01 dezembro 2015

Resenha Crítica: "Le feu follet" (Fogo Fátuo)

 “Le Feu Follet”, a quinta longa-metragem de ficção realizada por Louis Malle, coloca-nos perante Alain Leroy (Maurice Ronet), um indivíduo desencantado com a sua existência, que apresenta tendências suicidas e uma incapacidade notória para seguir em frente com a vida. É um tipo pessimista, atolado em dívidas, ex-alcoólico, que procura encontrar um sentido para a sua existência, embora tarde em encontrar justificações suficientemente fortes para largar a ideia de cometer suicídio. Alain guarda na sua alma as mágoas dos erros que cometeu, parecendo incapaz de enfrentar a realidade, incluindo as mudanças daqueles que o rodeiam. É uma obra negra e algo pessimista, com Louis Malle a colocar-nos diante dos efeitos perigosos do isolamento do ser humano perante tudo e todos. Não é que o protagonista não tenha amigos, bem pelo contrário, mas entra numa espiral descendente que o leva a afastar-se e afastar todos aqueles que outrora lhe pareciam dizer algo. A própria história que serviu de base para a criação do protagonista não deixa de ser macabramente curiosa, com o argumento a ter sido inspirado em "Le feu follet", um livro baseado na vida de Jacques Rigaut, um indivíduo que se suicidou aos trinta anos de idade, com a obra a ter sido escrita por Pierre Drieu La Rochelle, um escritor que se suicidou. Ou seja, o suicídio acaba por acompanhar não só as ideias do personagem principal de "Le feu follet", mas também por atravessar a história de alguns elementos que inspiraram a sua criação. O suicídio é um acto que Alain Leroy considera de forma demasiado séria. O seu passado foi marcado por longas bebedeiras e festas, bem como por um casamento que se encontra no ocaso com Dorothy, uma mulher que vive actualmente em Nova Iorque. Alain encontra-se internado há quatro meses numa clínica de recuperação em Versalhes, onde recebe a visita de Lydia (Léna Skerla), uma amiga de Dorothy. O início de "Le feu follet" é marcado por uma característica presente em filmes realizados por Louis Malle como "Les Amants", com o narrador a descrever o que está a acontecer e a estabelecer o ponto da situação, revelando-nos que Lydia, a amante de Alain, chegara há três dias. Estes parecem partilhar momentos de intimidade, embora Alain revele uma enorme melancolia. Lydia salienta que vai dizer a Dorothy que este se encontra curado, uma opinião que é partilhada pelo Dr. La Barbinais (Jean-Paul Moulinot), algo que é corroborado pelo facto do protagonista não ter ingerido bebidas alcoólicas quando saiu com a primeira. Alain não é dessa opinião. Este é um homem deprimido que procura encontrar razões para viver, embora tarde em encontrar argumentos para se manter neste mundo, sentindo-se assustado com um possível regresso a Paris. O regresso de Lydia a Nova Iorque promete piorar tudo, uma situação de que esta se encontra consciente, algo notório quando salienta que vai deixar Alain com o seu pior inimigo, ou seja, ele próprio. O quarto de Alain encontra-se decorado com retratos, incluindo de Dorothy e Lydia, mas também recortes de notícias de óbitos, algo revelador de todo o cuidado colocado no design dos cenários para explorar e expor o estado de espírito depressivo do protagonista.

