Simples, delicado, recheado de romantismo e uma enorme subtileza
na abordagem das relações e dos sentimentos humanos, "Un homme
et une femme" é um triunfo cinematográfico de Claude Lelouch,
com o cineasta a envolver-nos com enorme facilidade para o interior
da história da sua dupla de protagonistas. Uma das personagens principais de "Un homme et une femme" é Anne Gauthier (Anouk
Aimée), uma mulher que trabalha na escrita e supervisão de argumentos de filmes. Anne é
viúva de um duplo (Pierre Barouh) que faleceu ao protagonizar um acto mais
arriscado durante as filmagens de uma obra
cinematográfica. O momento da morte foi observado de perto por Anne,
com Claude Lelouch a expor-nos o mesmo em flashback, com a narrativa
a apresentar uma estrutura fragmentada, deambulando entre o presente
e o passado, parecendo seguir quase sempre o ritmo das emoções e
sentimentos dos personagens. Anne tem uma filha, chamada Françoise
(Souad Amidou), uma jovem que estuda num colégio interno localizado
em Deauville. As duas parecem apresentar uma relação relativamente
próxima e afável, com a jovem Françoise a apreciar a presença da
mãe e os passeios que fazem na praia. Outro dos protagonistas é
Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant), um piloto de automóveis, um
indivíduo ponderado e afável. Valerie (Valerie Lagrange), a esposa
de Jean-Louis, cometeu suicídio após receber a notícia de que este
último sofrera um grave acidente enquanto competia nas 24 Horas de
Le Mans. Jean-Louis é pai de Antoine (Antoine Sire), um rapaz que
também estuda no colégio interno de Deauville, com o protagonista a aproveitar para desfrutar as horas de folga para actos tão distintos como
ensinar o petiz a conduzir, ou passear com o mesmo. Anne e
Jean-Louis conhecem-se por acaso, num momento aparentemente banal que
vai marcar as suas vidas. É quase sempre assim que surgem algumas
das relações mais marcantes, seja no grande ecrã ou na vida real,
com "Un homme et une femme" a expor-nos a duas figuras com
personalidades afáveis que facilmente despertam a nossa simpatia.
Anne perdera o comboio, algo que conduz uma das professoras da escola
a pedir a Jean-Louis se este pode transportar a argumentista até
Paris. Os dois metem conversa, de forma simples e sincera, com as
falas a praticamente não parecerem encenadas, enquanto Claude
Lelouch planta as sementes para algo que promete ser complexo e
sublime. Anne e Jean-Louis não sabiam nada um sobre o outro, com a
primeira a revelar, ainda que gradualmente, alguns elementos sobre a
sua vida, entre os quais a profissão do esposo e a causa da morte
deste indivíduo, mas também o enorme amor que continua a sentir
pelo mesmo. A descrição bem viva que esta mulher efectua da relação que mantinha com o falecido esposo diz muito da sua visão sobre o amor, ao
mesmo tempo que explana paradigmaticamente a capacidade de "Un homme et une femme"
de contar com alguns diálogos sublimes que facilmente ficam na
memória.
Quando Jean-Louis salienta que a história do início da
relação entre esta e o esposo é completamente banal, Anne logo
comenta que: "Não pretendo ser original. Um encontro, um
casamento, um filho, são coisas que acontecem com todos. Talvez o
que seja original é quem se ama". Veja-se ainda quando esta
salienta o gosto do esposo pelo samba, com a banda sonora a
sobressair, enquanto Anouk Aimée é capaz de nos convencer de que
Anne ainda continua a manter um enorme amor pelo falecido. Não faltam
ainda os momentos de convívio que Anne e Jean-Louis protagonizam com
os filhos, com os dois visitarem os petizes aos Domingos, ou não
tivessem profissões que ocupam boa parte dos seus dias. Estes são
alguns dos vários momentos sublimes de "Un homme et une femme",
com Claude Lelouch a saber desenvolver com enorme subtileza a relação entre a dupla de
protagonistas. Aos poucos ficamos a saber mais sobre o passado de
Jean-Louis e Anne, sobre as suas profissões e os episódios que
marcaram as suas vidas privadas, enquanto estes combinam sair juntos,
levam os respectivos rebentos para passear, com tudo a parecer correr
às mil maravilhas. No entanto, as memórias do passado podem nem
sempre ser fáceis de desvanecer, que o diga Anne, uma mulher que tanto
parece querer avançar para uma nova relação como indica não
esquecer o falecido esposo. Anne e o esposo parecem ter vivido algo
demasiado forte, com a perda deste último, marcada por contornos
trágicos, a continuar ainda demasiado vincada na memória da
protagonista. Anouk Aimée transmite uma multitude de emoções
através do seu rosto, com a actriz a incutir uma enorme delicadeza,
fragilidade e mistério a esta mulher que facilmente desperta a nossa
simpatia. A actriz consegue expressar as dúvidas de Anne, o enorme
amor que sente pelo falecido esposo e os sentimentos que começa a
nutrir em relação a Jean-Louis. Anouk Aimée e Jean-Louis
Trintignant exibem uma dinâmica assinalável, algo visível desde os
momentos iniciais, em que a dupla fala no carro durante a viagem até
Paris, enquanto se começa a conhecer e se expõe diante do
espectador. Diga-se que Claude Lelouch convida-nos a participar neste
romance quer na sua génese, quer durante o seu desenvolvimento, ao
mesmo tempo que nos expõe diante de sentimentos e sensações
universais que facilmente conseguem dizer algo ao espectador. Lelouch
aproveita a química notória entre a dupla de protagonistas ao mesmo
tempo que consegue que Jean-Louis e Anne criem uma empatia notória
com o espectador, algo que contribui para que aos poucos tenhamos a
sensação inexplicável de torcer para que os dois sejam felizes.
Ambos parecem marcados pelos episódios relacionados com a perda dos
respectivos cônjuges, embora Anne aparente estar menos preparada
para seguir em frente. A narrativa deambula entre o presente e o
passado, entre memórias que se criam e aquelas que já não se
esquecem, numa obra pontuada ainda por alguma irreverência. Lelouch
não poupa em jump-cuts, imagens a cores ou a preto e branco, ou em
tom sépia, planos de curtíssima duração, close-ups que exibem uma
quantidade assinalável de sentimentos, diálogos sinceros que são
contrastados por silêncios que ganham toda uma outra dimensão com a
magnífica banda sonora de Francis Lai, ao longo de um romance que
tem tanto de simples como de complexo. O contraste entre as
diferentes tonalidades e o facto de Claude Lelouch ter filmado "Un
homme et une femme" em 35mm, 16mm e Super 8 foi algo que se
deveu muito mais a razões pragmáticas do que propriamente
simbólicas, algo salientado pelo cineasta numa entrevista
interessantíssima ao The Hollywood Interview: "You
know the primary reason I used both color and black & white
in A Man and a Woman? I was running out of money! (laughs) And black
& white was cheaper. (...) It
wasn’t symbolic. It was financial! But that’s one example of how
problems and constraints often breed your greatest creative
decisions". Diga-se que este foi o primeiro grande sucesso
da carreira de Claude Lelouch, com o cineasta a ter contabilizado por
fracassos as obras cinematográficas que tinha realizado até então,
embora "Un homme et une femme" tenha recebido os elogios do
público e da crítica, indo ao ponto de ter sido agraciado com a
sempre prestigiante Palma de Ouro no Festival de Cannes (edição de
1966).
O argumento de Claude Lelouch e Pierre
Uytterhoeven é aprumado, sobretudo pela capacidade de explorar
com enorme delicadeza o iniciar de uma relação entre duas figuras
marcadas por tragédias que deixaram feridas mal cicatrizadas nas
suas almas, ao mesmo tempo que permite que Anouk
Aimée e Jean-Louis Trintignant
criem dois personagens especiais. Tudo parece funcionar ao longo de "Un
homme et une femme", embora o aparente afastamento que Lelouch
procura efectuar dos cineastas da Nouvelle Vague não impeça que
existam alguns traços em comum entre a sua obra cinematográfica e
os trabalhos de alguns dos seus colegas de profissão: a atenção
aos gestos dos personagens numa cena de maior erotismo que culmina
numa viagem às memórias do passado remete para obras como "La
peau douce" ou "Une femme mariée"; os jump-cuts "à
Godard"; a utilização dos espaços citadinos e dos cenários
naturais; a montagem algo abrupta, contribuindo para a exposição dos estados de
espírito de Anne e Jean-Louis; a irreverência na exposição da
narrativa (os diferentes formatos e a paleta cromática até podem
ter sido uma solução de recurso mas permitem essa interpretação); os diálogos improvisados, entre outros exemplos. É um filme que
facilmente desperta os nossos sentimentos mais quentes, com Anouk
Aimée e Jean-Louis Trintignant a terem um enorme mérito nesse
quesito, enquanto Claude Lelouch conduz a relação dos personagens
que estes interpretam com uma sobriedade que joga e muito a seu
favor. Esta situação é visível em alguns acontecimentos aparentemente
anódinos que nos são apresentados, com um simples telegrama enviado por Anne a surgir
recheado de significado, uma música a trazer consigo todo uma paixão
pelos ritmos quentes do samba, uma corrida de automóveis a expor a capacidade do ser humano em colocar a sua vida
em risco. Também Anne e Jean-Louis precisam arriscar para poderem
ser felizes, embora as memórias do passado sejam demasiado
fortes, algo que pode impedir esse desiderato. Romance terno e delicado, marcado
por uma enorme subtileza e uma capacidade de nos compelir a acreditar
nos sentimentos da dupla de protagonistas, "Un homme et une
femme" embrenha-nos para o interior da história de Anne e
Jean-Louis, deleita-nos com as interpretações de Anouk Aimée e
Jean-Louis Trintignant, aproveita de forma inspirada a banda sonora
de Francis Lai, com Claude Lelouch a elaborar um filme capaz de
invadir a nossa mente durante a sua duração e fazer com que
partilhemos algumas das sensações destas figuras apaixonantes que
povoam a narrativa.
Título original: "Un homme et une femme".
Título em Portugal: "Um Homem e Uma Mulher".
Realizador: Claude Lelouch.
Argumento:
Claude Lelouch e Pierre Uytterhoeven.
Elenco: Anouk Aimée, Jean-Louis Trintignant, Pierre Barouh, Valérie Lagrange.

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