10 dezembro 2015

Resenha Crítica: "Crimes and Misdemeanors" (1989)

 Entre dilemas morais intrincados, artistas a procurarem manter a sua integridade e outros que apenas querem ter sucesso, um assassinato premeditado, traições, humor e as habituais relações complexas entre homens e mulheres que se encontram presentes em diversas obras realizadas por Woody Allen, "Crimes and Misdemeanors" apresenta uma estrutura narrativa centrada sobretudo em Judah Rosenthal (Martin Landau) e Cliff Stern (Woody Allen), embora os dois personagens apenas se cruzem num curto e memorável momento no último terço do enredo. Judah é um oftalmologista bem sucedido, casado com Miriam Rosenthal (Claire Bloom), com quem formou família. Inicialmente encontramos Judah algo nervoso, enquanto se encontra a ser elogiado e homenageado num evento onde se encontram presentes alguns dos seus familiares e amigos. Num flashback, descobrimos que o nervosismo se deve ao facto de Dolores Paley (Anjelica Huston), a amante de Judah, ter enviado uma carta para casa do oftalmologista, onde revela por escrito que mantém um affair com o protagonista. Judah consegue ler a carta antes de Miriam, queimando a missiva de imediato. Dolores é uma comissária de bordo algo temperamental, mais jovem do que Judah, que pretende fazer de tudo para que Miriam descubra o affair, sobretudo quando percebe que o personagem interpretado por Martin Landau não quer ter uma relação séria consigo. Judah ainda tenta argumentar que nunca disse que iria abandonar a esposa, com quem vive há vinte e cinco anos, embora Dolores contraponha que este sempre falou que já não se sentia apaixonado por Miriam. O personagem interpretado por Martin Landau é um homem relativamente calmo, aparentemente pouco dado a seguir os ideais religiosos defendidos pelos familiares, embora as palavras do pai, sobre nada escapar aos olhos de Deus, atormentarem-no em diversos trechos do filme, sobretudo quando toma uma medida extrema para se livrar de Dolores. Judah decide contactar Jack (Jerry Orbach), o seu irmão, um indivíduo sem grandes problemas em arranjar planos tão "delicados" como mandar alguém falar de forma mais dura com a amante do oftalmologista ou eliminar a mesma. Judah chega a expor a sua preocupação junto de Ben (Sam Waterston), um rabino que frequenta o seu consultório. Ben padece de uma doença do foro oftalmológico que o está a levar a perder a visão, embora pareça manter uma enorme calma e ponderação diante dos acontecimentos que rodeiam a sua vida. Este procura aconselhar Judah a contar a verdade a Miriam, algo que o protagonista procura evitar. O diálogo entre Ben e Judah é marcado por questões ligadas à moral e ao comportamento humano, com o argumento de Woody Allen a procurar explorar temáticas existencialistas. Após aconselhar Judah a revelar a verdade sobre o affair, Ben comenta ainda sobre as diferentes visões que ambos têm do Mundo: "Você encara o Mundo como algo cruel, destituído de valores. Eu não poderia viver sem a crença num sistema moral com um verdadeiro significado e perdão, regido por um poder superior. Senão, não há base de conduta (...)", num dos diversos diálogos de "Crimes and Misdemeanors" que derivam para temáticas mais profundas. Ben é cunhado de Cliff Stern, um realizador que tarda em conseguir ser bem sucedido a nível profissional. Diga-se que a vida sentimental de Cliff também não se encontra lá muito famosa. O casamento entre Cliff e Wendy (Joanna Gleason), a irmã de Ben, encontra-se preso por um fio, com a relação entre ambos a ser marcada por um enorme distanciamento. Cliff é um indivíduo algo pessimista e sarcástico, que se recorda da última vez que fez sexo com a esposa (há um ano, naquele que seria o dia de aniversário de Adolf Hitler), detestando Lester (Adan Alda), outro dos irmãos de Wendy.

