou defender algo em que se acredita. Este julgamento surge ainda dotado de alguns elementos negros, ou não soubéssemos que um advogado se encontra a defender um indivíduo que cometeu assassinato. Frederick e Paul aproveitam o facto do médico do exército ter diagnosticado que o primeiro teve uma "reacção dissociativa", ou seja, um "impulso irresistível", com o protagonista a jogar parte das suas fichas no folclore que cria em volta do julgamento e no argumento da insanidade temporária. Diga-se que a procura de Paul em controlar o júri é ainda visível na forma como Laura Manion surge vestida no julgamento, com esta a aparecer inicialmente mais recatada, de óculos e chapéu a tapar os seus belos cabelos, algo que contrasta por completo com aquilo que tínhamos conhecido desta personagem. Lee Remick incute uma enorme sensualidade e safadeza a Laura, uma mulher que gosta de dar nas vistas, algo visível nos seus comportamentos e nas suas vestes apertadas, com esta a insinuar-se ao advogado embora ambos nunca cheguem a avançar para um envolvimento. Laura conta quase sempre com a companhia do seu cão, surgindo inicialmente acompanhada pelos seus óculos escuros para esconder as nódoas negras nas imediações dos olhos, algo que aconteceu supostamente devido à agressão de Quill (é impossível não desconfiar que este acto poderá ter sido cometido pelo esposo), com esta figura feminina a contar ainda com um lado mais frágil e ambíguo.

 A personagem interpretada por Lee Remick é uma das várias figuras chamadas a testemunhar, com o argumento a explorar as mesmas ao longo destes momentos no tribunal. Veja-se o caso de Mary Pilant (Kathryn Grant), a herdeira de Quill, uma mulher que guarda alguns segredos em relação à identidade do seu pai, ou Al Paquette, (Murray Hamilton), o empregado do bar do suposto violador. Temos ainda o Juiz Weaver (Joseph N. Welch), um indivíduo que nem sempre consegue colocar ordem no tribunal, um espaço onde assistimos a trocas de argumentos que permitem expor as diferentes interpretações que cada elemento tem do caso. Não faltam argumentos a serem esgrimidos no tribunal, enquanto Otto Preminger aborda estes momentos com um enorme realismo, pelo menos no contexto do enredo, com o cineasta a elaborar alguns trechos intensos e memoráveis. Diga-se que "Anatomy of a Murder" conta ainda com diversos elementos que despertam a nossa atenção: a cinematografia pontuada por enorme elegância, um eficiente trabalho de montagem, uma banda sonora notável por parte de Duke Ellington (recheada de temas de jazz), uma boa utilização dos cenários naturais, diversas interpretações positivas por parte do elenco, para além da sequência de créditos iniciais da autoria de Saul Bass. "Anatomy of a Murder" é ainda considerado um dos primeiros filme de carácter mainstream a abordar temáticas como violação e o sexo de forma relativamente aberta nos EUA, com o argumento a ter sido inspirado na obra literária homónima da autoria de John D. Voelker. O livro foi inspirado num caso real, enquanto somos colocados diante de uma obra cinematográfica dotada de alguma complexidade, que exibe tanto o lado positivo como as possíveis falhas dos julgamentos em tribunal ao mesmo tempo que Otto Preminger parece tirar o melhor que os seus actores e actrizes têm para dar. Veja-se as dúvidas que Ben Gazzara nos desperta ao longo do enredo, com o personagem que interpreta a parecer ter um lado negro que o actor procura deixar implícito, ou os casos já citados de James Stewart e Lee Remick. A relação entre os personagens interpretados por Gazzara e Remick parece ser mais complicada do que aparenta, tal como as personalidades de Frederick e Laura surgem marcadas por enorme ambiguidade. Quem não pareceu ter dúvidas foi Otto Preminger que apresenta uma confiança notória a realizar uma das suas obras-primas, com o cineasta a ter ainda a coragem de desafiar as limitações do Código Hays, algo salientado por Nick Pinkerton no seu artigo para o site da Criterion: "Preminger had done much to open the market to the free trade of ideas by 1959. The Production Code Administration’s authority had receded to such a degree that Anatomy of a Murder, with its talk of panties, its dozens of rapes and even a bitch, arrived in theaters with the Code’s blessing". O cineasta aborda ainda situações mais leves, tais como a amizade entre o protagonista e Parnell, com estes a habitarem na Península Superior do Michigan, um espaço onde tanto Paul pode pescar alegremente como pode ocorrer uma violação e um assassinato brutal. Diga-se que Preminger filmou "Anatomy of a Murder" no território onde se desenrola parte do enredo, algo salientado no site do AFI: "(...) the film was shot entirely on location in the Ishpeming-Marquette area of Michigan (...) The courtroom, jail and hospital scenes were shot in their actual counterparts in Marquette. Paul Bielger’s office was Voelker’s actual law office in Ishpeming". Com uma controlo notável dos ritmos da narrativa, uma interpretação de grande nível por parte de James Stewart, uma representação realista e complexa de um julgamento em tribunal, "Anatomy of a Murder" surge como um exemplar memorável da carreira de Otto Preminger, com o cineasta a efectuar uma obra cinematográfica que roça a perfeição.

