03 dezembro 2015

Resenha Crítica: "Les Amants" (Os Amantes)

 "Les Amants" coloca-nos diante de uma figura feminina complexa, cujo casamento já conheceu melhores dias, que procura na cidade de Paris e nos amantes alguns dos condimentos que faltam no seu matrimónio. A protagonista é Jeanne Tournier (Jeanne Moreau), uma mulher que nos é apresentada logo no início do filme como alguém que nasceu e foi educada no interior, longe dos espaços urbanos, que tem em Maggy (Judith Magre) a sua melhor amiga. Maggy e Jeanne cresceram juntas, mas a primeira partiu para Paris onde desfruta de algumas das vantagens deste espaço citadino que lhe permite levar um estilo de vida superficial. Jeanne ficou a viver em Dijon e casou com Henri Tournier (Alain Cuny), o editor do The Burgundy Monitor, tendo uma filha deste indivíduo, a jovem Catherine. Nos momentos iniciais de "Les Amants" a narradora traça-nos logo o plano geral da relação entre Jeanne e Henri: "Henri ama a esposa, mas dedica mais tempo ao jornal. Ela passou vários anos a viver desta maneira. Encorajada pelo marido, tem visitado Maggy duas vezes por mês em Paris. (...) Com Maggy, Jeanne conheceu Raoul Flores". É nos momentos iniciais de "Les Amants" que encontramos Jeanne, acompanhada por Maggy, a assistir a um torneio de polo, onde participa Raoul (José Luis de Vilallonga), um dos melhores atletas. Raoul é o amante de Jeanne, proporcionando-lhe os momentos calorosos que esta não encontra no casamento, seja num passeio que efectuam a um parque de diversões, ou em situações mais tórridas, com o personagem interpretado por José Luis de Vilallonga a não ter problemas em efectuar demonstrações efectivas de amor. Maggy salienta que o amor fez bem a Jeanne, considerando que esta se encontra irreconhecível, algo que leva a personagem interpretada por Moreau a temer que o marido descubra a relação extra-matrimonial. Henri despreza o estilo de vida de Maggy, tendo ainda alguma dificuldade em compreender os motivos para a esposa se aperaltar quando viaja para Paris. Diga-se que a relação entre Jeanne e Henri já conheceu melhores dias. Veja-se quando Jeanne vai ter com o esposo ao trabalho para tentar uma aproximação e salvar o casamento, após um arrufo entre ambos, embora receba apenas indiferença. As visitas a Paris aumentam após este episódio no jornal, bem como o tempo que Jeanne disponibiliza para Raoul, embora a protagonista pareça ter algum receio em avançar definitivamente para a relação com o amante e terminar com um casamento de oito anos. Farto das idas da Jeanne a Paris e de ouvir falar de Maggy e Raoul, o esposo da protagonista decide convidar ambos os elementos para um jantar a quatro. Jeanne não acha piada à ideia e até tem razões plausíveis para isso, temendo um possível confronto entre Raoul e Henri. A estes quatro personagens junta-se um elemento inesperado: Bernard (Jean-Marc Bory), um arqueólogo que vai ter um papel surpreendente no enredo. Jeanne viajou de Paris para Dijon de carro, sozinha, enquanto Raoul e Maggy foram noutro veículo, algo que se revela complicado para a protagonista, sobretudo quando o seu bólide tem uma avaria. No caminho, o único que lhe deu boleia foi Bernard, um indivíduo que esta desconhecia, que a irrita quando demora demasiado tempo na casa de um amigo. A chegada aos arredores de Dijon e à casa de Jeanne e Henri, já com a presença de Maggy e Raoul, surge assim antecedida de alguns contratempos, embora estes não possam atingir o nível das reviravoltas do último terço, com Louis Malle a colocar-nos diante de alguns momentos emocionalmente intensos, onde os sentimentos surgem de forma inesperada e são expostos de forma bem viva.

