25 novembro 2015

Resenha Crítica: "Un homme et une femme" (1966)

 Simples, delicado, recheado de romantismo e uma enorme subtileza na abordagem das relações e dos sentimentos humanos, "Un homme et une femme" é um triunfo cinematográfico de Claude Lelouch, com o cineasta a envolver-nos com enorme facilidade para o interior da história da sua dupla de protagonistas. Uma das personagens principais de "Un homme et une femme" é Anne Gauthier (Anouk Aimée), uma mulher que trabalha na escrita e supervisão de argumentos de filmes. Anne é viúva de um duplo (Pierre Barouh) que faleceu ao protagonizar um acto mais arriscado durante as filmagens de uma obra cinematográfica. O momento da morte foi observado de perto por Anne, com Claude Lelouch a expor-nos o mesmo em flashback, com a narrativa a apresentar uma estrutura fragmentada, deambulando entre o presente e o passado, parecendo seguir quase sempre o ritmo das emoções e sentimentos dos personagens. Anne tem uma filha, chamada Françoise (Souad Amidou), uma jovem que estuda num colégio interno localizado em Deauville. As duas parecem apresentar uma relação relativamente próxima e afável, com a jovem Françoise a apreciar a presença da mãe e os passeios que fazem na praia. Outro dos protagonistas é Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant), um piloto de automóveis, um indivíduo ponderado e afável. Valerie (Valerie Lagrange), a esposa de Jean-Louis, cometeu suicídio após receber a notícia de que este último sofrera um grave acidente enquanto competia nas 24 Horas de Le Mans. Jean-Louis é pai de Antoine (Antoine Sire), um rapaz que também estuda no colégio interno de Deauville, com o protagonista a aproveitar para desfrutar as horas de folga para actos tão distintos como ensinar o petiz a conduzir, ou passear com o mesmo. Anne e Jean-Louis conhecem-se por acaso, num momento aparentemente banal que vai marcar as suas vidas. É quase sempre assim que surgem algumas das relações mais marcantes, seja no grande ecrã ou na vida real, com "Un homme et une femme" a expor-nos a duas figuras com personalidades afáveis que facilmente despertam a nossa simpatia. Anne perdera o comboio, algo que conduz uma das professoras da escola a pedir a Jean-Louis se este pode transportar a argumentista até Paris. Os dois metem conversa, de forma simples e sincera, com as falas a praticamente não parecerem encenadas, enquanto Claude Lelouch planta as sementes para algo que promete ser complexo e sublime. Anne e Jean-Louis não sabiam nada um sobre o outro, com a primeira a revelar, ainda que gradualmente, alguns elementos sobre a sua vida, entre os quais a profissão do esposo e a causa da morte deste indivíduo, mas também o enorme amor que continua a sentir pelo mesmo. A descrição bem viva que esta mulher efectua da relação que mantinha com o falecido esposo diz muito da sua visão sobre o amor, ao mesmo tempo que explana paradigmaticamente a capacidade de "Un homme et une femme" de contar com alguns diálogos sublimes que facilmente ficam na memória.

