22 novembro 2015

Resenha Crítica: "Young Sherlock Holmes" (1985)

 Em "Mr. Holmes", a mais recente adaptação cinematográfica do famoso detective criado por Sir Arthur Conan Doyle, encontramos o personagem do título em idade avançada, com noventa e dois anos de idade, a procurar manter e recuperar as memórias do passado. "Mr. Holmes" surge como uma das várias adaptações revisionistas que acrescentam elementos ao cânone do famoso detective, algo que acontecera em obras cinematográficas como "The Private Life of Sherlock Holmes", onde o espectador era colocado diante da distinção entre os mitos criados em volta do icónico personagem e a "realidade", ou "Young Sherlock Holmes", um filme realizado por Barry Levinson que nos apresenta a alguns episódios relevantes da juventude do protagonista. Barry Levinson incute elementos que são regularmente associados às obras de Sherlock Holmes, tais como as célebres investigações e o mistério, para além de nos colocar diante de temáticas ligadas à adolescência e ao primeiro amor, com "Young Sherlock Holmes" a contar ainda com ingredientes de filmes de aventuras como "The Goonies". Diga-se que o argumento é da autoria de Chris Columbus, o argumentista de obras como "Gremlins" e "The Goonies", tendo ainda realizado filmes como "Home Alone" e as primeiras duas adaptações cinematográficas da saga "Harry Potter", algo revelador de que estamos diante de alguém relativamente competente a construir histórias que envolvam entretenimento para "toda a família". Nesse sentido, "Young Sherlock Holmes" surge como uma obra cinematográfica que tenta chegar a um público alargado ao mesmo tempo que procura explorar elementos associados ao icónico detective, enquanto este último forma a sua personalidade e a amizade com John Watson. É em "Young Sherlock Holmes" que encontramos o detective a utilizar pela primeira vez o seu famoso chapéu, mas também o cachimbo, iniciando o filme como uma figura que não pretende viver de forma solitária, embora termine a querer o contrário. Curiosamente, em "Mr. Holmes", encontramos o famoso detective, já em idade avançada, a lidar exactamente com essa solidão, tendo no jovem Roger, o filho da sua governanta, a sua melhor companhia. No caso de "Young Sherlock Holmes", encontramos o personagem do título a estudar na Brompton, uma escola pública inglesa, destinada apenas para rapazes. Sherlock Holmes (Nicholas Rowe) apresenta já algumas qualidades para a dedução e uma arrogância muito própria, embora ainda se deixe muitas das vezes guiar pelos seus ímpetos, algo que promete trazer alguns problemas ao protagonista. O início do filme marca a entrada de John Watson (Alan Cox) em cena, um jovem algo rechonchudo, pouco confiante e afável, que pretende ser médico e forma amizade com Sherlock. A juntar a este duo temos ainda Elizabeth Hardy (Sophie Ward), a sobrinha de Rupert T. Waxflatter (Nigel Stock), um inventor e professor aposentado que vive no espaço da escola, uma situação que explica a presença constante da jovem junto dos rapazes.

Elizabeth desperta o interesse amoroso de Sherlock, algo que é recíproco, com o protagonista a formar ainda uma enorme rivalidade com Dudley (Earl Rhodes), um jovem pedante que também corteja a primeira. A inimizade entre Dudley e Sherlock promete trazer consequências pouco agradáveis para este último, enquanto assistimos a estranhos casos de suicídios provocados por alucinações. Logo no início de "Young Sherlock Holmes" somos colocados diante de um indivíduo que é atingido por um espinho ou uma espécie de pequeno dardo envenenado, lançado por uma pessoa anónima a partir de um artefacto egípcio. O dardo contém uma substância que provoca fortes alucinações, algo que conduz as vítimas a cometerem suicídio. Sherlock Holmes decide começar a investigar estes estranhos suicídios, com a morte de Waxflatter a surgir como o gatilho para este se interessar ainda mais em resolver o caso, contando com o apoio de Watson e Elizabeth. Nicholas Rowe tem uma interpretação convincente como Sherlock Holmes, com o actor a saber incutir alguns elementos associados ao famoso detective ao mesmo tempo que deixa transparecer alguma da infantilidade desta figura que ainda se encontra longe de ser um mestre na arte da dedução. Rowe apresenta uma dinâmica convincente com Alan Cox, com a relação entre Holmes e Watson a ser um dos elementos essenciais do filme, com o segundo a surgir mais uma vez como um apoio relevante embora não tenha a mesma inteligência e astúcia do protagonista, uma figura que admira. Holmes tem ainda uma relação de alguma proximidade e respeito com o Professor Rathe (Anthony Higgins), um indivíduo que esconde uns quantos segredos. Diga-se que Sherlock, Watson e Elizabeth vão envolver-se em alguns perigos, enquanto transgridem regras, deambulam pelas ruas de Londres e deparam-se com o Rame Tep, um grupo que pratica um culto transviado ao Deus Osíris. A descoberta deste grupo leva a uma mudança na narrativa, com "Young Sherlock Holmes" a assumir uma faceta de aventura, com o próprio local de culto a remeter para "Indiana Jones and the Temple of Doom", ainda que num tom mais leve. Barry Levinson consegue explorar com alguma assertividade as diferentes facetas do filme, mesclando "ingredientes" de aventura, mistério e investigação, com "Young Sherlock Holmes" a surgir como uma obra cinematográfica que apresenta uma versão revisionista do célebre detective. No caso de "Young Sherlock Holmes", o personagem do título ainda nem é um detective, com Barry Levinson a procurar distanciar-se das obras de Sir Arthur Conan Doyle no início e no final do filme, através de duas mensagens deixadas aos espectadores, algo revelador de alguma falta de confiança por parte do cineasta.