Título original: "Anatomy of a Murder".
Título em Portugal: "Anatomia de Um Crime".
Realizador: Otto Preminger.
Argumento: Wendell Mayes.
Elenco: James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzara, Arthur O'Connell, George C. Scott.

23 novembro 2015

Poster de "Race"

 Foi divulgado um poster de "Race", um filme sobre Jesse Owens. Poster via IMP Awards.

O filme é realizado por Stephen Hopkins (“The Life and Death of Peter Sellers”). O argumento ficou a cargo de Anna Waterhouse e Joe Shrapnel. "Race" conta no elenco com William Hurt,  Stephan James, Jeremy Irons, Jason Sudeikis, Amanda Crew, Carice van Houten, entre outros.

"Race" vai acompanhar a participação de Jesse Owens, um velocista e saltador negro, nos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim, onde este venceu quatro medalhas. A competição foi retratada em "Olympia" de Leni Riefenstahl, que exibe Jesse Owens e as suas vitórias numa procura de mostrar para o exterior uma suposta abertura da Alemanha Nazi.

"Race" estreia a 19 de Fevereiro de 2016 nos EUA.

"The Big Short" - Novo poster e trailer

 Já se encontram online um novo poster e um novo trailer de "The Big Short". O filme é realizado por Adam McKay, através do argumento do próprio e Charles Randolph. "The Big Short" conta no elenco com Brad Pitt, Christian Bale, Steve Carell, Karen Gillan, Ryan Gosling, Melissa Leo, Marisa Tomei, entre outros. Poster via IMP Awards.

O argumento de "The Big Short" é inspirado no livro "The Big Short: Inside the Doomsday Machine", escrito por Michael Lewis. O livro foi publicado em Portugal com o título "A Queda de Wall Street: A história da crise vista pelos homens que a viveram por dentro – e lucraram com ela" e tem a seguinte sinopse (via Wook): Com apenas 24 anos, Michael Lewis foi contratado pelo banco Salomon Brothers. Recebia centenas de milhares de dólares por ano mas não percebia nada de acções. Três anos depois bateu com a porta e escreveu o Liar’s Poker a relatar a sua experiência. E ficou à espera: tinha a certeza absoluta de que Wall Street, mais cedo ou mais tarde, iria cair com estrondo. Esperou mais de 20 anos. Em 2007, Michael Lewis descobriu uma série de investidores que estavam a apostar tudo justamente na queda do sistema. Todos eles colocaram uma questão: e se o preço das casas cair? O que acontecerá ao mercado do subprime? Provavelmente o maior bestseller de sempre sobre a actual crise, A Queda de Wall Street narra-nos a história dos visionários que previram a mudança de paradigma, e que ganharam milhões de dólares com isso, e mostranos um mundo que poucos conhecem - a alta finança, as agências de rating e os seus monstruosos equívocos.

"The Big Short" estreia a 11 de Dezembro de 2015 nos EUA.

Novo trailer de "Zootopia"

 Foi divulgado um novo trailer de "Zootopia". O filme é realizado por Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, através do argumento deste último e Phil Jonhston. "Zootopia" conta no elenco vocal com Jason Bateman (Nick Wilde), Ginnifer Goodwin (Judy Hopps), Shakira (Gazelle), Idris Elba (Chief Bogo), Octavia Spencer (Mrs. Otterson), J.K. Simmons (Mayor Leodore Lionheart), Tommy Chong, Nate Torrence (Benjamin Clawhauser), Jenny Slate (Assistant Mayor Bellwether), Alan Tudyk (Duke Weaselton), Raymond Persi (Flash), Bonny Hunt, Don Lake (os pais de Judy Hopps).

