04 dezembro 2015

Resenha Crítica: "Viva Maria!" (1965)

 Entre números circenses, revoluções explosivas, cantorias com direito a striptease parcial, uma pomba branca pronta a transportar granadas e muitos momentos meio nonsense, "Viva Maria!" sobressai sobretudo pela dupla de protagonistas formada por Jeanne Moreau e Brigitte Bardot, com Louis Malle a fazer uso do carisma das actrizes e da dinâmica que apresentam ao longo do enredo. É um caso paradigmático onde o estilo sobressai em relação à substância, com "Viva Maria!" a colocar-nos perante duas mulheres com personalidades bastante fortes que se preparam para protagonizar uma revolução em San Miguel, um território onde o poder se encontra distribuído por um conjunto diminuto de indivíduos, algo que conduz à revolta dos populares. No início do filme somos apresentados a Maria II (Brigitte Bardot), a filha de um terrorista irlandês que dedica parte da sua vida a defender a causa anti-inglesa de forma musculada. A narrativa logo avança no tempo, mais precisamente para 1907, com Maria II a encontrar-se em idade adulta quando o pai é capturado na América Central. Este obriga a filha a explodir uma ponte, algo que conduz à morte do pai de Maria II e das autoridades que se encontravam no local. Maria II consegue escapar às restantes autoridades, acabando por invadir uma caravana de um circo itinerante francês. A caravana pertence a Maria I (Jeanne Moreau), uma cantora e bailarina que trabalha neste circo itinerante. Maria II ameaça Maria I com uma faca, tendo em vista a que esta lhe dê comida. Estas acabam por iniciar uma relação de amizade, marcada por alguma cumplicidade, com a personagem interpretada por Brigitte Bardot a efectuar dupla com a artista, substituindo a antiga companheira de espectáculo de Maria I. O primeiro espectáculo é marcado por algum humor, com o público do saloon a ser pouco cordial para com o mágico de serviço e a ajudante. A entrada das duas Marias em palco surpreende tudo e todos. A primeira surpresa reside na falta de coordenação que apresentam quer na cantoria, quer na dança. A segunda surpresa acontece quando Maria II rasga acidentalmente parte da roupa, algo que se torna um sucesso, com o público a ir ao rubro com as suas formas corporais, uma situação que leva a personagem interpretada por Jeanne Moreau a retirar algumas das suas vestimentas e exibir um decote generoso. Os membros da orquestra ficam momentaneamente parados, com Louis Malle a explorar a sensualidade desta dupla bastante peculiar que inicialmente apresenta grandes diferenças mas acaba por participar inesperadamente numa revolução em pleno território da América Latina. Durante a primeira metade da narrativa temos a apresentação das duas protagonistas, bem como de alguns elementos do espectáculo itinerante, incluindo Rodolfo (Claudio Brook), um lançador de facas inglês, um indivíduo que apresenta um gosto notório por armas que surpreendentemente vai despertar a atenção de Maria II (que até então apresentara um ódio notório aos ingleses ou esta não fosse uma irlandesa bastante orgulhosa da sua nacionalidade). Na segunda metade do enredo assistimos ao circo itinerante a passar pelas redondezas de San Miguel, com Maria II a apresentar a sua revolta em relação aos maus tratos que os homens ao serviço de Don Rodriguez (Carlos López Moctezuma), um indivíduo poderoso, infligem aos elementos revoltosos. Maria II dispara sobre os homens de Rodríguez, acabando por conduzir a que todos os elementos sejam presos. Por sua vez, Maria I acaba por se apaixonar por Florès (George Hamilton), o líder dos revolucionários, um elemento que é alvo da ira de Rodríguez e da admiração da personagem interpretada por Jeanne Moreau.

