31 março 2015

Adewale Akinnuoye-Agbaje vai interpretar Killer Croc em "Suicide Squad". Quad de "Spooks: The Greater Good". Hugh Jackman vai protagonizar "Apostle Paul". Quad da série "Daredevil". Notícias - 31 de Março de 2015: Parte 2

- O The Wrap noticiou que Adewale Akinnuoye-Agbaje ("Lost") vai integrar o elenco de "Suicide Squad". Adewale Akinnuoye-Agbaje vai interpretar Killer Croc. O filme vai ser realizado por David Ayer e produzido por Charles Roven. "Suicide Squad" conta ainda no elenco com Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Jai Courtney, Cara Delevingne e Joel Kinnaman. Smith vai dar vida a Deadshot. Leto vai interpretar o icónico Joker. Robbie vai dar vida a Harley Quinn. Courtney ficou com o papel de Boomerang, enquanto Delevingne vai interpretar Enchantress. Joel Kinnaman vai interpretar Rick Flagg. Jay Hernandez vai dar vida a El Diablo. O enredo centra-se numa equipa de supervilões que é designada para cumprir missões secretas para o Governo.

- Foi divulgado um quad de "Spooks: The Greater Good", a adaptação cinematográfica da série britânica "Spooks". O filme é realizado por Bharat Nalluri, um cineasta que realizou alguns episódios da série (incluindo o primeiro). O argumento ficou a cargo de Jonathan Brackley e Sam Vincent (dois dos argumentistas de "Spooks"). Quad via IMP Awards.
A série foi criada por David Wolstencroft, tendo contado com dez temporadas, exibidas entre 13 de Maio de 2002 e 23 de Outubro de 2011, na BBC One. O filme conta no elenco com Kit Harington, Jennifer Ehle, Elyes Gabel, Peter Firth, entre outros. O enredo de "Spooks: The Greater Good" centra-se em Will Crombie (Harington), um elemento que se junta a Harry Pearce (Peter Firth), um agente do MI5 caído em desgraça, para tentar capturar um terrorista que conseguiu escapar quando se encontrava sob custódia. Estes têm de lutar contra o tempo para travarem um iminente ataque terrorista a Londres.

- O Deadline noticiou que Hugh Jackman vai protagonizar "Apostle Paul", um filme que se encontra a ser desenvolvido pela Warner Bros. O argumento está a cargo de Matt Cook. O filme ainda não conta com um realizador contratado. "Apostle Paul" é baseado na história do Apóstolo Paulo.

- Já se encontra online um quad da série "Daredevil". A série conta no elenco com Scott Glenn, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Rosario Dawson, Vincent D'Onofrio e Charlie Cox. Quad via IMP Awards.
 "Daredevil" tem a seguinte sinopse: Cego quando ainda era um jovem rapaz mas imbuído de extraordinários sentidos, Matt Murdock (Charlie Cox) combate a injustiça durante o dia como advogado, e enfrenta o crime à noite como Daredevil, durante os dias de hoje, em Hell's Kitchen. D'Onofrio vai interpretar o vilão Wilson Fisk, mais conhecido como The Kingpin. Rosario Dawson vai dar vida a uma jovem mulher que procura ajudar a curar as "feridas" de Hell’s Kitchen, algo que a vai colocar no caminho de Matt Murdock. Henson vai dar vida a Foggy Nelson, um advogado e parceiro de Matt Murdock. Deborah Ann Woll vai interpretar Karen Page, um interesse amoroso de Matt Murdock.


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- Em actualização. 

Novo trailer completo de "Mad Max: Fury Road". Matthew McConaughey e Édgar Ramírez vão protagonizar "Gold". Divulgado um novo poster do remake de "Poltergeist". Novo trailer de "Spy". Novo poster de "Self/Less". Trailer de "The 33". Rachel Weisz pode juntar-se a Colin Firth no elenco do filme biográfico sobre Donald Crowhurst. Notícias - 31 de Março de 2015

- O Coming Soon noticiou que Bob e Harvey Weinstein adquiriram o drama "Gold", um filme que vai ser realizado por Stephen Gaghan ("Syriana"). O argumento ficou a cargo de Patrick Massett e John Zinman. O enredo é inspirado no escândalo verídico que envolveu a Bre-X Mineral Corporation, uma empresa do sector mineiro sediada em Calgary. Esta empresa descobriu uma mina que contava com ouro no seu interior, algo que alegadamente se revelou uma fraude. Matthew McConaughey vai interpretar um empresário falhado e explorador que forma equipa com um geólogo/explorador (Édgar Ramírez).

-  Foi divulgado um novo trailer de "Spy", um filme realizado por Paul Feig, através do argumento do próprio.
 O enredo do filme centra-se em Susan Cooper, uma analista da CIA que vai pela primeira vez efectuar trabalho de campo. "Spy" conta no elenco com Morena Baccarin, Melissa McCarthy, Jude Law, Jason Statham, Rose Byrne, Miranda Hart, Bobby Cannavale, Allison Janney, entre outros.



- Já se encontra online um novo poster de "Self/less", um filme realizado por Tarsem Singh ("Mirror Mirror"), através do argumento de Alex e David Pastor ("Carriers").  O filme conta no elenco com Ryan Reynolds, Matthew Goode, Michelle Dockery, Victor Garber, Ben Kingsley, Natalie Martinez. Poster via IMP Awards.
O enredo centra-se num indivíduo milionário que, perante o aproximar dos seus últimos dias, decide colocar a sua mente num corpo mais jovem. No entanto, este acaba perseguido pelos elementos que assassinaram o portador do seu novo corpo.

- Foi divulgado um novo trailer completo de "Mad Max: Fury Road". O filme é realizado por George Miller (realizador dos anteriores filmes da franquia), através do argumento do próprio, Nick Lathouris e Brendan McCarthy. "Mad Max: Fury Road" conta no elenco com Tom Hardy ("The Dark Knight Rises"), Charlize Theron ("Prometheus"), Nicholas Hoult ("X-Men: First Class"), Riley Keough ("Magic Mike"), Zoe Kravitz ("X-Men: First Class"), Adelaide Clemens ("Silent Hill: Revelation 3D"), Rosie Huntington-Whiteley ("Transformers: Dark of the Moon"), Megan Gale ("Stealth"), entre outros.

 "Mad Max: Fury Road" desenrola-se numa paisagem desértica localizada nos confins do planeta Terra, um território onde quase todos os seres humanos lutam desesperadamente pela sua sobrevivência. Existem dois rebeldes em fuga que podem ser capazes de restaurar a ordem no interior deste mundo marcado pelo sangue e o fogo: Max (Tom Hardy), um homem de acção e de poucas palavras, que procura encontrar paz interior após ter perdido a mulher e o filho. Furiosa (Charlize Theron), uma mulher de acção que acredita que o caminho para a sua sobrevivência pode ser alcançado se conseguir atravessar o deserto e regressar ao local onde cresceu.



-  Foi divulgado um trailer de "The 33", um filme realizado por Patricia Riggen ("La Misma Luna"). O filme conta no elenco com Antonio Banderas, Lou Diamond Phillips, Rodrigo Santoro, Juliette Binoche, Juan Pablo Raba, Kate del Castillo, entre outros. O enredo de "The 33" centra-se nos acontecimentos iniciados a 5 de Agosto de 2010, quando a estrutura da mina de São José, em Copiapó, no Chile, cedeu e deixou 33 mineiros presos a mais de 600 metros de profundidade. O longo período necessário para desenvolver o resgate foi acompanhado em tempo real por milhares de familiares, mais de mil jornalistas e foi transmitido ao vivo para vários países. Os mineiros ficaram subterrados durante 69 dias. O argumento do filme foi escrito por José Rivera e contou com a colaboração dos vários mineiros que estiveram presos no interior da mina. O filme vai abordar não só como os mineiros acompanharam toda a situação, mas também a forma como os familiares e os indivíduos responsáveis pelo resgate estavam a lidar com o caso. O filme ainda não tem uma data de estreia definida.



-  O Deadline noticiou que Rachel Weisz encontra-se em negociações para juntar-se a Colin Firth no elenco de um filme baseado na história do infame Donald Crowhurst. O filme vai ser realizado por James Marsh, através do argumento de Scott Z. Burns. O enredo centra-se em Donald Crowhurst, um navegador que enganou a sua família, os organizadores de uma corrida e o público em 1968. Entre os nove competidores da corrida, Crowhurst era o que tinha o pior equipamento e o menos qualificado. Ao ver-se em último lugar, Donald concebeu um plano para enganar o mundo e falsificar as suas localizações nas mensagens enviadas do barco para terra, através do seu rádio Marconi.

- Já se encontra online um novo poster do remake de "Poltergeist". O filme é realizado por Gil Kenan ("Monster House") e produzido por Sam Raimi. David Lindsay-Abaire ("Oz the Great and Powerful") é o argumentista. O remake conta no elenco com Jared Harris, Kyle Catlett, Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, entre outros. "Poltergeist" estreou originalmente em 1982, tendo sido realizado por Tobe Hooper e produzido por Steven Spielberg. Poster via Coming Soon.