O médico aconselha Alain a sair da clínica e procurar uma reconciliação com a esposa mas o protagonista parece ter outros planos: a 23 de Julho irá cometer suicídio. Antes de pegar na pistola e arrasar com a sua vida, Alain decide partir para Paris onde tenta encontrar algumas figuras ligadas ao passado, com Louis Malle a apresentar-nos uma série de homens e mulheres que marcaram a vida do protagonista. O primeiro local que visita é o hotel de Florence, onde procura por Bernard, embora o antigo amigo já não habite no espaço hoteleiro. Perante este fracasso, Alain decide efectuar uma série de telefonemas para conhecidos, a partir do telefone do bar do hotel, encontrando Leroy, o bartender que o servia nos seus tempos de bebedeiras e grandes farras. Estas dicotomias relacionadas com o homem que Alain foi no passado e aquele que é no presente são exacerbadas pelas figuras que o protagonista contacta, com quase todas a conhecerem-no como alguém alegre, vivaço e dado a consumir álcool em excesso. Diga-se que alguns personagens vão fazer questão de realçar que Alain se encontra uma sombra daquilo que era no passado. O próprio sabe disso, com a sua existência a encontrar-se num limbo de indecisões, más opções e uma letargia que aos poucos parece ter contribuído para destruir a sua vontade de viver. Após uma série de telefonemas, na sua maioria mal sucedidos, Alain decide visitar Dubourg (Bernard Noël), um indivíduo que decidiu assentar a sua vida. Dubourg é casado, tem duas filhas, investiu na actividade de egiptólogo, sendo visto pelo protagonista como um burguês resignado. Depois de tomarem uma refeição juntos, estes deambulam pelas ruas enquanto conversam. Dubourg parece aceitar aquilo que o destino lhe deu e o comodismo de uma vida em família. Alain parece um eterno inconformado que se recusa a aceitar o avançar da idade, embora tarde em tomar opções que preencham o sentimento de vazio que assola a sua alma. Dubourg e Alain deixam a ideia que partilharam bons momentos no passado, embora se encontrem bastante mudados, parecendo praticamente impossível que a amizade se mantenha no presente. Diga-se que esta vai ser uma situação transversal às deambulações de Alain, com este a perceber que mudou, bem como boa parte do mundo à sua volta, com exceção do grupo de Solange (Alexandra Stewart), uma mulher da alta sociedade que continua a viver um estilo de vida fútil e dedicado aos luxos. Pelo caminho, Alain encontra-se com Eva (Jeanne Moreau), uma pintora e consumidora de drogas que perdeu recentemente a companhia de Carla, uma das suas melhores amigas. A casa de Eva é marcada por obras de arte, encontrando-se habitada por estranhas figuras com as quais Alain entra em confronto de ideias e ideais. A personagem interpretada por Jeanne Moreau exibe algum receio em relação aos comportamentos destrutivos do protagonista, com a actriz a surgir como uma das várias integrantes do elenco secundário que conseguem sobressair ao longo do filme. Alain ainda encontra os irmãos Minville, dois indivíduos para quem a guerra na Argélia ainda não acabou, com a dupla a apresentar ideais políticos algo extremistas. Escusado será dizer que Alain também vai expor as suas diferenças em relação a estes dois indivíduos. Alain cumpriu o serviço militar e participou na Guerra da Argélia, embora as maiores cicatrizes que tenha por sarar não se encontrem no seu corpo. As cicatrizes que se encontram por sarar estão localizadas no interior da alma de Alain, com as feridas a terem sido abertas com o avançar do tempo, sendo adensadas pelos momentos de solidão e depressão que parecem fazer parte do seu quotidiano. Num jantar que conta com a presença de elementos como Solange e Brancion (Tony Taffin), o esposo desta, mais uma série de convidados, Alain não parece conseguir resistir à pressão e à vacuidade da atmosfera que o rodeia e bebe desalmadamente. Está completamente destroçado. A idade avançou e este não consegue travar a passagem do tempo, entrando numa espiral descendente onde apenas o álcool consegue entorpecer os seus sentimentos e soltá-lo das agruras. Parte um copo, abre uma ferida na mão, daquelas bem visíveis já que aquela que lhe vai na alma apenas é exposta pelos seus actos, enfurece-se, demonstra o seu desejo por Solange mas o tempo para se amarem já passou. Na festa, Solange parece demonstrar que ainda mantém algum afecto pelo protagonista. Diga-se que Alain não é desprezado por tudo e todos, parecendo antes alguém que se encontra demasiado deprimido e mal consigo próprio, com o filme a explorar questões complexas ligadas com as depressões através da figura do protagonista, enquanto aqueles que o rodeiam não parecem perceber o quão mal este se encontra do ponto de vista mental.

