31 agosto 2015

Críticas publicadas em 2015: Parte 5 (161 - 200)

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Robert Pattinson e Dane DeHaan no clip de "Life"

 A Vanity Fair divulgou um clip de "Life", um filme que acompanha a relação de amizade entre o lendário James Dean e o fotógrafo Dennis Stock. O clip centra-se nos personagens interpretados por Robert Pattinson e Dane DeHaan.

O filme é realizado por Anton Corbijn ("The American"), através do argumento de Luke Davies. "Life" conta no elenco com Robert Pattinson, Dane DeHaan, Joel Edgerton, Ben Kingsley, Kristen Hager, entre outros. DeHaan interpreta James Dean, enquanto Pattinson dá vida a Stock. Edgerton interpeta John Morris, o editor da Magnum Photography. Kingsley dá vida a Jack Warner.

O enredo de "Life" desenrola-se em 1955, antes da estreia de "East of Eden". A história acompanha o fotógrafo Dennis Stock, um indivíduo que conheceu James Dean numa festa e acreditou que o actor podia personificar o símbolo de uma revolução social.

"Life" estreia a 25 de Setembro de 2015 no Reino Unido. 

Nove posters de personagens de "Hotel Transylvania 2"

 Foram divulgados nove posters internacionais de personagens de "Hotel Transylvania 2". Posters via IMP Awards.

O filme é realizado por Genndy Tartakovsky, através do argumento de Adam Sandler e Robert Smigel. "Hotel Transylvania 2" conta no elenco vocal original com Adam Sandler, Molly Shannon, Steve Buscemi, Kevin James, Jon Lovitz, Andy Samberg, Fran Drescher, Cee-Lo Green, Selena Gomez, David Spade, entre outros.


Sinopse: Tudo parece estar a mudar para melhor no Hotel Transilvânia… Drac finalmente desistiu da sua rígida política de ‘só para monstros’ e o hotel está agora aberto a hóspedes humanos. Mas, na privacidade do seu caixão, Drac está preocupado com Dennis, o seu adorável neto, meio humano, meio vampiro que não mostra quaisquer sinais de ser de facto um verdadeiro vampiro. Assim, enquanto Mavis está ocupada a visitar os seus sogros humanos juntamente com Johnny – e prestes a ter o seu próprio choque cultural – o vovô vampiro, Drac, junta os seus amigos Frank, Murray, Wayne e Griffin para levar Dennis a um campo de treinos para monstros. Mal sabem eles que Vlad, o muito velho e muito, muito velha guarda pai de Drac pretende fazer uma visita surpresa ao hotel. E quando Vlad descobre que o seu bisneto não é um vampiro puro e que os humanos são agora bem vindos ao Hotel - as coisa vão mesmo ficar tenebrosas!

"Hotel Transylvania 2" estreia a 25 de Setembro de 2015 nos EUA.

Nicholas Hoult vai protagonizar "Rebel in the Rye", um filme biográfico sobre J.D. Salinger

 O Deadline noticiou que Nicholas Hoult ("Dark Places") vai protagonizar "Rebel in the Rye", um filme biográfico sobre J.D. Salinger. O filme vai ser realizado por Danny Strong (argumentista de "The Butler"), através do argumento do próprio. Hoult vai interpretar J.D. Salinger.

O argumento de "Rebel in the Rye" é baseado no livro biográfico "J.D. Salinger - A Life Raised High", escrito por Kenneth Slawenski. O enredo de "Rebel in the Rye" vai acompanhar a história do escritor J.D. Salinger, inclusive o período no qual este criou o icónico livro "The Catcher in the Rye". 

O filme ainda não tem uma data de estreia definida.

Novo trailer internacional de "Irrational Man"

 Foi divulgado um novo trailer internacional de "Irrational Man", um filme realizado por Woody Allen.  O filme conta no elenco com Parker Posey ("Louie"), Jamie Blackley ("If I Stay"), Joaquin Phoenix ("The Master"), Emma Stone ("Magic in the Moonlight"), entre outros.

Sinopse de "Irrational Man": O professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix) está emocionalmente frágil, incapaz de encontrar qualquer significado ou alegria na vida. Sente que tudo o que tentou fazer, desde o ativismo político ao ensino, não fez qualquer diferença na sua existência. Ao mudar-se para uma pequena cidade para lecionar uma nova turma, Abe envolve-se com duas mulheres: Rita Richards (Parker Posey), uma professora solitária que só deseja que ele a liberte do seu casamento infeliz; e Jill Pollard (Emma Stone), a sua jovem e melhor aluna, que se torna na sua melhor amiga. Jill adora o seu namorado Roy (Jamie Blackley), mas descobre em Abe a sua personalidade artística, torturada, sensível e um passado exótico irresistível. Mesmo mostrando todos estes sinais de desequilíbrio mental, Jill não consegue parar de sentir enorme fascínio pelo seu professor e amigo. Ainda assim, quando ela tenta dar um passo à frente na relação entre ambos, ele recua. Tudo se altera quando Abe e Jill ouvem a conversa de um estranho e sentem-se mergulhados nessa história que parece ter sido escrita para eles. Ao fazer uma introspeção profunda à sua existência, Abe sente-se com toda a força e energia para abraçar novamente a vida. Mas a sua decisão define uma série de acontecimentos que irão afetar Abe, Jill e Rita, para sempre.

"Irrational Man" estreia em Portugal a 17 de Setembro de 2015.

Novo trailer de "Knock Knock"

 Foi divulgado um novo trailer de "Knock Knock", um filme realizado por Eli Roth ("Hostel"), através do argumento do próprio, Nicolás López e Guillermo Amoedo. O filme conta no elenco com Keanu Reeves, Lorenza Izzo, Ana De Armas, Aaron Burns, Ignacia Allamand, Colleen Camp, entre outros.

O enredo de "Knock Knock" acompanha um pai de família (Keanu Reeves) que se encontra sozinho em casa quando recebe a visita inesperada de duas jovens que procuram ajuda. É então que se inicia um perigoso jogo de sedução que se transforma num jogo mortal entre o "gato e o rato".

"Knock Knock" estreia a 9 de Outubro de 2015 nos EUA. 



Trailer de "The 5th Wave"

 Foi divulgado um trailer de "The 5th Wave", um filme protagonizado por Chloë Grace Moretz. O filme é realizado por J Blakeson (“The Disappearance of Alice Creed”), através do argumento de Susannah Grant (“Erin Brockovich”). "The 5th Wave" conta no elenco com Chloë Grace Moretz, Liev Schreiber, Maika Monroe, Maria Bello, Nick Robinson, entre outros. Imagem e trailer via The Playlist

O argumento de "The 5th Wave" é inspirado no livro homónimo de Rick Yancey. Moretz interpreta Cassie Sullivan, uma jovem que sobrevive a quatro ondas de ataques mortais contra a população do planeta Terra. Perante a possibilidade de um quinto ataque, Cassie entra em fuga, procurando salvar o irmão mais novo. Esta encontra um jovem adulto misterioso que pode ser a sua última esperança de salvação

O filme estreia a 15 de Janeiro de 2016 nos EUA. Podem acompanhar o Rick's Cinema no Facebook em: https://www.facebook.com/RicksCinema 


Trailer e poster de "Concussion", um filme protagonizado por Will Smith

 Já se encontra online um poster e um trailer de "Concussion", um filme realizado por Peter Landesman (“Parkland”), através do argumento do próprio. O filme conta no elenco com Will Smith, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Bitsie Tulloch, Eddie Marsan, Albert Brooks, entre outros. Poster via IMP Awards.

O argumento do filme teve como base o artigo “Game Brain” da GQ, escrito por Jeanne Marie Laskas. Will Smith vai dar vida a Dr. Bennet Omalu, um neuropatologista que diagnosticou encefalopatia crónica a diversos jogadores de futebol americano. O filme vai abordar os efeitos debilitantes das concussões nos jogadores de futebol americano.

"Concussion" estreia a 25 de Dezembro de 2015 nos EUA.