 A casa de Henri e Jeanne é praticamente uma mansão, contando com um jardim, dois andares, uma sala composta por várias estantes com livros e discos de música, um largo espaço embora, no último terço, até pareça pequena para os sentimentos da protagonista. O jantar é desastroso. Falta tema para conversa, para além de existir sempre alguma tensão entre Henri e Raoul, com o primeiro a nunca dar totalmente a entender se sabe ou não do caso da esposa. Se falta conversa no jantar, o mesmo não acontecerá quando Bernard e Jeanne se reunirem inesperadamente durante a noite no jardim que rodeia a mansão. Aos poucos passam das palavras aos actos, beijando-se e envolvendo-se numa cena de sexo considerada ousada para a época por exibir os seios da protagonista, enquanto esta parece finalmente ter encontrado alguém que a complemente. Jeanne trai Henri, trai Raoul e parece desejar fervorosamente Bernard, com a narradora a expor com frequência o estado de espírito da protagonista. A narradora surge como um importante elo de ligação entre o espectador e a protagonista, embora tire algum mistério aos seus pensamentos. Jeanne Moreau volta a interpretar uma mulher infiel numa obra de Louis Malle após o sucesso de "Ascenseur pour l'échafaud", a primeira longa-metragem de ficção do cineasta e um dos primeiros papéis de sucesso da actriz. Tal como Florence Carala, a personagem interpretada por Moreau em "Ascenseur pour l'échafaud", também Jeanne é uma mulher infiel e elegante, embora não incite nenhum dos amantes a eliminar o seu esposo, com a actriz a conseguir transmitir a inquietação da protagonista em encontrar alguém que a valorize e satisfaça os seus prazeres sexuais. Esta entedia-se com facilidade, procurando desfazer a monotonia através de prazeres momentâneos como fumar cigarros, tomar um banho relaxante, efectuar viagens a Paris, vestir-se de forma luxuosa, fazer sexo, entre outros. Henri gosta da esposa mas parece demasiado absorto no trabalho, mantendo um casamento pontuado por alguma frieza. Alain Cuny consegue deixar-nos quase sempre na dúvida em relação ao conhecimento que Henri tem ou não dos affairs da esposa, embora em alguns momentos deixe implícito que desconfia de algo. No final acaba por ser Bernard a viver os momentos mais tórridos com esta mulher dada aos prazeres que facilmente se entedia em relação aos homens. A relação entre Jeanne e a filha nem sempre é explorada ao longo do enredo, parecendo quase sempre um elemento pouco relevante da vida desta mulher. Diga-se que esta parece pouco preocupada com os assuntos da casa, pelo que a sua atitude final não surpreende totalmente o espectador, com "Les Amants" a colocar-nos diante de uma reviravolta meio surreal que valoriza e muito a narrativa. Louis Malle constrói um drama competente em volta da procura desta mulher em escapar às rotinas, sejam inerentes à vida de casada, ou de um caso extra-conjugal que também não a consegue satisfazer na totalidade, com o jantar na sua casa a parecer ser o ponto final para duas relações que fracassaram. Jeanne mantém uma relação de amizade com Maggy, uma mulher dada às superficialidades e à vida cosmopolita de Paris, com "Les Amants" a efectuar uma divisão notória entre a vida na "Cidade Luz" e em Dijon. A habitação de Maggy é marcada por paredes decoradas com elementos floridos e móveis comprados em antiquários, com esta a procurar estar na moda, embora pareça relativamente vazia de ideias. Já a casa da protagonista e do esposo, nos arredores de Dijon, é marcada pelo afastamento de tudo e de todos, algo que não acontece quando Jeanne está em Paris, onde conta quase sempre com companhia, com o argumento de Louise de Vilmorin a explorar com sucesso estas dicotomias.

 Existe uma certa crítica ao quotidiano vazio deste grupo aburguesado, com os valores morais dos elementos que povoam a narrativa a nem sempre serem os mais elevados e os desejos a falarem mais alto do que o bom senso. Jeanne até conta com empregados, uma filha, uma casa espaçosa, um marido com um cargo importante mas falta algo que apimente o seu quotidiano, com este estilo de vida a parecer agrilhoar os seus sentimentos. É em Bernard que esta vai encontrar o condimento proibido, com Louis Malle a apresentar mais uma vez uma versão algo cínica do casamento e dos relacionamentos humanos, algo que já tinha efectuado na sua longa-metragem anterior ao mesmo tempo que explora a sexualidade feminina. Os intérpretes masculinos cumprem a dar vida aos respectivos personagens, embora o maior destaque do elenco seja Jeanne Moreau como esta mulher insaciável que procura fugir ao tédio e às rotinas. Moreau tem aqui um dos papéis fundamentais da sua carreira, enquanto Louis Malle volta a fazer uso da banda sonora com enorme acerto, sobretudo na sensual cena do último terço entre Bernard e a protagonista no jardim, onde existe alguma poesia e erotismo à mistura. Louis Malle deixa que pensemos durante quase todo o filme que Jeanne se encontra dividida entre Henri e Raoul, mas o romance com Bernard surge como algo que fulmina as nossas expectativas. Este é um arqueólogo aparentemente simples, mas inteligente, que encontra a protagonista num acaso, quando o carro desta estava tão avariado como as suas ideias. O jantar poderia ou não colocar o casamento em perigo, mas Henri insistiu tanto na ideia que seria demasiadamente suspeito não convidar Maggy e Raoul. Henri despreza Paris e os valores da alta sociedade, embora viva rodeado de condições acima da média, surgindo como um homem culto e prático que tem no jornal a sua grande paixão. Por sua vez, Raoul representa a crítica a uma sociedade pontuada pela superficialidade, surgindo como um praticante de polo que conta com várias amizades e desperta a atenção das mulheres mas pouco tem no seu discurso para conseguir mais do que um affair, com Jeanne a duvidar daquilo que sente em relação a este homem. Entre traições e paixões, sexo e amores perdidos nas memórias do passado, planos compostos com cuidado e uma banda sonora belíssima, "Les Amants" não poderia ser o título mais indicado para esta obra cinematográfica, com Louis Malle a deixar-nos perante uma protagonista com dois casos extra-conjugais que prometem atomizar de vez o seu casamento marcado por rotinas devastadoras.

Título original: "Les Amants".
Título em Portugal: "Os Amantes".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Louise de Vilmorin (inspirado no livro "Point de Lendemain").
Elenco: Jeanne Moreau, Alain Cuny, Jean-Marc Bory, José Luis de Vilallonga, Judith Magre.

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