08 dezembro 2015

Resenha Crítica: "The Man in the White Suit" (1951)

 Com uma invenção capaz de colocar os nervos em franja a capitalistas e operários, Sidney Stratton (Alec Guinness) prepara-se para viver uma série de episódios rocambolescos enquanto desafia tudo e todos ao longo de "The Man in the White Suit", uma comédia que ironiza com algumas das contradições da sociedade do seu tempo. Diga-se que "The Man in the White Suit" continua a manter uma enorme actualidade: os mercados que estranhamente mandam mais do que deviam, as contradições de alguns grupos sindicais e do capitalismo, os interesses dos grandes empresários em manterem o seu poderio financeiro, entre outros assuntos que pontuam uma narrativa que mescla assertivamente elementos de humor e ficção-científica. Sidney Stratton é um cientista que colecciona despedimentos nas fábricas de produtos têxteis por onde trabalha, algo que o conduz a ter de se sujeitar a laborar como operário. No entanto, Sidney logo se consegue infiltrar no interior do laboratório da fábrica de têxteis de Alan Birnley (Cecil Parker), um indivíduo financeiramente abastado. Curiosamente, Sidney tinha sido despedido devido à má impressão que provocou junto de Alan, durante uma visita que este último efectuou à fábrica de Michael Corland (Michael Gough), um pretendente de Daphne Birnley (Joan Greenwood), a filha do personagem interpretado por Cecil Parker. Sidney encontra-se a trabalhar numa invenção que promete revolucionar a indústria têxtil: um tecido indestrutível que repele a sujidade. A colocação desta invenção em prática é antecedida de diversos episódios rocambolescos que pioram quando Sidney consegue fabricar o tecido aparentemente indestrutível. Não faltam sindicalistas fervorosos, um criado demasiado obstinado no cumprimento do seu ofício, uma máquina que efectua barulhos bizarros, experiências explosivas, com Sidney a reunir a oposição de capitalistas e operários. O feito parece fascinar Alan, pelo menos até este perceber que a invenção iria ser desastrosa quer a nível comercial, quer a nível financeiro, com diversos rivais a procurarem demover o empresário de revelar a façanha à imprensa e efectuar peças de roupa com este tecido. Os próprios operários exibem um enorme desagrado, através do sindicato, com Sidney a ser perseguido praticamente por tudo e todos, com excepção da jovem Daphne que parece apreciar a resiliência, integridade e ingenuidade deste indivíduo altruísta que recusa dinheiro, mulheres e outros benefícios oferecidos para que desista de revelar a invenção. Sidney é obrigado a ter de entrar em fuga, vestido com um fato branco, elaborado com o tecido que criara, enquanto Alec Guinness se destaca como este personagem algo incompreendido que se prepara para surpreender quase tudo e todos com uma invenção que promete mudar a indústria têxtil. Os operários temem perder os postos de trabalho, os grandes empresários receiam que os seus lucros diminuam, enquanto Sidney procura que as pessoas não tenham que se preocupar em gastar mais dinheiro com vestimentas. A espaços Sidney faz recordar o personagem que Alec Guinness interpretou em "The Lavender Hill Mob", um indivíduo que engendrou um assalto a mais de duzentos lingotes de ouro, após ter sido descrito pelos seus superiores como alguém com pouca imaginação. Sidney cria algo que todos pensavam ser impossível e promete colocar em causa o status quo, com Alec Guinness a incutir um estilo aparentemente calmo a este cientista solitário que inicialmente poucos levam a sério, até o protagonista exibir a sua inteligência e inventar algo que pode não só beneficiar os consumidores mas também destruir negócios e postos de trabalho, com "The Man in the White Suit" a abordar com algum humor e complexidade as rejeições inerentes a diversos avanços da ciência.

 "The Man in the White Suit" surge como mais um bom exemplar das comédias da Ealing Studios, a mesma empresa de produção de obras cinematográficas como "The Ladykillers", "The Lavender Hill Mob", entre outras. Alec Guinness integra o elenco principal de todas as obras citadas, com o actor a convencer como este indivíduo algo excêntrico, que outrora teve uma bolsa da Universidade de Cambridge, incompreendido por quase tudo e todos, que aos poucos consegue colocar a sua invenção em prática. É um indivíduo que inicia uma luta solitária contra o sistema, enquanto Alec Guinness se destaca como este personagem que vive uma série de peripécias. O timing de Alec Guinness para os momentos de humor é exímio, enquanto Alexander Mackendrick realiza uma comédia inteligente, pontuada por alguns gags bem elaborados e um argumento coeso. O argumento permite explorar esta situação hilariante dos operários e os capitalistas se unirem contra um indivíduo que promete colocar em causa os ofícios de ambos os lados da contenda, com "The Man in the White Suit" a surgir dotado de uma série de personagens que a espaços conseguem sobressair. Não falta Bertha (Vida Hope), uma sindicalista fervorosa, pronta a defender os seus valores e a impedir que os interesses particulares se sobreponham ao colectivo, ou Alan Birnley, um empresário bem sucedido que decide apostar numa invenção que promete trazer uma série de berbicachos, ou Sir John Kierlaw (Ernest Thesiger), um capitalista asmático, entre outras figuras que são elevadas por um elenco secundário dotado de alguma competência. Quase todos parecem querer travar Sidney, enquanto este protagoniza uma fuga pelos espaços citadinos, procurando fugir da turba que o persegue como se fosse um criminoso. O filme conta ainda com diversos momentos de humor, algo que vai desde as explosões que envolvem as experiências para o fabrico da substância que permite criar o tecido supostamente indestrutível, passando por uma máquina que efectua barulhos bizarros, pertencente a Sidney, até a sindicalistas prontos a impedirem que alguém falhe o intervalo para o chá, entre outras situações. "The Man in the White Suit" aborda ainda as rejeições iniciais a diversas inovações científicas, uma temática que ganha outro impacto se tivermos em linha de conta que a obra cinematográfica foi lançada em plena Guerra Fria, um período onde a ameaça nuclear surgia como algo bem real. A bomba atómica surge como um exemplo paradigmático de um avanço científico que pode contribuir para situações desastrosas, algo que não se aplica totalmente à invenção de Sidney, apesar da possibilidade da comercialização de um tecido indestrutível poder provocar a perda de diversos empregos. Sidney procura fabricar um produto que irá beneficiar os clientes, embora mexa com demasiados interesses, com o cientista a ter motivos válidos para desenvolver este tecido indestrutível, tal como os operários e os empresários contam com razões pragmáticas para não apreciarem esta invenção. Marcado por diversos momentos de humor, uma realização eficaz de Alexander Mackendrick e um argumento inteligente e mordaz, "The Man in the White Suit" surge como uma obra cinematográfica capaz de mesclar assertivamente elementos de comédia e ficção-científica, enquanto nos coloca diante de um protagonista peculiar que promete colocar a cabeça em água a capitalistas e operários.

Título original: "The Man in the White Suit".
Título em Portugal: "O Homem do Fato Claro".
Realizador: Alexander Mackendrick.
Argumento: John Dighton, Roger MacDougall, Alexander Mackendrick.
Elenco: Alec Guinness, Joan Greenwood, Cecil Parker, Michael Gough, Vida Hope.

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