30 agosto 2015

A Semana em Revista - 24 a 30 de Agosto de 2015

 Com o regresso das notícias ao blog e o modo mais aleatório como vamos publicar as resenhas críticas, decidimos fazer regressar "A Semana em Revista". Para quem não conhece, esta é uma espécie de rubrica semanal que consiste num post manhoso onde aproveito para efectuar um balanço do que foi feito no Rick´s Cinema ao longo da semana. Ou seja, as críticas publicadas, o post das estreias, as notícias mais lidas e eventualmente algum outro texto. É a espécie de rubrica ideal para quem apenas quer visitar este espaço uma vez por semana ou simplesmente mais um post para voltarem a ignorar (visto não ser em papel, nem para forrar a gaiola do pássaro serve). P.S. Obrigado a quem nos lê/atura (sem ofender as nossas pessoas ou familiares).

O primeiro destaque vai para as seis críticas publicadas ao longo da semana:

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O segundo destaque vai para o post dedicado às estreias da semana, escrito pelo Hugo Barcelos:

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O terceiro destaque vai para as notícias mais lidas da semana:

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Resenha Crítica: "The Social Network" (A Rede Social)

 A certa altura de "The Social Network", Eduardo Saverin (Andrew Garfield), co-fundador do Facebook, realça a velocidade com que Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, dialoga. Ao longo de "The Social Network" esta é uma situação com a qual nos deparamos, com David Fincher a conseguir captar a ferocidade e acutilância dos diálogos de Aaron Sorkin, explorando um argumento capaz de abordar temáticas melindrosas sobre Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), a criação do Facebook e todo um intrincado conjunto de acontecimentos numa narrativa que deambula entre um encontro entre advogados, que opõe o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a Saverin, bem como aos irmãos Winklevoss (ambos interpretados por Armie Hammer) e a Divya Narendra (Max Minghella), em dois processos distintos, e os episódios do passado que os conduziram a toda esta situação. Jesse Eisenberg tem uma interpretação que marca uma carreira, conseguindo explorar a sobranceria e arrogância de Mark Zuckerberg (como personagem ficcional), expostas em algumas falas mais ácidas e episódios nem sempre gratificantes, embora nunca desumanize o mesmo ao ponto de querermos deixar de seguir esta figura que tanto tem de genial como de abrasiva e pouco capaz de manter uma amizade. As suas vestimentas são quase sempre informais, muito marcadas por camisolas da Gap, não tendo problemas em ir de chinelos para uma reunião importante, algo que transmite ainda mais a ideia de que se está a lixar para os seus interlocutores ao longo dos diálogos com os advogados. A certa altura chega mesmo a dar mais atenção à chuva que cai fora da sala de reuniões do que ao advogado dos Winklevoss, até desfazer os irmãos intelectualmente ao expor a incapacidade dos mesmos em criarem uma rede social como o Facebook. Durante o filme, o protagonista salienta à sua ex-namorada que não quer ficar amigo desta, algo que se parece estender à maioria da humanidade, uma situação que é visível ao longo de "The Social Network" com este a apresentar uma genialidade a nível de programação que é semelhante à sua inabilidade em lidar com os outros seres humanos. Diga-se que tem pouca vontade de lidar com os mesmos, com o único amigo que tinha, Eduardo Saverin, a ser traído pelo protagonista quando o negócio começa a sobressair, embora durante a fase inicial tenha sido um dos apoios de Zuckerberg. David Fincher expõe logo de início, de forma precisa e concisa, a personalidade irascível e pouco dada a preocupar-se com os outros do seu protagonista, com diálogos rápidos a serem trocados, enquanto Zuckerberg exibe toda a sua arrogância diante de Erica Albright (Rooney Mara), a sua namorada, indo desde comentários sobre a Faculdade que esta vai frequentar até ao facto desta poder passar a conhecer gente que de outra forma nunca entraria em contacto se o personagem interpretado por Jesse Eisenberg conseguisse entrar num "clube social" relevante em Harvard. Escusado será dizer que o namoro termina ali, se é que já não estava a dar as últimas há muito tempo, com Erica a expressar a sua indignação para com a arrogância de Mark e o desprezo que este parece ter por ela, ou pelo menos a pouca capacidade que tem em demonstrar alguma sensibilidade a dialogar, uma situação que conduz o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a ir até ao seu dormitório e escrever no seu blog algumas ofensas sobre a ex, algo que vai chegar a um conjunto alargado de pessoas, incluindo à própria. Os actos de Zuckerberg não se ficam por aí. Pouco tempo depois, rouba fotos de alunas de Harvard, presentes nas páginas dos respectivos "clubes sociais" ou residências, criando o Facemash, um site que permitia avaliar as mulheres deste espaço de ensino, com o protagonista a revelar uma enorme habilidade a nível de programação, furtando informação com uma facilidade impressionante, num acto que tem tanto de brilhante como de misógino e ilegal.

Estes momentos ocorrem em 2003, com o Facemash a ser um sucesso a ponto de arrasar com o tráfego da internet de Harvard, com Zuckerberg a ser chamado para prestar contas na reitoria, passando a ser persona non grata junto de boa parte das mulheres, embora não tenha problemas em salientar que a Faculdade é que lhe deveria estar agradecida já que, ao penetrar nos vários sites e no sistema informático deste espaço, acabou por deixar visíveis as suas debilidades perante possíveis ataques. É a arrogância do protagonista no seu esplendor, com Jesse Eisenberg a parecer tirar um enorme prazer a expor estas falas acutilantes, que tanto exibem a sobranceria de Zuckerberg como a sua enorme capacidade intelectual e incapacidade de muitas das vezes apresentar alguma sensibilidade diante dos outros. A faceta de Zuckerberg que nos é apresentada é a de uma figura pouco dada a grandes amizades, com enorme inabilidade a dialogar com os outros, apesar de ter um talento genial e, curiosamente, a ter estado na génese de uma rede social que efectivamente contribui para a perda do contacto visual na comunicação entre seres humanos. Mais do que respeitar o rigor histórico, David Fincher procura criar uma narrativa dinâmica, inspirada em figuras e episódios reais, concentrando o enredo num determinado período de tempo ao invés de efectuar um filme biográfico que procura explorar boa parte da vida do protagonista. Diga-se que Fincher nem nos procura bombardear com explicações excessivas sobre os termos utilizados, procurando antes concentrar-se na história desta figura complexa, durante um período de tempo relativamente curto que coincidiu com a criação de uma das redes sociais mais populares do Mundo. A própria maneira rápida, precisa e acutilante com que os diálogos são expostos por vários dos personagens remete imenso para a forma como a circulação de notícias passou a ser efectuada com o recurso às redes sociais como o Facebook e o Twitter, com estas a terem de ser simultaneamente apelativas, incisivas e capazes de despertar a atenção do público para "ganharem" os cliques. Os próprios espaços como blogs perderam boa parte da sua relevância, com as páginas criadas no Facebook e os grupos a terem substituído praticamente os mesmos. Veja-se os casos de blogs, sites e até revistas de cinema online que passaram a publicar os textos directamente no Facebook ou outros que dependem do mesmo para o estimular do debate e aumentar das visualizações (este blog não é excepção). Também as relações sociais mudaram com o Facebook, não faltando utilizadores que praticamente colocam cada passo que dão na sua página, expondo a intimidade com uma facilidade brutal a ponto de pensarmos quando chegará o dia em que colocarão fotos a defecar. Diga-se que esta mudança nas relações é abordada no filme, com o pedido de uma pessoa para que outra a adicione posteriormente no Facebook a passar a ser algo de comum. Serve esta divagação para pegar na frase de Sean Parker de que o Facebook é "a verdadeira digitalização da vida real", algo que traduz bem uma procura inicial do protagonista em reproduzir o espírito dos grupos académicos para a rede social, ou esta não tivesse sido apresentada no filme como inicialmente exclusiva para os utilizadores com mail de Harvard, até se ter expandido com o êxito que se conhece. A universidade é exposta como um local marcado por hierarquias e "clubes sociais" que remetem para os estatutos sociais de cada um, com o Porcellian a ser considerado o melhor, o Phoenix o mais diversificado (onde pertence Eduardo), entre outros, com Mark a não pertencer a nenhum, uma situação que contribuiu para algum ressentimento por parte do mesmo. Estes clubes contêm regras muito próprias, algo visível quando Cameron e Tyler Winklevoss, dois elementos da equipa de canoagem de Harvard e da equipa olímpica dos EUA, acompanhados por Divya Narendra, convidam Zuckerberg para os ajudar a desenvolver a HarvardConnection, uma rede social onde poderiam criar biografias e fazer pedidos de amizade virtuais, utilizando o mail específico de Harvard tendo em vista aos utilizadores ficarem, entre outras coisas, a conhecerem mulheres. Zuckerberg não pode ir além da sala de bicicletas, pois não é um membro do Porcellain, parecendo inicialmente interessado na ideia até ignorar por completo o trio ao longo de várias semanas, criando entretanto o TheFacebook.