Filmes vistos e/ou revistos em 2015 - "Furious 7" (106)

Álbum completo em: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.752316198184904.1073741836.152704134812783&type=3&uploaded=1

Resenha Crítica: "Se, jie" (Lust, Caution)

 A carreira de Ang Lee conheceu um dos seus pontos mais altos com "Se, jie", um thriller marcado por enorme classe, erotismo, espionagem e sentimentos à flor da pele, que nos seduz, conquista, inebria e envolve. É uma das grandes obras do género lançadas neste ainda curto século mas também um dos trabalhos mais conseguidos de Ang Lee, com o cineasta a ser capaz de explorar com igual eficácia a trama relacionada com a missão desenvolvida pela protagonista e o grupo no qual se inseria, a personalidade dos personagens principais, sempre com enorme atenção à representação do período histórico, quer a nível dos cenários, quer a nível do guarda-roupa, quer a nível do contexto político e social. Tendo como pano de fundo locais como Hong Kong e Xangai, durante o período a rondar 1938 e 1942, "Se, jie" pode conter alguns anacronismos mas nem por isso deixa de ser um thriller brilhante e envolvente, marcado por uma história onde um estranho desejo se desenvolve e um assassinato é planeado de forma demorada. A história começa por nos apresentar a Wong Chia Chi (Tang Wei) a jogar mahjong com um grupo de mulheres até se dirigir a um café onde se nota claramente que está a comunicar em código. Durante o jogo de mahjong, assistimos desde logo à meticulosa utilização dos close-ups por parte de Ang Lee, com este a ser capaz de utilizar a expressividade da sua protagonista ao serviço da narrativa, ao mesmo tempo que deixa a câmara de filmar a fitar estas mulheres enquanto jogam. Por vezes a câmara move-se repentinamente, por vezes fica estática diante de um rosto, embora pareça sempre certo que dentro destas mulheres, Chia Chi é aquela que parece apresentar algum desconforto. Depois do telefonema, a história recua até 1938, data em que conhecemos Wong Chia Chi, inicialmente uma jovem e tímida estudante da Universidade de Lingnan que viajou para o território de Hong Kong, após o pai ter partido com o irmão desta para o Reino Unido, prometendo levá-la mais tarde. Esse desiderato não acontece, com esta a partir da China para Hong Kong, enquanto a Segunda Guerra Sino-Japonesa encontra-se a afectar a vida de todos. Cinéfila, inteligente, algo ingénua em relação à vida mas informada em relação ao mundo que a rodeia, Wong Chia Chi procura integrar-se no meio universitário onde conhece Kuang Yu Min (Wang Leehom), um estudante patriota que a convida a integrar o novo grupo de teatro. Esta nunca representou, ao contrário de Lai Shu Jin (Chu Chih-Ying), uma amiga e colega que integrava a companhia de teatro feminina. Estas juntam-se ao grupo, com Chia Chi a impressionar tudo e todos com a emotividade que transmite, assim como Yu Min, um indivíduo que procura exaltar o patriotismo chinês. No final da peça, o público grita "A China não pode ceder", com o grupo a conseguir o objectivo de incitar o espírito de luta contra o Japão. É então que a chegada de Yee (Tony Leung Chiu-wai), um indivíduo conhecido por colaborar com Wang Jingwei, o futuro líder do Governo colaboracionista chinês, conduz a uma mudança no quotidiano destes personagens. Yee é descrito como um indivíduo favorável ao Japão, capaz dos actos mais hediondos para manter o seu estatuto de poder, embora nunca vejamos este a colocar em prática as suas "habilidades". É então que o grupo decide eliminar Yee de forma a conseguir na prática vingar-se de um indivíduo que consideram ser traidor da China. O plano passa por instalarem-se temporariamente numa habitação e fingirem que Wong Chia Chi e Auyang Lingwen (Johnson Yuen) formam um casal. Estes assumem os nomes de Srª e Sr. Mak. Ela é uma dona de casa, ele é um homem de negócios do ramo das exportações e importações. Sorte ou azar, Chia Chi forma amizade com a Srª Yee (Joan Chen), participando nas partidas de mahjong com esta e as amigas, aconselhando um alfaiate, locais para passear e restaurantes à esposa do alvo destes personagens.

Os Yee chegaram recentemente a Hong Kong, tendo ainda formado poucas amizades, em parte devido à atitude cautelosa do personagem interpretado por Tony Leung. Este pouca abertura dá a Chia Chi, parecendo ter todos os seus movimentos acautelados de forma a não ser surpreendido por algum atentado à sua integridade. Passado um mês, o grupo continua sem conseguir cumprir os seus intentos, algo que gera algumas tensões internas a ponto de se temer o pior. Um convite para ir a um alfaiate e jantar por parte de Yee a Chia Chi demonstra um interesse inesperado deste na jovem, algo que traz uma reviravolta na conjuntura do grupo e na missão. Yee é um indivíduo discreto, aparentemente calmo e ponderado que esconde dentro de si um lado mais violento, embora se deixe atrair pela protagonista, um sentimento que inicialmente não é recíproco. A aproximação deixa os revoltosos entusiasmados mas este sentimento logo é esbatido quando o casal Yee tem de regressar a Xangai devido ao facto do personagem interpretado por Tony Leung ter sido promovido, encontrando-se encarregue das operações de espionagem de Wang Jingwe. A operação do grupo sai frustrada. Em 1942, Chia Chi reencontra Kuang em Xangai. Este agora é um agente secreto ao serviço do KMT que procura lutar contra a ocupação japonesa do território. A ocupação é exposta desde logo em situações como a protagonista a passar a ter aulas em japonês, mas também na dificuldade a nível de circulação de bens e uma apertada segurança, com Ang Lee a atribuir características opressoras a este território de Xangai. Chia Chi é incitada por Kuang a retomar a missão e reintegrar-se no círculo dos Yee. A protagonista recebe ordens estritas que não pode falhar, caso contrário o seu destino será o mesmo das suas antecessoras: a morte. Yee não apresenta contemplações para com os traidores pelo que esta terá de ter um imenso cuidado para conseguir seduzir este homem a um ponto em que este baixe a guarda e seja possível os elementos ligados ao KMT assassinarem-no. A sedução demora mas é conseguida. Inicia-se um jogo de parte a parte, com Yee a utilizar a força para conseguir os seus intentos. O primeiro acto sexual entre ambos é brutal e doloroso. Este ata as mãos de Chia Chi com o seu cinto e penetra-a violentamente. Posteriormente assistimos a cedências de parte a parte, mas também uma maior intimidade, com Tony Leung e Tang Wei a protagonizarem alguns momentos mais quentes e sexualmente explícitos, enquanto os personagens que interpretam parecem começar a nutrir estranhos sentimentos um pelo outro. Ela continua a reunir-se com os elementos que resistem contra a ocupação japonesa e os colaboracionistas, chegando a descrever algo repugnada os actos sexuais que tem de praticar com Yee. Ele aos poucos parece começar a nutrir algo mais pela protagonista do que simples desejo sexual e de dominar uma mulher que inicialmente lhe parecia resistir. As relações sexuais entre ambos, excepção feita à primeira, são marcadas por algum erotismo, com Ang Lee a filmar as mesmas com um misto de realismo e sensualidade. Dois corpos unem-se, estranhos sentimentos reúnem-se e dois personagens misteriosos entregam-se aos prazeres e dores que acompanham os seus gestos. Ele quer submetê-la mas acaba por se deixar envolver. Ela quer eliminá-lo mas parece gradualmente perder a coragem para esse acto. Tang Wei surge sublime como esta mulher misteriosa e inteligente, capaz de se envolver numa intriga perigosa ao mesmo tempo que exibe uma série de fragilidades. O seu rosto transmite uma candura e fragilidade que tornam ainda mais impressionante o espírito de sacrifício desta mulher, uma estudante universitária que aos poucos se deixa seduzir pelos ideais nacionalistas de Kuang Yu Min. O seu empenho e lealdade à causa raramente são colocados em causa, a ponto desta ter actos sexuais com Liang Junsheng (Lawrence Ko), um colega do grupo, o único a ter experiência do foro sexual, de forma a perder a virgindade e assim não estragar o disfarce. As relações sexuais desta com Junsheng são marcadas por uma enorme frieza, com esta a demonstrar um desconforto notório, embora demonstrem o quão longe esta se encontra a ir para continuar com o disfarce e concluir o plano para eliminar Yee. A manutenção do disfarce é essencial para a vida desta e a missão não correrem perigo. Ang Lee deixa sempre saliente que a vida destes corre perigo, bastando um pequeno deslize para todos os planos se desmoronarem e todo o esforço despendido ir por água abaixo. É latente a tensão de alguns momentos entre Yee e Chia Chi, com o primeiro a ser um enigma muitas das vezes difícil de ler, enquanto a segunda pode a qualquer momento "espalhar-se ao comprido" e revelar mais do que deve.

Tony Leung, um dos actores mais talentosos da sua geração, consegue incutir um misto de frieza, brutalidade e dissimulação a Yee, mas também alguma sobriedade e capacidade de exprimir sentimentos mais amigáveis. Quando o encontramos a oferecer uma joia caríssima a Chia Chi percebemos que nutre algo mais por esta do que apenas desejo, tal como aos poucos percepcionamos que a relação entre estes dois desemboca em algo mais complexo do que poderia inicialmente aparentar. Ela tem tudo para o odiar. Ele apenas a parece desejar. Aos corpos junta-se a união de sentimentos e a certeza que esta relação pode correr mal, ou ambos não tivessem objectivos e ideais dicotómicos. Yee representa um elemento alinhado com os japoneses, que pensa sobretudo nos seus interesses e manutenção do poder. Os actos violentos e interrogatórios que protagoniza demonstram bem a sua frieza, com a sua brutalidade a ficar desde logo exposta de forma paradigmática no primeiro acto sexual com Chia Chi. Esta é uma jovem inicialmente algo naïve em relação a todas estas questões relacionadas com a política e espionagem, transformando-se ao longo do filme numa mulher confiante, deslumbrante e aparentemente fria. Aos poucos, através de uma identidade falsa, esta parece começar a descobrir o seu próprio "eu", a definir a sua própria personalidade, ideais e modos de agir. É certo que tem directrizes a seguir, mas muito do que alcança deve-se à sua inteligência e capacidade de improvisar embora no último terço nos surpreenda com um acto que pode ser considerado de amor (não revelaremos aqui se à causa ou a Yee). Diga-se que, embora lutem por causas distintas, em alguns momentos Yee e Chia Chi, parecem apresentar mais semelhanças do que divergências. Ambos procuram ser frios, calculistas e pouco dados a sentimentalismos excessivos, mas essa situação nem sempre é concretizada por estes personagens solitários. A dinâmica entre Tony Leung e Tang Wei é sublime, com Ang Lee a conseguir ainda explorar o conturbado contexto histórico que envolve este thriller onde não faltam elementos de espionagem, erotismo e drama, num território de Xangai a lidar com a ocupação japonesa. Alguns elementos colaboram com os japoneses, outros lutam contra a sua presença, mas todos parecem ser peões do destino e dos próprios desejos. Chia Chi e Yee em determinado momento parecem ceder ao desejo, com Ang Lee a filmar muitas destas cenas com um erotismo e beleza latentes, com a própria iluminação a contribuir para a atmosfera sedutora que rodeia algumas destas cenas. Já o contexto é apresentado em elementos como a peça de teatro nacionalista, o filme dos EUA que é interrompido, a presença dos ciclo-riquexós, o guarda-roupa dos personagens, as mudanças políticas e educacionais, as dificuldades em adquirir alguns bens, a existência de um mercado negro bastante activo, embora existam alguns anacronismos à mistura que são facilmente desculpáveis perante uma obra cinematográfica sublime. Diga-se que o próprio fascínio de Ang Lee pelo cinema e as relações conturbadas é visível na figura da protagonista, um cinéfila, mas também pelos filmes em exibição, com "Lust, Caution" a brindar-nos com um poster de "Suspicion" de Alfred Hitchcock, mas também da protagonista a assistir a Ingrid Bergman em "Intermezzo". Diga-se que a história de Chia Chi até está mais para ser entroncada em "Notorious" de Alfred Hitchcock, na qual a protagonista tem de seduzir um elemento nazi, algo que coloca a sua vida em perigo no caso das suas reais intenções serem descobertas. Existem alguns traços noir em "Lust, Caution", algo que vai desde os personagens moralmente ambíguos à atmosfera de malaise que rodeia o enredo, passando pelo próprio cinismo inerente às personalidades e actos destes elementos. Ang Lee atribui sempre algum mistério ao destino da dupla de protagonista, deixando-os sempre no limiar do risco ao mesmo tempo que nos envolve para o interior desta história marcante.

