09 dezembro 2015

Resenha Crítica: "The Ladykillers" (1955)

 Não falta uma idosa solitária e peculiar, um grupo de criminosos trapalhões, polícias prontos a deixarem passar um crime em claro, diversos gags e situações rocambolescas em "The Ladykillers", uma comédia pontuada por um delicioso humor negro e um enorme sentido de ritmo, onde quase tudo parece resultar, naquele que é mais um dos exemplares recomendáveis da Ealing Studios. "The Ladykillers" coloca-nos diante de um grupo de cinco criminosos que aluga um quarto tendo em vista a planear o assalto às divisas que se encontram no interior de uma carrinha de valores. A senhoria destes indivíduos é Louisa Alexandra Wilberforce (Katie Johnson), uma viúva solitária, que vive apenas com os seus pássaros, tendo por hábito visitar a esquadra local para apresentar queixas infundadas. Wilberforce decide alugar os quartos vagos da sua casa, algo que é visto como uma oportunidade única pelo "Professor" Marcus (Alec Guinness), o líder do grupo criminoso, com este indivíduo a apreciar o espaço da habitação e a aparente ingenuidade da sua interlocutora. Marcus finge que lidera um grupo musical amador que se reúne regularmente para ensaiar, algo que permite juntar os restantes criminosos no interior da habitação. O grupo aproveita-se da ingenuidade de Wilberforce para planear a colocação do assalto em prática, com esta mulher a surgir como uma peça-chave dos planos de Marcus. Estes furtam as divisas que se encontravam a ser transportadas por uma carrinha de valores, embora não contassem que os momentos seguintes ao assalto proporcionassem episódios ainda mais intrincados do que aqueles que os precederam. O grupo criminoso é bastante heterogéneo, sendo composto pelos seguintes elementos: "Professor" Marcus (Alec Guinness), o "cérebro" da equipa, um indivíduo excêntrico que parece ter saído de um filme de terror, procurando inicialmente enganar a senhoria, embora a frieza não seja o seu ponto forte; "Major" Claude Courtney (Cecil Parker), um tipo algo cobarde, que ainda cogita eliminar a idosa; Harry Robinson (Peter Sellers), um criminoso com algum sentido de humor, que não parece ter grandes problemas em fugir às suas responsabilidades; o abrutalhado 'One-Round' Lawson, um antigo pugilista que não parece encarar com bons olhos a possibilidade de assassinarem a idosa, com Danny Green a interpretar um personagem que tem um físico imponente e uma inteligência diminuta; Louis Harvey (Herbert Lom), um gangster aparentemente frio e desconfiado que não aprecia a presença de idosas. O argumento de William Rose permite atribuir especificidades muito próprias a cada um destes elementos, com Alexander Mackendrick, o realizador de "The Ladykillers", a beneficiar da agradável situação de poder contar com um elenco de enorme valor, embora o nome dos elementos masculinos que mais sobressaia seja o de Alec Guinness. Protagonista de comédias da Ealing como "The Lavender Hill Mob" e "The Man in the White Suit", Alec Guinness tem no professor Marcus uma figura fisicamente peculiar, com o trabalho de caracterização a contribuir para essa situação, enquanto o actor cria um personagem aparentemente polido a nível do discurso, que procura enganar uma idosa embora acabe por se envolver num imbróglio de difícil resolução.