Depois de protagonizar "Ascenseur pour l'échafaud", a primeira longa-metragem de ficção realizada por Louis Malle, Maurice Ronet volta a trabalhar com o cineasta tendo um desempenho assinalável. Este consegue exprimir a depressão e isolamento de Alain, um homem que parece ser uma sombra daquilo que era no passado, com o actor a evidenciar essa situação através do aspecto físico cada vez mais frágil do protagonista. Alain procura razões para viver, embora esta jornada que protagoniza pareça contribuir para se desinteressar ainda mais pela vida. Nem é que seja desprezado por aqueles que o rodeiam, mas também não é propriamente compreendido, tal como este não compreende totalmente as figuras com quem contacta. Alain é mesmo o seu maior inimigo, procurando encontrar motivos para viver embora a determinação não pareça ser muita, tendo na clínica onde se encontra internado um ponto de refúgio que não parece querer abandonar. Os momentos na casa de Solange, onde não faltam jump-cuts e muita inquietação, permitem expor a depressão do protagonista e a sua queda definitiva em desgraça, parecendo que a partir daqui já não terá retorno. Este "gostaria de ter cativado as pessoas e retê-las. Mantê-las próximas para que nada mais se movesse ao meu redor", mas aquilo que mais consegue é afastar-se daqueles que poderia amar. Louis Malle deixa-nos perante um retrato desencantado da vida, com "Le feu follet" a abordar temáticas como a depressão, a futilidade da sociedade burguesa, os relacionamentos que falham, as mudanças dos seres humanos ao longo do tempo, numa França ainda a lidar com os traumas dos conflitos bélicos. O protagonista é um exemplo claro do pessimismo que rodeia "Le feu follet", uma obra onde Louis Malle volta a utilizar paradigmaticamente a banda sonora ao serviço do enredo, com o cineasta a repetir temáticas de filmes como “Ascenseur pour l'échafaud” e “Les Amants”: não falta uma exposição desencantada do casamento, a crítica à burguesia e à vacuidade dos valores de alguns dos personagens, entre outros elementos. Malle explora ainda com sucesso quer os espaços interiores como o centro onde o protagonista está instalado, a abastada casa de Solange e a habitação de Dubourg, quer os cenários exteriores como as ruas parisienses. Esta cidade surge associada à corrupção da alma do protagonista, com este a temer as tentações da mesma, tal como teme Nova Iorque, preferindo antes o conforto do centro de repouso. As deambulações pelos espaços citadinos surgem recheadas de tentações. Veja-se que o bartender serve-lhe logo uma bebida, algo que o protagonista rejeita, tal como dois estranhos pedem que Alain os acompanhe num "copo", para além da citada festa na casa de Solange. As complicações atravessam ainda a vida amorosa de Alain, com a relação matrimonial a encontrar-se por um fio e o envolvimento com Lydia a não avançar de forma mais séria por culpa do próprio. Louis Malle consegue transportar-nos para o interior da jornada do protagonista, "obriga-nos" a viver as suas dúvidas e agruras, com "Le feu follet" a surgir como mais uma obra cinematográfica bastante recomendável da autoria deste realizador que nunca se integrou de forma propriamente dita na Nouvelle Vague, embora apresente elementos por vezes presentes nos filmes dos cineastas associados a este movimento. Não faltam as filmagens nas ruas, a utilização da câmara na mão, a crítica à sociedade burguesa, os jump-cuts, entre muitos outros exemplos, ao mesmo tempo que Louis Malle exibe a sua versatilidade como cineasta. Veja-se que Malle realizou um filme noir na sua estreia a solo, um romance complexo em "Les Amants", tendo em "Le feu follet" uma introspecção poderosa e realista sobre um homem desencantado com a vida. Drama competente, capaz de explorar o lado negro, perigoso e inexplicável das depressões, "Le feu follet" coloca-nos diante de um dos grandes desempenhos de Maurice Ronet, com este a surgir acompanhado por um elenco secundário competente, enquanto Louis Malle nos compele a procurar perceber aquilo que vai no interior da alma do protagonista.

Título original: "Le feu follet".
Título em Portugal: "Fogo Fátuo".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Louis Malle.
Elenco: Maurice Ronet, Jeanne Moreau, Alexandra Stewart, Léna Skerla, Bernard Noël, Jean-Paul Moulinot.

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