 Quando Jean-Louis salienta que a história do início da relação entre esta e o esposo é completamente banal, Anne logo comenta que: "Não pretendo ser original. Um encontro, um casamento, um filho, são coisas que acontecem com todos. Talvez o que seja original é quem se ama". Veja-se ainda quando esta salienta o gosto do esposo pelo samba, com a banda sonora a sobressair, enquanto Anouk Aimée é capaz de nos convencer de que Anne ainda continua a manter um enorme amor pelo falecido. Não faltam ainda os momentos de convívio que Anne e Jean-Louis protagonizam com os filhos, com os dois visitarem os petizes aos Domingos, ou não tivessem profissões que ocupam boa parte dos seus dias. Estes são alguns dos vários momentos sublimes de "Un homme et une femme", com Claude Lelouch a saber desenvolver com enorme subtileza a relação entre a dupla de protagonistas. Aos poucos ficamos a saber mais sobre o passado de Jean-Louis e Anne, sobre as suas profissões e os episódios que marcaram as suas vidas privadas, enquanto estes combinam sair juntos, levam os respectivos rebentos para passear, com tudo a parecer correr às mil maravilhas. No entanto, as memórias do passado podem nem sempre ser fáceis de desvanecer, que o diga Anne, uma mulher que tanto parece querer avançar para uma nova relação como indica não esquecer o falecido esposo. Anne e o esposo parecem ter vivido algo demasiado forte, com a perda deste último, marcada por contornos trágicos, a continuar ainda demasiado vincada na memória da protagonista. Anouk Aimée transmite uma multitude de emoções através do seu rosto, com a actriz a incutir uma enorme delicadeza, fragilidade e mistério a esta mulher que facilmente desperta a nossa simpatia. A actriz consegue expressar as dúvidas de Anne, o enorme amor que sente pelo falecido esposo e os sentimentos que começa a nutrir em relação a Jean-Louis. Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant exibem uma dinâmica assinalável, algo visível desde os momentos iniciais, em que a dupla fala no carro durante a viagem até Paris, enquanto se começa a conhecer e se expõe diante do espectador. Diga-se que Claude Lelouch convida-nos a participar neste romance quer na sua génese, quer durante o seu desenvolvimento, ao mesmo tempo que nos expõe diante de sentimentos e sensações universais que facilmente conseguem dizer algo ao espectador. Lelouch aproveita a química notória entre a dupla de protagonistas ao mesmo tempo que consegue que Jean-Louis e Anne criem uma empatia notória com o espectador, algo que contribui para que aos poucos tenhamos a sensação inexplicável de torcer para que os dois sejam felizes. Ambos parecem marcados pelos episódios relacionados com a perda dos respectivos cônjuges, embora Anne aparente estar menos preparada para seguir em frente. A narrativa deambula entre o presente e o passado, entre memórias que se criam e aquelas que já não se esquecem, numa obra pontuada ainda por alguma irreverência. Lelouch não poupa em jump-cuts, imagens a cores ou a preto e branco, ou em tom sépia, planos de curtíssima duração, close-ups que exibem uma quantidade assinalável de sentimentos, diálogos sinceros que são contrastados por silêncios que ganham toda uma outra dimensão com a magnífica banda sonora de Francis Lai, ao longo de um romance que tem tanto de simples como de complexo. O contraste entre as diferentes tonalidades e o facto de Claude Lelouch ter filmado "Un homme et une femme" em 35mm, 16mm e Super 8 foi algo que se deveu muito mais a razões pragmáticas do que propriamente simbólicas, algo salientado pelo cineasta numa entrevista interessantíssima ao The Hollywood Interview: "You know the primary reason I used both color and black & white in A Man and a Woman? I was running out of money! (laughs) And black & white was cheaper. (...)  It wasn’t symbolic. It was financial! But that’s one example of how problems and constraints often breed your greatest creative decisions". Diga-se que este foi o primeiro grande sucesso da carreira de Claude Lelouch, com o cineasta a ter contabilizado por fracassos as obras cinematográficas que tinha realizado até então, embora "Un homme et une femme" tenha recebido os elogios do público e da crítica, indo ao ponto de ter sido agraciado com a sempre prestigiante Palma de Ouro no Festival de Cannes (edição de 1966).

O argumento de Claude Lelouch e Pierre Uytterhoeven é aprumado, sobretudo pela capacidade de explorar com enorme delicadeza o iniciar de uma relação entre duas figuras marcadas por tragédias que deixaram feridas mal cicatrizadas nas suas almas, ao mesmo tempo que permite que Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant criem dois personagens especiais. Tudo parece funcionar ao longo de "Un homme et une femme", embora o aparente afastamento que Lelouch procura efectuar dos cineastas da Nouvelle Vague não impeça que existam alguns traços em comum entre a sua obra cinematográfica e os trabalhos de alguns dos seus colegas de profissão: a atenção aos gestos dos personagens numa cena de maior erotismo que culmina numa viagem às memórias do passado remete para obras como "La peau douce" ou "Une femme mariée"; os jump-cuts "à Godard"; a utilização dos espaços citadinos e dos cenários naturais; a montagem algo abrupta, contribuindo para a exposição dos estados de espírito de Anne e Jean-Louis; a irreverência na exposição da narrativa (os diferentes formatos e a paleta cromática até podem ter sido uma solução de recurso mas permitem essa interpretação); os diálogos improvisados, entre outros exemplos. É um filme que facilmente desperta os nossos sentimentos mais quentes, com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant a terem um enorme mérito nesse quesito, enquanto Claude Lelouch conduz a relação dos personagens que estes interpretam com uma sobriedade que joga e muito a seu favor. Esta situação é visível em alguns acontecimentos aparentemente anódinos que nos são apresentados, com um simples telegrama enviado por Anne a surgir recheado de significado, uma música a trazer consigo todo uma paixão pelos ritmos quentes do samba, uma corrida de automóveis a expor a capacidade do ser humano em colocar a sua vida em risco. Também Anne e Jean-Louis precisam arriscar para poderem ser felizes, embora as memórias do passado sejam demasiado fortes, algo que pode impedir esse desiderato. Romance terno e delicado, marcado por uma enorme subtileza e uma capacidade de nos compelir a acreditar nos sentimentos da dupla de protagonistas, "Un homme et une femme" embrenha-nos para o interior da história de Anne e Jean-Louis, deleita-nos com as interpretações de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant, aproveita de forma inspirada a banda sonora de Francis Lai, com Claude Lelouch a elaborar um filme capaz de invadir a nossa mente durante a sua duração e fazer com que partilhemos algumas das sensações destas figuras apaixonantes que povoam a narrativa.

Título original: "Un homme et une femme".
Título em Portugal: "Um Homem e Uma Mulher".
Realizador: Claude Lelouch.
Argumento: Claude Lelouch e Pierre Uytterhoeven.
Elenco: Anouk Aimée, Jean-Louis Trintignant, Pierre Barouh, Valérie Lagrange.

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