05 dezembro 2015

Resenha Crítica: "La Belle Personne" (A Bela Junie)

 Os relacionamentos amorosos nem sempre são fáceis. Na adolescência estes relacionamentos podem apresentar um carácter ainda mais intrincado e instável, com as emoções a ganharem uma intensidade típica do fervor das hormonas e da inexperiência em lidar com situações novas, algo que os protagonistas de "La Belle Personne" podem comprovar. Alavancado por interpretações dignas de atenção por parte de Léa Seydoux, Louis Garrel, Esteban Carvajal-Alegria e Grégoire Leprince-Ringuet, "La Belle Personne" surge como um drama competente a abordar as relações complexas que marcam um conjunto de alunos e professores de uma escola secundária localizada em Paris. O espaço da escola é utilizado com assertividade, com as filmagens a terem decorrido no Lycée Molière, um estabelecimento de ensino situado em Paris, com Christophe Honoré a explorar com acerto este cenário e o quotidiano no mesmo. Desde as aulas, passando pelos relacionamentos entre os alunos e a forma como utilizam os tempos livres, até às relações que nascem e falham, "La Belle Personne" explora eficazmente a atmosfera que envolve esta escola secundária. O interesse de "La Belle Personne" pelo quotidiano dos alunos nas imediações do espaço escolar é ainda visível na procura de Christophe Honoré em não abordar o dia-a-dia dos mesmos no interior das respectivas habitações, algo que permite exacerbar a relevância dos episódios que os protagonistas vivem no estabelecimento de ensino. Christophe Honoré apresenta-nos inicialmente alguns dos personagens fulcrais do enredo, exibindo sem rodeios que diversas figuras já se conheciam há algum tempo, com excepção da jovem Junie (Léa Seydoux). Esta é uma adolescente de dezasseis anos de idade que, após a morte da mãe, decidiu transferir-se para a escola onde se encontra Mathias (Esteban Carjaval-Alegria), o seu primo, com este último a integrá-la no seu grupo de amigos. Junie fica a viver com os pais de Mathias, surgindo como uma jovem enigmática, de longos cabelos negros, que desperta a atenção das figuras masculinas, incluindo de Nemours (Louis Garrel), o professor de italiano. Léa Seydoux tem em Junie um dos primeiros papéis de destaque de uma carreira que continua a ganhar contornos cada vez mais interessantes, com a actriz a demonstrar uma capacidade inolvidável para elevar as obras cinematográficas que integra. Seydoux permite transformar Junie num mistério difícil de decifrar, com os close-ups sobre o seu rosto a exacerbarem essa situação, enquanto a actriz concede dimensão a esta personagem que se encontra a viver um conjunto de sentimentos dicotómicos que atormentam a sua alma. Christophe Honoré procura explorar o mistério e as dúvidas que envolvem os pensamentos destes adolescentes, algo latente quando nos surpreende em relação a alguns dos seus segredos e aos sentimentos que reprimem ou tardam em revelar. Junie é desejada por boa parte dos rapazes, embora seja Otto (Grégoire Leprince-Ringuet) quem leva inicialmente a melhor. Este é um jovem aparentemente tímido, calmo e ponderado, que gosta imenso de literatura e apresenta uma noção algo naïve da vida e do amor. A relação entre Junie e Otto parece não ter grande capacidade para avançar quer pela falta de química que apresentam, quer pelos sentimentos que a primeira procura reprimir em relação a Nemours, embora os dois primeiros ainda tenham um ou outro momento de maior intimidade.

