31 maio 2015

Resenha Crítica: "Tomorrowland" (2015)

 Lá diz o ditado popular: "de boas intenções está o Inferno cheio". Bem intencionado no seu propósito de transmitir de forma bem viva ideias e ideais optimistas associados à capacidade de sonharmos e procurarmos concretizar esses sonhos, "Tomorrowland" perde-se no meio do seu argumento insonso que apenas é superado do ponto de vista negativo pela interpretação caricatural e unidimensional de Hugh Laurie como um antagonista que nunca chega a ser devidamente desenvolvido. Diga-se que o problema não está apenas na falta de desenvolvimento do personagem interpretado por Hugh Laurie mas, acima de tudo, na incapacidade do argumento da autoria de Damon Lindelof e Brad Bird em conseguir explorar devidamente as ideias que lança, perdendo-se em redundâncias e ideias repetidas vezes sem conta como se o público tivesse seis anos de idade e necessitasse de ouvir repetidamente a mesma lenga-lenga com um excesso de didatismo que a espaços torna-se incómodo. Esperava-se mais de uma obra realizada por Brad Bird, com este a outrora já ter comprovado em obras cinematográficas como "The Incredibles" e "Ratatouille" ser capaz de controlar uma narrativa e explorar até alguns lugares-comuns de forma assertiva (e até quebrar os mesmos), algo que não consegue de todo em "Tomorrowland". Incoerente no seu tom, exposto desde logo nos momentos iniciais, onde assistimos Frank Walker (George Clooney) a procurar gravar uma mensagem sobre o futuro, com este a tentar expor um tom algo pessimista, logo contrastado pelo optimismo de Casey Newton (Britt Robertson). Seguem-se dois flashbacks, um a expor a juventude de Frank, outro a exibir como Casey chegou a casa deste, uma habitação localizada num território aparentemente desértico e capaz de o manter distante dos seus inimigos embora não falte uma caixa de correio a dizer "Frank" na entrada (Damon Lindelof é exímio nos plot holes e volta a demonstrá-lo em "Tomorrowland"). Nos trechos da juventude de Frank (Thomas Robinson - relativamente competente a exibir o espírito sonhador do personagem que interpreta), encontramos este na New York World's Fair de 1964, onde procura apresentar um jetpack ainda com alguns problemas de funcionamento a David Nix (Hugh Laurie), um indivíduo de feições rígidas, aparentemente pouco simpático, que se dirige com um grupo de cientistas para Tomorrowland, uma cidade futurista, localizada noutra dimensão, recheada de arquitectura moderna capaz de evidenciar os avanços tecnológicos elaborados pela humanidade. Nix rejeita a invenção de Frank, um jovem prodígio, não ficando cabalmente satisfeito com a explicação do jovem em relação à utilidade do jetpack, em particular a capacidade que este teria em fazer as pessoas sonhar, já que seria possível alguém locomover-se pelos céus. Se Nix não fica entusiasmado, já Athena (Raffey Cassidy), uma robô Audio-Animatronic, aparentemente ao serviço do primeiro, fica notoriamente surpreendida com o espírito sonhador de Frank, a ponto de lhe dar um pin com um T, que lhe permite a entrada em Tomorrowland. Finda-se o flashback, embora saibamos pelo caminho que Frank foi expulso do local, tornando-se mais frio e menos dado a entusiasmos no seu período em reclusão, pelo menos até encontrar Casey e reencontrar-se com Athena, que culpara dos problemas que o afectaram. Por sua vez, Casey é uma jovem rebelde e optimista, que procura contestar a visão catastrófica e pessimista que lhe pretendem transmitir, vivendo num Mundo onde até a Nasa encontra-se a deixar de lado as suas pesquisas e fechar algumas instalações, algo que vai conduzir Eddie Newton (Tim McGraw), o pai da personagem interpretada por Britt Robertson, ao desemprego.

 O possível encerramento das instalações no Cape Canaveral conduzem Casey a procurar constantemente sabotar as máquinas tendo em vista a tentar travar o desiderato dos superiores do progenitor. Numa dessas incursões nocturnas, Casey acaba por ser detida, recebendo nos seus bens algo que não é seu, um pin que a transporta para um local marcado por diversas searas, existindo ao fundo todo um espaço futurístico que a deixa intrigada. Apenas esta consegue activar o pin, uma situação que inicialmente a coloca em problemas, com o objecto a funcionar de forma estranha, ou seja, a permitir que esta deambule pela outra dimensão, em particular para Tomorrowland, embora na realidade esta encontre-se também a andar pelos espaços da sua casa e exteriores à mesma, algo que a deixa no pântano quando a conexão deixa de funcionar. Com a ajuda de Nate (Pierce Gagnon), o irmão mais novo, Casey encontra um anúncio de uma loja que pode conter um objecto semelhante. A loja pertence a Hugo (Keegan-Michael Key) e Ursula (Kathryn Hahn), dois elementos peculiares que povoam um espaço onde a Disney aproveitou para fazer publicidade à bruta a "Star Wars" num cenário que será delicioso de analisar à lupa em busca de easter eggs (e revelador dos cuidados a nível do design dos cenários interiores). Hugo e Ursula são dois robôs que logo procuram o pin e eliminar Casey, com esta última a ser salva por Athena. A personagem interpretada por Raffey Cassidy revela ter sido a responsável pela protagonista receber o pin que a transporta para Tomorrowland, exibindo uma enorme perícia a desembaraçar-se de situações difíceis (incluindo a escapar de perguntas incómodas fingindo ter um aparelho que a desactiva quando é demasiadamente questionada). A relação entre as duas é marcada por uma desconfiança inicial por parte de Casey, com ambas a revelarem a sua forte personalidade, uma situação inerente ao facto de Athena fugir e muito ao protocolo para o qual fora programada, tendo mantido um enorme afecto por Frank apesar deste culpá-la pela expulsão de Tomorrowland e por tudo o que pode correr mal ao planeta Terra. Athena é um dos principais destaques do filme, com a jovem Raffey Cassidy a ser uma agradável surpresa, com o elenco feminino de "Tomorrowland" a dar cartas, algo ainda latente no caso de Britt Robertson, pese as constantes caras de espanto que esta faz ao longo do enredo (e os "oh my God"). Robertson interpreta uma jovem sonhadora e decidida que acaba por ser colocada em contacto com Frank, uma situação que os torna alvos de um conjunto de robôs ao serviço de Nix, marcados por feições sempre simpáticas mas mortíferos, causando a destruição na habitação do personagem interpretado por George Clooney. Este revela-se inicialmente pouco simpático para com a jovem embora, aos poucos, pareça perceber as razões para esta ter sido "a escolhida" por Athena. Um dos problemas de "Tomorrowland" centra-se na sua constante procura de engonhar as causas de Casey ser necessária em Tomorrowland, ao lado de Frank, com o próprio filme a não nos deixar assim tão entusiasmados quanto isso em relação ao verdadeiro motivo. Falta sentido de urgência e algum ritmo a uma obra que tem ideias mas não sabe aplicá-las na prática, optando por um didatismo pueril que ganha contornos idiotas no último terço onde temos um discurso do antagonista a expor o seu ponto de vista em relação à humanidade e à forma como esta abraçou de forma surpreendente a possibilidade do Apocalipse. Existe uma procura, ainda que destrambelhada, de "Tomorrowland" em expor como as representações do futuro na cultura popular são cada vez mais marcadas pelo pessimismo, algo que Brad Bird procura contrariar com um enredo que é perfeito para quem acredita em unicórnios ou necessita de uma injecção de discursos de auto-ajuda marcados por um optimismo exposto de forma tão repetitiva e redundante que acaba por esbater o efeito pretendido pelo cineasta. Existe, e não deixaria de lado este argumento, a possibilidade desta pessoa que escreve o texto ser algo fria e pessimista, embora nem seja de todo o caso. No entanto, não basta apenas apresentar uma visão optimista do Mundo e da capacidade do ser humano de fazer feitos extraordinários para um filme ser elogiado, sobretudo quando conta com um argumento redundante, plot holes incomodativos e mudanças bruscas de tom que contrastam com todo um cuidado impressionante a nível visual.

 A representação da New York World Fair de 1964, onde esteve presente Walt Disney, criador do estúdio de "Tomorrowland", é exemplo desse cuidado nos cenários, mas também todo o espaço do título, para além da forma criativa como são utilizadas as divisórias da casa de Frank para este e Casey escaparem dos robôs de Nix. Este é um dos momentos mais inspirados em termos de acção, com Brad Bird a ter ainda no último terço um momento que poderia ter um enorme impacto a nível emocional entre Athena e Frank que é completamente estragado pela ideia idiota de introduzir pelo meio uma piada que quebra a atmosfera dramática. Optimismo sim, estupidez não, e aquilo que acontece nessa piada é o riso do espectador quando deveria estar triste pelo episódio em questão. Diga-se que ainda vamos ter o riso involuntário em relação à forma como facilmente um antagonista é imobilizado para além de ser ridículo encontrar o argumento a estabelecer regras para posteriormente lixar-se nas mesmas como se não fosse nada. Seguindo o exemplo do filme, aqui vai um exemplo didáctico mas prático, ou se quiserem inválido, mas é a interpretação que faço: Frank, Casey e Athena transportam-se através de uma máquina até Paris para, a partir da Torre Eiffel, accionarem outro mecanismo tendo em vista a finalmente atravessarem para a dimensão de Tomorrowland. São estabelecidas uma série de regras e procedimentos: Casey, como não está habituada a estes procedimentos, tem de ir de olhos vendados, ouvidos tapados e tem de ingerir açúcar pois vai perder 90% daquele que se encontra no sangue quando chegar a Paris. Mal chega, esta consome duas garrafas de Coca-Cola (vamos esquecer temporariamente o product placement e o facto de Frank ter dito que não se deslocava a estas instalações em Paris há vinte e cinco anos). Quando assistimos ao transporte para outra dimensão, o que acontece? Nada, todos esses procedimentos já não foram necessários. Ou foi necessário fazer um favor aos patrocinadores e colocar ali pelo meio umas garrafitas de Coca-Cola, ou as regras mudam a bel-prazer, embora este não seja um dos momentos mais problemáticos: As justificações de Nix são pueris, a maioria dos personagens secundários são unidimensionais, as verdadeiras motivações para Casey ter de se deslocar àquele local com Frank e a tragédia que se pode abater sobre a Terra são expostos tardiamente, para além das redundâncias dos discursos ("é preciso alguém que acredite em nós", "é preciso sonhar", "concretizar os sonhos" e falas do género). Existe ainda algo que é completamente peculiar: temos protagonistas de raça branca, mas no final alguém se lembra de colocar um conjunto de elementos de diversas etnias para expor esse futuro melhor, onde os sonhadores de diversos locais surgem expostos num sinal de hipocrisia gritante. No entanto, isso não implica que George Clooney, Britt Robertson e a surpreendente Raffey Cassidy não estejam bem nos respectivos papéis, bem pelo contrário. George Clooney empresta mais uma vez o seu carisma ao personagem que interpreta, um indivíduo inicialmente ranzinza que logo se transforma no tipo porreiro e simpático que associamos à persona do actor. Britt Robertson, uma actriz conhecida por trabalhos televisivos como "The Secret Circle" e "Under the Dome", tendo recentemente protagonizado "The Longest Ride", ao lado de Scott Eastwood aka o filho canastrão de Clint Eastwood, não deslumbra mas também não se espalha como esta personagem quase sempre acompanhada pelo chapéu da Nasa pertencente ao seu pai. Robertson consegue expor o espírito destemido de Casey, bem como o seu optimismo em relação ao Mundo que a rodeia, procurando fazer algo para mudar o mesmo ao invés de ficar parada ao computador a escrever textos sobre filmes como esta pessoa. Casey tem uma personalidade forte, bem como Athena, com Raffey Cassidy, uma jovem actriz que eu desconhecia por completo, a conseguir incutir alguma mordacidade e impetuosidade a esta robô que tem um papel fulcral na narrativa. A interacção entre Cassidy e Robertson funciona, tal como entre esta última e George Clooney, com o elo mais fraco a ficar em Hugh Laurie que merece mais do que este tipo de papéis que engordam a sua conta bancária mas não trazem nada de positivo para a sua carreira.