Se Ben é um indivíduo discreto, religioso e ponderado cuja filha se encontra prestes a casar, já Lester é um produtor televisivo egocêntrico, mulherengo, bem sucedido, embora Cliff despreze os seus trabalhos e os prémios que conquistou. Diga-se que, tal como em "Annie Hall", também assistimos ao desprezo por parte de um dos protagonistas em relação aos grandes prémios e a alguns trabalhos televisivos, com Woody Allen a dar vida a um cineasta que prefere realizar aquilo em que acredita, apresentando um conjunto de comportamentos que associamos muitas das vezes ao actor/realizador/argumentista. Apesar de não querer vender os seus ideais, Cliff acaba por aceitar realizar um documentário para Lester, sobre este último, embora mantenha sempre um tom crítico em relação ao cunhado, algo visível na hilariante montagem final do trabalho. Cliff realiza este trabalho encomendado para ganhar dinheiro tendo em vista a finalmente poder terminar o documentário que se encontra a desenvolver sobre Louis Levy (interpretado pelo psicólogo Martin S. Bergmann), um indivíduo com um conjunto de ideias interessantes sobre a vida. É na elaboração do documentário sobre o cunhado que Cliff conhece Halley Reed (Mia Farrow), uma produtora discreta e sarcástica, que ainda não parece ter ultrapassado o processo de divórcio. Halley fica interessada no documentário sobre Levy, enquanto Cliff começa a apaixonar-se por esta mulher, apesar de ser casado e encontrar a forte concorrência de Lester. Enquanto isso, Judah acaba por aceitar a ideia do irmão, com este último a contratar um assassino que elimina Dolores, com o primeiro a temer inicialmente a possibilidade de ser castigado pelo crime, embora "Crimes and Misdemeanors" não esteja virado para grandes lições de moral. Existe muitas das vezes um tom algo pessimista e negro a rodear alguns episódios desta obra onde o humor se encontra muito presente, com Woody Allen a sobressair mais uma vez a interpretar um tipo nervoso, pouco dado a aturar pretensiosismos, cuja vida sentimental já conheceu melhores dias, tendo enorme dificuldade em conciliar aquilo que lhe diz o coração e a cabeça (como este salienta "É muito difícil fazer com que os dois se entendam. No meu caso, eles nem se falam"). Allen desperta a nossa atenção como este indivíduo idealista e sardónico, que conta com uma visão muito própria da vida e do amor, que procura levar regularmente a sua sobrinha, uma jovem órfã de pai, filha da irmã do protagonista, a eventos culturais, sobretudo ao cinema. Os momentos em que assiste a "Singin' in the Rain" com Halley são típicos do jeito peculiar de Cliff, com este a expor os seus sentimentos embora esteja longe de ser totalmente bem sucedido. Se Cliff é inseguro, já Lester aparece representado como uma figura confiante e arrogante, que guarda consigo um gravador para poder reter todas as ideias que surgem na sua mente, com o seu conceito do que é o humor, recheado de chavões, a divergir imenso daquele que é defendido pelo protagonista. Diga-se que estes não são os únicos elementos que se destacam ao longo do enredo, com a narrativa a contar com um conjunto de personagens que sobressai não só graças às interpretações de actores e actrizes como Woody Allen, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Mia Farrow, Jerry Orbach, entre outros, mas também devido ao argumento sublime escrito pelo primeiro, com o dilema moral de Judah a ser livremente inspirado no livro "Crime e Castigo" de Fyodor Dostoyevsky. No caso de Landau, este interpreta o outro protagonista do filme, com o actor a atribuir características sérias e soturnas ao personagem a quem dá vida, um oftalmologista que toma a decisão drástica de eliminar a sua amante para proteger o seu casamento e a sua reputação.

Martin Landau interpreta uma das figuras mais complexas de "Crimes and Misdemeanors", com Judah a optar pela solução menos recomendável para resolver um problema que poderia destruir por completo a sua vida familiar, tendo no seu irmão um indivíduo cujos conselhos nem sempre são os mais recomendáveis. Embora Dolores não dure muito tempo na narrativa, Anjelica Huston consegue expor o lado emocionalmente desequilibrado desta figura feminina que se sente traída em relação a Judah, algo que a conduz a tomar medidas extremas, com a actriz a exibir que esta mulher chegou a um ponto em que já não tem mais paciência para esperar e continuar a ser a amante. No entanto, a personagem feminina que mais se destaca ao longo do filme é Halley, com Mia Farrow a interpretar assertivamente uma produtora relativamente reservada e culta, que desperta a atenção de Cliff e Lester. Apesar de ser algo reservada, Halley nem por isso se deixa apagar diante das figuras masculinas, uma situação visível nas suas respostas sardónicas a Lester, embora aos poucos até se comece a sentir atraída pelo mesmo. Esta é a típica personagem feminina forte dos filmes de Woody Allen, ou pelo menos com uma personalidade que facilmente prende a nossa atenção, surgindo como uma figura dicotómica de Dolores e até de Wendy. A personagem interpretada por Joanna Gleason apresenta uma distância latente de Cliff, com este a perceber isso mesmo, não só devido à falta de desejo sexual desta mas também pela pouca intimidade que apresentam. É, sobretudo, a abordar estes relacionamentos intrincados e a desenvolver os mesmos, sempre com alguma acidez e mordacidade à mistura, que "Crimes and Misdemeanors" sobressai, com Woody Allen a colocar-nos mais uma vez diante de um conjunto de personagens que povoam a cidade de Nova Iorque, com esta a parecer influenciar estas figuras e os seus comportamentos. Diga-se que o protagonista de "Annie Hall" apreciava imenso Nova Iorque, independentemente das imperfeições desta cidade, com "Crimes and Misdemeanors" a abordar e conter diversos elementos que são transversais a vários trabalhos de Woody Allen. Estes elementos vão desde as relações intrincadas entre homens e mulheres, as traições, os artistas com visões muito próprias da arte (veja-se que Cliff procura manter-se fiel aos seus ideais), personagens cujas profissões encontram-se ligadas ao cinema ou televisão, a música jazz na banda sonora, as referências cinéfilas (as sessões de cinema, bem como o poster de "The Kid" na casa de Cliff), as deambulações no tempo da narrativa (diversos flashbacks, tal como em "Annie Hall", mas também situações onde um dos protagonistas se recorda da sua infância e visualiza a sua família como se esta estivesse presente), a utilização da cidade de Nova Iorque, as falas marcantes (veja-se quando dizem a Cliff que Lester é um fenómeno americano e o primeiro responde prontamente "a chuva ácida também", ou quando Halley comenta que o personagem interpretado por Alan Alda quer produzir um projecto dela e o protagonista salienta "O teu primeiro filho", entre outros exemplos), as frustrações sexuais, com o próprio actor e realizador a interpretar um indivíduo muito associado à sua figura.