Existe um misto de tensão e erotismo a rodear "Lust, Caution", mas também de medo e sedução, com Ang Lee a explorar um universo narrativo onde ainda existe espaço para diversos elementos secundários sobressaírem. Veja-se o caso de Joan Chen como a esposa de Yee, uma mulher aparentemente simpática que passa boa parte dos seus dias a jogar mahjong com as amigas, ou Wang Leehom como Kuang Yu Min, um personagem idealista que parece demonstrar interesse pela protagonista embora apenas concretize o mesmo de forma tardia. Chia Chi também parece demonstrar interesse por Kuang Yu Min, mas a causa que ambos defendem sobrepõe-se sempre aos sentimentos que escondem um pelo outro. O argumento do filme, baseado no livro "Sè, Jiè" de Eileen Cheng, é competente a explorar os intrincados relacionamentos que envolvem os personagens, mas também a evolução que estes apresentam a nível de personalidade e as mudanças sociais e políticas que acompanham as suas histórias. O contexto histórico é fulcral para compreendermos o comportamento destes personagens. Yee procura defender a posição que conquistou, sendo conhecido pelos seus actos implacáveis perante os elementos revoltosos, chegando ao ponto de expor oralmente alguns dos seus feitos, embora nunca vejamos os mesmos. O poder deste homem aumenta com o avançar da narrativa, embora as suas cautelas em relação a Chia Chi diminuam a um ponto que a sua vida parece estar mesmo em perigo. Chia Chi começa como uma jovem inexperiente na representação que aos poucos se embrenha no mundo da espionagem. É inteligente, leal e disposta a tudo para cumprir os seus intentos, mas a frieza que lhe é exigida por vezes parece difícil de manter. As mudanças desta personagem são desde logo visíveis no contraste das roupas e maquilhagem que apresenta quando a encontramos na universidade e durante os momentos em que se faz passar pela Srª Mak. Na universidade surge simples, com o rosto descoberto, praticamente sem maquilhagem. Como Srª Mak surge com os lábios e unhas pintados de vermelho, mas também uma atitude mais confiante. Essa confiança é desde logo visível no primeiro jantar que tem a sós com Yee, onde a própria banda sonora remete para uma atmosfera de maior intimidade entre ambos, com as duas partes a parecerem estar em "missão de reconhecimento". O jantar apresenta um misto de descontração e tensão, tal como o momento em que ficamos na expectativa se este vai ou não entrar na casa de Chia Chi, algo que contrasta com a cacofonia de sentimentos expostos nas cenas de maior erotismo entre ambos. Ang Lee explora a história destes dois com a complexidade e ambiguidade que a mesma merece. Cada acto sexual entre ambos está longe de ser gratuito, com estas cenas a serem fulcrais para exporem os estados de espírito do casal. Começa com uma cena violenta até gradualmente entregarem-se aos prazeres carnais e partilharem sentimentos. É certo que Chia Chi odeia Yee mas, aos poucos, este sentimento parece mesclar-se com outros mais benignos em relação à figura do personagem interpretado por Tony Leung. Seria possível que a dupla de protagonistas depois de tantos actos sexuais e momentos em conjunto não começasse a sentir algo mais? Ang Lee responde-nos a isso, sempre sem deixar de lado alguma da ambiguidade que envolve os dois protagonistas, mas não vamos aqui revelar o desfecho do filme. O cineasta tem em "Se, jie" uma das suas obras mais recomendáveis, provavelmente não tão popular como "Crouching Tiger, Hidden Dragon", mas talvez seja um dos melhores exemplos onde ficamos perante a perícia de Ang Lee em controlar os ritmos da narrativa, em fazer-nos preocupar com os personagens que habitam a mesma ao mesmo tempo que é capaz de aproveitar o talentoso elenco que tem à disposição. "Se, jie" surge assim como um filme capaz de mesclar de forma competente espionagem e erotismo, ao mesmo tempo que nos coloca diante uma dupla de protagonistas complexa ao longo de uma obra cinematográfica que facilmente nos seduz, seja pelas suas imagens, seja pelos seus valores de produção, seja pelo seu argumento, seja pela sua banda sonora sublime, seja pelo talento de Ang Lee aqui exposto numa magnitude assinalável.

Título original: "Se, jie".
Título em inglês: "Lust, Caution".
Título em Portugal: "Sedução, Conspiração".
Realizador: Ang Lee.
Argumento: Hui-Ling Wang e James Schamus.
Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Tang Wei, Joan Chen, Wang Leehom.

30 março 2015

Novo TV Spot de "Jurassic World". Teaser poster nacional e teaser trailer legendado de "Spectre". Novo poster de "Mad Max: Fury Road". "Home" lidera a tabela do box office dos EUA. Cinco novos posters da série "Daredevil". Novo vídeo promocional de "Lost River". Disney contrata argumentistas para uma nova adaptação cinematográfica da lenda de Hua Mulan. Featurette de "Far From the Madding Crowd". Notícias - 30 de Março de 2015

-  Foi divulgado um novo TV Spot de "Jurassic World". O filme é realizado por Colin Trevorrow ("Safety Not Guaranteed"), através do argumento de Rick Jaffa ("Rise of the Planet of the Apes").
 O enredo de "Jurassic World" desenrola-se vinte e dois anos depois dos eventos de "Jurassic Park". O filme conta no elenco com Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins, Jake Johnson, Nick Robinson, Irrfan Khan, Vincent D'Onofrio, BD Wong, Omar Sy, Judy Greer, Katie McGrath, Lauren Lapkus, Andy Buckley, entre outros.



- O Box Office Mojo disponibilizou online o resultado das receitas de bilheteira entre os dias 27 e 29 de Março de 2015 nos EUA. A liderança ficou para o estreante "Home", um filme de animação realizado por Tim Johnson, através do argumento de Tom J. Astle e Matt Ember. "Home" obteve 54 milhões de dólares em 3708 salas de cinema, valores ainda distantes dos 135 milhões de dólares do seu orçamento. O filme realizado por Tim Johnson já soma 101,5 milhões de dólares ao redor do Mundo. O segundo lugar ficou para outro dos estreantes da semana, a comédia "Get Hard". O filme protagonizado por Will Ferrell e Kevin Hart obteve 34,6 milhões de dólares em 3175 salas de cinema. "Get Hard" conta com um orçamento de 40 milhões de dólares. O terceiro lugar ficou para o anterior líder, "Insurgent", a sequela de "Divergent". O filme realizado por Robert Schwentke obteve mais 22 milhões de dólares em 3875 salas de cinema, contando com uma receita interna avaliada em 86,3 milhões de dólares. "Insurgent" já soma 180 milhões de dólares ao redor do Mundo. O orçamento de "Insurgent" está avaliado em 110 milhões de dólares.

Tabela (via Box Office Mojo):

http://boxofficemojo.com/weekend/chart/

















- Foi divulgado um novo vídeo promocional de "Lost River" (anteriormente "How To Catch a Monster"), o filme que marca a estreia de Ryan Gosling na realização de longas-metragens. O filme conta no elenco com Matt Smith ("Doctor Who"), Eva Mendes ("The Place Beyond the Pines"), Ben Mendelsohn ("Killing Them Softly"), Christina Hendricks ("Drive"), Saoirse Ronan ("The Grand Budapest Hotel"), entre outros.

"Lost River" é descrito como um conto de fadas negro sobre o amor, a família e a luta para sobreviver diante dos perigos. O enredo de "Lost River" centra-se em Billy, uma mãe solteira que procura cuidar dos seus dois filhos. Bones, o filho mais velho de Billy, descobre um mistério relacionado com a cidade de Lost River, o território onde habitam, algo que conduz esta família a protagonizar uma inesperada jornada que vai testar os limites destes elementos.