 "Tomorrowland" foi baseado num parque temático da Disney, tal como a franquia "Piratas das Caraíbas", embora os seus resultados nas bilheteiras não indiquem que venha a gerar o mesmo impacto de Jack Sparrow e companhia. Não vamos aqui avaliar a bilheteira. Existem bons filmes que são flops e obras cinematográficas atrozes que fazem milhões em receitas. No entanto, tem existido um debate relativamente interessante sobre a aderência do público ou não a blockbusters que não partam de adaptações de comics ou reboots ou sequelas. No caso de "Tomorrowland", mais do que a aderência ou não do público, o debate não faz completamente sentido ao estarmos diante de uma obra cinematográfica que quase chega a roçar a mediania mas nem isso alcança. As ideias-chave associadas à criatividade, à capacidade do ser humano em sonhar e colocar as suas ideias em prática, ao optimismo em relação ao futuro são bonitas de se ver e até contrastam com muitos blockbusters, sobretudo neste período pós-11 de Setembro que nos colocam perante destruições em massa. O problema, pelo menos para esta pessoa que escreve o texto, é que as ideias são mal exploradas quer pelo argumento, quer pela própria realização de Brad Bird, com o cineasta a muitas das vezes não ter nem noção de ritmo (que para mim nem é aquilo que valorizo mais num filme, caso contrário não apreciaria obras como "Stray Dogs" de Tsai Ming-liang), para além de se perder na falta de coesão. Volto a bater na mesma tecla. Colocar uma piada que até pode funcionar - não é isso que está em causa (curiosamente, num filme recheado de tentativas falhadas de humor, acerta em cheio no momento mais indevido) – num dos momentos emocionalmente mais intensos é completamente idiota. O impacto emocional causado é destruído perante o riso, numa obra com ideias interessantes. O problema, mais uma vez, é que de boas intenções está o Inferno cheio e no final "Tomorrowland" perde-se diante de um argumento insípido, uma banda sonora a espaços intrusiva e uma incoerência narrativa que tiram algum impacto àquilo que o filme tem para oferecer de bom. Diga-se que as próprias ideias da possível destruição do planeta e a necessidade de fazer algo para que isso não aconteça também não são algo propriamente novo ou inovador, com parte do objectivo da ida de Cassey e companhia a Tomorrowland a centrar-se essencialmente em salvar o planeta Terra da sua destruição e sensibilizar os seres humanos para essa possibilidade (veja-se que Frank conta na sua habitação com um medidor que indica que a Terra encontra-se com 100% de possibilidades de uma catástrofe, um valor que é logo reduzido com a entrada de Casey no local). É uma obra cinematográfica que até tem bons valores de produção, um elenco com talento, um realizador que deu provas de competência (confesso que não sou fã incondicional do quarto capítulo da saga "Missão Impossível"), umas ideias interessantes e ideais que servem os mais novos, mas está longe também de convencer. O filme realizado por Brad Bird parece ainda partilhar de uma ideologia optimista por vezes associada a Walt Disney e ao estúdio, com este espaço utópico de Tomorrowland, inicialmente apresentado como encantador, posteriormente desolador, até... (não vamos revelar o final), a remeter para essa situação. Os episódios em Tomorrowland repercutem-se no planeta Terra, enquanto os eventos do filme pouco se fizeram sentir neste espectador que continua com a mesma visão pragmática em relação ao Mundo. Bem intencionado nos seus propósitos, "Tomorrowland" perde-se no seu excessivo didactismo, com as suas mensagens optimistas a tornarem-se gradualmente redundantes e exasperantes, desperdiçando o potencial que tinha, faltando apenas unicórnios a povoarem os cenários como a cereja no topo do bolo.

Título original: "Tomorrowland".
Título em Portugal: "Tomorrowland - Terra do Amanhã".
Realizador: Brad Bird.
Argumento: Damon Lindelof e Brad Bird.
Elenco: George Clooney, Hugh Laurie, Britt Robertson, Raffey Cassidy, Thomas Robinson, Tim McGraw, Kathryn Hahn, Keegan-Michael Key.

30 maio 2015

Resenha Crítica: "The Humbling" (A Humilhação)

 "The Humbling" é um filme de desequilíbrios, sejam estes do seu protagonista, sejam estes inerentes ao argumento, sejam estes resultantes da cinematografia, sejam estes devido à capacidade de Barry Levinson tanto de nos apresentar alguns momentos de enorme intensidade e inspiração como logo de seguida deixar-nos diante de sequências insípidas. Por um lado, é positivo ver Al Pacino num filme que não é protagonizado por Adam Sandler ou realizado pelo especialista em incutir o seu toque de trampa: Dito Montiel. Já para não recordar aquele espalhanço ao comprido com Robert De Niro em "Righteous Kill" de Jon Avnet. Por outro fica a ideia que é um actor de excelência que procura em demasia demonstrar que ainda se encontra bem vivo e relevante na Sétima Arte, acabando muitas das vezes por servir como um eucalipto que seca quase tudo à sua volta em "The Humbling", uma obra cinematográfica que tem como base o livro homónimo da autoria de Philip Roth. Al Pacino desgasta-se, desgasta-nos, exibe uma multitude de emoções a interpretar um actor que não consegue muitas das vezes distinguir o fino traço entre a realidade e ilusão, uma situação que o conduz a entrar regularmente em situações desagradáveis. Este actor é Simon Axler, um indivíduo que outrora fora conhecido pelos seus êxitos que tem de lidar com a desconfiança da imprensa após se ter atirado do palco durante uma peça e procurado cometer suicídio "à Hemingway", encontrando-se numa crise pessoal e profissional. Falta-lhe a energia de outrora, falta-lhe a capacidade de decorar as falas, falta-lhe a noção de distinguir o que é realidade e ficção, falta-lhe a vontade de regressar aos palcos, ou seja, falta-lhe equilíbrio em várias vertentes da sua vida. Nesse sentido, acaba por ser internado numa clínica psiquiátrica, com o seu quotidiano neste espaço a ser abordado de forma superficial, assim como quase tudo ao longo do filme, com este local a servir acima de tudo para introduzir Sybil (Nina Arianda), uma mulher que pretende que Simon a ajude a eliminar o marido, enquanto percebemos que o protagonista encara muito do quotidiano que o rodeia como se de uma grande peça de teatro se tratasse, ao mesmo tempo que parece pensar que quase tudo gira em sua volta. Diga-se que o próprio Barry Levinson contribui para esse centrar das atenções, algo notório no momento de terapia de grupo onde encontramos Simon numa espécie de roda com outros doentes, com "The Humbling" a preocupar-se apenas com o que este tem para dizer, parecendo tudo feito para ser o grande espectáculo de Al Pacino. Essa situação acaba muitas das vezes por atribuir uma artificialidade ao enredo que prejudica mais do que beneficia a credibilidade do mesmo, parecendo existir uma tentativa excessiva de expor o talento do intérprete de Simon. Ao regressar a casa, uma luxuosa vivenda com dois andares e uma piscina, Simon recebe a inesperada visita de Pegeen (Greta Gerwig), uma mulher muito mais jovem, que manteve uma relação com Louise Trenner (Kyra Sedgwick), a directora na universidade onde esta lecciona, após ter conseguido o cargo devido a ter conquistado a sua superior. Pegeen é filha de um casal amigo do protagonista, tendo nutrido uma enorme admiração pelo mesmo desde sempre, sendo uma das várias personagens que vai aparecer na vida do actor durante este período caótico da sua mente e da sua alma, ao qual devemos juntar um corpo cada vez mais em decadência e um argumento que não consegue dar conta de tudo aquilo a que se propõe.