A ideia é apresentada por Mark Zuckerberg a Eduardo Saverin, com este último a surgir como o director financeiro e co-fundador, para além de ser aquele que injecta as finanças iniciais para tudo começar a funcionar. A ideia é exposta da seguinte forma: "People want to go online and check out their friends, so why not build a website that offers that? Friends, pictures, profiles, whatever you can visit, browse around, maybe it's someone you just met at a party. Eduardo, I'm not talking about a dating site, I'm talking about taking the entire social experience of college and putting it online", com Saverin a entrar de imediato no "barco". O TheFacebook torna-se um sucesso inesperado, com a rede social a crescer de forma exponencial, a ponto de despertar a fúria dos irmãos Winklevoss e de Narendra, que consideram ter visto a sua ideia a ser roubada, algo que mais tarde os vai conduzir a procurarem um advogado de forma a tomarem medidas legais, após terem falhado todos os meios para impedir Zuckerberg. Esta é também uma história marcada por traições, inveja, erros cometidos e feitos que superam as expectativas, com Mark Zuckerberg a ser apresentado como um indivíduo que está longe de ser uma pessoa que queríamos ter como amigo na vida real. David Fincher omite diversas figuras que rodearam a criação do Facebook e a sua expansão, tal como toma diversas liberdades para incrementar a tensão dramática em volta do enredo, com o cineasta a retratar episódios contemporâneos com argúcia, sem problemas em abordar questões melindrosas, evitando pelo caminho cair na armadilha de efectuar uma hagiografia sobre Mark Zuckerberg, embora convenha existir sempre alguma parcimónia em relação àquilo que nos é apresentado ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica de ficção. Essa parcimónia deve ser tomada em situações como a relação entre Eduardo Saverin e Mark Zuckerberg, com o primeiro a surgir como a figura traída pelo amigo e o segundo como um indivíduo ambicioso, que procura chegar ao topo a todo o custo, com "The Social Network" a esboçar quase uma dualidade entre ambos, com o protagonista a simbolizar o lado negro do mundo de negócios, algo que pode ter um fundo de verdade, embora não corresponda totalmente à mesma. Andrew Garfield é outro dos destaques do elenco ao interpretar um personagem que procura muitas das vezes surgir como a voz da razão, menos ambicioso que o seu amigo, entusiasmado em relação ao sucesso do Facebook apesar de nem sempre parecer estar à altura dos acontecimentos, sentindo-se a certa altura traído por Zuckerberg. O sentimento de traição ou ressentimento começa a ser visível com a entrada em cena de Sean Parker, com Justin Timberlake a interpretar um personagem excêntrico e paranoico, com ideais de grandeza que parecem influenciar o protagonista, levando um estilo de vida completamente louco, sobretudo quando Zuckerberg segue o conselho de seguir para a Califórnia. Timberlake é um dos destaques entre os personagens secundários, com o actor a lançar as suas falas ao mesmo ritmo do estilo de vida louco de Sean, com este a formar amizade com Mark e uma animosidade notória com Saverin. A entrada em cena de Sean surge já numa fase de procura de expandir o Facebook, entretanto já com o nome alterado, e ganhar dinheiro com o mesmo, com as ideias de Saverin e Zuckerberg a começarem a divergir. Assistimos ao crescimento de uma empresa e aos difíceis jogos de alianças e traições no interior da mesma, com o Facebook a surgir inicialmente como algo indefinido até tornar-se numa rede social com um valor económico brutal que transformou o seu criador num dos mais jovens bilionários.

David Fincher avança com a narrativa a um ritmo imparável, com as cerca de duas horas de "The Social Network" a parecerem durar muito menos, enquanto somos absorvidos para o interior de um enredo onde os diálogos são trocados a enorme velocidade, dotados de uma qualidade assinalável, com o cineasta a exibir-se mais uma vez exímio a juntar o estilo e a substância, com a cinematografia de Jeff Cronenweth e a banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross a terem uma relevância notória ao longo da obra cinematográfica. A banda sonora de Reznor e Ross substitui os diálogos em algumas cenas ou sobrepõe-se aos mesmos, tanto incrementando os momentos mais tensos como os mais delirantes. Veja-se quando encontramos Sean Parker a reunir-se pela primeira vez com Mark, Eduardo e a namorada deste último, com a banda sonora a bombear a narrativa, ou uma partida de canoagem onde participam os irmãos Winklevoss, perdida pelos mesmos, onde o som substitui os diálogos e intensifica a carga dramática. Já a cinematografia sobressai em diversos trechos de "The Social Network", sejam estes na sala onde Mark se encontra reunido com os seus advogados, bem como os Winklevoss, Saverin e os respectivos advogados, seja nas trocas de diálogos rápidas, seja nas cenas nos clubes nocturnos a partir da entrada em cena de Parker, seja nas cenas exteriores como no momento em que o protagonista pede para sair de uma festa para falar com o personagem interpretado por Andrew Garfield na rua. Nesse momento, sobressai a iluminação oriunda do espaço onde estavam, um clube onde decorria uma festa exótica que estava a irritar o protagonista, com a escuridão da noite a permear o cenário enquanto Zuckerberg aparece decidido a expor a ideia que resultará no TheFacebook. Se as figuras masculinas ganham uma enorme relevância ao longo do enredo, já as personagens femininas nem sempre são devidamente exploradas. Veja-se Rooney Mara, uma actriz de talento considerável que surge como uma mulher que despreza a sobranceria de Zuckerberg, ou Rashida Jones como Marylin Delpy, uma associada na empresa de advocacia que se encontra a tratar da defesa do protagonista, que procura apresentar compreensão para com o mesmo, embora também não se esconda a realçar aquilo que pensa, apesar de surgir como uma figura demasiado secundária. Outras figuras reais que ajudaram na criação do Facebook, tais como Dustin Moskovitz (Joseph Mazzello), surgem representadas de forma bastante secundária, com Mazzello a pouco sobressair durante "The Social Network". Ao longo do filme, ficamos não só diante de uma representação ficcional da génese do Facebook e do seu crescimento, mas também de um conjunto de relacionamentos intrincados, onde não falta a euforia típica do sucesso, traições, inveja e uma representação do protagonista que exibe o seu feitio complicado e controverso, com Jesse Eisenberg a ter uma interpretação marcante, conseguindo expor as falas do personagem que interpreta com um enorme à vontade e fluidez, parecendo até tirar algum prazer na arrogância de Zuckerberg e na sua inabilidade em lidar com os outros. A Armie Hammer cabe interpretar dois irmãos com propósitos relativamente claros, mas sem os recursos a nível de conhecimento para criarem uma rede social. Temos ainda os já realçados Andrew Garfield e Justin Timberlake, com o primeiro a procurar explorar o lado mais contido de Saverin, enquanto o segundo expõe a personalidade expansiva de Sean, com David Fincher a conseguir explorar o talento do seu elenco masculino. Com um conjunto de diálogos acutilantes e bem elaborados, expostos a um ritmo assinalável ao longo de uma narrativa dinâmica, intensa e fluída, "The Social Network" é muito mais do que o filme sobre a criação do Facebook, com David Fincher a procurar explorar os intrincados relacionamentos entre os personagens que povoam o enredo, permitindo a Jesse Eisenberg ter uma interpretação notável, numa obra onde mais uma vez o cineasta junta estilo e substância, sobressaindo ainda a magnífica banda sonora de Atticus Ross e Trent Reznor.

Título original: "The Social Network". 
Título em Portugal: "A Rede Social".
Realizador: David Fincher.
Argumento: Aaron Sorkin (inspirado no livro "The Accidental Billionaires" de Ben Mezrich).
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Max Minghella.

Novo poster de "Sleeping With Other People"

 Foi divulgado um novo poster de "Sleeping with Other People". O filme conta no elenco com Amanda Peet, Jason Mantzoukas, Natasha Lyonne, Alison Brie, Jason Sudeikis, entre outros. "Sleeping With Other People" é realizado por Leslye Headland ("Bachelorette"), através do argumento da própria. Poster via IMP Awards.