- Já se encontram online o teaser poster nacional e o teaser trailer legendado de "Spectre", um filme realizado por Sam Mendes, através do argumento de John Logan, Neal Purvis e Robert Wade.
O novo filme da saga James Bond conta no elenco com Rory Kinnear como Tanner, Ben Whishaw como Q, Naomie Harris como Moneypenny, Ralph Fiennes como M, Andrew Scott como Denbigh, David Bautista como Mr Hinx, Monica Bellucci como Lucia Sciarra, Léa Seydoux como Madeleine Swann, Christoph Waltz como Oberhauser, Daniel Craig como James Bond.  Sinopse: Uma mensagem críptica relacionada com o passado de James Bond conduz o protagonista a tentar expor uma organização secreta sinistra. Enquanto M batalha contra forças políticas para manter os serviços secretos a funcionarem, James Bond procura deslindar as camadas para revelar a terrível verdade que envolve a SPECTRE.



- Foi divulgado um novo poster de "Mad Max: Fury Road". Poster via IMP Awards. O filme é realizado por George Miller (realizador dos anteriores filmes da franquia), através do argumento do próprio, Nick Lathouris e Brendan McCarthy. "Mad Max: Fury Road" conta no elenco com Tom Hardy ("The Dark Knight Rises"), Charlize Theron ("Prometheus"), Nicholas Hoult ("X-Men: First Class"), Riley Keough ("Magic Mike"), Zoe Kravitz ("X-Men: First Class"), Adelaide Clemens ("Silent Hill: Revelation 3D"), Rosie Huntington-Whiteley ("Transformers: Dark of the Moon"), Megan Gale ("Stealth"), entre outros.
 "Mad Max: Fury Road" desenrola-se numa paisagem desértica localizada nos confins do planeta Terra, um território onde quase todos os seres humanos lutam desesperadamente pela sua sobrevivência. Existem dois rebeldes em fuga que podem ser capazes de restaurar a ordem no interior deste mundo marcado pelo sangue e o fogo: Max (Tom Hardy), um homem de acção e de poucas palavras, que procura encontrar paz interior após ter perdido a mulher e o filho. Furiosa (Charlize Theron), uma mulher de acção que acredita que o caminho para a sua sobrevivência pode ser alcançado se conseguir atravessar o deserto e regressar ao local onde cresceu.

- Já se encontram online cinco novos posters da série "Daredevil". A série conta no elenco com Scott Glenn, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Rosario Dawson, Vincent D'Onofrio e Charlie Cox. Posters via Coming Soon.

 
 "Daredevil" tem a seguinte sinopse: Cego quando ainda era um jovem rapaz mas imbuído de extraordinários sentidos, Matt Murdock (Charlie Cox) combate a injustiça durante o dia como advogado, e enfrenta o crime à noite como Daredevil, durante os dias de hoje, em Hell's Kitchen. D'Onofrio vai interpretar o vilão Wilson Fisk, mais conhecido como The Kingpin. Rosario Dawson vai dar vida a uma jovem mulher que procura ajudar a curar as "feridas" de Hell’s Kitchen, algo que a vai colocar no caminho de Matt Murdock. Henson vai dar vida a Foggy Nelson, um advogado e parceiro de Matt Murdock. Deborah Ann Woll vai interpretar Karen Page, um interesse amoroso de Matt Murdock.

- O The Hollywood Reporter noticiou que Elizabeth Martin e Lauren Hynek foram contratados pela Walt Disney para escreverem o argumento da nova adaptação cinematográfica da lenda de Hua Mulan. A adaptação cinematográfica em live action deve "beber" alguma da sua inspiração de "Mulan", um filme de animação desenvolvido pelo estúdio. "Mulan" foi realizado por Tony Bancroft e Barry Cook.

- Foi divulgado um novo vídeo promocional da adaptação cinematográfica de "Far From the Madding Crowd", um filme realizado por Thomas Vinterberg ("The Hunt"), através do argumento de David Nicholls. O filme conta no elenco com Carey Mulligan, Matthias Schoenaerts, Michael Sheen, Tom Sturridge e Juno Temple, entre outros.

"Far From The Madding Crowd" foi publicado originalmente em 1874. O livro centra-se em Bathsheba Everdene e nos seus três pretendentes: Gabriel Oak, um pastor; Troy, um sargento ; William Boldwood, o dono de uma quinta. Esta não é a primeira adaptação cinematográfica do livro ao grande ecrã. A versão mais conhecida foi lançada em 1967, tendo sido realizada por John Schlesinger e protagonizada por Julie Christie, Terence Stamp, Peter Finch, Alan Bates, Prunella Ransome.


Filmes vistos e/ou revistos em 2015 - "Phoenix" (105)

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Resenha Crítica: "Suite Française" (Suite Francesa)

 Confesso que queria ter gostado de "Suite Française". Vários elementos contribuíam para este desejo: o elenco é recheado de elementos talentosos e capazes de despertarem alguma da minha simpatia e respeito, entre os quais Michelle Williams, Matthias Schoenaerts, Margot Robbie, Ruth Wilson, Kristin Scott Thomas, Sam Riley, Lambert Wilson, entre outros; os valores de produção são elevados, algo visível no cuidado guarda-roupa e decoração dos cenários, prontos a remeterem para o período de tempo representado, em particular, a ocupação da França por parte da Alemanha durante a II Guerra Mundial; a sua história prometia um romance recheado de enorme ambiguidade moral mesclado com elementos de filmes de guerra. No entanto, estes elementos facilmente são desperdiçados diante de uma realização insípida de Saul Dibb, um cineasta que já revelou ser capaz de elaborar filmes de época em "The Duchess" mas espalha-se ao comprido em "Suite Française". O argumento não consegue atribuir densidade aos personagens secundários nem coerência a diversos momentos da narrativa, para além de falhar por completo ao não conseguir incutir a ambiguidade e complexidade necessárias ao curto romance improvável entre uma francesa casada e um soldado alemão. A francesa casada é Lucille Angellier (Michelle Williams), uma mulher que espera notícias do seu esposo, enquanto habita com Madame Angellier (Kristin Scott Thomas), a sua sogra, uma mulher fria, algo austera de sentimentos, pronta a impor as suas decisões e opiniões. A personagem interpretada por Kristin Scott Thomas procura que Lucille aprenda a gerir os negócios da família, tais como recolher as verbas aos rendeiros que trabalham nas terras possuídas pelos Angellier. Entre esses rendeiros encontram-se elementos como Benoît (Sam Riley) e Madeleine (Ruth Wilson), um casal que conta com dois filhos, para além de Celine (Margot Robbie) e a sua família. Se os rendeiros trabalham a terra, já os Angellier limitam-se a recolher o dinheiro, exibindo o seu estatuto social mais elevado, algo ainda exposto no facto de terem uma das melhores casas da região. A narração em off da personagem interpretada por Michelle Williams, inicialmente útil para nos contextualizar em relação ao enredo e ao ponto da situação, gradualmente torna-se intrusiva, parecendo uma forma preguiçosa de "Suite Française" expor alguns dos sentimentos e episódios do enredo que o argumento, o elenco e Saul Dibb não conseguem desenvolver e explorar de forma competente, incluindo do ponto de vista visual. Tudo muda no quotidiano de Lucille quando os alemães invadem a França, em particular o território de Bussy. Os aviões começam por bombardear o comboio e o espaço campestre, com o pânico a ser geral. Chegam tanques, soldados enfileirados, quase todos frios e unidimensionais, com excepção do Comandante Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts). Este fica instalado na casa de Lucille e da sua sogra, uma decisão que desagrada às duas mulheres. Aos poucos, as melodias que Bruno toca no piano começam a gerar uma estranha atenção por parte de Lucille, embora esta inicialmente evite qualquer fala com o militar. Diga-se que, apesar desta aparente rejeição inicial, a figura deste militar alemão não a deixa indiferente, algo que é recíproco e promete ganhar contornos mais quentes com o avançar da narrativa.

Michelle Williams e Matthias Schoenaerts, uma dupla de talento inegável, conseguem expressar alguns dos sentimentos que os personagens começam a nutrir um pelo outro. Ela receia-o. Ele sabe das suas funções. Ela é uma mulher casada, embora os relatos da sua relação com o esposo pareçam remeter para um envolvimento algo frio, com os dois a praticamente não se conhecerem quando se casaram. O esposo foi combater na II Guerra Mundial contra os alemães, enquanto esta permaneceu neste território rural a tomar conta das terras e propriedades da família, ao lado da sogra. Bruno também é casado, trajando uma farda das tropas das SS, ao mesmo tempo que apresenta um conjunto de comportamentos bastante polidos junto desta mulher. Defendem ideais e causas diferentes, algo que até chegam a expor, mas o argumento raramente atribui a ambiguidade e complexidade necessárias para o iniciar deste estranho romance, com tudo a ser abordado com uma enorme leveza. Bruno von Falk é exposto como um indivíduo que procura cumprir as suas ordens, mas algo isolado dos seus colegas, exibindo um conjunto de comportamentos distintos dos mesmos. Veja-se a diferença em relação ao militar que Benoït e Madeleine recebem em sua casa, com este a logo procurar tirar benefícios sexuais da mesma e escarnecer do facto do primeiro ser coxo de uma perna, necessitando de uma espécie de muleta para andar. Diga-se que não são apenas os alemães que são representados de forma pouco aprazível, com "Suite Française" a deixar-nos também diante de episódios pouco agradáveis por parte dos franceses. A personagem interpretada por Kristin Scott Thomas é exemplo disso, com esta a surgir inicialmente como uma mulher fria e algo odiada pelos rendeiros, não tendo problemas em expulsar a família de Celine da habitação para arrendar a propriedade a um preço mais caro. Temos ainda os exemplos das cartas de denúncia efectuadas pelos próprios franceses contra elementos da mesma nacionalidade, mas também as atitudes do corrupto Visconde de Montmort (Lambert Wilson), um indivíduo que procura colaborar ao máximo com os alemães para manter a sua vida. Lambert Wilson é um dos vários elementos desperdiçados por "Suite Française", com o actor a interpretar o estereótipo do elemento corrupto e colaboracionista nunca chegando a ser um personagem propriamente dito, com Saul Dibb a deixá-lo quase sempre no plano da caricatura. Não é só Lambert Wilson que é pouco aproveitado. Veja-se o caso flagrante de Margot Robbie como Celine, uma mulher que facilmente inicia relações com um alemão, com a actriz a ter pouco tempo para aparecer no ecrã ou conseguir fazer evoluir a personagem que interpreta. Ter elementos como Margot Robbie, Ruth Wilson, Lambert Wilson e afins para não aproveitá-los devidamente faz tanto sentido como ser treinador de futebol, ter o Lionel Messi a 100% e colocá-lo em campo nos descontos apenas para queimar tempo. Diga-se que não é por ter um "mau plantel" que Saul Dibb falha praticamente por completo no campo cinematográfico. Veja-se os casos dos personagens que modificam a personalidade de forma brusca, tal como a sogra da protagonista, com esta a surgir inicialmente como uma mulher fria e temida (o próprio Bruno chega a parecer temer a ira desta mulher), pronta a lucrar o máximo que puder com os rendeiros, até repentinamente alterar os seus objectivos ao ponto de ajudar dois elementos que fogem dos alemães, incluindo um jovem judeu, num momento que parece completamente gratuito. A própria trama entre Lucille e Bruno nem sempre é devidamente desenvolvida, tal como nem sempre são exploradas as subtramas como a de Benoït e Madeleine. Benoït encontra-se revoltado pela presença alemã, com o casal a sofrer as consequências do conflito. Estes já viviam em parcas condições, embora Madeleine ainda mantivesse uma relação de relativa proximidade com Lucille, com esta última a ajudá-la, mas a chegada do militar alemão vem piorar tudo. Ver o que Ruth Wilson consegue fazer na série "The Affair" e depararmo-nos com a personagem que interpreta em "Suite Française" chega quase a ser doloroso, tal a banalidade da mesma, com esta a surgir como o objecto de desejo de um soldado alemão.