A personagem interpretada por Greta Gerwig parece trazer alguma energia ao quotidiano de Simon, mas também diversas dúvidas, problemas e episódios rocambolescos, incluindo ameaças de Louise, embora esta personagem nunca passe praticamente da caricatura da ex-namorada que procura avisar sobre o efeito nefasto da antiga cara metade nos restantes seres humanos. Juntos, Pegeen e Simon cometem actos como construir uma rede de comboios de brincar, trocam alguns momentos de afinidade tais como dialogarem como se estivessem no meio de uma peça de teatro, reúnem-se com Prince (Billy Porter), outra ex-namorada da protagonista, agora um homem, enquanto o personagem interpretado por Al Pacino expõe os seus receios junto do Dr. Farr (Dylan Baker), o psiquiatra que contacta via Skype. Diga-se que os diálogos com o psiquiatra são, regra geral, uma forma preguiçosa de Barry Levinson expor os sentimentos e a inquietação do protagonista em relação aos episódios que vive. Podemos também encarar as conversas entre o Dr. Farr e Simon como um exemplo da enorme falta de confiança deste último em si próprio, com o médico a procurar muitas das vezes destrinçar os elementos que não jogam bem nas falas do seu interlocutor, algo visível quando o personagem interpretado por Dylan Baker questiona se Pegeen terá mesmo dito uma fala como o protagonista terá mencionado, ou se este ouviu apenas aquilo que pretendia ouvir (e não aquilo que realmente foi dito). Se "The Humbling" até se revela um interessante estudo de personagem, também não deixa de ser notório que lhe falta um universo narrativo credível a envolver o mesmo, algo que incluiria contar com elementos secundários de peso que alicerçassem uma história que está longe de ser novidade em Hollywood, embora possa sempre ser contada com competência. Veja-se a ilusão em que vive Norma Desmond (Gloria Swanson) em "Sunset Boulevard", as crises de Margo Channing (Bette Davis) em "All About Eve", a dolorosa queda no abismo de Myrtle Gordon (Gena Rowlands), a protagonista de "Opening Night", ou os mais recentes "Clouds of Sils Maria" e "Birdman", com todos a terem algo em comum: actores ou actrizes a viverem uma espécie de crise a nível profissional que se estende à vida pessoal. A diferença para todos os exemplos citados é que "The Humbling" é aquele que é mais frágil em termos de criação de um universo narrativo coerente, coeso (Barry Levinson dispara para todos os lados, indo desde os momentos mais introspetivos de Simon, passando por trechos meio non sense, tragédia e exageros, numa salada russa que é muitas das vezes colada com cuspo) e forte o suficiente para sustentar uma narrativa de quase duas horas. Essa situação é visível na falta de personagens secundários de peso, com excepção de Greta Gerwig, com esta a interpretar uma mulher algo indecisa em relação à vida, culta, irreverente, que muitas das vezes parece associada à própria imagem da actriz. Gerwig tem alguns dos seus melhores momentos ao lado de Al Pacino (este surge em quase todas as cenas), com a actriz e o actor a interpretarem uma dupla peculiar, que nunca chega a apresentar uma química verdadeiramente convincente mas também está longe de não prender a nossa atenção. São duas figuras distintas, em fases bem diferentes das suas vidas, com Pegeen a revelar um enorme desejo de descoberta, sobretudo a nível sexual, enquanto Simon parece cansado de tudo aquilo que o rodeia, embora Pegeen traga um elemento simultaneamente jovial e ainda mais destrutivo à sua vida, sobretudo quando os personagens que rodeiam o "universo" desta começam a orbitar junto do actor.

A relação entre Simon e Pegeen parece desde cedo fadada ao fracasso, sendo marcada por elementos que variam entre o mais dramático, o romântico e o cómico. Ela quer uma nova experiência e desfrutar de novas sensações, começando aos poucos a utilizar roupas mais femininas graças à acção e às finanças de Simon. Ele nem sabe bem o que é real e fantasia na sua vida, com a mente a pregar-lhe uma imensidão de partidas, algo que muitas das vezes nos deixa na dúvida sobre aquilo que estamos a ver (e a um desinvestimento gradual nos acontecimentos que rodeiam Simon). O medo em perder a companhia desta jovem conduz a que Simon gaste aquilo que tem e não tem para oferecer comodidades a esta professora de teatro. Pegeen não é a única figura feminina que rodeia a vida de Simon. Veja-se a visita de Louise, num momento em que Kyra Sedgwick nos brinda com um pouco de overacting, assim como Nina Arianda quando Sybil entra em cena. Diga-se que Nina Arianda interpreta uma personagem cujas razões para estarem na narrativa envolvem uma subtrama que poderia perfeitamente ter ido parar ao lixo na sala de montagem, com esta a dar vida a uma mulher desequilibrada que procura a todo o custo que Simon a ajude a eliminar o esposo. Não sabemos se tudo o que esta fala é realidade ou ilusão, embora os objectivos desta mulher sejam verídicos, apesar de não acrescentarem praticamente nada ao enredo, ou melhor, trazem uma dose ainda maior de loucura. Sybil é uma personagem completamente desinteressante de um filme que a espaços também merece esse adjectivo depreciativo, com Barry Levinson a não conseguir demonstrar a inspiração que teve em obras como "Good Morning, Vietnam", "Bugsy", "Rain Man" e "Wag the Dog". No caso de "The Humbling" assistimos Barry Levinson a procurar explorar as qualidades do seu actor principal para a interpretação, com o filme a surgir como um veículo para Al Pacino mostrar que ainda está aí para as curvas. Al Pacino interpreta um personagem que muito parece ter do próprio, um actor envelhecido, com uma carreira que já conheceu melhores dias, que parece algo cansado e sem paciência para representar. O cansaço é exposto de forma paradigmática, bem como a instabilidade deste personagem que de forma amiúde não sabe (por vezes nem nós sabemos) se o que está a ver e a dialogar é realidade ou ficção. Essa situação periclitante a nível profissional e pessoal conduz a que Simon quase chegue a ponderar dar a cara para um anúncio de um produto para perda de cabelo. No caso de Al Pacino resultou na participação num filme de Adam Sandler, para além de uma série de trabalhos medíocres onde este, a par de Robert De Niro, por vezes parece quase que andar a gozar com a cara daqueles que outrora admiraram as enormes qualidades que apresentavam para a interpretação, passando a viver da fama do passado. O lado positivo de "The Humbling" é que é muito melhor do que alguns trabalhos recentes de Al Pacino. O lado negativo é que tanto Pacino, como Barry Levinson, podem fazer muito melhor. No entanto, não deixa de ser curioso que, apesar de todas as suas limitações, "The Humbling" seja uma obra que nos desperte sentimentos tão mistos. Por um lado parece que existe material para muito mais do que aquilo que nos é dado, por outro também existem vários elementos positivos a se retirar.

A interpretação de Al Pacino é um desses factores positivos, pese um ou outro exagero, com o actor a deixar expor a decadência do seu corpo e da mente do personagem que interpreta, não tendo grandes complexos em que possamos catalogar os problemas que Simon padece com os seus. Outro dos elementos positivos é Greta Gerwig, com a actriz a interpretar uma mulher a viver uma fase confusa da sua vida, algo que promete trazer ainda mais incerteza ao quotidiano de Simon mas também ao enredo, com a relação entre estas duas figuras a prometer alguns momentos delirantes, envolventes e explosivos, com algum erotismo pelo meio. Veja-se quando Simon falha na cama e esta saca do vibrador, enquanto este para variar continua a falar como se fosse o centro das atenções e esta geme sem grandes problemas em ignorar o discurso do interlocutor. A relação entre estes dois personagens, embora nem sempre seja explorada na justa medida, é um dos elementos que mais sobressaem ao longo do filme, ao contrário da constante necessidade de Barry Levinson em colocar Simon a falar com o seu psiquiatra via Skype, uma situação que torna muito do que é exibido redundante. Barry Levinson parece ter receio que o espectador seja idiota, ou pelo menos tenta tratá-lo como tal, ao ponto de repetir elementos da narrativa, utilizar a banda sonora para expor aquilo que já estamos a ver, ao mesmo tempo que atira com personagens em direcção ao enredo para muitas das vezes não saber o que fazer com os mesmos. Veja-se o já citado caso de Sybil, ou a presença de Dylan Baker como um psiquiatra que praticamente apenas aparece via Skype, ou a própria introdução na narrativa de Prince que permite gerar alguns momentos caricatos embora tenha pouca influência no enredo. Temos ainda a presença dos pais de Pegeen que logo ficam revoltados com o facto de Simon encontrar-se envolvido com a filha, algo que resulta em mais momentos de histeria, com Barry Levinson a parecer de forma amiúde pretender utilizar alguns exageros por vezes associados às interpretações teatrais que nem sempre resultam bem no enredo de "The Humbling". A puerilidade de muitos dos personagens secundários exibe a instabilidade de um argumento que nem sempre tem capacidade para explorar os elementos introduzidos na narrativa, com a própria cinematografia a nem sempre conseguir sobressair como esperamos. Um desses exemplos pouco inspirados tem lugar quando Simon encontra-se a padecer de enorme nervosismo, enquanto a câmara se movimenta em direcção aos seus pés para demonstrar os movimentos nervosos do protagonista. É giro, percebemos a ideia, mas na prática é mais um momento redundante que, infelizmente, é exposto de forma artificial, sobretudo pela forma como Barry Levinson deixa muitas das vezes escorregar esta temática principal para se envolver em subtramas. A certa altura de "The Humbling" assistimos ao personagem interpretado por Al Pacino a falar sobre a dificuldade em decorar as falas, bem como a "falta de apetite" e desejo para voltar a representar, naquele que é um dos vários "quase monólogos" do protagonista. Em "The Humbling" assistimos à procura de Al Pacino em exibir-se como um actor ainda relevante, embora a sua carreira demonstre que já não tem o apetite de outrora, isso ou teremos de começar a abrir o debate de que em Hollywood não só faltam bons papéis para mulheres mas também para homens a partir de uma certa idade. Embora o argumento tenha quase tantos problemas como a mente do seu protagonista, "The Humbling" surge como um interessante estudo de personagem, permitindo a Al Pacino expor alguns dos seus vastos recursos para a interpretação, embora este já nos tenha dado muito melhor, com o actor a mostrar que merece mais e melhores trabalhos.

Título original: "The Humbling". 
Título em Portugal: "A Humilhação". 
Realizador: Barry Levinson.
Argumento: Buck Henry e Michal Zebede.
Elenco: Al Pacino, Greta Gerwig, Dianne Wiest, Charles Grodin, Kyra Sedgwick.

29 maio 2015

Resenha Crítica: "Road to Perdition" (Caminho para Perdição)