Sinopse: A moderna metrópole mamífera de Zootrópolis é uma cidade como não existe igual. Composta por zonas de habitats, como a luxuosa Sahara Square e a gelada Tundratown, é um local onde animais de todas as espécies podem viver juntos – um sítio onde não interessa quem se é, desde o maior elefante até ao mais pequeno rato, pois cada um pode ser quem quiser. Mas quando a otimista Polícia Judy Hopps chega, descobre que ser o primeiro coelho numa força policial de grandes e difíceis animais, não é fácil. Determinada em vingar, agarra a oportunidade de resolver um caso, mesmo que isso signifique ser parceira de uma faladora, rápida e fraudulenta raposa, Nick Wilde, para resolver o mistério.

"Zootopia" estreia a 4 de Março de 2016 nos EUA. "ZOOTRÓPOLIS" estreia nos cinemas portugueses a 3 de Março de 2016.

Novo poster internacional de "The Peanuts Movie"

 Já se encontra online um novo poster internacional de "Snoopy and Charlie Brown: The Peanuts Movie" ("Snoopy e Charlie Brown - Peanuts: O Filme"), um filme baseado nos clássicos personagens criados por Charles Schulz. O filme é realizado por Steve Martino ("Horton Hears a Who"), através do argumento de Craig Schulz, Bryan Schulz e Cornelius Uliano. Poster via IMP Awards.

Sinopse: Snoopy, o beagle mais adorável do mundo – e da aviação – embarca na sua maior missão e vai até aos céus perseguir o seu maior inimigo, O Barão Vermelho, enquanto o seu melhor amigo, Charlie Brown, começa a sua própria jornada épica. Da imaginação de Charles M. Schulz e dos criadores dos filmes A Idade do Gelo, SNOOPY E CHARLIE BROWN – PEANUTS: O FILME vai provar que até os mais baixinhos têm o seu dia.

"Snoopy e Charlie Brown - Peanuts: O Filme" estreia em Portugal a 24 de Dezembro de 2015.

Rey e Finn no primeiro clip de "Star Wars: The Force Awakens"

 Foi divulgado o primeiro clip de "Star Wars: Episode VII - The Force Awakens". O trecho centra-se nos personagens interpretados por Daisy Ridley e John Boyega.

O novo filme da saga "Star Wars" é realizado por J.J. Abrams ("Star Trek Into Darkness"). O argumento ficou a cargo de J.J. Abrams e Lawrence Kasdan.

 "Star Wars: Episode VII - The Force Awakens" conta no elenco com Christina Chong ("W.E."), John Boyega ("Attack the Block"), Daisy Ridley, Adam Driver ("Girls"), Oscar Isaac ("Inside Llewyn Davis"), Andy Serkis ("Dawn of the Planet of the Apes"), Domhnall Gleeson ("About Time"), Max von Sydow ("Flash Gordon"), Lupita Nyong'o ("12 Years a Slave"), Gwendoline Christie ("Game of Thrones"), Crystal Clarke ("The Moon and the Sun"), Iko Uwais ("The Raid"), Yayan Ruhian ("The Raid" e "The Raid 2"), Cecep Arif Rahman ("The Raid 2", Pip Anderson, Harrison Ford, Carrie Fisher, Mark Hamill, Anthony Daniels, Peter Mayhew, e Kenny Baker.

"Star Wars: Episode VII - The Force Awakens" estreia a 18 de Dezembro de 2015 nos EUA.



Resenha Crítica: "The Adventures of Sherlock Holmes" (1939)

