02 dezembro 2015

Resenha Crítica: "The Seventh Victim" (1943)

 Entre um grupo satanista, um criminoso que ataca durante a noite, uma mulher que desaparece misteriosamente, uma investigação que promete trazer algumas descobertas nem sempre agradáveis, uma ingénua que se prepara para conhecer todo um lado mais complexo da humanidade, um poeta com faceta de detective e algumas mortes, "The Seventh Victim" surge como uma obra cinematográfica onde os sustos avulsos são substituídos por uma atmosfera pontuada pelo mistério e o medo, naquela que é a primeira parceria entre o realizador Mark Robson e o produtor Val Lewton, com o traço deste último a encontrar-se muito presente. Estes traços de Lewton são visíveis em diversas situações que marcam "The Seventh Victim". Não falta a atmosfera inquietante e misteriosa a sobrepor-se aos sustos avulsos, a capacidade de deixar implícito alguns actos relevantes ao invés de exibi-los de forma declarada, uma utilização engenhosa dos cenários apesar do parco orçamento, a narrativa exposta de forma concisa, enquanto a cinematografia e a sonoplastia permitem ampliar a faceta enigmática que envolve o enredo. A cinematografia ficou a cargo de Nicholas Musuraca, o mesmo profissional da área que trabalhou em "Cat People", com este a exibir mais uma vez um trabalho sublime na utilização do contraste entre luz e sombras, com estas últimas a dominarem e inquietarem. O argumento, pese alguns excessos melodramáticos, consegue manter o mistério em volta do desaparecimento de Jacqueline (Jean Brooks), a irmã de Mary Gibson (Kim Hunter), uma jovem relativamente ingénua que recebe a notícia de que a familiar não tem enviado as verbas para pagar a sua mensalidade escolar. Mary recebe uma proposta para ficar a ensinar os mais jovens, de maneira a poder pagar as despesas na escola, algo que a protagonista rejeita. A jovem decide investigar aquilo que aconteceu a Jacqueline, uma decisão que promete colocá-la diante de uma série de descobertas sobre a irmã. A primeira surpresa acontece quando descobre que a irmã vendeu o negócio relacionado com cosméticos à Sra. Redi (Mary Newton), uma mulher soturna que parece esconder informações sobre Jacqueline. No entanto, Frances, uma antiga funcionária da irmã de Mary, revela que encontrou a personagem interpretada por Jean Brooks, há uma semana, num restaurante chamado "O Dante" (a referência a Dante não parece ser ao acaso), localizado em Greenwich Village. É neste local que Mary se depara não só com Jason Hoag (Erford Gage), um poeta em crise criativa que apresenta uma visão muito própria do mundo que o rodeia, mas também com o casal que gere o restaurante. Este casal alugara recentemente um quarto a Jacqueline, um espaço que nos surpreende ao contar com uma corda como se fosse uma espécie de forca, algo indicador da possibilidade desta mulher cogitar cometer suicídio. Mary depara-se ainda com Gregory Ward (Hugh Beaumont), um advogado que é casado com Jacqueline, para além de encontrar Irving August (Lou Lubin), um detective privado que contacta com a personagem interpretada por Kim Hunter quando esta se dirige à esquadra. Temos ainda Louis Judd (Tom Conway), um psiquiatra que encontráramos em "Cat People", embora o seu destino não tivesse sido o mais simpático no filme em questão.

O personagem interpretado por Tom Conway é um dos poucos elementos que tem mantido contacto com Jacqueline, embora guarde diversos segredos, tal como a maioria das figuras que rodeiam o enredo de "The Seventh Victim". Uma das figuras que guardam uma série de segredos é Jacqueline, com esta a ter quebrado as regras dos Paladistas, uma sociedade secreta ligada aos cultos e rituais satânicos. Jacqueline não poderia ter revelado a existência dos Paladistas, embora tenha quebrado esta regra ao consultar Louis Judd. Esta é a sétima pessoa que quebrou as regras do grupo, sendo a primeira a rejeitar o acto de cometer suicídio como punição por transgredir as leis internas dos Paladistas. Jacqueline pondera cometer suicídio mas não consegue, enquanto "The Sevent Victim" surpreende-nos ao colocar-nos diante de um grupo satânico aparentemente pacifista, com Mark Robson a desafiar as nossas expectativas em relação àquilo que esperamos ver e aquilo que encontramos na realidade. A sala onde se reúnem tanto tem de sombria e requintada como de opressora, com os momentos em que Jacqueline se encontra com os membros do grupo a serem pontuados por uma atmosfera inquietante, incrementada pela banda sonora e o trabalho de câmara. O suspense é adensado pela presença de um copo com veneno que é colocado em frente a Jacqueline. Ficamos na dúvida se Jacqueline vai ingerir o veneno ou desobedecer às regras, enquanto Jean Brooks exprime no seu rosto a incerteza que paira pela alma da personagem que interpreta, com o eficaz trabalho de montagem a permitir que fiquemos diante das faces observadoras das figuras que rodeiam a protagonista. Brooks não compromete como Jacqueline, uma mulher de longos cabelos negros, com a sua face a raramente denotar alguma alegria, parecendo claramente arrependida por outrora ter aderido a esta seita, contendo na sua alma o desejo de se suicidar, apesar de não ter coragem para cometer tal acto. A iluminação é utilizada de forma exímia, numa obra que conta com uma cinematografia refinada (vale a pena recordar o trabalho sublime de Musuraca em "Out of the Past"). Veja-se quando Jacqueline se encontra a circular pela rua, durante a noite, sendo abordada por um indivíduo com uma faca, com os planos, o trabalho de montagem e o contraste entre a luz e as sombras a permitirem incrementar a tensão. A eficácia a nível do trabalho com a câmara é ainda visível quando encontramos Jacqueline a expor junto da irmã, do esposo, do poeta e do psiquiatra, aquilo que a seita pretende da sua pessoa, com a câmara a aproximar-se do rosto da personagem interpretada por Jean Brooks, incutindo um enorme impacto ao discurso desta mulher, com "The Seventh Victim" a exibir paradigmaticamente o poder que um close-up pode ter junto do espectador. O próprio trabalho a nível de som é importantíssimo para a criação da atmosfera misteriosa em volta dos episódios apresentados, algo notório quando encontramos Mary e Irving a aventurarem-se durante a noite por um espaço que se encontra trancado no interior do estabelecimento que agora pertence a Redi. O som do relógio é audível, a pouca iluminação incrementa o receio, até algo de inesperado e violento acontecer. Kim Hunter interpreta com acerto esta personagem algo ingénua que procura encontrar a irmã, deparando-se pelo caminho com uma seita, ao mesmo tempo que desperta o interesse amoroso de Gregory e Jason. Gregory também se encontra interessado em Mary, gerando-se uma situação complicada ou este não fosse casado com Jacqueline, com "The Seventh Victim" a aventurar-se por vezes pelos meandros do melodrama, ainda que de forma algo desnecessária. O personagem interpretado por Hugh Beaumont é um indivíduo que apresenta um tom mais sério, algo que contrasta com Jason, um poeta que tenta colaborar na investigação, numa obra que mescla alguns salpicos de melodrama a um enredo pontuado maioritariamente por momentos de mistério e suspense.