O enredo de "Sleeping with Other People" centra-se num mulherengo (Sudeikis) que forma amizade com uma mulher infiel (Brie). A relação platónica entre ambos acaba por conduzir a que estes mudem os seus comportamentos em relação ao sexo oposto, acabando por gerar uma inconveniente atracção romântica entre ambos.

"Sleeping With Other People" estreia a 11 de Setembro de 2015 nos EUA.

29 agosto 2015

Resenha Crítica: "Le salaire de la peur" (O Salário do Medo)

 O pessimismo de Henri-Georges Clouzot atinge um dos seus pontos elevados em "Le salaire de la peur", um dos seus trabalhos mais elogiados e memoráveis, com o cineasta a desfazer-nos os nervos por completo ao longo da narrativa onde encontrarmos quatro motoristas a guiarem dois camiões com uma quantidade elevada de nitroglicerina enquanto procuram lutar pelas suas vidas e desafiar o destino. Sentem medo e transmitem-nos isso mesmo, enquanto Clouzot inquieta-nos em relação ao destino que traçou para os personagens, tendo a ironia final de mesclar uma cena de um baile com uma morte violenta, onde a banda sonora parece adensar a tragédia de uma felicidade que não se chega a concretizar. Diga-se que os momentos iniciais de "Le salaire de la peur" são exactamente marcados por esse pessimismo, com a cidade de Las Piedras, localizada numa zona desértica de uma nação da América Latina, a ser apresentada como um local pontuado por gentes provenientes de territórios distintos, sem rumo, pouco trabalho e ainda menos dinheiro, que parecem encontrar-se num limbo difícil de sair. Entrar em Las Piedras parece fácil e barato. Sair é complicado, sobretudo por esta não ser uma cidade dada a proporcionar grandes condições financeiras aos seus habitantes, quase que a fazer recordar os momentos em que o personagem interpretado por Humphrey Bogart andava a pedir esmola no início de "The Treasure of the Sierra Madre", num desolador espaço urbano mexicano. Las Piedras surge como um espaço poeirento, marcado por locais muitas das vezes sem pavimentação ou estradas de alcatrão, gentes a viver em condições miseráveis, um aeroporto por onde circula um avião que traz novos habitantes e a correspondência, com o bar de Hernandez (Darío Moreno), um indivíduo com um feitio peculiar, nem sempre dado a grandes simpatias ou demonstrações de afecto, a aparecer como um cenário central deste território que parece saído do Velho Oeste. Este bar é frequentado por um bando de indivíduos muitas das vezes sem posses, entre os quais Mario (Yves Montand), um tipo machista, pronto a correr riscos e a formar amizades com estranhas figuras, mantendo um caso com Linda (Véra Clouzot), uma mulher que o venera apesar do desprezo que este lhe brinda. Yves Montand surge quase sempre com uma camisola de manga de cava branca, pronto a exibir a sua descontração, pouca preocupação e uma "estampa" imponente. Mario trava conhecimento com Jo (Charles Vanel), um antigo gangster que chega a este local com mais conversa do que dinheiro, com os melhores tempos da sua vida a já parecerem ter passado, apesar de isso não o impedir de ter as suas ambições. Jo e Mario formam amizade, com o primeiro a conhecer Bill O'Brien (William Tubbs), um indivíduo que outrora participara em golpes ao lado do personagem interpretado por Charles Vanel que, agora, dirige a filial da Southern Oil Company, uma companhia petrolífera dos EUA, que exerce uma enorme influência no local. A Southern Oil Company é conhecida pelo poder que tem, bem como pelo desprezo em relação aos direitos laborais e à segurança dos trabalhadores (existe um claro discurso anti-capitalista), algo que conduz a um acidente, em particular um incêndio num poço de petróleo, que vitima uma quantidade considerável de seres humanos, com estes a serem tratados como mera mercadoria.

Bill inicialmente recusa oferecer emprego a Jo, apesar do pedido deste último, temendo que o passado nebuloso fosse descoberto, algo que poderia conduzir ao despedimento de ambos. Diga-se que Jo é um foco de confusões, sendo pouco apreciado por Linda e Luigi (Folco Lulli), um italiano que se encontra a trabalhar nas obras, amigo de Mario. A juntar a estes personagens temos ainda Bimba (Peter van Eyck), um holandês que, durante a II Guerra Mundial, foi colocado a trabalhar numa mina de sal, que agora labora para Hernandez. Todos estes elementos têm em comum frequentarem ou trabalharem no bar de Hernandez, um espaço que parece ser uma referência desta pequena cidade. A vida destes personagens é marcada por muita procrastinação, alguns arrufos e a devoção de Linda por Mario, algo que a levará a temer o próximo passo que este vai tomar na sua carreira profissional, em particular conduzir um camião com uma quantidade considerável de nitroglicerina. A Southern Oil Company efectua um recrutamento para seleccionar quatro motoristas tendo em vista a que estes conduzam dois camiões com nitroglicerina até a um posto mais distante, algo que permitiria provocar uma explosão que cercearia o fogo no poço de petróleo. A decisão é arriscada, já que a companhia não tem veículos especializados para a função, uma situação que conduz Bill a contratar indivíduos sem grandes laços familiares e muito pouco a perder, para o caso de poucos darem pela sua falta se falecerem em serviço. O número de candidatos é elevado, algo revelador da grande quantidade de gente desesperada que se encontra pronta a arriscar a sua vida, com a escolha a recair em Mario, Bimba, Luigi e Smerloff (Jo Dest). Quem se encontra numa situação pior é Jo, ao ter sido colocado fora das escolhas iniciais, embora, numa conversa com O'Brien, consiga ficar com o estatuto de substituto. Nesse sentido, quando Smerloff, um candidato que se tinha safado melhor do que a maioria, desaparece misteriosamente, logo as atenções viram-se sobre Jo, com os olhares questionadores a dizerem mais do que qualquer palavra. Mario fica com Jo no camião, enquanto Luigi fica com Bimba, com o veículo dos primeiros a partir com trinta minutos de avanço para evitar que a possível explosão de um destes meios de transporte afecte o outro. A segurança é quase nula, o mínimo impacto pode fazer com que os galões expludam, as condições laborais são praticamente inexistentes embora o salário seja demasiado tentador para que estes homens desistam. Existe um discurso crítico em relação às grandes corporações e à conduta das mesmas em relação aos trabalhadores, com Henri-Georges Clouzot a efectuar um retrato pouco simpático desta empresa dos EUA que se encontra em Las Pedras a explorar os trabalhadores locais. Poderíamos extrapolar para os dias de hoje se a situação poderá ou não ter mudado assim tanto, com polémicas associadas a algumas marcas e afins cujos produtos são fabricados em países "exóticos" a não terem deixado completamente de ser assunto. O próprio discurso crítico remete para a procura dos EUA em ingerirem-se em países que contam com petróleo, exibindo uma procura de entroncar a ficção na realidade. Diga-se que a versão inicialmente exibida de "Le salaire de la peur" nos EUA foi sujeita a diversos cortes devido à representação da companhia petrolífera yankee, com o filme a ser acusado de anti-americanismo (embora Clozout já esteja habituado a algumas polémicas, ou não tivesse outrora sido suspenso do seu ofício devido a ter trabalhado na Continental Films, uma empresa da França ocupada financiada pela Alemanha Nazi, onde desenvolveu o controverso e recomendável "Le corbeau", uma obra cinematográfica que está longe de poder ser considerada como propaganda). A viagem é marcada pelo medo constante sentido pelos quatro elementos e pela tensão que se gera junto do espectador. As comparações que efectuam entre Henri-Georges Clouzot e Alfred Hitchcock fazem algum sentido nas cenas em que Jo, Mario, Luigi e Bimba partem em direcção a um posto do SOC, com o cineasta a saber inquietar o espectador, com a presença dos galões com nitroglicerina a deixar sempre a certeza que a qualquer momento poderemos assistir a alguma explosão. É impossível que nos esqueçamos disso, tal como será complicado para Luigi, Bimba, Jo e Mario não terem a noção que transportam material explosivo que, ao mínimo erro, promete arrasar com as suas vidas.