 O forte nevoeiro marca os cenários de "The Adventures of Sherlock Holmes", bem como o mistério, o perigo, a tensão, algum humor e a certeza de que o famoso Sherlock Holmes (Basil Rathbone) tem no Professor Moriarty (George Zucco) um dos seus maiores adversários. Moriarty obriga o famoso detective a estar no topo das suas capacidades, com "The Adventures of Sherlock Holmes" a abordar com acerto a rivalidade entre estas duas figuras inteligentes e astutas. Sherlock Holmes procura analisar as pistas com enorme zelo, embora a sua arrogância nem sempre seja boa conselheira, ou não estivesse a investigar um caso duplo que promete testar as suas capacidades como detective em "The Adventures of Sherlock Holmes", com Moriarty a colocar o protagonista numa encruzilhada complicada de sair. "The Adventures of Sherlock Holmes" marca a segunda de catorze incursões de Basil Rathbone como o detective do título, naquela que seria a última obra cinematográfica desta saga a ser produzida pela 20th Century Fox, com os filmes posteriores a terem sido desenvolvidos pela Universal Pictures. Tal como em "The Hound of the Baskervilles", o primeiro filme a reunir Basil Rathbone como Sherlock Holmes e Nigel Bruce como Dr. Watson, a famosa dupla apresenta uma dinâmica assaz interessante, ao longo de uma obra cinematográfica marcada por algum mistério, tensão e a habitual perspicácia do famoso detective. No caso de "The Adventures of Sherlock Holmes", o personagem do título é colocado diante da ameaça do Professor Moriarty, aquele que é considerado um dos seus principais adversários, algo que é exposto no início do filme, com o protagonista a revelar-se incapaz de impedir que o rival seja ilibado em tribunal. Basil Rathbone incute carisma, arrogância e credibilidade à perspicácia que Sherlock Holmes apresenta para a arte da dedução e resolução dos casos mais intrincados, enquanto George Zucco consegue transmitir a frieza, malícia, dissimulação e inteligência necessárias para que Moriarty se transforme numa ameaça palpável, com o argumento de Edwin Blum e William Drake a exibir desde logo que a rivalidade entre estes dois indivíduos é mantida há algum tempo. Diga-se que o argumento é simples, conciso e eficaz na abordagem das temáticas, colocando o espectador diante de um filme de investigação dotado de ingredientes que facilmente despertam a atenção, com a resolução a ser relativamente esperada embora o caminho para se chegar à mesma seja bastante agradável de acompanhar. Sherlock parece admirar a inteligência de Moriarty, em parte devido a considerar que este é um dos poucos adversários à sua altura, algo que este último vai comprovar ao procurar traçar uma estratégia para efectuar um golpe tendo em vista a fazer história e humilhar o primeiro.

 Moriarty aproveita o conhecimento que tem de Sherlock Holmes para criar um plano duplo, tendo em vista a despertar a atenção do protagonista para o caso secundário, algo que, em princípio, promete dar tempo para que o antagonista coloque a sua agenda maliciosa em prática. O plano de Moriarty é o seguinte: despertar a atenção de Sherlock Holmes para um desenho misterioso que indica uma possível ameaça para a família de Ann Brandon (Ida Lupino), algo que prende a atenção do detective, enquanto envia uma carta anónima a ameaçar roubar a Estrela de Deli, uma das maiores esmeraldas do Mundo, tendo sido oferecida pelo Marajá como um presente para a Rainha de Inglaterra. Holmes não parece levar a sério a possibilidade de alguém pretender furtar a joia que se encontra prestes a ser transportada para Londres, algo que contrasta com a atenção que concede ao caso que envolve Ann Brandon, uma situação que indica que poderá ter caído no isco lançado por Moriarty. Ida Lupino tem em Ann Brandon uma personagem relativamente frágil, uma espécie de donzela em apuros que teme a possibilidade de alguém pretender eliminá-la ou assassinar o seu irmão, algo que conduz a jovem a consultar Sherlock Holmes. Ann teme aquilo que poderá acontecer se esta e o irmão acederem positivamente ao convite endereçado pela Senhora Conynghams, tendo em vista a participarem na festa ao ar livre que é organizada por esta mulher. A Senhora Conynghams parece ser bem intencionada, embora Ann tema a possibilidade de alguém procurar eliminá-la ou ao irmão no interior da festa. No passado, o pai de Ann foi vítima de homicídio, tendo recebido uma carta semelhante àquela que foi enviada para Lloyd (Peter Willes), o irmão de Ann. Esta encontra-se noiva de Jerrold Hunter (Alan Marshal), o advogado de Lloyd, com o personagem interpretado por Alan Marshal a preparar-se para ser erroneamente alvo de suspeitas de um crime que vai ocorrer a determinada altura da narrativa. Sherlock Holmes não parece convencido de que Hunter seja o culpado pelo assassinato que ocorre, embora seja inicialmente enganado por Moriarty, indo ao ponto de enviar o Dr. Watson para tratar do caso da Estrela de Deli, com este último a exibir mais uma vez que não tem a perspicácia do protagonista. Watson não consegue descobrir que o plano de Moriarty tem como objectivo final roubar as joias da Coroa, algo que promete um último terço frenético, com a subida a uma escadaria a poder surgir carregada de tensão e uma celebração a poder colocar a vida de Ann em risco. As duvidas vão ser mais do que muitas, enquanto Moriarty procura colocar em prática o plano perfeito para ludibriar Sherlock Holmes, com Alfred L. Werker, o realizador, a saber aproveitar a rivalidade entre estes dois personagens tendo em vista a criar dificuldades acrescidas ao protagonista. A investigação é relativamente convincente, com a agitação a rodear a habitação de Sherlock e Watson, localizada no número 221B, da Baker Street, onde estes recebem várias figuras, enquanto têm de se deslocar a diversos locais, entre os quais a Torre de Londres. Nigel Bruce volta a incutir uma personalidade afável a Watson, um indivíduo que raramente parece estar ao nível de Sherlock Holmes, embora seja um parceiro importante para o protagonista. A relação entre Holmes e Watson é pontuada muitas das vezes pelos momentos de humor, com o primeiro a não ter problemas em expor alguns erros de dedução do amigo ou a sua falta de discrição, ou a colocar o personagem interpretado por Nigel Bruce em situações tão caricatas como ficar deitado no meio da estrada para que consigam encontrar provas sobre um assassinato.