De uma obra produzida por Val Lewton esperamos que a narrativa não esteja totalmente dependente de sustos avulsos para mexer com o espectador, com este a ter em Mark Robson, um elemento responsável pela montagem de "Cat People", "I Walked With a Zombie" e "The Leopard Man" (as três obras produzidas por Lewton), um colaborador que soube interpretar o pretendido, com a relação profissional entre ambos a revelar-se profícua, algo comprovado pela repetição da parceria em "The Ghost Ship", "Isle of the Dead" e "Bedlam". Mark Robson domina relativamente bem os ritmos da narrativa, uma situação notória pela forma como este consegue que o enredo não se esvazie a partir do momento em que Jacqueline é introduzida na história. O suspense mantém-se, bem como o mistério, embora associados aos elementos que procuram que Jacqueline cometa suicídio, enquanto o elenco consegue cumprir nos respectivos papéis, com o destaque natural a ir para Kim Hunter. Esta interpreta de forma credível uma mulher relativamente ingénua, que se depara com uma série de personagens que contam com diversos segredos, incluindo a irmã, a Sr.ª Redi, Frances, entre outros. Também "The Seventh Victim" procura não exibir tudo declaradamente, com Mark Robson a denotar uma coragem assinalável quando, no último terço, opta pela subtileza de um som oriundo do fora de campo ao invés de expor aquilo que aconteceu, uma situação que, muito provavelmente, desperta mais impacto do que se tudo tivesse sido exibido de forma declarada. Os momentos finais representam aquilo que esperamos de uma obra de Val Lewton, onde muito é deixado implícito, não faltando pelo caminho o som de um veículo que é exacerbado, para o caso de sentirmos a falta da célebre técnica denominada de Lewton Bus. Não falta ainda um momento inquietante no duche que poderá ter servido de inspiração para uma cena icónica de "Psycho", bem como uma ida a uma biblioteca em busca de informação que nos remete para "Seven", duas películas posteriores a "The Seventh Victim", com Mark Robson a realizar uma obra cinematográfica que a espaços não tem problemas em avançar pelos meandros do terror, ou a narrativa não contasse com alguns seres humanos adoradores do Diabo. Estes surgem representados como figuras aparentemente comuns que habitam em Nova Iorque, uma pouco a fazer recordar aquilo que Roman Polanski efectuaria em "Rosemary's Baby", com "The Seventh Victim" a desafiar constantemente o Código Hays (a própria abordagem ao suicídio é polémica para a época). "The Seventh Victim" surge ainda como um filme que foge às catalogações que lhe queiramos colocar. É certo que se situa maioritariamente no suspense e mistério, embora conte com salpicos de terror e melodrama, tendo ainda traços de filme noir (a própria Jacqueline assume uma faceta de femme fatale), numa obra cinematográfica muito mais sumarenta do que aquilo que poderíamos inicialmente pensar de um trabalho de série b de baixo orçamento. Com uma cinematografia e trabalho de som capazes de incrementarem o suspense e os enigmas que envolvem o enredo, um argumento simples e enxuto, "The Seventh Victim" cumpre na maioria daquilo a que se propõe, surgindo como uma obra cinematográfica com uma influência inegável, que se destaca quase sempre pela atmosfera pontuada pelo mistério, com Mark Robson a contar com uma estreia bastante interessante na realização de longas-metragens.

Título original: "The Seventh Victim".
Realizador: Mark Robson.
Argumento: DeWitt Bodeen e Charles O'Neal.
Elenco: Tom Conway, Jean Brooks, Isabel Jewell, Kim Hunter.

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