 As relações entre pais e filhos surgiam como uma temática de relevo em "American Beauty", a primeira longa-metragem realizada por Sam Mendes. Em "Road to Perdition", o segundo trabalho do cineasta na realização de longas-metragens, voltamos a assistir à abordagem dessa temática, ainda que num contexto bastante distinto. Deixamos de estar perante os subúrbios e os devaneios da classe média dos EUA para ficarmos diante do território em 1931, durante a chamada Grande Depressão, tendo como personagens principais Michael Sullivan (Tom Hanks), um gangster, e o seu filho de doze anos de idade, Michael Sullivan, Jr (Tyler Hoechlin), um pré-adolescente algo rebelde. Michael é um gangster fiel a John Rooney (Paul Newman), um chefe da máfia irlandês que o trata quase como se fosse um filho, tendo uma enorme confiança no seu trabalho. Diga-se que John Rooney confia mais em Sullivan do que no seu próprio filho de sangue, o fleumático e violento Connor (Daniel Craig). Se Sullivan limita-se a cumprir as ordens dadas pelo seu superior, já Connor facilmente desrespeita o pai e procura cumprir a sua própria agenda pessoal esquecendo-se que a protecção da qual goza se deve ao respeito que os mafiosos têm pelo progenitor. Nos momentos iniciais de "Road to Perdition" assistimos ao funeral de Danny, o irmão de Finn McGovern (Ciarán Hinds), em momentos de alguma dor para este gangster, embora espere-se que este seja controlado e não reaja contra o grupo de Rooney. É então que John Rooney decide enviar Connor e Michael Sullivan para se reunirem com McGovern, algo que se esperava servir para resolver de forma pacífica alguma possível querela, mas o segundo logo elimina o personagem interpretado por Ciarán Hinds, enquanto o protagonista é obrigado a disparar contra os homens deste último. A assistir a tudo encontra-se Michael Sullivan Jr., escondido no interior do carro, com a câmara de filmar a apresentar-nos aos acontecimentos muitas das vezes de forma distanciada, quase como se estivéssemos do ponto de vista do jovem. Este promete não contar nada, mas Connor logo trata de procurar eliminá-lo, bem como à mãe deste e ao irmão mais novo, acabando por ser bem sucedido a tirar a vida a estes dois últimos. Sam Mendes não exibe o assassinato destes elementos. Mais uma vez aposta em colocar-nos diante do ponto de vista de Michael, apresentando-o a observar a luz oriunda dos disparos e os sons bem sonoros das balas a irem em direcção à sua mãe e irmão mais novo. Não será a última vez que o cineasta irá expor a morte através do fora de campo, utilizando o impacto causado pelo poder de sugestão criado junto do espectador que pode ser tão ou mais efectivo do que mostrar a violência de forma bem explícita, algo que resulta relativamente bem ao longo do enredo. O plano de Connor passava ainda por Calvino (Doug Spinuzza), o dono de um bar, eliminar o personagem interpretado por Tom Hanks, mas o protagonista é mais perspicaz e consegue livrar-se a tempo. O clube nocturno é paradigmático da atenção colocada por Sam Mendes na decoração e exposição dos cenários, bem como da cuidada cinematografia, com as luzes azuis a simbolizarem o local de dança, as luzes vermelhas noutro espaço do bar a simbolizarem a zona da prostituição, até o protagonista se deslocar ao escritório no qual se apercebe da armadilha. O cuidado nos cenários é visível ainda na exposição dos cenários externos, inicialmente marcados pela frieza da neve e dos crimes cometidos pelos elementos que rodeiam o protagonista e até pelo próprio.

Aparentemente calmo, quase sempre discreto e cumpridor, embora nunca demonstre um grande entusiasmo pelo seu ofício, Michael Sullivan logo vai tentar vingar-se de Connor, independentemente desse acto ir contra as ordens do seu superior. É a primeira vez em que parece lidar de perto com as consequências do seu estilo de vida, com "Road to Perdition" a procurar explorar os efeitos da mesma naqueles que a perpetuam. Nesse sentido, mais do que gratuita e gráfica, a violência exposta em "Road to Perdition" é sentida, com os actos a trazerem consigo consequências, enquanto o protagonista, um assassino profissional, parece pretender redimir-se ao salvar o seu filho dos restantes criminosos e do mundo dos gangsters. Sullivan decide fugir com o seu filho até Chicago, procurando oferecer os seus serviços a Frank Nitti (Stanley Tucci), um elemento pertencente ao grupo liderado por Al Capone, tendo em vista a encontrar apoios contra Connor. Nitti logo rejeita os serviços de Sullivan, chegando a incitar Rooney a contratar os serviços de Harlen Maguire (Jude Law), um assassino que fotografa as suas vítimas com algum prazer, tendo em vista a que este elimine o personagem interpretado por Tom Hanks e o filho. Passamos a assistir à procura de Sullivan em estabelecer laços com o seu filho e a conhecer os seus gostos, ao mesmo tempo que assalta os fundos ilícitos que Al Capone guarda nos bancos, ensina o rebento a conduzir e prepara a sua vingança contra Connor, enquanto tenta salvar a sua vida e a de Sullivan Jr. A violência e a morte rodeiam o mundo destes personagens, mas também valores muito próprios, com Sullivan a não se esquecer do assassinato da esposa e do filho mais novo, tentando ainda proteger Sullivan Jr. e evitar que este se envolva no mundo do crime. A possibilidade do filho um dia assumir uma profissão semelhante à sua é um dos grandes receios do protagonista, um indivíduo que aos poucos percebemos nem saber assim tanto sobre os gostos do petiz, tendo durante grande parte da sua vida evitado que este soubesse o seu ofício. Quando Sullivan Jr. descobre o ofício do pai assistimos a um despoletar de violentos acontecimentos que ambos certamente não pretendiam. A morte permeia os cenários, bem como os perigos, enquanto assistimos a um fortalecer dos laços entre pai e filho, com Tom Hanks e o jovem Tyler Hoechlin a apresentarem uma dinâmica convincente. Tom Hanks como este gangster aparentemente frio e perspicaz, um anti-herói quase sempre capaz de elaborar a estratégia mais acertada para sair bem sucedido nos seus planos, tendo uma relação com o filho que inicialmente aparenta algum distanciamento. Aos poucos este vai demonstrando ao jovem que gosta tanto dele como gostava do irmão, mas Jr. faz com que se recorde de si durante a infância, algo que o leva a temer que o filho possa envolver-se pelo cruel mundo do crime. Já o pré-adolescente, interpretado de forma convincente por Tyler Hoechlin, começa aos poucos a compreender o pai e as suas decisões, parecendo pouco impressionado com o acto de matar, surgindo como um projecto para o protagonista encontrar a redenção pelos pecados cometidos. A relação entre estes dois, por vezes marcada pelos silêncios, é um dos pontos fortes de "Road to Perdition", com Sam Mendes a voltar a dar especial atenção aos relacionamentos entre pais e filhos, colocando estes dois elementos muitas das vezes em longas viagens de carro tendo como destino final a casa de Sarah, a tia do pré-adolescente, em Perdition. Pelo caminho, Michael ensina o filho a guiar o carro de maneira a ajudá-lo nos assaltos aos bancos de Chicago, expostos de forma algo leve, com o plano a servir para irritar Al Capone e fazer com que este deixe de participar na protecção a Connor. Diga-se que as relações entre pais e filhos não se ficam por aqui. A relação entre Sullivan e Rooney pode ser encarada quase como a de um pai e um filho, com Paul Newman a ter na sua última interpretação mais uma demonstração do seu grande talento, protagonizando alguns momentos de grande impacto emocional ao lado de Tom Hanks.

Paul Newman atribui uma aura de perigo e aparente calma a Rooney, um gangster poderoso que se encontra dividido entre ter de proteger um filho em que não confia e um elemento que lhe parece dizer mais do que o seu rebento. O próprio Sullivan parece querer proteger Rooney das trafulhices do filho mas esquece-se que por vezes as ligações de sangue falam mais alto e o personagem interpretado por Paul Newman é obrigado a ter de efectuar escolhas difíceis. A relação entre Rooney e Sullivan é quebrada pela procura do segundo em eliminar Connor, com Daniel Craig a interpretar um gangster relativamente unidimensional que pensa com o cano da pistola e pouco com o cérebro. Connor procura utilizar o poder de ser filho de Rooney, embora pouco respeito consiga, com "Road to Perdition" a explorar as estruturas hierárquicas e regras muito próprias dos elementos da máfia, apesar de também exibir que estas facilmente podem ser quebradas e as linhas de poder trocadas. Temos ainda Jude Law como um assassino frio e letal, um perigo à solta para o protagonista e o seu filho, protagonizando com Tom Hanks um intenso momento num restaurante e no último terço. Estes são personagens habituados à morte, com excepção do jovem Sullivan Jr, um rapaz que sempre se questionou sobre a profissão do pai e acaba por descobrir da pior forma o que este faz. É um choque que Sam Mendes procura que presenciamos quase ao mesmo tempo que o jovem, distanciando a câmara, enquanto a cinematografia brilhante de Conrad Hall sobressai. A iluminação é utilizada de forma sublime (inspirada nas pinturas de Edward Hopper), quer nas cenas interiores, quer nas cenas exteriores, por vezes penetrando sobre a escuridão, não faltando alguns intensos momentos à chuva e sentimentos à flor da pele. Diga-se que a água parece muitas das vezes surgir associada à morte, com vários dos assassinatos a ocorrerem à chuva ou pelo menos perto do mar, numa obra onde sabemos que mais tarde ou mais cedo o destino destes personagens pode não ser o mais agradável. Este lirismo na exposição da morte fica latente quando Michael Sullivan elimina vários elementos que rodeiam John Rooney, até ficar frente a frente com este. A própria banda sonora de Thomas Newtton, colaborador de Sam Mendes em "American Beauty", adapta-se a esta atmosfera do filme, tanto marcada pelo crime e solidão como pela tentativa de um pai e um filho de estabelecerem laços, enquanto o protagonista parece finalmente procurar a sua redenção. A relação entre pai e filho parece ser fortalecida nos momentos em que "Road to Perdition" assume uma faceta quase de road movie, colocando os dois personagens entre o cumprimento de um plano e uma fuga, ao mesmo tempo que Michael procura expiar os seus pecados e salvar o único filho que lhe resta. Michael é um gangster mais por contingência do que por opção, encarando esta actividade como uma profissão e não como uma paixão, ao contrário do criminoso interpretado por Jude Law, com este último a expressar todo o regozijo que tem em eliminar e fotografar as suas vítimas, algo que o faz sentir vivo. Baseado na graphic novel homónima, "Road to Perdition" mescla elementos dos filmes de gangsters com drama familiar, numa obra de época que sobressai não só pelas suas interpretações e pelo enredo envolvente, mas também pela brilhante cinematografia de Conrad Hall e uma representação eficaz dos EUA durante os anos 30.

Título original: "Road to Perdition".
Título em Portugal: "Caminho para Perdição".
Realizador: Sam Mendes.
Argumento: David Self.
Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Jennifer Jason Leigh, Stanley Tucci, Daniel Craig.