As duas mulheres reúnem-se com Rodríguez, conseguindo escapar deste indivíduo num momento que mescla algum humor e violência, embora Florès fique gravemente ferido. Não falta Maria II a utilizar a metralhadora de Rodríguez, muitos tiros e destruição, até escaparem e viajarem em direcção ao aldeamento de onde Florès é natural. É então que, antes de falecer, Florès faz com que Maria I prometa que irá continuar a revolução, uma situação aparentemente improvável mas que vai mesmo acontecer. Se Maria II é desde o início apresentada como uma mulher acostumada a lidar com a violência, armas e explosões, já Maria I é pouco dada a um engajamento político, sendo uma artista habituada a procurar conquistar o público. Os discursos de Maria I inspiram os aldeões com enorme facilidade, com estes a tirarem o armamento escondido e a prepararem-se para desenvolver uma revolução embora quase ninguém saiba como colocar a mesma em prática, ou lidar com os eventos subsequentes. Maria II acaba por ir em auxílio da amiga, com "Viva Maria!" a colocar-nos diante de um "buddy movie" no feminino, com Louis Malle a conjugar as personalidades distintas destas mulheres, enquanto Jeanne Moreau e Brigitte Bardot revelam uma dinâmica explosiva. O último terço é marcado pelo conflito e enormes exageros, com pouco a poder ser levado a sério e muito a servir para divertir, enquanto a revolução tem lugar. Raramente existe um sentimento de urgência a rodear estes episódios ou a sensação de que as vidas das Marias se encontram em perigo, tal como as mortes pouco são sentidas, com "Viva Maria!" a servir acima de tudo como um veículo para a dupla de protagonistas sobressair. Jeanne Moreau interpreta uma artista pouco engajada a nível político, morena, que de um momento para o outro se transforma numa líder revolucionária, com a actriz e Brigitte Bardot a parecerem divertir-se imenso a interpretarem estas personagens femininas com personalidades bastante vincadas. Bardot interpreta uma personagem sensual, loira, inicialmente mais violenta, especialista na utilização de armas, que protagoniza cenas de cantoria e dança memoráveis com Moreau. Elas cantam, dançam, inventam o striptease, seduzem os homens, lideram-nos em plena guerrilha contra os poderes instalados. Não faltam ainda alguns momentos de humor meio nonsense, tais como armas escondidas por aldeões junto dos alhos-franceses, ou dos ovos das galinhas, padres prontos a manterem o status quo (existe uma crítica latente ao papel da Igreja), aparelhos de tortura que já se encontram completamente apodrecidos, um eclesiástico que perde a cabeça e anda com esta nas mãos, um ditador (José Ángel Espinoza) incapaz de conter as duas Marias, entre muitas outras situações. Depois de nos apresentar uma obra cinematográfica marcada por uma atmosfera noir e pelo crime e traições em "Ascenseur pour l'échafaud", uma visão algo cínica do casamento e da burguesia em "Les Amants", a depressão do protagonista de "Le Feu Follet", Louis Malle deixa-nos perante um lado mais leve e extravagante da sua carreira em "Viva Maria!". Este volta a trabalhar com Moreau e Bardot, num filme onde utiliza mais uma vez a narração para expor o ponto da situação, ainda que em forma musical, tal como em "Les Amants" e "Le Feu Follet (ambos sem cantoria), numa obra cinematográfica que se destaca em relação aos exemplos citados pela presença da cor. Esta situação permite explorar as matizes distintas dos diversos cenários e espaços por onde se desenrola o enredo, entre os quais os saloons, a propriedade de Rodríguez, ou as caravanas utilizadas pelos diferentes grupos que constituem o espectáculo itinerante.

A cor sobressai ainda nas tonalidades quentes das roupas das Marias nos números musicais, numa obra cinematográfica onde não faltam várias estratégias de combate que apenas parecem poder resultar no filme, com Louis Malle a parecer divertir-se a explorar um conjunto de situações que nem sempre fazem sentido mas conseguem despertar a atenção do espectador. O cineasta sabe jogar com a sensualidade das duas actrizes ao serviço das personagens que interpretam, ao mesmo tempo que Bardot e Moreau fazem valer o seu estatuto e conquistam-nos como estas libertadoras inesperadas, numa obra lançada em 1965, ou seja, três anos antes do Maio de 1968, para além de surgir próxima de eventos como a Revolução Cubana. O tom de "Viva Maria!" é leve e marcado pelo humor mas não anda assim tão desfasado da realidade do seu tempo, embora o filme tenha como pano de fundo a primeira década do Século XX, uma situação que permite ainda expor alguns elementos e estereótipos associados à época representada. Estamos em plena América Latina, representada quase como se fosse o Velho Oeste, com Malle a efectuar uma crítica ao capitalismo através deste grupo diminuto de proprietários que controla o território de San Miguel. Entre estes elementos poderosos encontra-se Rodríguez, um indivíduo relativamente unidimensional, exagerado na exposição dos seus sentimentos, com Carlos López Moctezuma a ter uma interpretação adequada ao estilo meio extravagante do personagem que interpreta. Rodríguez lidera um conjunto considerável de homens, tendo ainda o apoio do clero e do ditador de San Miguel, embora não pareça preparado para enfrentar a fúria de duas mulheres. Por vezes existe a sensação que Louis Malle estica a obra em demasia quando o argumento não dá para mais, mas esta é uma viagem agradável de se fazer, capaz de dispor bem, entreter e no final colocar-nos com um sorriso. Não é uma obra que pareça aspirar a muito mais, embora esteja longe de ser completamente vazia, com o argumento a dar alguma dimensão à dupla de protagonistas e a deixar-nos perante um conjunto de situações que despertam mais a nossa atenção do que nos enfadam. Com uma dinâmica assinalável entre Brigitte Bardot e Jeanne Moreau, muitas cenas de acção, humor e até algum drama e romance, "Viva Maria!" é um exemplo paradigmático de um filme onde o estilo vence a substância e acaba por proporcionar um conjunto de momentos bastante agradáveis. Bardot e Moreau surgem sensuais e combativas, Malle deixa a narrativa embrenhar-se por caminhos que variam entre o exagero, o realismo e o nonsense, existindo muito para retirar de positivo naquela que é uma obra cinematográfica bastante mais leve, extravagante e colorida, do que vários dos trabalhos anteriores do cineasta.

Título original: "Viva Maria!".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Louis Malle e Jean-Claude Carrière.
Elenco: Brigitte Bardot, Jeanne Moreau, Paulette Dubost, Carlos López Moctezuma.

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