As dinâmicas entre os personagens são essenciais, com todos a serem movidos pelo dinheiro. Jo, até então mais fanfarrão, parece amedrontar-se, a ponto de num momento de maior perigo chegar a fugir, deixando Mario a ter de se desenvencilhar sozinho. Diga-se que esta situação não deixa de ser algo irónica, sobretudo se tivermos em conta que Mario apresentou mais dúvidas inicialmente do que Jo, com este último a encorajar o companheiro. Luigi e Bimba apresentam maior espírito de entreajuda e companheirismo, com o primeiro a já fazer planos para o futuro, embora esses desejos devessem ser refreados pela realidade já que se encontram quase sempre mais perto da morte do que da glória de chegarem com vida ao destino e finalmente estabilizarem as suas finanças com o pagamento de dois mil dólares. Pelo caminho encontram vários percalços. Desde territórios montanhosos e arenosos, passando por estradas que obrigam a uma velocidade mínima ou pelo menos a concentração necessária para utilizar um ritmo contínuo que não faça o camião saltar um pouco e tudo explodir, até uma plataforma composta por tábuas de madeira cujos alicerces despertam pouca segurança, entre outros exemplos. A cinematografia é exemplar, quer a explorar os espaços da cidade de Las Piedras e exibir a atmosfera desoladora que rodeia a mesma, tal como o forte calor e as parcas condições que oferece aos cidadãos, mas também nas cenas de maior inquietação. Veja-se quando se foca nas rodas a atravessarem a perigosa plataforma constituída por tábuas de madeira, enquanto Bimba e Luigi procuram, em enorme espírito de entreajuda, fazer com que tudo corra bem. Quando uma tábua se parte, os nervos destes dois homens parecem ficar em franja, tal como os do espectador, mas Luigi logo exibe o seu enorme voluntarismo, algo que não irá acontecer entre Jo e Mario. A viagem de Jo e Mario é sempre mais atribulada, tendo como ponto alto a entrada do veículo numa cratera que se encontra inundada por petróleo que ameaça fazer com que o camião fique encalhado lá no meio. Esperamos uma decisão mais humana mas o espírito de sobrevivência fala mais alto, com estes homens a procurarem manter as suas vidas no meio deste território inóspito. A presença de nitroglicerina conduz a que Clouzot crie algumas cenas inquietantes, com boa parte desta jornada pelas estradas a ser marcada pelo medo dos personagens e o nosso em relação ao destino dos mesmos, com o cineasta a saber criar o receio junto do espectador ao mesmo tempo que permite explorar a reacção destas figuras diante de situações extremas e pelo caminho questionar-nos sobre o que faríamos num caso idêntico. Não é um caso fácil, com cada elemento a ter de confiar a sua vida ao parceiro do lado, com o quarteto de actores a evidenciar-se a interpretar estes personagens de personalidades distintas. Peter van Eyck é aquele que surge inicialmente mais lacónico, atribuindo ao personagem que interpreta alguma frieza que se parece conjugar na perfeição com o voluntarismo e simpatia que Folco Lulli concede a Luigi. Este é um italiano que trabalha nas obras cujas parcas condições laborais conduziram a que os seus pulmões estejam queimados de cimento, algo que, a continuar assim, poderá levar à sua morte. No entanto, os elementos em maior foco são quase sempre os personagens interpretados por Yves Montand e Charles Vanel (um colaborador habitual de Clouzot). Yves Montand pelo estilo meio despreocupado, meio confiante, algo machista e irreverente, pronto a tentar sair do buraco em que se encontra a sua vida, parecendo ter em Jo um líder apesar de facilmente perceber que este homem está longe de transmitir a confiança que poderia esperar do mesmo, algo que vai causar algumas fissuras entre ambos durante a viagem. Essa situação é visível quando encontramos Jo a fugir, ou Mario a tomar uma decisão moralmente questionável para preservar a sua existência. Charles Vanel surge como um elemento estranho que se insere no interior deste espaço citadino enquanto arranja alguns problemas, com o actor a interpretar de forma sublime esta espécie de manda-chuva em decadência, cujos hábitos não se adequam ao seu estado actual, algo visível quando a meio da viagem começa a demonstrar os seus receios. O medo consome-o. Diga-se que todos os personagens, de maior ou menor forma, acabam por nutrir este sentimento, embora seja mais saliente em Jo, com este a temer o final da sua vida.

O calor é latente, as condições para circular com os camiões são pouco recomendáveis, numa obra que mescla temáticas presentes em obras como "They Drive By Night", associadas aos perigos vividos pelos camionistas, embora de forma mais crua e intensa do que o filme de Raoul Walsh, mas também "The Treasure of Sierra Madre", onde a ambição toldou muitas das vezes o discernimento do personagem interpretado por Humphrey Bogart. No caso de "Le salaire de la peur", o medo e a ambição descontrolam estes personagens que são praticamente obrigados a ter nervos de aço para cumprirem os seus objectivos. As relações entre estes homens são marcadas por alguns momentos que facilmente ficam na memória. Veja-se quando encontramos Luigi num momento de maior fricção com Jo no bar de Hernandez, ou quando o personagem interpretado por Charles Vanel decide subir um espaço íngreme em fuga, ou as rodas de um camião são colocadas em destaque quando o veículo encontra-se a atravessar uma zona marcada por tábuas de madeira, algo que realça que ao menor deslize poderemos ter a morte de alguns personagens, ou quando Bimba lidera a procura de destruir um pedregulho com nitroglicerina para desobstruir o caminho, um acto que pode colocar a vida de todos em perigo, entre outros episódios. Temos ainda os magníficos momentos finais, emocionalmente arrasadores e surpreendentes, que atomizam alguma ideia que poderíamos ter em relação à felicidade de alguns personagens, com Clouzot a espelhar uma visão desencantada que nos assola a alma após o término de "Le salaire de la peur". Neste universo narrativo dominado maioritariamente por personagens masculinos, a única figura feminina em realce é Linda, interpretada por Véra Clouzot, a esposa do cineasta, com esta a incutir alguma sensualidade e candura a um elemento que maioritariamente é desprezado por Mario. Veja-se quando despreza a procura desta em evitar que o mesmo parta (atirando-a porta fora em direcção ao chão), ou a trata como se fosse um mero objecto, embora Linda continue a manter uma enorme devoção para com este homem. Apesar de ser praticamente a única mulher em destaque, Linda surge também como aquela que nos desperta mais simpatia, que parece ter melhores intenções e boa índole (embora a representação dos mexicanos esteja longe de ser simpática) numa obra cinematográfica marcada por uma atmosfera negra, onde a procura pelos protagonistas em melhorar as suas condições de vida prepara-se para sair demasiado cara. Estão longe de ser heróis altruístas, pensando sobretudo no seu bem estar, com Clouzot a exibir mais uma vez algum pessimismo em relação ao ser humano. Já tinha sido assim em "L’assassin habite au 21" e "Le corbeau", onde qualquer um poderia ser o suspeito, tal como seria em "Les diaboliques", uma obra onde a única personagem capaz de despertar alguma simpatia tem um destino pouco feliz, ou em "La vérité", onde a imoralidade parece rodear as várias figuras que pontuam a narrativa, algo que se repete em "Le salaire de la peur". Inspirado livremente no livro homónimo de Georges Arnaud, "Le salaire de la peur" surge como um drama tenso, marcado por uma enorme crueza, personagens complexos que se encontram longe de serem exemplos a seguir e uma cinematografia capaz de se ajustar a este ambiente negro e inquietante, onde a qualquer momento esperamos uma explosão, seja esta provocada pela nitroglicerina ou pelos sentimentos, com Henri-Georges Clouzot a criar uma obra cinematográfica sublime.

Título original: "Le salaire de la peur".
Título em Portugal: "O Salário do Medo". 
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri-Georges Clouzot e Jérome Geronimi.
Elenco: Yves Montand, Charles Vanel, Peter van Eyck, Folco Lulli, Véra Clouzot, William Tubbs.

Phillip Noyce vai realizar o remake de "Ambulancen"

 O The Hollywood Reporter noticiou que Phillip Noyce vai realizar o remake de "Ambulancen", um thriller dinamarquês. O argumento está a cargo de Chris Fedak (co-criador da recomendável série "Chuck"). A produção de "Ambulance" (titulo do remake) está a cargo de Brad Fischer, James Vanderbilt e William Sherak.