28 maio 2015

Resenha Crítica: "Revolutionary Road" (2008)

 "Revolutionary Road" comprova mais uma vez que Sam Mendes é um realizador exímio a explorar temáticas que envolvem as relações familiares. Desta vez não temos um pai de família a chegar à crise dos quarenta que desperta de um enorme torpor, nem temos um gangster que procura finalmente estabelecer elos de ligação com o filho, mas sim um casal com dois rebentos que parece ser um modelo para todos aqueles que o observam do exterior embora conte com vários problemas no seu interior. Este casal é formado por Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet), dois elementos na casa dos trinta anos cuja relação está longe de conhecer os tempos de fulgor de quando se encontraram pela primeira vez. Estavam numa festa, eram mais jovens, cheios de sonhos e não tinham filhos. Frank tornou-se num vendedor na Knox Machines, a mesma empresa para qual o pai trabalhou sem nunca ganhar notoriedade. April procura ser actriz, encontrando-se no início do filme a protagonizar uma peça de teatro que não é lá muito bem recebida. Frank transporta-a até casa, mas os seus diálogos revelam-se exasperantes com este a não ter problemas em falar do fracasso da peça, embora tente realçar o esforço da esposa. É um elogio que soa quase a insulto e desprezo para com a peça, com ambos a irromperem numa longa discussão fora do carro que quase termina com Frank a agredir a esposa. Logo retomam a compostura e regressam para a casa de ambos, localizada no número 115 em Revolutionary Road, um local nos subúrbios de Connecticut a fazer recordar as imediações da habitação dos protagonistas de "American Beauty", a primeira longa-metragem de Sam Mendes. Em "Revolutionary Road" este volta a explorar as dificuldades relacionadas com o matrimónio, mas sem humor negro à mistura, bem pelo contrário, tendo como pano de fundo os EUA durante os anos 50. A relação entre Frank e April já conheceu melhores dias. Ainda parecem amar-se e parecem apostar tudo numa mudança para Paris, onde esta trabalharia como secretária numa agência governamental e Frank teria tempo para pensar naquilo que queria fazer na vida, deixando finalmente de lado um emprego que despreza e não o motiva. Os planos de ambos parecem algo mais de "fuga para frente", sem pensarem muito na adaptação dos filhos e até na forma como viverão em Paris, mas é uma ideia que inicialmente não lhes parece descabida a ponto de contarem a Milly Campbell (Kathryn Hahn) e Shep (David Harbour), um casal que vive nas imediações e forma amizade com os Wheeler, bem como a Helen Givings (Kathy Bates), a agente imobiliária responsável por lhes vender a casa. Estes vivem numa habitação espaçosa, uma vivenda com dois andares, marcada por todas as comodidades, localizada num território calmo, com ambos a parecerem viver uma vida perfeita, pelo menos para quem os observa de fora. Vivem de aparências que aos poucos se vão desfazendo, enquanto Leonardo DiCaprio e Kate Winslet interpretam um casal destinado à tragédia naquela que é a reunião da dupla após terem protagonizado "Titanic". Individualmente sobressaem, mas é em conjunto que DiCaprio e Winslet mais se destacam em "Revolutionary Road", com Sam Mendes a explorar a dinâmica e talento da dupla, mas também o sólido argumento de Justin Haythe (baseado no livro homónimo de Richard Yates). A própria cinematografia do mestre Roger Deakins contribui para a intensidade dos momentos protagonizados por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, algo notório desde logo na já citada cena do carro com o veículo a tornar-se num meio claustrofóbico com os planos a encontrarem-se fechados e os sentimentos bem abertos, ou discussões bem violentas que são acompanhadas por uma maior mobilidade na câmara de filmar.

 Frank encontra-se desiludido com o seu trabalho. April encontra-se desiludida com o rumo da sua vida. Parece o cocktail perfeito para problemas a curto/médio prazo. Frank envolve-se temporariamente com Maureen (Zoe Kazan), uma das secretárias da empresa onde trabalha. April tem sexo no carro com Shep apesar de desprezar o mesmo, após uma cena de dança onde as cores das luzes do clube nocturno expõem paradigmaticamente o descontrolo emocional em que esta se encontra. Quando April faz sexo com Shep, já a ideia de ir para Paris refazer a vida parece uma miragem. Frank recebe uma proposta irrecusável para ser promovido no emprego, enquanto April descobre que está grávida. Ela quer que este recuse o emprego e pretende abortar, ele pensa exactamente o contrário. Pelo caminho ainda vamos assistir a duas reuniões destes com Helen e o esposo, com estes últimos a surgirem acompanhados de John (Michael Shannon), o filho de ambos, um elemento que saiu recentemente de uma clínica psiquiátrica, onde esteve internado devido a problemas do foro mental. Apesar de contar com uma enorme pancada, John é dos poucos elementos capazes de confrontar as contradições de April e Frank, com Michael Shannon a protagonizar alguns dos melhores momentos do filme, enquanto Sam Mendes aproveita mais uma vez o espaço da casa dos protagonistas para transformá-lo num palco de enorme tensão. Muitos dos eventos fulcrais da narrativa desenrolam-se na casa dos Wheeler, onde estes finalmente podem explodir e deixar cair as máscaras de felicidade que aparentam no exterior. Leonardo DiCaprio surge mais uma vez sublime como este indivíduo de classe média, que vive entre a hipótese de cumprir um sonho antigo ou assumir as responsabilidades e os benefícios de um emprego que não o motiva. O actor consegue exteriorizar todas as contradições do seu personagem, um pouco à imagem do que acontece com Kate Winslet. Os personagens interpretados pela dupla de protagonistas erram, traem, gritam, dizem palavras que deveriam ter ficado contidas, expõem os seus sentimentos, amam-se ou pelo menos amaram-se, com o desprezo mútuo a começar a levar a melhor. Uma das maiores qualidades de "Revolutionary Road" é a capacidade de Sam Mendes em nos fazer acreditar nos seus personagens, em conseguir compreendê-los e aos seus problemas, ao mesmo tempo que muitas das vezes damos por nós a concordar ou discordar com April e/ou Frank. No fundo estes procuram cumprir os seus sonhos, tendo no casamento um acto que simultaneamente parece ter sido acertado e um erro. A vida seguiu o seu caminho, mas não acompanhou os sonhos de April e Frank. Uma sombra de frustração envolve estes dois elementos, parecendo impossível que voltem a ser felizes, tendo dois filhos que muitas das vezes descuram. Diga-se que um dos pontos fracos de "Revolutionary Road" é a sua incapacidade em explorar o papel de pai e de mãe da dupla de protagonistas, deixando os petizes muitas das vezes à margem, algo que acontece também com vários personagens secundários, tais como os colegas de trabalho de Frank.

 A nível do elenco secundário já abordámos a prestação de Michael Shannon, embora valha ainda a pena salientar Kathryn Hahn e David Harbour como os Campbell, um casal que também conta com os seus problemas mas parece ser bem menos ambicioso do que a dupla de protagonistas. A viagem para Paris, pretendida por April, é representativa dessa procura da personagem interpretada por Kate Winslet em fugir à realidade quotidiana e recomeçar de novo o casamento, procurando uma lufada de ar fresco na relação. Frank inicialmente até parece gostar da ideia, mas rapidamente se vê perante situações irrecusáveis e dúvidas que provavelmente assolariam qualquer um. Quem rejeitaria um emprego estável e bem pago por algo incerto? Esta questão parece estar presente na mente do protagonista. Já April apenas quer sair dali para fora. A gravidez desta e a sua procura em abortar parece surgir como gasolina para travar um incêndio, com a relação a parecer ter morrido por completo quando Frank revela que traiu April e esta revela-se indiferente. O entusiasmo inicial que encontráramos no primeiro encontro do casal dera lugar a um desgaste difícil de superar. É esta relação que vamos acompanhar ao longo de "Revolutionary Road", enquanto Sam Mendes volta a explorar a dicotomia  do ser/parecer na sociedade contemporânea, ao mesmo tempo que nos deixa perante um casal que vive problemas bem reais. O enredo desenrola-se nos anos 50, mas poderia perfeitamente centrar-se nos dias de hoje. O casal é dos EUA, mas poderia perfeitamente ser os nossos vizinhos ali do lado. Os problemas apresentados por ambos são bem reais: desgaste emocional, expectativas frustradas, erros cometidos, diálogos pouco pensados que trazem mágoa, discussões que inflamam de forma inesperada, questões laborais, entre muitas outras. É nesta humanidade e realismo a representar uma relação que "Revolutionary Road" sobressai, enquanto somos absorvidos para o interior da mesma e ficamos diante das sólidas interpretações de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. Temos ainda a procura de Sam Mendes em reproduzir um pouco a atmosfera da época, não faltando a introdução dos computadores como um negócio em expansão, o guarda-roupa (veja-se a multidão a sair de fato e chapéu do comboio), a decoração das habitações, os comportamentos, embora os sentimentos sejam intemporais. No final, "Revolutionary Road" surge como um drama envolvente, emocionalmente desgastante e intenso, com Sam Mendes a contar ainda com a habitual colaboração de Thomas Newton na banda sonora, algo que é quase sempre um incremento ao enredo das obras do cineasta. Do sonho à realidade, a relação da dupla de protagonistas de "Revolutionary Road" degrada-se diante de nós e pouco podemos fazer a não ser acompanhar atentamente a mesma, com estes personagens a tornarem-se bem reais.

Título original: "Revolutionary Road". 
Realizador: Sam Mendes. 
Argumento: Justin Haythe.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, Kathryn Hahn, David Harbour, Kathy Bates, Ty Simpkins.

27 maio 2015

Estreias da semana - 28 de Maio de 2015

Boa tarde, caros leitores, e bem-vindos a mais um post das estreias.

A partir de amanhã, dia 28 de Maio, estreiam nove filmes nas salas de cinema portuguesas, alguns mais recomendáveis do que outros, e que passarei a distinguir, numa primeira fase, pelo seu género e nacionalidade.

Assim, no que toca ao cinema europeu, temos o húngaro-sueco-alemão "Deus Branco", premiado no Festival de Cannes do ano passado; a comédia francesa "Há Sempre Uma Primeira Vez" e três obras portuguesas: os documentários "Fora da Vida" e "O Indispensável Treino de Vagueza" e o drama "Crime", que pretende adaptar ao cinema a história do assassinato de Carlos Castro.

Chegam-nos ainda dois filmes de ação e aventura, em concreto "Tomorrowland: Terra do Amanhã", espanhol e norte-americano, e "Big Game - Instinto Caçador", uma produção britânica, finlandesa e alemã.

Dos Estados Unidos teremos também o filme de terror "Poltergeist", e de bem longe, da França e da Mauritânia, o drama "Timbuktu".

De todo este conjunto de obras o que mais destaque merece, por agora, da nossa parte, é o drama "Deus Branco", que o Aníbal já viu e apreciou, tendo-lhe mesmo escrito uma crítica que termina da seguinte maneira: «Temos ainda a história de Lili e o progenitor, com "White God" a nunca descurar a sua faceta de drama humano, entre um pai e a sua filha, mas também de uma jovem que se encontra quase na adolescência para não dizer que já chegou mesmo a essa fase da sua vida. Esta tem no professor um indivíduo duro e inflexível, que por vezes procura hostilizar, um elemento que procura ter todos os artistas da banda a funcionarem na perfeição a tempo de um espectáculo que vai reunir diversos espectadores. A utilização da música diegética e não diegética (na maioria música clássica) é sublime ao longo do filme, embora o momento do espectáculo nunca atinja o poder das cenas finais de "White God". Os momentos finais são belíssimos, com tudo a parecer funcionar. A música, a disposição dos personagens no espaço, os sentimentos que despertam, com Kornél Mundruczó a ter um momento de enorme inspiração, numa obra cinematográfica intensa, inteligente e sublime, executada com uma precisão assinalável não deixando por má entregue a dedicatória inicial a Miklós Jancsó.»

O filme foi realizado e escrito por Kornél Mundruczó.