Saul Dibb procura ainda expor as alterações ocorridas na cidade de Bussy com a entrada dos alemães no território. Desde posters pró-Alemanha e mensagens anti-judaicas, até à forte presença militar, o território conhece algumas alterações ao longo do período da ocupação alemã, com as forças ocupantes a serem representadas de forma praticamente unidimensional, com excepção de Bruno. A representação simpática de Bruno e a notícia de que o marido de Lucille traía-a e tinha uma filha com a amante tiram ainda mais peso e complexidade ao curto caso entre ambos, com as diferenças que os separam a surgirem demasiado esbatidas. Saul Dibb explora o romance da dupla de protagonistas com uma leveza impressionante quando teria aqui a oportunidade de criar algo de complexo, um pouco como já tinha efectuado com algum sucesso nos relacionamentos em "The Duchess". No entanto, é na casa de Lucille e da sogra desta que ocorrem alguns dos momentos mais inspirados do filme. O cuidado na decoração do cenário é notório, com este a exibir o estatuto social mais elevado desta família. Não falta um piano, mobiliário aparentemente caro e vestuário diversificado numa habitação que é remodelada temporariamente para Bruno ficar no local. Bruno logo é rejeitado pela personagem interpretada por Kristin Scott Thomas, com esta mulher a pretender que Lucille não fale com o mesmo, apesar desta última parecer algo intrigada em relação ao soldado. Michelle Williams consegue exibir um pouco (realçamos mesmo o "um pouco") do seu talento a interpretar esta mulher que tem de lidar com a presença castradora da sogra e de um soldado alemão que lhe desperta estranhos sentimentos. Williams forma uma dupla relativamente convincente com Matthias Schoenaerts, mas esta situação deve-se mais ao talento de ambos os actores do que à densidade atribuída pelo argumento aos personagens que interpretam. Tudo muda quando alguns elementos franceses como Benoït começam a apresentar uma atitude mais violenta contra a presença alemã, com este a eliminar o militar que estava na sua casa, algo que conduz a uma violenta caça ao homem. O desfecho desta busca, bem como de "Suite Française", vai ao encontro das várias incoerências de um filme que nunca parece encontrar o seu tom. Ora procura explorar as questões relacionadas com a ocupação alemã do território francês, algo que envolve não só a presença militar mas também o colaboracionismo ou rejeição dos franceses, ora procura abordar o romance improvável entre a dupla de protagonistas, ora tenta explorar subtramas que pouco são desenvolvidas. Os melhores momentos do filme ocorrem na casa de Lucille, com Saul Dibb a conseguir aproveitar o cenário para desenvolver a estranha relação entre este alemão e uma francesa num período onde supostamente deveriam odiar-se. A possível tensão entre os dois facilmente se esbate devido à inaptidão de Saul Dibb em explorar as diferenças entre Lucille e Bruno. Representa-os antes como dois elementos solitários, que gostam de tocar piano e formam alguns estranhos elos de ligação.

Os momentos de Bruno ao piano influenciam não só a protagonista, mas também a banda sonora do filme, por vezes intrusiva, pronta a marcar a forma como o espectador se deve sentir, numa obra cinematográfica que tinha potencial para muito mais. As incoerências são mais do que muitas. Veja-se o caso do personagem interpretado por Sam Riley, com este em pouco tempo a deixar de precisar da espécie de muleta para andar, conseguindo até fugir numa mota e locomover-se quase normalmente, existindo uma desastrada direcção de actores. A própria representação dos soldados alemães, com excepção de Bruno, fica quase sempre pela caricatura, com "Suite Française" a raramente conseguir distinguir-se de outros filmes que contam com a II Guerra Mundial como pano de fundo. No final fica a ideia que Saul Dibb desperdiçou uma boa oportunidade para criar um drama pungente tendo como pano de fundo a II Guerra Mundial, com o cineasta a tropeçar num argumento desastrado mas também na sua incapacidade de atribuir alguma chama e sentimento ao filme. É uma obra que passa por nós sem deixar marca, recheada de inconsistências, personagens que muitas das vezes não passam dos estereótipos ou caricaturas, algo que a juntar aos elementos associados às línguas faladas e às incoerências da narrativa conduzem a que "Suite Française" seja um fracasso tão grande como as suas ambições. O título remete para a partitura elaborada por Bruno, um compositor antes de ser militar. No entanto, de francês o filme conta apenas com o território, o título e os nomes de alguns personagens, com Saul Dibb a pouco se preocupar com o facto de termos alemães a falarem alemão, tanto entre si como com os franceses, com estes últimos a perceberem quase tudo e, por sua vez, a comunicarem uns com os outros em inglês. Por vezes nem parece que estamos perante um realizador que conta já com alguma experiência e um elenco talentoso à disposição, com o próprio orçamento do filme a não ter sido propriamente baixo para a realidade europeia (cerca de vinte milhões de dólares). Existe ainda uma aparente falta de coragem ou inaptidão para avançar com a exploração de temáticas mais polémicas, tais como a averiguação das cartas com denúncias enviadas ao protagonista de franceses contra franceses. A própria protagonista a certa altura começa a ser encarada de forma ambígua pelos locais, com estes a não saberem bem se a devem tratar como uma heroína capaz de enfrentar os alemães ou uma colaboracionista. Na realidade, esta apenas parece ceder aos seus instintos mais primitivos, com os ideais políticos distintos a serem um entrave inicial mas a não pouparem a dupla a alguns momentos mais quentes. Falta exactamente complexidade e subtileza à relação, algo que incrementaria e muito este filme baseado parcialmente na obra literária homónima de Irène Némirovsky, em particular em "Dolce", a segunda parte do livro. Némirovsky pretendia escrever uma série de cinco obras, mas a sua prisão e morte num campo de concentração conduziram a que só tenha conseguido escrever "Têmpete en juin" e "Dolce". Com um elenco de luxo, uma história promissora e bons valores de produção, "Suite Française" parece contar com todos os elementos para ser uma obra cinematográfica acima da média mas no final resulta numa tremenda desilusão onde Saul Dibb não parece ter "unhas" para "tocar esta guitarra". Costuma-se dizer que sem ovos não se fazem omeletes. Saul Dibb tinha os ovos para a omelete mas, no final, saiu-lhe um pastelão que promete ser facilmente esquecido.

Título original: "Suite Française".
Realizador: Saul Dibb.
Argumento: Saul Dibb e Matt Charman.
Elenco: Michelle Williams, Kristin Scott Thomas, Matthias Schoenaerts, Lambert Wilson, Ruth Wilson, Margot Robbie, Sam Riley.

Festin 2015 - Conheça a programação

 Entre o magnífico "A Despedida" de Marcelo Galvão, o estimulante "O Rio nos Pertence", ou uma obra cinematográfica marcada por enorme leveza como "O Vendedor de Passados", para além do surpreendente "Quando Eu Era Vivo", não faltam filmes para destacar na sexta edição do Festin. A edição de 2015 do certame vai contar com oitenta e cinco filmes, entre longas e curtas-metragens de ficção, documentários e animação, prometendo trazer algumas surpresas e confirmações agradáveis aos cinéfilos. Para além de procurar dar destaque aos filmes em língua portuguesa, o Festin sobressai ainda por ser um dos poucos festivais de cinema nacionais que procura dar o devido destaque ao riquíssimo cinema brasileiro que infelizmente continua a chegar em doses homeopáticas às nossas salas de cinema em circuito comercial. O ano passado foi exemplo disso, com o festival a contar com filmes magníficos como "Elena" e "A Memória que me Contam", bem como o interessante "Cores" e a divertida comédia "Vendo ou Alugo", entre várias outras obras cinematográficas. É já no próximo dia 8 de Abril de 2015 que começa a sexta edição do Festin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa. O festival abre com a longa-metragem de ficção "O Vendedor de Passados", uma adaptação cinematográfica do livro de José Eduardo Agualusa. Com um tom leve e uma premissa interessante, o filme realizado por Lula Buarque de Hollanda conta no elenco com elementos como Lázaro Ramos (o protagonista), Aline Moraes, Odilon Wagner, entre outros. Se o livro de José Eduardo Agualusa tem como pano de fundo o território de Angola, já o filme realizado por Lula Buarque de Hollanda desenrola-se no Brasil, com o cineasta a abordar temáticas ligadas com a identidade e a memória, a dicotomia entre o ser e o parecer, uma sociedade que vive de aparências e o desejo que por vezes podemos ter em alterar o nosso passado, numa obra cinematográfica marcada por uma enorme leveza. O filme tem a seguinte sinopse (via Festin): "Se o passado determina aquilo que somos, uma boa forma de mudar um presente pouco auspicioso é modificar o que nos levou até ele. Esta é a especialidade do protagonista que, através de recursos tecnológicos e muita fantasia, reinventa a história dos seus clientes a ponto de influenciar sua vida atual. Mas a sua existência relativamente pacífica é abalada com a encomenda de uma misteriosa cliente que vai desencadear um processo de envolvimento com o trabalho muito pouco saudável para ele – embaralhando as contas do seu próprio passado". "O Vendedor de Passados" é exibido em antestreia mundial na secção de Competição de longas-metragens, onde constam ainda mais mais nove obras cinematográficas, oriundas do Brasil e Portugal.