O filme original foi realizado por Laurits Munch-Petersen, através do argumento do próprio e Lars Andreas Pedersen. O enredo de "Ambulancen" acompanha dois irmãos que decidem efectuar um roubo para pagar o tratamento da progenitora na Alemanha. O problema é que o assalto não corre como o planeado, com estes a decidirem furtar uma ambulância para efectuarem uma fuga de emergência. Tudo piora quando descobrem que a ambulância conta no seu interior com um indivíduo que necessita urgentemente de tratamento devido a padecer de um problema cardíaco.

Não foi revelada a data para o início das filmagens.

Oprah Winfrey, Eddie Murphy, Mike Epps e Kate Hudson confirmados no elenco do filme sobre Richard Pryor. Filmagens devem começar em Março.

 O Deadline noticiou que a The Weinstein Company está prestes a dar luz verde para o desenvolvimento do filme biográfico sobre Richard Pryor. O filme vai ser realizado por Lee Daniels ("The Butler"), através do argumento de Bill Condon e Danny Strong. De acordo com o site, se tudo correr como o esperado, as filmagens começam em Março de 2016.

A mesma fonte salienta que Oprah Winfrey, Eddie Murphy, Kate Hudson e Mike Epps estão confirmados no elenco. Mike Epps vai dar vida a Richard Pryor; Oprah Winfrey vai interpretar a avó de Pryor, uma mulher que dirigia um bordel e criou o icónico comediante; Eddie Murphy vai interpretar Leroy “Buck Carter” Pryor, o pai de Richard Pryor; Kate Hudson vai interpretar Jennifer Lee Pryor, a esposa (e posteriormente viúva) de Richard Pryor.

O filme ainda não tem uma data de estreia definida. 

28 agosto 2015

Poster nacional e trailer legendado de "Dior e Eu" (Dior and I)

 Já se encontram online o poster nacional e o trailer legendado em português de "Dior and I" (Dior e Eu), um documentário realizado por Frédéric Tcheng. Poster e trailer via Alambique Filmes.

Sinopse: DIOR E EU leva o espectador ao mundo da casa Christian Dior com um acesso privilegiado aos bastidores da criação da primeira colecção de Alta Costura de Raf Simons, o novo director artístico da famosa marca. Da concepção ao desfile, o processo é um verdadeiro trabalho de amor do estóico Simons e da dedicada, calorosa, e muitas vezes bem-humorada equipa de colaboradores. Misturando lindamente elementos da moda do dia-a-dia com uma elegante reverência para a história de Dior, a homenagem colorida de Tcheng às costureiras do atelier é nada menos do que mágica.

"Dior e Eu" estreia em Portugal a 10 de Setembro de 2015. O filme será lançado em simultâneo nas salas de cinema, em DVD e nos Videoclubes das operadoras televisivas.

Dior e Eu from Alambique Filmes on Vimeo.

Armie Hammer junta-se ao elenco de "Nocturnal Animals", o novo filme de Tom Ford

 O Deadline noticiou que Armie Hammer ("The Man From U.N.C.LE.") vai juntar-se a Jake Gyllenhaal, Amy Adams, Michael Shannon, Kim Basinger e Aaron Taylor Johnson no elenco de "Nocturnal Animals", a adaptação cinematográfica de "Tony and Susan", um livro escrito por Austin Wright. Hammer vai dar vida a Walker Morrow, o esposo da personagem interpretada por Amy Adams.

"Nocturnal Animals" é realizado por Tom Ford ("A Single Man"), através do argumento do próprio. Sinopse. Susan Morrow (Amy Adams) é surpreendida com uma encomenda que contém o manuscrito do primeiro livro escrito pelo ex-marido. Ao ler o manuscrito, Susan começa a embrenhar-se no interior da vida de Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), um personagem de ficção. Uma violenta mudança de rumo na vida pessoal vai conduzir a que Susan seja obrigada a confrontar o seu próprio passado. O título do filme remete para uma das histórias presentes no livro.

As filmagens começam no Outono deste ano. 

Steve Carell substitui Bruce Willis no elenco do novo filme de Woody Allen

 O Deadline noticiou que Steve Carell vai substituir Bruce Willis no elenco do novo filme de Woody Allen. Não foram revelados detalhes em relação ao personagem que Steve Carell vai interpretar. Vale a pena recordar que Bruce Willis abandonou recentemente o elenco do filme (supostamente para protagonizar uma peça baseada no livro "Misery" de Stephen King).

O filme (ainda sem título) é realizado por Woody Allen, através do argumento do próprio. O elenco é composto por Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Blake Lively, Corey Stoll, Parker Posey, Steve Carell, entre outros. A cinematografia está a cargo de Vittorio Storaro.

 O enredo do filme ainda não é conhecido. As filmagens vão decorrer em Nova Iorque e Los Angeles. O filme estreia em 2016.

Tim Hill vai realizar o remake de "Oh! Heavenly Dog"

 De acordo com o The Hollywood Reporter, a Fox 2000 encontra-se a desenvolver um remake de "Oh! Heavenly Dog". O filme vai ser realizado por Tim Hill ("Alvin and the Chipmunks"; "Hop"), através do argumento do próprio e Dave Johnson.

O filme original foi realizado por Joe Camp, através do argumento de Rod Browning. "Oh! Heavenly Dog" contou no elenco com Chevy Chase, Jane Seymour, Omar Sharif, entre outros. O enredo de "Oh! Heavenly Dog" centra-se num detective privado que foi assassinado quando se encontrava a trabalhar num caso perigoso. Sem se decidir entre ir para o Céu ou para o Inferno, o detective reencarna temporariamente num cão tendo em vista a resolver o caso do seu assassinato.

O remake de "Oh! Heavenly Dog" ainda não tem uma data de estreia definida.

Bryce Dallas Howard junta-se a Matthew McConaughey e Édgar Ramírez no elenco de "Gold"

 O Deadline noticiou que Bryce Dallas Howard ("Jurassic World") vai juntar-se a Matthew McConaughey, Édgar Ramírez, Corey Stoll, Stacy Keach, entre outros, no elenco de "Gold", o novo filme de Stephen Gaghan ("Syriana"). O argumento ficou a cargo de Patrick Massett e John Zinman. Howard vai interpretar a namorada de longa data do personagem interpretado por Matthew McConaughey.

O enredo é inspirado no escândalo verídico que envolveu a Bre-X Mineral Corporation, uma empresa do sector mineiro sediada em Calgary. Esta empresa supostamente descobriu uma mina na Indonésia que contava com ouro no seu interior, algo que alegadamente se revelou uma fraude. Matthew McConaughey interpreta um empresário falhado e explorador que forma equipa com um geólogo/explorador (Édgar Ramírez). Estes viajam até à Indonésia em busca de ouro.

As filmagens já se encontram a decorrer. "Gold" ainda não tem uma data de estreia definida.

Chris Messina em negociações para juntar-se a Ben Affleck no elenco de "Live By Night"

 A Variety noticiou que Chris Messina ("Manglehorn") encontra-se em negociações para juntar-se a Ben Affleck no elenco da adaptação cinematográfica de "Live By Night", um livro escrito por Dennis Lehane. Messina pode interpretar o melhor amigo do protagonista. A mesma fonte adianta que Sienna Miller, Zoe Saldana e Elle Fanning continuam em negociações para integrarem o elenco do filme. 

"Live By Night" vai ser realizado por Ben Affleck ("Argo"), através do argumento do próprio. Vale a pena recordar que as filmagens de "Live By Night" foram anteriormente adiadas devido a Ben Affleck ter decidido integrar o elenco principal de "Gone Girl" e "Batman v Superman: Dawn of Justice". De acordo com a Variety, o início das filmagens de "Live By Night" está marcado para Novembro deste ano.

"Live By Night" foi publicado em Portugal com o título "Viver na noite" e conta com a seguinte sinopse (via Wook): Boston, 1926. A bebida abunda, em cada esquina há troca de tiros, e um homem decide deixar a sua marca no mundo. A Lei Seca levou à criação de uma complexa rede de destilarias e bares clandestinos, gangsters e polícias corruptos. Joe Coughlin, o filho mais novo de um respeitável capitão da Polícia de Boston, há muito que voltou costas à sua educação severa e se rendeu ao lucro, à adrenalina e à notoriedade de ser um fora da lei. Mas uma vida de crime cobra um alto preço. Numa época em que homens implacáveis e ambiciosos se digladiam pelo poder, dispondo de armas, bebidas ilegais e muito dinheiro, o mote é: nunca confiar em ninguém - nem na família nem nos amigos, nem nas amantes nem nos inimigos.