Nervoso, culto, cinéfilo, sempre pronto a exibir alguma mordacidade, Cliff tanto gosta de espalhar azedume em relação a Lester como apresenta uma enorme delicadeza com a sobrinha e Halley, com o personagem interpretado por Woody Allen a surgir como uma figura complexa e interessante de acompanhar. Allen tanto consegue atribuir um tom cómico como algo dramático ao personagem que interpreta, com o actor a destacar-se pelo timing exímio na exposição das falas mordazes. A certa altura encontramos Cliff a ter uma enorme desilusão em relação à decisão tomada por uma personagem. As expressões do rosto de Woody Allen contribuem para que acreditemos que Cliff se encontra mesmo arrasado, com o destino a ter um papel de relevo neste desfecho. O destino também parece exercer um papel de relevo na vida de Judah, com este a contar inicialmente com um certo sentimento de culpa, muito associado à religião, ou não tivesse sido educado numa família conservadora, embora seja algo céptico, com os elementos judaicos a estarem também bastante presentes ao longo do enredo. Judah parece inicialmente algo arrependido, embora o sentimento de culpa pareça diluir-se de forma gradual, com o protagonista a procurar aprender a conviver com o crime que mandou cometer. Para o oftalmologista, os finais felizes só existem nos filmes de Hollywood, com "Crimes and Misdemeanors" a exibir-nos um pouco o contrário ao surpreender-nos em relação aos desfechos de Cliff e Judah, com Woody Allen a ser fiel ao espírito da narrativa e dos personagens, algo latente no último terço. Judah e Cliff lidam com dilemas morais ao longo do filme, embora em contextos distintos. Cliff tem de desenvolver um documentário a contragosto, apaixona-se por outra mulher apesar de ser casado e divaga pelas teorias do filósofo Louis Levy (com o filme, por vezes, a entrar pelo campo da filosofia). Judah tem de lidar com a possibilidade daquilo que terá de fazer em relação à amante e conviver com esse acto, com o argumento a procurar dar ênfase a esta situação. A história de Judah é mais negra do que a de Cliff, embora ambos, em diversos momentos, acabem por lidar com questões morais e existenciais. Allen explora os dilemas destes personagens, sem esquecer aqueles que os rodeiam, deixando-nos muitas das vezes a pensar no que faríamos no lugar dos mesmos, com alguns dos elementos bem sucedidos desta obra cinematográfica a serem apontados e bem por Vincent Canby, nomeadamente, a facilidade com que o cineasta liga estas histórias que decorrem ao longo do filme e atribui um tom homogéneo aos diferentes registos do mesmo: "The wonder of ''Crimes and Misdemeanors'' is the facility with which Mr. Allen deals with so many interlocking stories of so many differing tones and voices. The film cuts back and forth between parallel incidents and between present and past with the effortlessness of a hip, contemporary Aesop". Diga-se que esta competência a variar o tom da narrativa é transversal a obras do cineasta como “Hannah and Her Sisters”, onde também tínhamos um núcleo alargado de personagens, a cidade de Nova Iorque como pano de fundo, as referências cinéfilas, traições no seio do matrimónio, as falas mordazes, entre outros exemplos, com o “crime perfeito” a ser uma temática que encontramos ainda a ser abordada em filmes como “Manhattan Murder Mystery” e "Match Point". Vale ainda a pena realçar a enorme injustiça que efectuei ao longo do texto devido ao facto de praticamente não mencionar o trabalho de Sven Nykvist na cinematografia, com este a sobressair nos planos de longa duração, com a câmara a acompanhar de forma amiúde as figuras que povoam o enredo, enquanto nos refastelamos com as dinâmicas entre os diversos personagens. Tal como em diversas obras cinematográficas de Woody Allen, "Crimes and Misdemeanors" sobressai pelos diálogos acima da média, pelas dinâmicas estabelecidas entre os diversos personagens, pela capacidade do realizador em conseguir obter interpretações imaculadas de boa parte do elenco, com este magnífico cineasta a ter aqui mais um trabalho bastante coeso e sublime.

Título original: "Crimes and Misdemeanors".
Título em Portugal: "Crimes e Escapadelas".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Caroline Aaron, Alan Alda, Woody Allen, Claire Bloom, Mia Farrow, Joanna Gleason, Anjelica Huston, Martin Landau, Jenny Nichols, Jerry Orbach.

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