 Do Brasil chega-nos ainda uma obra-prima, "A Despedida", um filme realizado por Marcelo Galvão que conta com Nelson Xavier como protagonista. É uma obra cinematográfica belíssima, emocionalmente devastadora, sensível e profundamente humana, onde Marcelo Galvão nos deixa diante de um filme que promete não sair tão depressa da memória e marcar o seu lugar na Sétima Arte. O filme já foi exibido no prestigiado Festival do Gramado (edição de 2014), tendo recebido os mais variados elogios da crítica e o carinho do público, para além de ter vencido quatro dos principais prémios do certame (Realização, Actor, Actriz e Fotografia). "A Despedida" conta com a seguinte sinopse: "Baseado em factos reais, o filme narra a história de um homem de 92 anos que, após presenciar claros indícios de que a sua vida está a chegar ao fim, decide despedir-se de tudo que é mais importante na sua vida e viver uma última noite de amor com uma mulher 55 anos mais nova". Entre as dez longas-metragens em competição, oito são brasileiras, pelo que vamos aproveitar a deixa de termos começado os destaques pelos filmes canarinhos para ficarmos pelos mesmos. Em competição encontra-se ainda "O Rio nos Pertence", uma obra cinematográfica realizada por Ricardo Pretti que faz parte da "Operação Sonia Silk". A "Operação Sonia Silk" é uma pro­dução da DAZA, TB Pro­duções e Alum­bra­mento, em co-pro­dução com o Canal Brasil e a Teleim­age, da qual resultaram os filmes de ficção “O Rio nos Per­tence” e “O Uivo da Gaita”, com a terceira obra cinematográfica a ser “O Fim de Uma Era". Provavelmente uma das obras cinematográficas brasileiras mais desafiadoras e estimulantes entre aquelas que vão ser exibidas na sexta edição do Festin, "O Rio nos Pertence" é um filme de dicotomias onde o próprio território do Rio de Janeiro aparece representado de forma dual. Entre o sonho e o pesadelo, a realidade de um enigmático cartão-postal e a memória de duas mortes traumatizantes, um Rio de Janeiro poético e ao mesmo tempo assustador, uma possível perseguição e reencontros inesperados, "O Rio nos Pertence" surge como um filme algo surreal, estimulante e envolvente, capaz de despertar a nossa curiosidade e atenção. A história é marcada por fragmentos de memórias do passado que assolam o presente, de figuras que parecem espectros que vagueiam sem rumo aparente, a começar pela protagonista, uma mulher misteriosa cujos actos nem sempre são inteligíveis que se sente a ser alvo de uma perseguição. O filme é protagonizado por Leandra Leal, com o elenco secundário a ser composto por Mariana Ximenes e Jiddú Pinheiro. 

 Outro dos filmes com uma forte presença feminina é "Apneia", uma obra cinematográfica realizada por Maurício Eça. O elenco do filme é composto por elementos relativamente conhecidos do público, tais como Marisol Ribeiro, Marjorie Estiano e Thaila Ayala. A história centra-se sobretudo na personagem interpretada por Marisol Ribeiro, uma jovem adulta que padece de apneia e leva um estilo de vida sem rumo e grandes regras. Maurício Eça deixa-nos diante da "cultura do vazio", com as personagens interpretadas por Marisol Ribeiro e Thaila Ayala a terem um quotidiano marcado por saídas nocturnas, conversas muitas das vezes vazias e poucas perspectivas em relação ao futuro. Ainda no campo das figuras femininas vamos ter "Jogo de Xadrez", uma obra cinematográfica que mescla drama prisional, elementos de filmes de fuga da prisão e vingança, tendo como pano de fundo a história de Mina (Priscila Fantin), uma mulher que se encontra detida devido ao envolvimento num escândalo de corrupção. "Jogo de Xadrez" é realizado por Luis Antonio Pereira, contando no elenco com nomes como Priscila Fantin, Carla Marins, Antonio Calloni, Fabio Nascimento, entre outros. Da prisão para uma casa que facilmente se torna num espaço opressor, onde o oculto e a loucura parecem andar lado a lado, temos "Quando Eu Era Vivo", um filme realizado por Marco Dutra que conta no elenco com Marat Descartes, António Fagundes, Sandy Leah, entre outros. O filme tem a seguinte sinopse: "Separado da mulher e sem emprego, Júnior retorna à casa do pai. O que lá encontra já não é o mundo da sua infância mas um ambiente que lhe parece cada vez mais inóspito e opressor. Obcecado pelo próprio passado e pela história da família, vai entrando num universo cada vez mais irreal, no limite entre a sanidade e a loucura, onde se misturam o mundo dos vivos e dos mortos". Dos espaços fechados de uma casa para um road movie intenso e delirante, a secção competitiva conta ainda com "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" de Gustavo Galvão. O filme conta no elenco com Vinícius Ferreira, Marat Descartes, Leonardo Medeiros. Os representantes canarinhos nesta secção terminam com "Alemão", um filme que narra a história de cinco polícias infiltrados que trabalham no terreno para preparar a invasão do Complexo do Alemão. As identidades destes polícias acabam por ser descobertas, algo que vai colocar as vidas dos mesmos em perigo. O filme é realizado por José Eduardo Belmonte. "Alemão" conta no elenco com António Fagundes, Cauã Reymond, Caio Blat, Gabriel Braga Nunes, Marcello Melo Jr., entre outros. Por último, mas nem por isso menos importantes, vamos salientar as únicas longas-metragens portuguesas em competição. Começamos por "Porta 21", um filme realizado por João Marco (vale a pena recordar que a primeira longa-metragem do cineasta, "Além de Ti", também foi exibida no Festin). O filme conta no elenco com Pedro Monteiro, Tânia Silva, Isadora Mateus e André Canário. A sinopse de "Porta 21" é a seguinte (via Festin): "O filme narra a trajetória de um escritor cuja obra ainda inédita é roubada por um amigo. Entre vielas estreitas e outras sombras do mundo urbano, tenta pôr a história a limpo e reescrever a sua própria obra". Na secção competitiva temos ainda "Lura", uma obra cinematográfica realizada por Luís Brás. O filme protagonizado por Filipe Vargas conta com a seguinte sinopse: "Manuel muda-se para a casa agora abandonada que já foi da sua família. Ele tem ideias de reconstruir a sua vida, mas aos poucos vai sendo impregnado pelo enorme peso do passado que acaba por tornar-se mais importante do que o presente". Vale a pena salientar que a presença portuguesa se vai fazer sentir na secção competitiva de curtas-metragens. Nesta secção constam vinte e duas curtas-metragens, oriundas de países como Portugal, Brasil, Angola e Cabo Verde.

O cinema brasileiro continua em destaque na Mostra de Cinema Brasileiro que conta com a exibição de três longas-metragens e cinco curtas (exibidas numa única sessão de 75 minutos). É nesta secção que é exibido "Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho", um filme biográfico sobre Paulo Coelho. O filme é realizado por Daniel Augusto, contando no elenco com Júlio Andrade, Ravel Andrade, Fabiana Gugli, Fabiula Nascimento, Enrique Diaz, entre outros. Esta secção conta ainda com "Um Filme Francês", uma obra cinematográfica realizada pelo prolífico Cavi Borges (vale a pena ler mais sobre este cineasta no artigo do site Revista de Cinema). O enredo de "Um Filme Francês" centra-se em Cléo, uma cineasta que vai fazer o seu primeiro filme, tendo no cinema francês e na nouvelle vague as suas grandes inspirações. Cavi Borges vai ainda estar presente como convidado do festival, para além de ser o produtor de "Setenta", um documentário realizado por Emília Silveira que consta na secção Maratona de Documentários. "Setenta" tem a seguinte sinopse: "Em 1970, setenta presos políticos são trocados pelo Embaixador da Suiça e mandados para o Chile. Este documentário reencontra dezoito personagens desta história, quarenta anos depois. Eles trazem o relato de quem conheceu a dor e a violência, sobreviveu, construiu sua própria história e continua a acreditar que é possível melhorar o mundo". Ainda no âmbito da Maratona de Documentários vamos contar com obras como "(Entre) Cenas" de Rui Simões, um documentário sobre a rodagem de "Os Maias – (Alguns) Episódios da Vida Romântica", adaptação cinematográfica do romance homónimo de Eça de Queirós, pelo realizador João Botelho. Outro dos destaques é "A Nação que Não Esperou por Deus", realizado por Lucia Murat e Rodrigo Hinrichsen. O filme marca o regresso de uma obra cinematográfica realizada por Lucia Murat ao Festin, com a cineasta a elaborar um documentário sobre os índios Kadiwéu. Sinopse: "Em 1999, Lucia Murat filmou Brava Gente Brasileira, um filme de época que contou com a participação dos índios Kadiwéu, que vivem no Mato Grosso do Sul. A Nação Que Não Esperou Por Deus é um documentário sobre essa tribo. Nesses 15 anos, a luz elétrica chegou à aldeia e, com ela, a televisão, as novelas e todo o mundo do entretenimento. Cinco diferentes igrejas evangélicas se estabeleceram na reserva, todas lideradas por pastores índios. Ao mesmo tempo, os Kadiwéu voltaram a lutar pela demarcação de suas terras, retomando áreas em mãos de pecuaristas. O documentário procura mostrar esses diferentes caminhos".