O filme ainda não tem uma data de estreia definida. 

Novo trailer de "Goosebumps"

 Foi divulgado um novo trailer de "Goosebumps", um filme realizado por Rob Letterman, através do argumento de Darren Lemke (inspirado livremente na série de livros "Goosebumps" de R.L. Stine). O filme conta no elenco com Jack Black, Halston Sage, Ken Marino, Amy Ryan, Kumail Nanjiani, Ella Wahlestedt, Odeya Rush, entre outros. 

Sinopse (via Sapo): Aborrecido por se ter mudado de uma grande cidade para uma pequena cidade de provincia, Zach Cooper, um jovem adolescente, começa a ver o lado positivo da situação quando conhece a bela Hannah, a sua vizinha do lado. Mas, todo o lado positivo tem um outro lado - negativo - e Zach dá de caras com este quando descobre que Hannah tem um pai misterioso que é afinal R. L. Stine, o autor da série de livros mundialmente famosa "Arrepios". Acontece que há uma razão para Stine ser tão estranho… Ele é prisioneiro da sua própria imaginação – os monstros que povoam os seus livros são reais e Stine protege os seus leitores mantendo-os aprisionados nos seus livros. Quando Zach, inadvertidamente, liberta os monstros dos seus manuscritos e estes começam a aterrorizar a cidade, está nas mãos de Stine, Zach e Hannah colocá-los de volta aos livros onde pertencem...

"Goosebumps" estreia a 16 de Outubro de 2015 nos EUA. 

Resenha Crítica: "Le corbeau" (1943)

 A vida de Rémy Germain (Pierre Fresnay), um médico que labora em Saint-Robin, uma pequena cidade francesa, onde quase todos se parecem conhecer, não anda fácil. Este é o protagonista de "Le corbeau", um filme marcado pelo mistério, onde os habitantes deste território começam a receber cartas assinadas por um elemento anónimo que se auto-denomina de "O Corvo", que procura manchar a reputação do médico. A atmosfera é opressora e pouco auspiciosa para o protagonista, quer a nível pessoal, quer a nível profissional, com este a ter de lidar com uma série de três partos mal-sucedidos no espaço de seis semanas, onde as mães permaneceram com vida embora os rebentos não tenham conhecido a mesma sorte. A cinematografia de Nicolas Hayer contribui de forma amiúde para essa atmosfera opressora, com as sombras a sobressaírem muitas das vezes sobre as luzes, os espaços fechados a poderem ganhar características claustrofóbicas, quer seja uma igreja frequentada por uma miríade de pessoas ao Domingo (a religião e religiosidade dos habitantes, em contraste com o ateísmo do protagonista, é uma das temáticas), quer seja uma sala de aula onde a caligrafia dos suspeitos é testada. As cartas são enviadas para quase todos os habitantes da cidade, procurando inquietar os mesmos, tendo em vista a descredibilizar Rémy, mas também a suscitar algumas dúvidas sobre outros destinatários, numa obra cinematográfica que nos coloca diante dos efeitos dos boatos infundados num território pequeno e conservador. Remete para uma atmosfera próxima da que vamos encontrar em alguns filmes noir, marcada por alguma malaise, traições, personagens imorais, onde a fronteira entre o bem e o mal por vezes assiste a um esbatimento perigoso, ao mesmo tempo que assistimos a uma série de acontecimentos que adensam o mistério em volta do "corvo" e do destino de Rémy. Este mantém uma relação de proximidade com Laura Vorzet (Micheline Francey), a esposa de Michel Vorzet (Pierre Larquey), um chefe da ala psiquiátrica do hospital onde Rémy trabalha, que recebeu uma carta a expor um possível affair entre a esposa e o protagonista. Laura e Rémy encontram-se secretamente, com um possível envolvimento entre ambos a desagradar a Marie Corbin (Héléna Manson), a irmã da primeira, uma enfermeira austera a nível de sentimentos que, aos poucos, apresenta alguns comportamentos que indiciam que poderá ser a autora das cartas. Se Marie surge quase sempre representada como uma personagem desagradável, tendo outrora mantido um relacionamento com Michel, com Héléna Manson a procurar manter a rigidez desta enfermeira na exposição dos sentimentos, algo latente na pouca atenção dada aos doentes, já Laura aparece como uma figura feminina que facilmente desperta a nossa simpatia, embora também esta seja alvo do "corvo". Laura trabalha como assistente social, frequentando regularmente o hospital, tendo recebido recentemente uma carta do "corvo" sobre os encontros com Rémy, com esta inicialmente a pensar que foi o protagonista que revelou alguns episódios que dizem respeito à intimidade da dupla, algo que não corresponde à verdade, como a primeira irá perceber devido à imensidão de missivas do género. Também Rémy recebe uma carta, ainda no primeiro terço, onde é avisado para não voltar a ver Laura, com esta a ser descrita como prostituta no texto, naquela que será uma das várias missivas que o médico recebe. 

É notório o desconforto que estas cartas geram no protagonista, com a descoberta das mesmas a ser acompanhada por alguma tensão e mistério ou o seu autor não fosse um indivíduo cuja identidade apenas é descoberta no final do último terço. As cartas não se ficam por aqui: Delorme, o superior do protagonista no hospital, recebe uma missiva a dizer que Rémy aproveita-se de mulheres vulneráveis, com a carta a colocar em causa a honestidade de Bonnevie (Jean Brochard), o tesoureiro; Bonnevie recebe uma carta onde Rémy é mencionado como o abortador, sendo ainda insinuado que Jeannette, a filha do primeiro, anda a passar demasiado tempo na sala do médico-chefe (Delorme); François (Roger Blin), um doente que padece de cancro no fígado, que conhecemos inicialmente quando pede para sair da cama treze, comete suicídio ao ver revelado numa carta que tem apenas duas semanas de vida, entre outras que procuram não só difamar o protagonista mas também expor alguns temas relacionados com os visados. O mais afectado com todas estas cartas é Rémy, ou não fosse este o principal alvo das missivas. O objectivo do envio das cartas nem sempre é claro, parecendo existir uma vingança pessoal que visa minar a reputação do protagonista e denunciar pelo caminho alguns podres dos restantes habitantes de Saint-Robin. Diga-se que esta temática, da utilização das cartas anónimas como meio de denúncia e boato, pode ser geradora de alguma polémica se tivermos em linha de conta que esta obra foi produzida pela Continental Films. Não são apenas os cidadãos desta pequena cidade que contam com os seus "rabos de palha", também "Le corbeau" contou durante vários anos com o estigma de ter sido uma produção da Continental Films, uma companhia francesa criada com fundos alemães, durante a II Guerra Mundial, por Joseph Goebbels, sendo dirigida por Alfred Greven. No entanto, a produção teve o "mérito" de não agradar aos elementos da Resistência e da França de Vichy, algo comentado por Remi Fournier Lanzoni em "French Cinema" (citado pelo artigo sobre o filme no site do TCM): "(...) a large number of viewers were reluctant to praise the film, some because they had trouble categorizing it, while others were morally offended by it. Le Corbeau was indeed besieged from both sides of the political scene. The anti-Nazi activists and members of the Resistance considered Le Corbeau pro-Nazi propaganda and fiercely fought (in the clandestine press) against the screening of the film. To them, it exemplified a collaboration with and submission to the German authorities by portraying a gloomy image and the malicious character of French people...The right wing and Vichy supporters also demanded the film be banned for its immoral values". Ou seja, por um lado temos a denúncia através das cartas anónimas, uma situação utilizada para incriminar aqueles que não eram afectos ao regime ditatorial da França de Vichy, por outro também temos uma representação pouco simpática do povo francês, com o filme a apresentar algum pessimismo em relação ao ser humano, no geral, que lhe retira o peso de poder ser considerado como uma obra cinematográfica de propaganda. A própria representação dos perigos provocados pelas cartas e uma personagem que salienta que não é uma delatora, um termo utilizado de forma pejorativa, exibe que estamos longe de uma mera obra de propaganda, bem pelo contrário.