Zsófia Psotta, Sándor Zsótér, Lili Horváth e Szabolcs Thuróczy fazem parte do seu elenco.

Sinopse: Um conto premonitório sobre as relações entre uma espécie superior e o seu inferior caído em desgraça. Banido e traído, "o melhor amigo do homem" revolta-se contra o seu antigo mestre.

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Faço agora questão de realçar a estreia de "Timbuktu", que eu próprio já visionei e apreciei, achando-o um filme competente, e tendo-lhe escrito uma crítica da qual passo a transcrever um excerto: «Aliás, as ideias que eles transmitem não são particularmente novas ou originais – que os jihadistas são pessoas com ideias próprias e sentimentos já o ficáramos a saber em obras como “Paradise Now” ou “Esclavo de Dios”, e que uma ocupação pela via da força, por intermédio de um movimento armado, está destinada a destruir a paz e a democracia da sociedade nativa, penso que também não é segredo para ninguém. Assim sendo, a capacidade do filme em interessar este espetador acabou por residir acima de tudo no drama dos protagonistas que, apesar da simplicidade da sua conceção, é ainda assim envolvente, a espaços emocionante, e protagonizado por atores competentes. E se tal não me parece justificar o verdadeiro frenesi que foi suscitado no último ano à sua volta, é, não obstante, o suficiente para manter qualquer cinéfilo interessado numa história durante a sua hora e meia de duração, fazendo-o, com sorte, querer aprender algumas coisas sobre o que se tem andado a passar nas profundezas da África Ocidental.» 

O filme foi realizado por Abderrahmane Sissako, a partir de um argumento escrito pelo próprio e por Kessen Tall.

O elenco do filme é composto por Ibrahim Ahmed, Abel Jafri, Toulou Kiki, Layla Walet Mohamed, Mehdi A.G. Mohamed, entre outros.

Sinopse: Não muito longe de Timbuktu, agora governada por fundamentalistas religiosos, Kidane vive no deserto com a mulher Satima, a filha Toya e Issan, o pastor de doze anos. Na cidade, as pessoas sofrem com o regime de terror imposto pelos fundamentalistas. A música, o riso, os cigarros e o futebol foram banidos. As mulheres tornam-se sombras mas resistem com dignidade. Todos os dias, os tribunais improvisados decretam leis e sentenças absurdas e trágicas. Kidane e a família têm sido poupados ao caos que reina em Timbuktu. Mas o seu destino muda quando Kidane mata acidentalmente Amadou, o pescador que matou GPS, a vaca preferida da sua manada. Kidane terá então de enfrentar as leis dos ocupantes fundamentalistas.

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Em seguida destaque-se a estreia de "Tomorrowland - Terra do Amanhã", um filme da Disney que pode ter tido George Clooney e Hugh Laurie no elenco mas que, porém, não convenceu os críticos estrangeiros, e consta que o público também não tenha ficado muito impressionado.

O filme foi realizado por Brad Bird ("Mission: Impossible - Ghost Protocol"), através do argumento de Damon Lindelof ("Prometheus") e Jeff Jensen.

"Tomorrowland" conta no elenco com Britt Robertson ("Under the Dome"), Raffey Cassidy ("Snow White and the Huntsman"), Hugh Laurie ("House"), George Clooney ("The Descendants"), entre outros.

Sinopse: Ligados por um destino comum, Frank, um antigo menino prodígio, agora cansado de desilusões, e Casey, uma adolescente otimista e brilhante, cheia de curiosidade científica, embarcam numa missão perigosa para descobrir os segredos de um enigmático local, num tempo e lugar conhecidos como “Tomorrowland”. O que eles vão fazer vai mudar o mundo, e a eles, para sempre.

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Realço agora duas obras da década de 60 do século passado que vão começar a ser exibidas no Espaço Nimas, em concreto "Sou Curiosa" (1967) e "Continuo a Ser Curiosa" (1968), ambas realizadas pelo sueco Vilgot Sjöman.

Passo a transcrever parte da informação presente no site da Leopardo Filmes sobre os mesmos, pois a informação parece ser relevante:

«Objecto de enorme polémica na altura, SOU CURIOSA (1967) é um importante documento para caracterizar a sociedade sueca durante a década de 60, um período marcado pela revolução sexual no país. Enquanto está a fazer um filme, a jovem Lena (interpretada por Lena Nyman), mantém uma relação com o realizador do seu filme, Vilgot Sjöman, que se interpreta a si próprio. Lena é uma jovem activista, constantemente à procura de novas experiências e descobertas. Nesta busca incessante, Lena inicia um processo de descoberta sexual e de compreensão das questões políticas e sociais da Suécia na época.

Quando foi lançado, SOU CURIOSA foi objecto de grande controvérsia e chegou mesmo a ser proibido na Noruega. Nos Estados Unidos, o filme foi alvo de uma acesa batalha judicial, objecto de censura e proibido em várias cidades.

CONTINUO A SER CURIOSA vem complementar SOU CURIOSA, mantendo as mesmas personagens e actores, assim como o confronto com assuntos relacionados com religião, sexualidade e o sistema prisional, ao mesmo tempo que Lena, a personagem principal, explora as suas próprias relações pessoais.»

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Resenha Crítica: "Kreuzweg" (Estações da Cruz)

 De um rigor estético assinalável que se adequa na perfeição ao quotidiano dos elementos que povoam a narrativa, "Kreuzweg" é uma obra cinematográfica que simultaneamente é capaz de gerar a nossa incredulidade, revoltar e arrasar emocionalmente, ao mesmo tempo que deixa a certeza que quem vive fora do "Mundo" destes personagens certamente nunca irá compreender totalmente os mesmos. Somos colocado diante de um grupo de personagens principais que são, na maioria, católicos extremistas, que vivem de acordo com regras muito próprias, sobretudo a protagonista, Maria (Lea van Acken), uma jovem de catorze anos de idade, de tez bastante clara e voz calma, que foi educada no seio de uma família extremamente conservadora. Maria procura dedicar o quotidiano a Deus ao levar um estilo de vida marcado por diversas privações e uma série de regras que são inculcadas não só em casa mas também na unidade da Fraternidade Sacerdotal de São Paulo que esta frequenta. Esta unidade e os ideais que professa são apresentados desde logo na primeira das "catorze estações" de "Kreuzweg". A estrutura narrativa do filme é dividida em catorze estações, cada uma composta apenas por um plano de longa duração, por norma fixo, sem a presença de música não diegética, com uma austeridade que se adequa ao quotidiano destes personagens. Logo na primeira estação, intitulada de "Jesus é Condenado à Morte", encontramos Maria no interior de um grupo religioso, com esta a demonstrar junto do padre Weber (Florian Stetter) que é aquela que parece estar mais informada sobre os assuntos relacionados com a fé, com estes pupilos a preparem-se para serem crismados no Domingo. O extremismo deste padre fica desde logo assinalado nestas suas palavras: "Esta pessoa é um soldado de Jesus Cristo. O sacramento do crisma vai ajudá-los nisto. É uma graça que permite que mostrem uma grande prova de fé". Seguem-se reptos para os jovens evitarem roupas provocadoras, não verem as imagens obscenas que constam nos anúncios, não ouvirem música satânica (rock, pop e até gospel) nem assistirem a filmes considerados prejudiciais, para além de instigar a que incutam esses valores nos outros que os rodeiam (a fazer recordar aquela conversa de treta de que os ateus devem respeitar os crentes quando, por vezes, o contrário não acontece). Este salienta ainda a necessidade de terem de ser efectuados sacrifícios para abrir espaço a Deus para este entrar nas suas almas, mas também que estes jovens são soldados ao serviço de uma causa, criticando o Vaticano e boa parte da Igreja por se afastarem dos valores mais tradicionais. Maria parece levar a sério esses ensinamentos, a ponto de não querer tirar fotografias, nem se embelezar para as mesmas, utilizar apenas a roupa necessária (uma situação que a leva a andar de t-shirt quando o tempo aconselha à utilização de casacos e vestes quentes), confessar-se quando considera ter cometido pecados, travar uma aula de educação física por considerar que a música seleccionada é satânica, sendo obviamente alvo de troça da maioria da turma. A única excepção à regra é Christian (Moritz Knapp), um jovem crente que conhece na biblioteca que parece despertar a sua atenção, embora logo seja obrigada a afastá-lo devido à sua mãe ser contra esta amizade com rapazes, sobretudo com um elemento que frequenta uma igreja progressista ao ponto de cantarem gospel e soul. Maria fica interessada neste rapaz a ponto de mentir à mãe para poder participar nas aulas de canto coral com Christian mas logo acaba por se arrepender, com a progenitora a não poupar numa enorme reprimenda quando descobre a verdade em mais um momento onde os problemas entre estas duas ficam visíveis.

Parece existir algum desejo típico dos adolescentes entre a protagonista e Christian, mas Maria logo procura travar esses ímpetos, com a sua alma a parecer estar em conflito a ponto desta confessar-se junto do padre, num dos raros planos onde ficamos diante de um demorado close-up. A iluminação é diminuta, os pecados que esta tem para expurgar são maioritariamente situações normais para a idade, mas o estilo de vida que a família, o padre e a própria impuseram conduz a regras castradoras da liberdade, com o final do filme a ser o ponto máximo do resultado deste extremismo injustificável. Maria pretende oferecer-se como sacrifício a Deus, encarando este gesto como uma possibilidade do seu irmão mais novo poder começar a falar, algo que ainda não aconteceu, uma situação preocupante se tivermos em conta que este já tem quatro anos de idade (os médicos especulam que este tem autismo mas a mãe da protagonista não parece levar o diagnóstico a sério). Existe algo de genuíno e ingénuo na fé e crença de Maria, independentemente de podermos ou não concordar com a mesma, sobretudo quando esta entra em extremos perigosos que colocam a sua vida em risco. A personagem interpretada por Lea van Hacken habita ainda com mais um irmão e uma irmã, bem como com Bernadette (Lucie Aron), e os seus pais (Franziska Weisz e Klaus Michael Kamp), numa casa marcada por rígidos valores que têm de ser seguidos de forma impreterível. A própria disposição dos personagens numa mera refeição como o jantar demonstra a rigidez dos mesmos, com esta família a apresentar uma visão transviada dos valores que defende de forma extremista, com os vários elementos a parecerem algo desunidos e pouco afectuosos. Veja-se quando Maria se vê na contingência de ir parar ao médico devido ao seu estado grave de saúde, com a mãe a não deixá-la falar, uma situação reveladora da personalidade possessiva e cerceadora da personagem interpretada por Franziska Weisz. Esta actriz sobressai como uma mulher religiosa e conservadora que procura fazer de tudo para que os filhos não se afastem dos valores preconizados por si e pela Igreja que frequenta, uma situação que conduz a alguma fricção com Maria, apesar desta última procurar sempre respeitar a progenitora devido a fazer parte das "leis" religiosas que pratica e professa. Maria é uma personagem difícil que, por vezes, ainda consegue ser mais extremista que a sua progenitora. Por um lado parece querer demonstrar sinais naturais de uma jovem que está na adolescência e a formar a sua personalidade, por outro procura reprimir os seus desejos e entra em extremismos que, associados ao meio em que habita, ainda pioram a sua condição, com a sua saúde a deteriorar-se a olhos vistos. Aceitar quem acredita na religião, tal como quem é ateu, é algo que deveria ser natural. Quando a situação entra em extremismos tudo se complica, algo que "Estações da Cruz" apresenta de forma arrasadora, com Dietrich Brüggemann a realizar com acerto um drama que não nos deixa indiferentes. 