Fora da competição encontra-se ainda a "Mostra Globo Filmes" que conta com diversos títulos co-produzidos pela Globo Filmes. Entre estes títulos encontram-se "Amazônia" de Thierry Ragobert; "Confia em  Mim" de Michel Tikhomiroff; "Confissões de Adolescente" de Daniel Filho e Cris D’amato; "Entre Nós" de Paulo Morelli; "Irmã Dulce" de Vicente Amorim; "Loucas Para Casar" de Roberto Santucci; "Os Caras de Pau" de Felipe Joffily; "S.O.S. Mulheres ao Mar" de Cris D’amato; "Tim Lopes - Histórias de Arcanjo" de Guilherme Azevedo; "Tim Maia" de Mauro Lima. Destes filmes vamos destacar "Entre Nós" e a adaptação cinematográfica de "Confissões de Adolescente". Relativamente bem recebido pela crítica, "Entre Nós" conta com um elenco recheado de nomes talentosos e bem conhecidos do público, como Caio Blat, Carolina Dieckmann, Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, Martha Nowill, entre outros. O filme conta com a seguinte sinopse: "Isolados numa casa de campo, jovens amigos decidem escrever e enterrar cartas destinadas a eles mesmos para serem abertas dez anos depois. Porém, após uma tragédia ocorrida naquele mesmo dia, os amigos ficam dez anos sem se ver. Agora este reencontro irá trazer à tona antigas paixões, novas frustrações e um segredo mal enterrado". Já "Confissões de Adolescente" é baseado na série de televisão homónima, exibida entre 1994 e 1996 na TV Cultura e na TV Bandeirantes. Por sua vez, a série foi baseada no livro de mesmo nome escrito por Maria Mariana. O filme conta no elenco com Sophia Abrahão, Bella Camero, Malu Rodrigues, Clara Tiezzi, Cássio Gabus Mendes, entre outros. As secções do Festin não se ficam por aqui. Veja-se o caso da Festinha 2015, uma mostra dirigida a grupos escolares do 1º e 2º ciclo do ensino básico (6-12 anos),  que este ano conta com 3 longas-metragens e 8 curtas-metragens (as curtas serão exibidos numa sessão de 60 minutos. Entre as longas-metragens, vale a pena destacar "O Menino no Espelho" de Guilherme Fiuza Zenha e "O Segredo dos Diamantes" de Helvecio Ratton, duas obras cinematográficas brindadas por críticas positivas (quatro estrelas) por parte do recomendável crítico Pablo Villaça. 

 Rivais no futebol mas unidos no Festin, Brasil e Argentina reúnem-se com a sexta edição do festival a contar com uma Mostra de Cinema Argentino. Em parceria com o Instituto Cervantes, o Festin apresenta quatro longas-metragens produzidas na Argentina, sendo que três serão exibidas no próprio Instituto Cervantes. A mostra conta com a exibição de "El Crítico", um filme realizado por Hernán Guerschuny; "El Hombre de al lado" de Gastón Duprat e Mariano Cohn, uma obra cinematográfica que conta com um interessante percurso em festivais de cinema, tais como, Mar del Plata Film Festival, Sundance Film Festival, Rio de Janeiro International Film Festival, entre outros; "Mercedes Sosa, la voz de Latinoamérica", um documentário sobre a cantora argentina Mercedes Sosa, realizado por Rodrigo H. Vila; "Tango Negro", um documentário realizado por Dom Pedro que defende a ideia de que o Tango surgiu em meados do século XIX por iniciativa de antigos escravos negros que foram esquecidos pela História nacional. O maior destaque desta secção parece ir para "El Crítico", uma obra centrada em Télles, um severo e prestigiado crítico de cinema que está saturado das comédias românticas e convencido que o melhor da sétima arte já morreu. Se a Argentina conta com uma mostra, Timor-Leste conta com uma homenagem. Esta consiste na exibição de "FRATERNURAS – Domin Maun-Alin", realizado por Maria João Coutinho e Simion Doru Cristea, seguida da mesa-redonda "Timor, Janela Aberta".  Ainda no âmbito das mesas-redondas, vamos contar com os debates: "Cinema x Televisão" (presença do diretor da Rede Globo em Portugal, Ricardo Pereira; o presidente da Globo Filmes, Edson Pimentel; o apresentador da RTP, Mário Augusto; o diretor da empresa de distribuição portuguesa Cinemundo, Nuno Gonçalves, e o produtor e realizador Cavi Borges); "Culturas digitais e consumos alternativos do Audiovisual: oportunidades e desafios para o Cinema em Português" (presença de Rodrigo Saturnino, José Luís Garcia, Jorge Martins Rosa e Marta Sofia Pinho Alves). Esta última mesa-redonda tem como objectivo "debater as oportunidades e os desafios que a cultura digital apresenta ao cinema em português, nomeadamente no âmbito das redes de computação. Considerando não apenas os dispositivos tecnológicos, a produção da imagem e a sua divulgação, será dada uma atenção especial à emergência de novas dinâmicas de consumo e aos novos processos de circulação do audiovisual que emergem a partir da utilização da Internet, incluindo tópicos como a partilha através das redes peer-to-peer, a pirataria e as versões do video-on-demand".

 A edição de 2015 do Festin vai decorrer entre os dias 8 e 15 de Abril. Podem ler mais informações sobre o Festival em: http://festin-festival.com/

27 março 2015

A Semana em Revista - 23 a 29 de Março de 2015


Boa Noite, caros leitores e leitoras que se dão ao trabalho de ler este blog (e também para aqueles que o ignoram e se enganaram ao entrar nesta página), bem-vindos a mais um texto do "A Semana em Revista". Para quem não conhece, esta é uma espécie de rubrica semanal que consiste num post manhoso onde aproveito para efectuar um balanço do que foi feito no Rick´s Cinema ao longo da semana.

O primeiro destaque vai para as cinco críticas publicadas ao longo da semana:
 
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O segundo destaque centra-se nos posts diários ou bidiários que remetem para as notícias do dia, algo que permite agilizar a publicação das mesmas e dar um tom mais pessoal a este espaço. Cada vez mais parece inútil andar dia após dia a publicar notícias de forma sistemática, sobretudo quando cada vez mais sites, blogs, páginas de Facebook e grupos nas redes sociais fazem o mesmo:

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  O terceiro destaque vai para o texto sobre as estreias da semana, escrito pelo Hugo Barcelos:

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Vale ainda a pena salientar a lista de vencedores dos Prémios CCOP 2015 (um grupo do qual eu faço parte):

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Resenha Crítica: "Inherent Vice" ("Vício Intrínseco")


     Estamos no início da década de 70, num bairro de aspeto marginal com ruas estreitas e casas pobres de madeira, situadas à beira do Oceano Pacífico, na cidade de Los Angeles. A metrópole não se assemelha à dos dias de hoje mas calculamos que para lá caminha, com os seus vastos descampados transformados em locais de construção que, mais tarde, resultarão em prédios feios e altos de betão, ocasionalmente sobrepostos a pequenas comunidades cujo destino provavelmente nem chegaremos a saber; uma metrópole composta por uma chusma de chanfrados desprovida de valores morais, refugiada no vício e acorrentada à depravação, avivada por gangues de motoqueiros nazis ou de negros nacionalistas, um departamento policial violento e um detetive com sérios problemas para controlar a sua raiva. No meio deste estranho bando de personagens, no tal bairro à beira do oceano, reside um hippie simpático com patilhas fartas e cabelo despenteado (Joaquin Phoenix), que quando não se encontra a fumar charros está a exercer, profissionalmente, as funções de detetive privado.