Como salienta Dennis Schwartz no seu texto sobre o filme no site Ozu's World, "Le corbeau" surge como uma: "misanthropic exposé of occupied France: it mocks all those in authority and every class is shown to be hypocrites, with the upper-class doctors coming off the worst. It looks and feels like film noir, though noir didn't become discovered until post-WWII". Esta situação conduziria a que Henri-Georges Clouzot fosse despedido dois dias antes da estreia do filme, com "Le corbeau" a ter o efeito de ter desagradado aos elementos da Continental, à Resistência e à Igreja Católica. Diga-se que, ao ser visualizado sem o conhecimento prévio do ano em que o filme foi lançado e o seu contexto de produção, boa parte desta linha de interpretação até poderia ir por água abaixo, já que estamos diante de uma obra que, na sua essência, nem se distingue assim tanto do pessimismo presente em alguns noir dos EUA e até do corpo da obra de Clouzot, com este a marcar boa parte dos seus trabalhos com alguma crueza e pessimismo em relação à Humanidade. A Pierre Fresnay cabe interpretar um médico que desperta a atenção das figuras femininas, um indivíduo com um passado marcado por um desgosto que conduziu à sua mudança para este local, encontrando-se visivelmente agastado com toda esta situação. A habitação de Rémy fica localizada numa escola dirigida por Saillens (Noël Roquevert), o pai de Rolande (Liliane Maigné), uma jovem que trabalha no posto dos correios, cuja conduta também não escapa ao "corvo". Saillens é irmão de Denise (Ginette Leclerc), uma mulher que procura despertar a atenção do protagonista, surgindo como uma figura conquistadora que aos poucos revela algumas fragilidades emocionais que procura esconder por detrás da sua faceta sedutora e emotiva. Denise é uma mulher extremamente maquilhada, que coxeia de uma perna devido a um acidente, procurando assumir uma postura conquistadora junto do protagonista, a ponto de fingir estar doente para ser consultada pelo mesmo. Esta é outra das suspeitas, tendo problemas em lidar com algumas rejeições por parte do protagonista, apesar de um momento de aproximação trazer consequências que ambos inicialmente não esperavam. Rémy parece sentir algo por Denise, mas também por Laura, embora esta última seja casada, com os encontros entre ambos a terem ainda de ser mais secretos devido às acções do "corvo". Aos poucos gera-se um clima de suspeição e paranoia em volta de um conjunto de personagens onde a maioria pode ou não ser culpada do caso, com Henri-Georges Clouzot a deixar-nos presos a este meio opressor, marcado pelo mistério relacionado com o remetente das cartas, numa obra cinematográfica onde a maioria dos personagens tem "rabos de palha". O argumento, escrito por Henri Chavance e Henri-Georges Clouzot, não só nos coloca diante de uma visão algo pessimista da Humanidade como nos embrenha para o interior deste espaço quase rural onde assistimos a cartas que contêm calúnias e revelações, mas também a traições, mentiras, personagens moralmente questionáveis, mortes, enquanto o "corvo" promete afectar boa parte da população deste território. A tensão atinge níveis elevados quando François comete suicídio, sendo organizado um funeral público, onde boa parte dos olhares estão virados para Marie, a principal suspeita de ter enviado a carta a revelar a este indivíduo que tinha pouco tempo de vida. Mais tarde sabemos que esta não é a culpada, mas encontramos expostos os efeitos que os boatos podem gerar numa turba descontente, com a população local a partir em fúria em direcção a Marie, com esta a ter de fugir até sua casa, onde descobre que parte dos objectos da habitação foram destruídos. Os momentos são inquietantes, com Marie, uma mulher de personalidade rígida e incapaz de gerar simpatia, a ter de fugir de tudo e todos.

Héléna Manson consegue destacar-se pela positiva como esta personagem algo fria e religiosa, num filme onde as figuras femininas também apresentam alguma relevância. Denise Saillens parece sentir-se apaixonada e atraída pelo protagonista, embora este, a certa altura, pareça pretender deixar a cidade e esta mulher. Laura apresenta uma relação ambígua com Rémy, enquanto a jovem Rolande, uma adolescente de catorze anos de idade, aparentemente inocente, também comete algumas atitudes reprováveis e suspeitas. A mãe de François (Lucy) procura descobrir quem conduziu o filho a cometer suicídio, surgindo como uma figura soturna que tenta efectuar justiça pelas próprias mãos, cabendo-lhe um papel decisivo no último terço. Temos ainda outros personagens que sobressaem, tais como Vorzet, com Pierre Larquey a ter uma interpretação convincente como um médico aparentemente simpático, com uma barba cuidada, quase sempre acompanhado pelo seu chapéu de coco, que tem uma visão da vida algo distinta do protagonista (algo que lhe chega a salientar quando comenta que Rémy é demasiado extremista ao dividir tudo entre o bem e o mal), embora também esteja longe de não contar com os seus pecados. Poucos são os personagens completamente impolutos ao longo de "Le Corbeau", com o enredo a colocar-nos diante de um conjunto de figuras que nos deixa imensas vezes na dúvida em relação ao que pensarmos sobre as mesmas. No entanto, cabe a Pierre Fresnay ser o elemento em maior destaque do elenco, com este a incutir quase sempre alguma credibilidade e cinismo ao personagem que interpreta, um indivíduo que procura exercer o seu ofício com profissionalismo, que parece muitas das vezes pronto a desistir e sair da cidade, tendo em Denise uma figura que o atrai e repele, numa obra que causa o mesmo efeito no espectador ao arrastá-lo para o interior deste pequeno espaço citadino, onde a força dos boatos prepara-se para causar estragos, onde nada nem ninguém parece totalmente confiável. Diga-se que o início é marcado desde logo por um tom pessimista, com uma mãe a perder o seu filho à nascença, enquanto o protagonista parece simultaneamente afectado por não ter conseguido salvar o rebento e aliviado pela progenitora do mesmo ter permanecido com vida. Este recebe diversas cartas provocadoras e insultuosas ao longo do filme, vê a sua personalidade, passado e currículo profissional serem colocados em causa diante dos restantes habitantes e do espectador, numa obra onde poucos são os personagens que se podem orgulhar da sua conduta. Veja-se quando se dirige para visitar uma doente e logo é barrado por uma familiar que apresenta uma enorme simpatia para com Rémy mas logo muda o discurso quando este vira costas, ou a falta de protecção que tem por parte dos colegas e das autoridades. Os próprios governantes locais estão longe de serem representados como figuras competentes, com "Le corbeau" a parecer retirar um enorme prazer em explorar este local pontuado por seres humanos que na sua maioria estão longe de ser um exemplo a seguir, independentemente de irem aos Domingos à missa. “Le corbeau”, em parte, até remete para "L’Assassin habite au 21", a primeira longa-metragem do cineasta para a Continental, onde um investigador da polícia tinha de procurar descobrir a identidade de um serial killer, com as possibilidades a serem mais do que muitas. O próprio tom negro do filme parece remeter para outras obras do cineasta, tais como "Les diaboliques" onde a única personagem capaz de despertar alguma simpatia tem um destino pouco feliz, ou "La vérité", onde a imoralidade parece rodear as várias figuras que pontuam a narrativa, algo que se repete em "Le salarie de la peur". Marcado pela atmosfera opressora que envolve boa parte da narrativa e os espaços de uma cidade de província francesa, diversos personagens cujos comportamentos estão longe de ser os mais recomendáveis e um médico que encontra a sua vida a ser escrutinada e alvo de boatos devido a um conjunto elevado de cartas, "Le corbeau" surge como uma obra cinematográfica pontuada pelo mistério e tensão gerados pela correspondência enviada pelo "corvo", com a identidade deste homem ou mulher a intrigar-nos ao longo de boa parte da narrativa, bem como as diversas figuras que povoam este filme que merece ser avaliado mais pelos seus méritos do que pelo facto de ter sido produzido por uma empresa de um regime ignóbil.

Título original: "Le corbeau". 
Título no Brasil: "Sombra do Pavor". 
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri Chavance e Henri-Georges Clouzot.
Elenco: Pierre Fresnay, Ginette Leclerc, Pierre Larquey, Micheline Francey.