Acima de tudo deixa-nos algo estupefactos ao vermos uma jovem a desperdiçar o seu quotidiano e juventude em extremismos, com o argumento de Dietrich Brüggemann e Anna Brüggemann a retirar inspiração numa instituição real, em particular a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, frequentada pelo pai destes dois irmãos durante uma fase da sua vida. Diga-se que os irmãos Brüggemann não procuram, ou pelo menos não parecem, querer julgar os personagens que criam, nem a sua profissão de fé, deixando essa tarefa para o espectador, embora isso não implique que deixem de procurar questionar este sistema, algo salientado pelo cineasta no press kit: "(...) But I would like to pose a more radical question: Where is abuse in the system? What happens when no one steps beyond his firmly delimited boundaries? When the parish priest gives his confirmation lessons and parents raise their children in conformity with what their conscience dictates? Isn’t this already abuse in itself, not sporadic or sexual, but global and spiritual?". A questão dos abusos sobre o espírito ou sobre a alma remete para a forma como esta rigidez afecta o quotidiano destes personagens, em particular o de Maria, com esta a degradar-se física e mentalmente sem dar por isso, ou talvez até a desejar esta auto-punição para se comparar a Jesus Cristo. Diga-se que em parte esta situação resulta não só da interpretação que esta faz dos ensinamentos a que está sujeita, mas também a quem lhe expõe os mesmos, com o padre na "primeira estação" do filme a exibir paradigmaticamente ser um manipulador nato. Maria não só deseja viver de acordo com a religião como parece disposta a um sacrifício máximo que envolve entregar-se a Deus, com "Estações da Cruz" a surpreender-nos com a jornada descendente desta jovem. A personagem interpretada por Lea van Hacken é uma figura complexa e aparentemente inteligente que nem sempre consegue despertar a nossa simpatia. Por vezes irrita-nos, por vezes faz-nos perceber os seus ideais, com Lea van Hacken a ser essencial para que nunca desistamos de seguir esta jovem bastante distinta da adolescente típica que encontramos regularmente representada nos filmes, tal como não é uma figura que encontremos frequentemente na realidade. Lea van Hacken consegue expor paradigmaticamente o deteriorar físico da personagem que interpreta, as dificuldades que por vezes apresenta em manter-se fiel aos seus valores, ao exibir a curiosidade genuína de Maria em relação a Christian, mas também o amor que esta tem pelo irmão mais novo, as dificuldades que tem em integrar-se junto dos restantes colegas, embora o talento da actriz não chegue para que muitas das vezes criemos empatia para com esta personagem. A relação de Maria com a mãe é complicada, parecendo ainda existir pouco diálogo com o pai, com esta família a defender acirradamente valores que nem sempre cumpre, tal como estão longe de serem um exemplo a seguir. É verdade que estão a defender os seus valores mas, quando estes afectam o bem estar e a saúde física e mental, será que são assim tão benéficos? "Estações da Cruz" levanta-nos uma série de dúvidas de ordem moral em relação a estes personagens, com o filme a tocar em temáticas melindrosas como a fé, a religião e a forma como cada um as encara, interpreta e professa.

A cinematografia contribui para esta atmosfera de alguma austeridade a nível de sentimentos, com a cena no confessionário a ser belíssima, ao mesmo tempo que parece notório que as próprias tonalidades são discretas o suficiente para se adequarem ao enredo. Veja-se desde logo a primeira estação, marcada pelos alunos na sala com o padre, um local algo despojado de adereços, marcado por uma cruz saliente na parede, onde os jovens recebem os ensinamentos e são instigados a espalhá-los para fora do local, com este elemento que os lidera a considerar que parte da Igreja actual encontra-se corrompida a nível de valores, com a Fraternidade Sacerdotal de São Paulo a funcionar como um dos últimos bastiões da defesa da tradição (felizmente não assistimos a queima de livros ou de infiéis ou ao regresso aos tempos da Inquisição). O título original de "Estações da Cruz" (Kreuzweg), remete especificamente para o trajecto seguido por Jesus a carregar a cruz, que vai do Pretório até o Calvário. No caso do filme, ficamos diante de uma adolescente cuja vida é apresentada com alguns paralelismos em relação a Jesus Cristo, uma jovem nem sempre fácil de compreender, algo que por vezes nos faz prender ao enredo, embora seja praticamente impossível abraçar por completo este universo narrativo. Podemos não concordar com os ideais desta e da sua família, mas também não deixamos totalmente de a procurar compreender, questionar e perguntar o que faríamos se nos deparássemos com figuras do género. São elementos complexos, que tomam atitudes nem sempre compreensíveis, com "Estações da Cruz" a nem sempre ser uma obra fácil de acompanhar, com o seu excessivo rigor, apesar de um ou outro momento de maior leveza, a muitas das vezes impedi-la de retirar um golpe de asa que a faça sobressair ainda mais, apesar das várias questões pertinentes que instiga junto do espectador ao expor um caso inerente a uma instituição que nem anda assim tão distante de outras do género. Os cenários e a composição dos planos remetem muitas das vezes para uma estética teatral, com os personagens a estarem durante um longo período nos mesmos espaços ao longo de cada "estação" da narrativa, notando-se todo um enorme cuidado, incluindo na disposição dos elementos. Diga-se que a devoção de Maria a espaços nos faz recordar o protagonista de "Journal d'un curé de campagne", um padre que procurava viver de acordo com os ideais religiosos, que levava uma vida de privações, de gestos e atitudes nem sempre compreendidas pelo espectador, nem por aqueles que o rodeavam, com a protagonista de "Estações da Cruz" a poder figurar claramente nestes personagens bressonianos. Maria é incompreendida pela mãe, embora procure a sua aprovação, é praticamente ignorada na escola, tendo na fé e na Igreja dois baluartes que a consomem de maneira indelével. Com uma cinematografia praticamente imaculada, "Estações da Cruz" surge como uma obra cinematográfica filmada com grande rigor, capaz de nos fazer questionar sobre o extremismo religioso e os personagens que povoam a narrativa, ao mesmo tempo que nos apresenta a Lea van Hacken, uma agradável surpresa a nível da interpretação, embora a adolescente a quem esta dá vida nem sempre seja uma figura fácil de gerar empatia.

Título original: "Kreuzweg".
Título em inglês: "Stations of the Cross".
Título em Portugal: "Estações da Cruz". 
Realizador: Dietrich Brüggemann.
Argumento: Dietrich Brüggemann e Anna Brüggemann.
Elenco: Lea van Acken, Florian Stetter, Franziska Weisz, Ramin Yazdani, Lucie Aron, Moritz Knapp.