Os imbróglios também marcaram as outras obras citadas, bem como os gags, os personagens que procuram desafiar ou aproveitar-se do sistema, com "The Ladykillers" a contar com momentos hilariantes. Não falta a presença de um cavalo que decide comer a fruta de uma banca, algo que provoca uma enorme confusão; um pássaro pronto a colocar o grupo de criminosos a subir ao telhado para evitar que a senhoria chame a polícia; um chá de idosas que estorva os planos dos protagonistas; fugas espalhafatosas; uma atmosfera de suspeição entre os assaltantes que promete ser mais perigosa do que as intenções de Wilberforce; uma protagonista feminina com uma personalidade muito própria que consegue despertar os mais largos sorrisos, entre outros exemplos. Katie Johnson tem um desempenho que facilmente desperta a atenção do espectador, com Wilberforce a surgir como uma idosa de ideais vincados, ingénua e simpática, que aos poucos percebe que alugou a casa a um grupo de criminosos. Um erro de Lawson leva a que Wilberforce suspeite do grupo até se aperceber do assalto cometido pelos cinco elementos. Marcus bem tenta afirmar que ninguém pretende que o dinheiro seja devolvido, algo que tem um pingo de verdade, com o personagem interpretado por Alec Guinness a salientar que o seguro vai cobrir as despesas dessa perda. Diga-se que esta linha de argumentação vai permitir um final hilariante, enquanto o grupo cogita a possibilidade de eliminar a idosa para a silenciar de uma vez por todas. O problema é que ninguém parece conseguir colocar a tarefa em prática, com "The Ladykillers" a apresentar-nos a um grupo peculiar que apresenta uma frieza dicotómica de muitos dos criminosos polidos que povoam as obras de Alfred Hitchcock. Estamos longe de ver dois universitários pedantes a cometerem um crime de forma fria, com "The Ladykillers" a surgir como uma comédia negra onde a violência raramente é exposta de forma gráfica, surgindo muitas das vezes acompanhada por situações estapafúrdias. Os dilemas dos cinco elementos do grupo são imensos, com todos a parecerem incapazes de eliminar a simpática Wilberforce. Esta quer obrigar o quinteto a revelar tudo às autoridades, algo que Marcus, Claude, Harry, Lawson e Louis Harvey não pretendem. No entanto, também não conseguem eliminar Wilberforce, algo que coloca o quinteto diante de um problema de difícil resolução. As dinâmicas entre os elementos do grupo funcionam de forma praticamente exímia, bem como a interacção entre estes e Wilberforce, com o elenco a sobressair em bom nível, enquanto o argumento explora com argúcia as situações caricatas e complicadas que envolvem estas figuras. O enredo desenrola-se maioritariamente no interior da habitação de Wilberforce, com "The Ladykillers" a contar ainda com alguns trechos nas ruas de Londres, ou a casa da idosa não se encontrasse localizada nas imediações da estação de comboio de King's Cross, um local fulcral para o quinteto colocar em prática o golpe ou livrar-se de algum corpo. A habitação apresenta um espaço notório, contando com uma canalização que apenas funciona à martelada, pássaros de estimação, vários retratos, marcas deixadas pela II Guerra Mundial, bem como uma série de divisórias onde os criminosos e a idosa se preparam para viver uma miríade de episódios que prometem ficar na memória do espectador. Tal como "The Lavender Hill Mob", outra das comédias deste período profícuo da Ealing Studios, "The Ladykillers" também mescla elementos de humor com "ingredientes" de filmes de assalto, embora Alexander Mackendrick pareça sempre estar mais preocupado nos episódios que antecedem e se sucedem ao furto do que na colocação do mesmo em prática. Inteligente, mordaz, recheado de humor negro e alguns gags hilariantes, uma boa dinâmica entre os vários elementos do elenco principal e um enorme sentido de ritmo, "The Ladykillers" beneficia ainda do facto de contar com intérpretes como Alec Guinness, Peter Sellers, Katie Johnson, Herbert Lom, entre outros, com Alexander Mackendrick a realizar uma comédia que roça praticamente a perfeição.

Título original: "The Ladykillers".
Título em Portugal: "O Quinteto era de Cordas".
Realizador: Alexander Mackendrick.
Argumento: William Rose.
Elenco: Katie Johnson, Alec Guinness, Cecil Parker, Herbert Lom, Peter Sellers, Danny Green, Jack Warner.

Sem comentários: