Em "Mr. Holmes", a mais recente adaptação
cinematográfica do famoso detective criado por Sir Arthur Conan
Doyle, encontramos o personagem do título em idade avançada, com
noventa e dois anos de idade, a procurar manter e recuperar as
memórias do passado. "Mr. Holmes" surge como uma das
várias adaptações revisionistas que acrescentam elementos ao cânone do
famoso detective, algo que acontecera em obras cinematográficas como
"The Private Life of Sherlock Holmes", onde o espectador
era colocado diante da distinção entre os mitos criados em volta do
icónico personagem e a "realidade", ou "Young
Sherlock Holmes", um filme realizado por Barry Levinson que nos
apresenta a alguns episódios relevantes da juventude do
protagonista. Barry Levinson incute elementos que são regularmente associados às obras de Sherlock
Holmes, tais como as célebres investigações e o mistério, para além de nos colocar diante de temáticas ligadas à adolescência e ao primeiro
amor, com "Young Sherlock Holmes" a contar ainda com ingredientes de filmes de aventuras como "The Goonies". Diga-se que o argumento é da
autoria de Chris Columbus, o argumentista de obras como "Gremlins" e "The Goonies", tendo ainda realizado filmes como "Home Alone" e as primeiras
duas adaptações cinematográficas da saga "Harry Potter",
algo revelador de que estamos diante de alguém relativamente competente a
construir histórias que envolvam entretenimento para "toda a
família". Nesse sentido, "Young Sherlock Holmes" surge como uma obra cinematográfica que tenta chegar a um público alargado ao mesmo tempo que procura explorar elementos associados ao icónico
detective, enquanto este último forma a sua personalidade e a
amizade com John Watson. É em "Young Sherlock Holmes" que
encontramos o detective a utilizar pela primeira vez o seu famoso
chapéu, mas também o cachimbo, iniciando o filme como uma
figura que não pretende viver de forma solitária, embora termine a
querer o contrário. Curiosamente, em "Mr. Holmes",
encontramos o famoso detective, já em idade avançada, a lidar
exactamente com essa solidão, tendo no jovem Roger, o filho da sua
governanta, a sua melhor companhia. No caso de "Young Sherlock
Holmes", encontramos o personagem do título a estudar na Brompton,
uma escola pública inglesa, destinada apenas para rapazes. Sherlock
Holmes (Nicholas Rowe) apresenta já algumas qualidades para a
dedução e uma arrogância muito própria, embora ainda se deixe
muitas das vezes guiar pelos seus ímpetos, algo que promete trazer
alguns problemas ao protagonista. O início do filme marca a entrada
de John Watson (Alan Cox) em cena, um jovem algo rechonchudo, pouco
confiante e afável, que pretende ser médico e forma amizade com
Sherlock. A juntar a este duo temos ainda Elizabeth Hardy (Sophie
Ward), a sobrinha de Rupert T. Waxflatter (Nigel Stock), um inventor
e professor aposentado que vive no espaço da escola, uma situação
que explica a presença constante da jovem junto dos rapazes.
Elizabeth desperta o interesse amoroso de Sherlock, algo que é
recíproco, com o protagonista a formar ainda uma enorme rivalidade
com Dudley (Earl Rhodes), um jovem pedante que também corteja a
primeira. A inimizade entre Dudley e Sherlock promete trazer
consequências pouco agradáveis para este último, enquanto
assistimos a estranhos casos de suicídios provocados por
alucinações. Logo no início de "Young Sherlock Holmes"
somos colocados diante de um indivíduo que é atingido por um
espinho ou uma espécie de pequeno dardo envenenado, lançado por uma pessoa anónima a partir de um
artefacto egípcio. O dardo contém uma substância que provoca
fortes alucinações, algo que conduz as vítimas a cometerem
suicídio. Sherlock
Holmes decide começar a investigar estes estranhos suicídios, com a
morte de Waxflatter a surgir como o gatilho para este se interessar
ainda mais em resolver o caso, contando com o apoio de Watson e
Elizabeth. Nicholas Rowe tem uma interpretação convincente como
Sherlock Holmes, com o actor a saber incutir alguns elementos
associados ao famoso detective ao mesmo tempo que deixa transparecer
alguma da infantilidade desta figura que ainda se encontra longe de
ser um mestre na arte da dedução. Rowe apresenta uma dinâmica
convincente com Alan Cox, com a relação entre Holmes e Watson a ser
um dos elementos essenciais do filme, com o segundo a surgir mais uma
vez como um apoio relevante embora não tenha a mesma inteligência e
astúcia do protagonista, uma figura que admira. Holmes tem ainda uma
relação de alguma proximidade e respeito com o Professor Rathe
(Anthony Higgins), um indivíduo que esconde uns quantos segredos.
Diga-se que Sherlock, Watson e Elizabeth vão envolver-se em alguns
perigos, enquanto transgridem regras, deambulam pelas ruas de Londres
e deparam-se com o Rame Tep, um grupo que pratica um culto transviado
ao Deus Osíris. A descoberta deste grupo leva a uma mudança na
narrativa, com "Young Sherlock Holmes" a assumir uma faceta
de aventura, com o próprio local de culto a remeter para "Indiana
Jones and the Temple of Doom", ainda que num tom mais leve. Barry
Levinson consegue explorar com alguma assertividade as diferentes facetas do filme, mesclando "ingredientes" de
aventura, mistério e investigação, com
"Young Sherlock Holmes" a surgir como uma obra
cinematográfica que apresenta uma versão
revisionista do célebre detective. No caso de "Young Sherlock
Holmes", o personagem do título ainda nem é um detective, com
Barry Levinson a procurar distanciar-se das obras de Sir Arthur Conan
Doyle no início e no final do filme, através de duas mensagens
deixadas aos espectadores, algo revelador de alguma falta de confiança por parte do cineasta.
Este Sherlock que nos é apresentado ainda comete falhas (tal como
aquele que nos é exposto em "The Private Life of Sherlock
Holmes"), é impetuoso, gosta de praticar esgrima, tem uma
capacidade de dedução acima da média e forma uma amizade latente
com Watson. Já a relação amorosa com Elizabeth é típica de um
envolvimento entre dois jovens a conhecerem o primeiro amor, com a
personagem interpretada por Sophie Ward a deixar marca no
protagonista. Os momentos mais apolíneos são contrastados com a
tensão que rodeia as alucinações sentidas por aqueles que são
sujeitos à substância que se encontra no interior dos dardos, com os elementos infectados a acabarem muitas das vezes por serem compelidos a cometerem suicídio,
enquanto Barry Levinson aproveita estes trechos para explorar o "arsenal"
de efeitos especiais que tem à disposição. Temos ainda as explosivas cenas no templo no último
terço, com a banda sonora a contribuir para a inquietação ao
longo de uma obra cinematográfica que conta com algumas reviravoltas
e uma história que, longe de ter uma grande profundidade ou deixar
uma marcar indelével, consegue cumprir no quesito de prender toda a
nossa atenção. O filme conta ainda com uma série de personagens secundários que sobressaem: o professor Rathe, uma figura que
esconde uma enorme malícia; Lestrade (Roger Ashton-Griffiths), um
elemento da Scotland Yard que inicialmente não liga às teorias de
Sherlock Holmes em relação aos suicídios e ao grupo do culto
relacionado com o Antigo Egipto; Mrs. Dribb (Susan Fleetwood), uma
funcionária da escola com uma agenda muito própria; Chester
Cragwitch (Freddie Jones), um homem misterioso que sabe mais sobre as
mortes e o culto do que poderíamos esperar; Rupert T. Waxflatter, o
mentor de Sherlock, um indivíduo que é admirado pelo protagonista,
com este ex-professor a apresentar uma personalidade excêntrica,
enquanto procura colocar em prática as suas engenhocas que permitem
a locomoção no ar, entre outros personagens. O argumento de Chris Columbus atribui alguma atenção e importância a esta miríade de personagens, enquanto a investigação consegue despertar a nossa curiosidade, apesar de alguns exageros no último terço onde o filme
deambula entre os géneros da acção e aventura, tendo como pano de
fundo a Era Vitoriana. "Young Sherlock Holmes" apresenta alguns
pormenores interessantes relacionados com a formação da personalidade do famoso detective, com Barry Levinson a colocar-nos diante da primeira grande investigação protagonizada por Sherlock Holmes e John Watson, enquanto nos torna
cúmplices da dupla e nos compele a seguir um enredo relativamente agradável de acompanhar.
Título original: "Young Sherlock Holmes".
Título em Portugal: "O Enigma da Pirâmide".
Realizador:
Barry Levinson.
Argumento: Chris Columbus.
Elenco: Nicholas Rowe, Alan Cox, Anthony Higgins, Sophie Ward, Roger Ashton-Griffiths, Freddie Jones, Nigel Stock, Brian Oulton, Susan Fleetwood.

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