26 maio 2015

Resenha Crítica: Timbuktu

     Garanto que não é minha intenção começar todo e qualquer texto com um pequeno contexto histórico, mas é-me difícil usar outro método quando, não sei bem por que motivo, a História não cessa de me perseguir, invadindo-me o domicílio e impregnando-me os textos, muitas vezes contra a minha vontade. Assim sendo, desprovido de alternativas, e há quem diga que entre a espada e a parede, resta-me confiar na benevolência do inocente leitor que, desconhecendo ao que veio, não se importará de ser encaminhado momentaneamente para a cidade maliana de Timbuktu, localizada no extremo meridional do deserto do Saara. As suas origens remontam à Idade Média e em concreto ao século XII, a partir do qual se tornou num próspero centro económico e cultural, envolvido no comércio de ouro, de escravos e até de livros, com universidades islâmicas, até entrar em declínio no século XVII. Como é hábito nesta região de constantes lutas por poder e por matérias-primas, o seu governo foi mudando de mãos até o Mali ter sido conquistado pelos franceses em 1893, dos quais só se livrou em 1960 com a reivindicação da sua independência. Nos anos que seguiram o país teve uma invulgar estabilidade democrática e, como tal, entrou numa fase de prosperidade.
     Infelizmente, no início do nosso século, apesar da sua aparência estável, a governação maliana acabou mesmo por tombar perante as ameaças externas e internas que se tinham vindo a incitar, mutuamente, nos últimos anos. Em 2012, por parecer incapaz de suprimir uma rebelião separatista no norte do país que, entretanto, já se transformara numa violenta guerra civil, o presidente do país Amadou Touré foi deposto mediante um golpe militar. Aproveitando a convulsão que se seguiu no exército nacional, dois movimentos, um separatista e outro religioso, o segundo uma ramificação da Al Qaeda, cooperaram para a captura da cidade de Timbuktu. Os destinos dos seus habitantes, outrora salvaguardados por um sistema democrático, passaram a concentrar-se nas mãos dos cabecilhas dos movimentos, manipuladores de uma rede de poder representada localmente por jovens militantes legitimados por metralhadoras. Sem qualquer tipo de controlo sobre a sua própria segurança, ciente de que estava refém dos caprichos dos jihadistas, os habitantes cristãos abandonaram o território. Aos muçulmanos que soçobraram determinou-se a sujeição à lei islâmica (ou sharia), escrita pelos terroristas e disseminada à população não apenas por altifalante mas, também, porta a porta, para que ninguém se desculpasse argumentando que não a tinha ouvido. Estabelecia-se que, a partir de agora, o seguimento dos costumes ocidentais era uma ilegalidade, pelo que quem ouvisse música ou jogasse à bola seria punido com chicotadas; estipulava-se ainda às mulheres que teriam que cobrir-se totalmente de véus, sendo algumas delas obrigadas a casarem-se com os militantes do movimento armado, simplesmente por abuso de poder. Aos casais adúlteros reservava-se o apedrejamento até à morte, e aos homicidas uma célere execução com um julgamento feito no próprio dia.
     A ocupação da cidade de Timbuktu acabou chamar a atenção de Abderrahmane Sissako por causa de um episódio em particular que nela teve lugar, e que foi divulgado posteriormente num artigo noticioso que mencionava, precisamente, a morte de um casal adúltero, ou seja não casado, por apedrejamento. Dedicado na última década à realização e produção de filmes relacionados com os conflitos armados e com a exploração dos direitos humanos perpetrados no continente africano, muitos deles baseados em casos verídicos, Sissako enveredou então pela realização da obra em causa, com o propósito de retratar a influência da ocupação dos radicais no modo de vida dos habitantes da cidade e na destruição da sua cultura, o que se simboliza logo na cena inicial do filme quando vemos um grupo de guerrilheiros a fazer tiro ao alvo com um grupo de estatuetas fabricadas na região. Este retrato foi essencialmente alicerçado na construção de uma trama principal, centrada numa família de pastores do território com quem é fácil criar empatia tal a simpatia e os valores morais que eles nos transmitem, complementada com um ou outro episódio protagonizado por algumas figuras secundárias, tanto radicalistas como habitantes da cidade, que nos proporcionam a perceção de uma ideia geral da ocupação, dando-nos a conhecer os seus intervenientes e algumas das suas indefesas vítimas.
     A trama centrada nos pastores é de fácil descrição. Comecemos por imaginar o seu lar simples, mas acolhedor: uma tenda negra e espaçosa, implantada no topo de uma duna, com uma vista privilegiada para o gado e para uma extensão de areal que se estende em todas as direções; um lugar aprazível e sereno, inviolado pela ação humana. O patriarca da residência é Kidane (Ibrahim Ahmed), um homem armado de modos gentis e de um tom de voz tranquilo, de barba curta coberta por um inseparável turbante azul que lhe envolve o pescoço (o alasho). O afeto que sente pela família é particularmente evidente, e por vezes até interrompe o silêncio da noite com os acordes da sua guitarra acústica, tocando algumas belas canções complementadas com a voz da esposa (momentos musicais que seriam proibidos pelos jihadistas, mas o isolamento do local, situado no meio do deserto, sempre permite o exercício de mais algumas liberdades). A matriarca, por sua vez, chama-se Satima (Toulou Kiki) e também ela transparece uma perpétua segurança através dos seus gestos e da sua expressividade, transmitindo ainda uma ideia de força e de rebeldia numa cena em que, ao ser visitada por um dos líderes do movimento ocupante, não faz questão de parar de lavar o cabelo e nem sequer de o tentar disfarçar – uma atividade que na cultura islâmica está associada ao erotismo - respondendo desafiante ao cabecilha que, se ele tiver problemas com isso, que olhe para outro lado. À semelhança do marido tem uma adoração incomensurável pela filha Toya (Layla Walet Mohamed), uma menina de doze ou treze anos com uma intocável aura de inocência, originada a partir de um larguíssimo sorriso e da genuinidade das suas emoções. O agregado complementa-se muitas vezes com outra criança, um órfão mais jovem do que Toya contratado para passear o gado pelas terras circundantes, tarefa que faz com entrega e com humildade.
     As circunstâncias mudam inesperadamente quando, num fim de tarde, passeava o órfão os seus bovinos de uma ponta à outra de um lago e, sem que ninguém o adivinhasse, uma das vacas, apelidada carinhosamente de GPS, agita-se como se possuída por uma entidade raivosa e investe contra as redes de um pescador, deitando-as abaixo com desmedida violência. Irritado por já ter avisado o órfão, inúmeras vezes, que afastasse as vacas do seu território, o pescador agarra uma lança com o braço direito e, sem proferir uma única palavra, projeta-o contra o pescoço do animal, fazendo-o baforar pela última vez. Embasbacado pelo choque e acometido pelo pânico, o jovem esquece-se completamente das vacas e acorre à tenda dos protagonistas para, no meio de uma choradeira, relatar a Kidane os contornos do assassinato – (receio estar a revelar demasiados pormenores da história mas garanto o leitor de que eles são relevantes para a exposição dos meus argumentos); continuando - ao escutar atentamente o relato da criança Kidane fica ineditamente furioso; como se não bastasse ver-se privado de uma das suas preciosas cabeças de gado, a vítima fora logo a GPS. Ignorando os rogos da sua mulher o homem pegará num revólver resguardado nas profundezas da sua tenda e guarda-o entre as suas túnicas, encaminhando-se resoluto em direção ao pescador. O que se sucederá posteriormente parecerá repentino, e por isso ligeiramente forçado. Digamos que passadas poucas horas Kidane será encarcerado, com perspetivas de futuro pouco promissoras. A narrativa, a partir deste momento, torna-se mais intensa, agarrando-nos até ao seu final.
     O desenrolar desta trama será intercalado com a exposição de alguns breves episódios protagonizados por um conjunto de personagens secundárias que, apesar de terem um impacto quase insignificante na narrativa, sempre permitem a transmissão de algumas ideias-chave por parte do realizador. Uma delas, provavelmente a principal, é a da resistência da população de Timbuktu às leis arbitrariamente impostas pelos movimentos radicais. É neste sentido que, logo após o estabelecimento da proibição de jogar futebol, nos é mostrada uma cena simbólica, acompanhada por uma bela banda sonora, em que um grupo de jovens divididos em duas equipas imaginam estar na posse de uma bola e fantasiam passes e fintas entre si, criando jogadas e celebrando por fim os seus golos invisíveis, contornando assim a imposição; tal como nos é informado que ouvir música passou a ser um crime, o que não impediu um grupo de jovens inconformados de interpretar algumas belas canções, durante a noite para que todos os ouvissem, resistindo até ao momento em que são presos e açoitados publicamente mas, mesmo aí, entoando corajosamente um verso entre cada chicotada.
Mas Abderrahmane Sissako parece ser um cineasta de muitas ideias e, apesar de neste caso ele não as ter aprofundado pelo que, apesar de tudo, elas não superam a superficialidade, a verdade é que elas andam por aí, sendo abordadas num ou noutro ponto da narrativa, prontas a serem transmitidas ao espetador: para mencionar os abusos de poder perpetrados pelos jihadistas concebeu-se um episódio em que uma mulher é obrigada a casar-se com um membro de um movimento; para nos expor às suas contradições exibiu-se um guerrilheiro a fumar às escondidas quando o tabaco lhe estava interdito; para demonstrar que os muçulmanos mais sensatos condenam as intervenções militares ilustrou-se um imã a chamar à razão, na sua voz sereníssima, um membro das forças ocupantes; e de forma a mostrar que os jihadistas não são monstros sanguinolentos sem coração inventou-se um jovem a tentar proferir uma mensagem de apoio ao movimento numa câmara de filmar, mas sem sucesso por causa das suas próprias dúvidas, para não falar de um dos líderes dos guerrilheiros a aprender a conduzir um automóvel, entusiasmando-se como uma criança. Noutra cena ilustrou-se o choque de culturas entre as forças ocupantes e as ocupadas e salientou-se a inexistência de um sentimento de pertença dos terroristas em relação a este espaço, ao evidenciar-se a necessidade, por parte de um dos líderes dos guerrilheiros, em recorrer a um tradutor para comunicar com a esposa de Kidane, por desconhecer o dialeto local.
     A ilustração tanto destes episódios como da trama principal beneficia de um trabalho técnico de saludar por parte de Abderrahmane Sissako e dos seus colaboradores. Se fiz questão de mencionar a banda sonora da autoria de Amin Bouhafa, na descrição daquele jogo de futebol imaginário, elogie-se também a cinematografia de Sofian El Fani que sobressai principalmente no aproveitamento dos espaços onde se desenrola a narrativa, tanto nos mais abertos que nos proporcionam uma perspetiva geral da cidade e do deserto que a rodeia, criando uma sensação de isolamento em alguns locais como naquele em que habitam os protagonistas, como nos sítios mais fechados, como se comprova numa das cenas iniciais em que um travelling nos expõe com habilidade a completa disposição de uma mesquita enquanto acompanha a entrada de um grupo de guerrilheiros no templo, mostrando a divisão do edifício em filas de colunas às quais se encostam alguns crentes muçulmanos em oração. Encontramos igualmente outras cenas relativamente memoráveis graças, acima de tudo, aos atores que as interpretam, como sucede com as que são protagonizadas pelo referido imã, cujo tom de voz soleníssimo reforça a sua irrefutável sabedoria, e por Kidane, principalmente no quase-monólogo dramático proferido após o seu encarceramento e na véspera do seu julgamento.
     Há que reconhecer, no entanto, que não obstante as suas inegáveis qualidades há também limitações evidentes em “Timbuktu” que residem essencialmente na construção da sua narrativa. Recapitulemos, então, uma observação enunciada há poucos parágrafos: a intenção de Sissako em realizar o filme pareceu consistir, acima de tudo, na exposição da ocupação dos movimentos extremistas da cidade maliana – daí a ser associado ao género da docuficção – e na transmissão da ideia de que, a partir dessa ocupação, a cidade passou a reger-se por uma completa arbitrariedade legitimada unicamente pela força de certos indivíduos com armas de fogo. Para levar a cabo esta intenção, o cineasta alicerçou a história numa trama principal com personagens por quem é fácil nutrir empatia e complementou-a com a exposição de alguns episódios que expõem as consequências e alguns dos intervenientes da ocupação. A questão, aqui, é que estes episódios não acrescentam quase nada à trama principal e se por um lado nos proporcionam uma ideia geral do ambiente vivido na cidade e nos mostram, como raramente se vê, a perpetração de violência entre membros da mesma religião e não unicamente contra ocidentais, por outro são superficiais, muitas vezes gratuitos, e uma simples curiosidade, protagonizados por indivíduos demasiado secundários para dizerem o que quer que seja ao espetador. Aliás, as ideias que eles transmitem não são particularmente novas ou originais – que os jihadistas são pessoas com ideias próprias e sentimentos já o ficáramos a saber em obras como “Paradise Now” ou “Esclavo de Dios”, e que uma ocupação pela via da força, por intermédio de um movimento armado, está destinada a destruir a paz e a democracia da sociedade nativa, penso que também não é segredo para ninguém. Assim sendo, a capacidade do filme em interessar este espetador acabou por residir acima de tudo no drama dos protagonistas que, apesar da simplicidade da sua conceção, é ainda assim envolvente, a espaços emocionante, e protagonizado por atores competentes. E se tal não me parece justificar o verdadeiro frenesi que foi suscitado no último ano à sua volta, é, não obstante, o suficiente para manter qualquer cinéfilo interessado numa história durante a sua hora e meia de duração, fazendo-o, com sorte, querer aprender algumas coisas sobre o que se tem andado a passar nas profundezas da África Ocidental.

Fica técnica:

Título original: Timbuktu
Realização: Abderrahmane Sissako
Argumento: Abderrahmane Sissako e Kessen Tall
Elenco: Ibrahim Ahmed, Abel Jafri, Toulou Kiki, Layla Walet Mohamed, Mehdi A.G. Mohamed, entre outros.