Junie não é a única a reprimir sentimentos, com "La Belle Persone" a apresentar um conjunto de personagens cujas relações nem sempre duram muito tempo ou contam com uma intensidade, ou instabilidade que pode contribuir para actos desastrosos, com Christophe Honoré a explorar a complexidade inerente a esse sentimento tão intrincado e difícil de explicar que é o amor. Veja-se o caso de Nemours, um indivíduo que inicialmente tem uma relação com Florence Perrin (Valerie Lang), uma professora, bem como com Marie (Agathe Bonitzer), uma aluna. Isso não o impede de gerar uma certa obsessão por Junie e terminar os relacionamentos que mantinha com Florence e Marie, com Louis Garrel a interpretar um indivíduo mulherengo que desperta a atenção das figuras femininas e a confiança dos alunos. Um dos alunos que confia em Nemours é Mathias, o primo de Junie. Mathias é um adolescente que procura esconder o seu envolvimento amoroso com Martin (Martin Simeon), mantendo um caso com Esther (Esther Garrel) e Catherine (Anaïs Demoustier), embora estas últimas não saibam que se encontram a ser duplamente traídas. A juntar a este ramalhete temos ainda a situação delicada de Henri (Simon Truxillo), o irmão de Marie, um dos integrantes do grupo de amigos que Mathias apresenta a Junie. Henri encontra-se apaixonado pelo personagem interpretado por Esteban Carjaval-Alegria, embora namore com Catherine, com Christophe Honoré a colocar-nos diante de um conjunto de relações intrincadas ao longo de "La Belle Personne", uma obra cinematográfica (inicialmente desenvolvida como telefilme) livremente inspirada no livro "Princesse de Clèves" de Madame de La Fayette. O argumento de Christophe Honoré e Gilles Taurand é relativamente competente a explorar as relações entre estes personagens, bem como o seu quotidiano na escola, as idas ao café e os seus tempos livres, embora fique sempre a sensação de que nem todos os elementos são desenvolvidos na justa medida. Veja-se o caso de personagens como Marie, uma jovem que serve acima de tudo para exibir o efeito que Nemours provoca nas alunas mas também a facilidade com que este indivíduo despacha as suas amantes. No entanto, "La Belle Personne" apresenta uma competência notória a explorar os desejos dos adolescentes, os segredos que guardam no interior das suas almas, as suas relações intrincadas e as diferentes interpretações que cada um tem do amor e de encarar os envolvimentos do foro amoroso. Junie é a jovem que desperta a atenção de tudo e todos quer seja o tímido Otto, quer seja o galanteador Nemours, com esta a parecer temer envolver-se a sério numa relação. A personagem interpretada por Léa Seydoux ainda parece demasiado marcada pela morte da mãe, para além de apresentar um afastamento notório do seu pai, com quem não quer viver, com a actriz a dar vida a uma figura estranhamente misteriosa e sedutora. A entrada de Junie na sala de aula desperta desde logo a atenção de Nemours, com uma simples troca de olhares ou gestos entre ambos a parecer deixar implícito que sentem uma atracção mútua. Christophe Honoré não parece procurar julgar, ou melhor, deixa essa tarefa para o espectador, os actos de Nemours, um professor que se envolve com alunas e colegas de trabalho, com Louis Garrel a atribuir credibilidade aos actos deste indivíduo. Com um penteado cheio de estilo, uma incapacidade notória em conter o desejo, Nemours é um dos vários dos personagens de "La Belle Personne" que se envolve em imbróglios amorosos, com a jovem Junie a despertar a atenção deste indivíduo. Junie tem uma presença magnética, capaz de atrair as atenções de todos aqueles que estão à sua volta, com "La Belle Personne" a explorar os receios que esta adolescente apresenta em ceder aos desejos que reprime em relação a Nemours, ou as dúvidas que tem em relação ao envolvimento com Otto.

Se Louis Garrel consegue exprimir a confiança e a facilidade que Nemours tem em expor os seus sentimentos, já Grégoire Leprince-Ringuet transmite a timidez de Otto, um personagem algo apagado, nem sempre confiante em si próprio ou capaz de tomar a iniciativa na relação. Vale ainda a pena realçar Esteban Carjaval-Alegria como Mathias, o primo de Junie, um jovem que surge como um veículo para Christophe Honoré abordar questões relacionadas com as diferentes orientações sexuais e a forma como a homossexualidade é encarada pelos adolescentes. Mathias procura esconder a relação com Martin, embora uma carta que lhe é endereçada traga algumas revelações que dinamitam esse desejo. O grupo conta ainda com a presença de Jacob (Jacob Lyons), um adolescente que gosta de tirar fotografias e frequenta regularmente as mesmas aulas dos personagens mencionados, com uma foto tirada por este a exibir mais uma vez a capacidade que Junie tem em despertar a atenção das figuras masculinas. Ficamos diante de um meio complexo, onde jovens se apaixonam, professores desejam alunas, as relações não parecem ter um longo período de vida, o amor pode conduzir aos actos mais irracionais e os segredos são mais do que muitos. Léa Seydoux é o nome que mais sobressai ao longo desta obra cinematográfica que procura abordar com algum realismo estas relações e dinâmicas intrincadas entre os personagens, com Christophe Honoré a aproveitar quer o espaço da escola, quer as ruas de Paris, quer a luz natural, quer a magnífica banda sonora que a espaços permite insuflar alguns dos acontecimentos que nos são apresentados. Veja-se quando Junie desata num enorme pranto ao ouvir uma música de Maria Callas, algo revelador do seu estado emocional algo frágil, ou quando a protagonista se encontra no café e a jukebox é colocada a trabalhar, com Christophe Honoré aproveitar quer a música diegética, quer a não diegética ao serviço da narrativa. A cinematografia contribui para algum do realismo que pontua a narrativa, algo latente na representação das aulas, com "La Belle Personne" a procurar explorar quer as individualidades que se encontram no interior do espaço da sala, quer o colectivo, com a câmara de filmar a deambular em volta destas figuras que vivem sentimentos intensos e escondem emoções que a qualquer momento se podem soltar. Junie é o paradigma desse mistério, com esta personagem a surgir como a antítese da simpática Nicole (Chantal Neuwirth), a dona do café Sully, um espaço frequentado por uma miríade de personagens. Nicole apresenta algum pragmatismo em relação aos relacionamentos, uma situação inerente à sua maior experiência de vida, algo que contrasta com o fervilhar de emoções dos elementos que rodeiam Junie. Entre professores mulherengos, alunos com as hormonas em erupção, sentimentos que se revelam e outros que se desvanecem, "La Belle Personne" aborda diversas temáticas relacionadas com a adolescência mas também a complexidade que envolve as relações amorosas, com Léa Seydoux a surgir sublime como Junie, uma personagem misteriosa, simultaneamente forte e delicada, com a actriz a elevar e muito esta figura feminina.

Título original: "La Belle Personne".
Título em Portugal: "A Bela Junie".
Realizador: Christophe Honoré.
Argumento: Christophe Honoré e Gilles Taurand.
Elenco: Louis Garrel, Léa Seydoux, Grégoire Leprince-Ringuet, Esteban Carvajal Alegria, Agathe Bonitzer, Anaïs Demoustier, Simon Truxillo.

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