Este Sherlock que nos é apresentado ainda comete falhas (tal como aquele que nos é exposto em "The Private Life of Sherlock Holmes"), é impetuoso, gosta de praticar esgrima, tem uma capacidade de dedução acima da média e forma uma amizade latente com Watson. Já a relação amorosa com Elizabeth é típica de um envolvimento entre dois jovens a conhecerem o primeiro amor, com a personagem interpretada por Sophie Ward a deixar marca no protagonista. Os momentos mais apolíneos são contrastados com a tensão que rodeia as alucinações sentidas por aqueles que são sujeitos à substância que se encontra no interior dos dardos, com os elementos infectados a acabarem muitas das vezes por serem compelidos a cometerem suicídio, enquanto Barry Levinson aproveita estes trechos para explorar o "arsenal" de efeitos especiais que tem à disposição. Temos ainda as explosivas cenas no templo no último terço, com a banda sonora a contribuir para a inquietação ao longo de uma obra cinematográfica que conta com algumas reviravoltas e uma história que, longe de ter uma grande profundidade ou deixar uma marcar indelével, consegue cumprir no quesito de prender toda a nossa atenção. O filme conta ainda com uma série de personagens secundários que sobressaem: o professor Rathe, uma figura que esconde uma enorme malícia; Lestrade (Roger Ashton-Griffiths), um elemento da Scotland Yard que inicialmente não liga às teorias de Sherlock Holmes em relação aos suicídios e ao grupo do culto relacionado com o Antigo Egipto; Mrs. Dribb (Susan Fleetwood), uma funcionária da escola com uma agenda muito própria; Chester Cragwitch (Freddie Jones), um homem misterioso que sabe mais sobre as mortes e o culto do que poderíamos esperar; Rupert T. Waxflatter, o mentor de Sherlock, um indivíduo que é admirado pelo protagonista, com este ex-professor a apresentar uma personalidade excêntrica, enquanto procura colocar em prática as suas engenhocas que permitem a locomoção no ar, entre outros personagens. O argumento de Chris Columbus atribui alguma atenção e importância a esta miríade de personagens, enquanto a investigação consegue despertar a nossa curiosidade, apesar de alguns exageros no último terço onde o filme deambula entre os géneros da acção e aventura, tendo como pano de fundo a Era Vitoriana. "Young Sherlock Holmes" apresenta alguns pormenores interessantes relacionados com a formação da personalidade do famoso detective, com Barry Levinson a colocar-nos diante da primeira grande investigação protagonizada por Sherlock Holmes e John Watson, enquanto nos torna cúmplices da dupla e nos compele a seguir um enredo relativamente agradável de acompanhar.

Título original: "Young Sherlock Holmes".
Título em Portugal: "O Enigma da Pirâmide".
Realizador: Barry Levinson.
Argumento: Chris Columbus.
Elenco: Nicholas Rowe, Alan Cox, Anthony Higgins, Sophie Ward, Roger Ashton-Griffiths, Freddie Jones, Nigel Stock, Brian Oulton, Susan Fleetwood.

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