 Basil Rathbone exibe mais uma vez alguns dos atributos que contribuíram para se tornar num dos Sherlock Holmes mais marcantes no grande ecrã, ao conseguir atribuir carisma a este personagem confiante, algo excêntrico, perspicaz e inteligente, que gosta de tocar violino e fumar. Diga-se que "The Adventures of Sherlock Holmes" surge ainda incrementado pela presença de nomes com talento como Ida Lupino, com esta a interpretar uma figura frágil que teme pela sua vida e a do seu irmão. Ann teme poder vir a ter o mesmo destino do seu progenitor, com "The Adventures of Sherlock Holmes" a abordar ainda questões associadas ao misticismo, tal como em "The Hound of the Baskervilles", com estes elementos a serem propositadamente colocados na narrativa para esconderem planos mais latos. O filme conta ainda com a presença de Billy (Terry Kilburn), um jovem que se encontra a aprender o ofício de Sherlock Holmes, apresentando alguma inteligência embora raramente seja devidamente aproveitado ao longo da narrativa. Diga-se que, a par de Basil Rathbone, o elemento do elenco que mais sobressai é George Zucco, com este surgir quase como o lado negro de Sherlock Holmes, com Moriarty a contar com uma inteligência acima da média, embora utilizada ao serviço do crime, com esta figura a apresentar mais respeito pelas plantas do que pelos seres humanos. Zucco parece tirar um enorme prazer a interpretar esta figura maliciosa que baralha as contas a Holmes, enquanto somos colocados diante de diferentes pistas que podem ir desde um desenho, até uma música exótica e uma pata de chinchila. O enredo é exposto a um ritmo fluído, com a cinematografia a contribuir para incrementar alguma da inquietação, enquanto que a presença regular do nevoeiro adensa o mistério em volta dos casos que Sherlock Holmes se encontra a investigar (e permite esconder que boa parte do filme foi filmado em estúdio), com Alfred L. Werker a realizar um thriller competente que viria a popularizar a célebre expressão "Elementary, my dear Watson" (embora esta já tivesse sido utilizada anteriormente). A perspicácia de Sherlock Holmes é testada, enquanto vários personagens são considerados suspeitos e somos colocados diante de algumas figuras misteriosas que prometem dificultar o trabalho do protagonista ao longo de "The Adventures of Sherlock Holmes". O argumento é livremente inspirado na peça "Sherlock Holmes" de William Gillette e Sir Arthur Conan Doyle, baseada no célebre personagem criado por este último, com "The Adventures of Sherlock Holmes" a aproveitar ainda para nos voltar a transportar para a Era Vitoriana, tal como em "The Hound of the Baskervilles". Com uma investigação convincente, algum mistério, tensão e humor, "The Adventures of Sherlock Holmes" explora com algum sucesso a rivalidade entre Sherlock Holmes e o Professor Moriarty, com o personagem do título a ter de exibir algumas das suas qualidades para conseguir superar este adversário perigoso.

Título original: "The Adventures of Sherlock Holmes".
Título original: "Sherlock Holmes Contra Moriarty".
Realizador: Alfred L. Werker.
Argumento: Edwin Blum e William Drake.
Elenco: Basil Rathbone, Nigel Bruce, Ida Lupino, George Zucco, Alan Marshal.