     “Inherent Vice” começa precisamente com “Doc” Sportello, (assim é o seu nome), a receber em sua casa uma jovem bela (Katherine Waterston) e de aspeto inocente, vestida com classe e deslocada desta espelunca, que descobrimos ser uma ex-namorada que o protagonista já não via há um ano. Confidencia-lhe ela, preocupada, ligeiramente paranoica até, que agora é a amante de Micky Wolfmann (Eric Roberts), o conhecido magnata do ramo do imobiliário, o qual está em vias de ser internado num manicómio pela sua conspirativa esposa. A própria interlocutora foi convidada a participar no internamento mas, resolutamente, rejeitou a oferta, requisitando o auxílio de Doc para travar a maquinação. Sportello acede ao pedido mas, com pena sua, a conversa não avança muito mais, e a jovem abandona velozmente a sua casa encaminhando-se para o fundo da rua, enquanto escrutina à esquerda e à direita por desconfiar que está a ser perseguida. Instalar-se-á posteriormente no conforto do seu descapotável, agradecendo ao protagonista e arrancando estrada fora, deixando o ex-namorado a observá-la a afastar-se, pela segunda vez, com um olhar triste e demorado.
     Os acontecimentos que se seguem não nos são particularmente claros, tal a forma convulsa com que se vão sucedendo, mas seja como for aplicar-me-ei no seu resumo. Recomecemos no dia seguinte num consultório que Doc, sabe-se lá porquê, possui numa clínica dentária. Um novo caso ser-lhe-á apresentado: um membro da Black Guerrilla Family - uma organização afro-americana marxista revolucionária que, realmente, existiu mesmo nesta época - solicita ao detetive para cobrar o dinheiro que, outrora, um membro da Irmandade Ariana lhe ficou a dever na prisão. Intrigado pela singularidade da aliança, o doutor ainda lhe questiona: «And you say you did business with who, now? The Aryan Brotherhood?»; ao que o revolucionário responde, defensivamente: «Listen, we shared some of the similar opinions about the U.S. Government, that’s all.» Mais importante do que esta simples curiosidade, porém, é o facto de o auto proclamado ariano ser, por coincidência, um dos guarda-costas do citado Micky Wolfmann.
     Doc encaminha-se portanto para um local de construção, propriedade do referido magnata, onde supostamente encontraria o tal nazi, mas, para sua surpresa, depara-se unicamente com um estabelecimento de massagens implantado num espaço completamente desértico. Dirigindo-se à receção é atendido por uma atraente funcionária asiática (Hong Chau) que, infelizmente, descreditará o seu pedido por um «pussy eaters special», serviço destinado unicamente aos membros da polícia. Desencantado com a situação, decide ao invés explorar os cantos do pequeno edifício. Ao virar uma esquina, no entanto, apanha uma bastonada na cabeça, tombando inconsciente e redondo para o meio do chão. Acorda com o sol a bater-lhe na cara, encostado a um cadáver ensanguentado de um tipo com uma suástica na face, e rodeado por dezenas de revólveres e de carros da polícia chefiados por uma das personagens mais curiosas da trama, o detetive "Bigfoot" Bjornsen (Josh Brolin), que com o seu ar de sacana saúda-o alegremente com um: «Congratulations, hippie scum!»
     O relacionamento entre Doc e Bigfoot é extremamente bizarro mas, por mais que pareça alicerçar-se no ódio, desconfiamos que há por ali uma espécie de amizade proveniente doutros tempos. Bigfoot é um fulano estranhíssimo, mais ainda que o protagonista, carregando perpetuamente um olhar duro e pouco amigável que se complementa com uma raiva explosiva e latente, originária de um sentimento enraizado de tristeza. Vemo-lo numa ocasião a desferir pontapés no protagonista só porque lhe apetece, noutra a entrar em sua casa e comer-lhe a erva toda, completamente possuído, e noutra ainda a ajudá-lo numa investigação para depois deixar-lhe vinte quilos de heroína no porta-bagagens do carro. Voltando ao ponto da narrativa em que ficámos, ou seja logo depois de ter apelidado alegremente o protagonista de «hippie scum», Bigfoot encaminha-o para um escritório onde, após proferir uns quantos comentários maliciosos, e antes de o libertar, revela-lhe passageiramente o súbito desaparecimento de Micky Wolfmann da face da terra.
     Nessa mesma noite Sportello recebe dois telefonemas de importantes consequências: o primeiro proveniente de Bigfoot, que por cortesia e também por gozo informa-o de que a sua ex-namorada também desapareceu, e o segundo por parte de uma mulher que requere os seus serviços, pedindo-lhe para ir a casa dela no dia seguinte. Esta inesperada cliente embrenhará o protagonista no seu terceiro caso, ao rogar-lhe que tente descobrir o paradeiro do seu marido, um saxofonista de ar simpático e com um nariz grande (Owen Wilson) que as autoridades consideraram ter recentemente falecido. Escusado será dizer que eventualmente, com o auxílio da asiática da casa de massagens, o detetive descobrirá o paradeiro do saxofonista que, como se suspeitava, se encontra vivo mas a temer pela sua morte.
     Mais curioso ainda será o facto de que, sabe-se lá como, e nem me peçam para explicá-lo porque seria preciso quem escrevesse melhor que eu para o fazer, os três casos investigados por Sportello estão todos interrelacionados e desembocam invariavelmente numa misteriosa organização asiática apelidada de The Golden Fang. Pelo meio deste percurso atribulado, outros fenómenos insólitos desenrolar-se-ão à frente dos nossos olhos, como é o caso da aparição de um prédio moderno e luxuoso com uma turba de dentistas e respetivos clientes viciados em sexo ou em heroína, ou a entrada em cena de um casarão decrépito de dois andares cheio de jovens revolucionários, tanto hippies como nazis, que às tantas se sentam à mesa de jantar para comer pizza como se estivessem a encenar a última ceia. Isto para não falar nalguns episódios protagonizados pelo próprio Sportello, sendo um deles o momento em que a ex-namorada reaparece de repente em sua casa e, antes de uma cena muito breve de sexo, começa a esfregar repetidamente os seus pés descalços na perna do detetive. Esta última cena, aliás, reflete não apenas a proximidade desta atmosfera à de uma alucinação, ou de um sonho, mas também a atenção dada por Paul Thomas Anderson a estes invulgares pormenores, ora focando os pés e as sandálias do protagonista, ora mostrando-o a tratar da sua cabeleira.
     Nunca é de mais salientar este aspeto: desconstruir o sentido da narrativa de “Inherent Vice” não é tarefa fácil de executar. Sucede que enquanto estamos a tentar compreender os contornos de um caso, eis que nos aparece um outro à nossa frente. E se porventura pensamos que a sua resolução é complicada, ei-la tão simples volvidos cinco minutos. E solucionado o caso, o que acontece? Paul Thomas Anderson mostra-nos outro ainda mais irresolúvel. Há reviravoltas em excesso e consequências insólitas, e a maior parte do tempo nem sequer sabemos ao certo o que se está a passar nem como chegamos a este ponto, nem sequer quem são aquelas novas personagens que, de repente, apareceram no ecrã, como quem não quer a coisa. Este aspeto, no entanto, deve ter sido propositado. A ideia de Paul Thomas Anderson terá mesmo passado por conceder um ritmo frenético e imprevisível ao enredo, tão alucinado como o seu estranho protagonista, que, como nós, parece meio perdido nesta sucessão de acontecimentos.
     Para complementar a estranheza da narrativa o realizador envolveu-a numa atmosfera singular que, com algumas influências dos filmes noir dos anos 40, ilustra com um olhar curioso a década de 70 dos Estados Unidos, representando o seu contexto social através das aparições de membros de organizações nacionalistas, hippies, africanas ou nazis, desencantadas com o rumo da política norte-americana, chegando mostrar-nos a figura da personagem de Owen Wilson a gritar revoltado contra o presidente Richard Nixon no que parece ser um comício. Para este ambiente contribuiu também, por exemplo, uma banda sonora cronologicamente posterior e, todavia, adequada a esta atmosfera, e até a introdução de termos linguísticos do calão popularizado neste período, evidente em vários diálogos ao longo do filme e, mesmo, em situações inesperadas, como num anúncio televisivo a uma empresa de Micky Wolfmann, relatado por um tipo de óculos escuros e uma afro imponente, que ao referir-se a equipamentos de cozinha e a empréstimos com juros consegue fazer uso de expressões como «out of sight», «groovy» e «buzz-kill». Este vocabulário também é aproveitado na narração em voz off que vai surgindo de vez em quando na história, proferida num tom estiloso e inteligente, uma semelhança com os filmes noir dos anos 40, levada a cabo por uma amiga do protagonista (interpretada por Joanna Newsom) que, apesar de ter pouco relevo no que quer que seja, parece conhecer bem os seus estados de espírito. Estarão porventura a pensar, e eu próprio não consegui evitar fazê-lo, que escolher uma figura irrelevante como narradora do filme não parece fazer muito sentido, mas relembremo-nos da tendência de Paul Thomas Anderson, em “Inherent Vice”, de privilegiar o que dá mais estilo em detrimento do que seria mais lógico.
     A excentricidade das personagens também se adequa à estranheza desta atmosfera, a começar pela do seu protagonista viciado em erva, um hippie discreto mas muito expressivo, que partilha algumas semelhanças com os detetives dos filmes noir como sucede na sua relação complicada com a lei e com as personagens do sexo feminino, e ainda num constante apego ao seu maço de cigarros. O carisma e o talento de Joaquin Phoenix, bem como o jeito meio tosco e a boa natureza do seu Doc Sportello, fazem com que seja fácil simpatizarmos com esta simpática personagem, que apesar de não ter a perfeita noção daquilo em que se está a meter não deixa de encarar as situações mais insólitas com estranheza, é certo, mas também com aparente despreocupação. A turba de chanfrados estende-se ainda a outras figuras disfuncionais interpretadas por atores talentosos, constantemente focados em close ups, como os já mencionados Josh Brolin e Owen Wilson, sem esquecer um dentista imparável, depravado e viciado em heroína interpretado por Martin Short.
     Após o visionamento de “Inherent Vice” não é difícil de perceber em que consistiram, à partida, as ambições de Paul Thomas Anderson. Já compreendemos, através de entrevistas, que é um apreciador dos romances de Thomas Pynchon, e que a escrita dele fá-lo sentir como se «estivesse pedrado» ou «a flutuar». Andando há alguns anos a planear a adaptação dos seus livros, decidiu-se finalmente pelo que dá o nome ao filme. A sua preocupação, ao contrário dos seus filmes anteriores, não passou por elaborar um retrato profundo de uma personagem meio perturbada, mas sim por adaptar ao ecrã um livro psicadélico com influências noir – que por acaso também tem personagens perturbadas. Assim se explicam algumas semelhanças com os filmes dos anos quarenta, como a convulsão do seu argumento, demasiado dependente de reviravoltas e de estranhas coincidências, salpicado de innuendos de cariz sexual, tal como se compreende a sua preocupação em criar uma atmosfera invulgar e contagiante, povoada por um bando de loucos viciados em droga. E o que diriam esses chanfrados após visionarem “Inherent Vice”? Se por um lado imaginamos Bigfoot Bjernsen a pontapear violentamente o projetor do filme, enraivecido por ele não estar tão bom como os anteriores de Paul Thomas Anderson, também é verdade que por outro percecionamos Doc Sportello a franzir inicialmente o sobrolho para, depois, elogiar o seu sentido de humor, a sua atmosfera inebriante e o seu carismático e heroico protagonista.

Ficha Técnica:

Título original: "Inherent Vice"
Título em Portugal: "Vício Intrínseco"
Título no Brasil: "Vício Inerente"
Realização: Paul Thomas Anderson
Argumento: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Owen Wilson, Joanna Newsom, Katherine Waterston, Hong Chau, entre outros.

Filmes vistos e/ou revistos em 2015 - "Suite Française" (101)

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