Longa-metragem que marcou a estreia de Peter Bogdanovich na
realização após vários trabalhos como crítico cinematográfico e
estudos sobre a Sétima Arte, "Targets" surge com o "selo
Roger Corman" de produções a baixo custo, com este a
aproveitar para reciclar material de "The Terror", naquele
que seria o último filme protagonizado por Boris Karloff nos EUA.
Karloff interpreta Byron Orlok, um actor em final de carreira,
cansado das lides relacionadas com a representação, sempre espirituoso e consciente
em relação ao mundo que o rodeia, que conta com Jenny (Nancy Hsueh)
como a sua fiel secretária, uma mulher de origem chinesa que namora
com Sammy Michaels (Peter Bogdanovich), um argumentista e realizador.
Sammy realizou e escreveu o argumento dos três últimos filmes de
Orlok, pretendendo que este protagonize o seu próximo projecto, algo
rejeitado pelo actor, uma situação que enfurece Marshall Smith
(Monte Landis), o produtor, que apenas consegue que a obra cinematográfica avance se o personagem interpretado por Boris Karloff aceitar
participar na mesma. Boris Karloff interpreta praticamente uma versão
ficcional de si próprio, um actor com uma vasta carreira nos filmes
de terror, cujas obras cinematográficas são consideradas "kitsch" por alguns sectores da crítica e do público, com o intérprete a sobressair ainda pelo timing para os episódios de algum humor. A entrada de Boris Karloff no projecto
deveu-se ao facto deste ainda ter de cumprir dois dias do contrato que tinha estabelecido com Roger Corman, algo que permitiu a Peter Bogdanovich contar com o contributo relevante do
primeiro. Diga-se que Karloff terá ficado agradavelmente impressionado com o
argumento, algo que o conduziu a aceitar participar em cinco dias de filmagens, com
Peter Bogdanovich a conseguir extrair uma interpretação de relevo por parte do carismático actor. Se Karloff apresenta um desempenho assinalável, já Orlok parece algo cansado de representar, para além de
temer que os monstros que interpreta deixem de ser considerados
ameaçadores diante das ameaças reais contemporâneas, entre as
quais diversas figuras que se encontram a perpetrar actos violentos e
massacres, algo notório quando exibe um jornal onde aparece a
notícia de um assassinato cometido no interior de um supermercado. Orlok não é o único elemento em destaque ao longo de "Targets". Peter Bogdanovich aproveita ainda para nos colocar diante da história de Bobby Thompson (Tim O'Kelly), um veterano da Guerra do
Vietname, que apresenta claras perturbações do foro mental, com o cineasta a reunir as duas tramas no último terço. Bobby
costuma caçar com o seu pai, tendo um generoso armamento em casa,
adquirindo armas e munições com enorme facilidade, uma situação que se vai tornar problemática (parece existir
um comentário sobre esta situação que ainda consta na ordem do dia
nos EUA, com a pouca restrição no acesso às armas a surgir mais como um problema do que solução). A habitação da família de Bobby é
marcada por diversos retratos emoldurados, algo que permite encontrarmos uma fotografia do
protagonista, fardado como militar, num espaço que conta ainda com troféus de caça e um conjunto diversificado de armas. A caça parece ser um hobbie que Bobby partilha com o seu pai. Quando encontramos
Bobby a mirar a arma em direcção ao pai, enquanto se encontravam a treinar o tiro,
percebemos que algo vai mal na cabeça deste antigo militar. É então que, em casa, Bobby decide assassinar de rompante a esposa, a mãe e o empregado da
mercearia que se encontrava a fazer as entregas, deixando uma carta
onde expõe o seu acto e promete eliminar mais gente.
As tramas relacionadas com Orlok e Bobby vão ser maioritariamente apresentadas em separado, com Peter Bogdanovich a reunir as duas figuras no final do filme. Nesse sentido, "Targets" tanto nos coloca perante situações como Orlok a procurar evitar marcar presença numa
sessão ao ar livre onde "The Terror" vai ser exibido, ou a
ter alguns diálogos com a sua secretária, ou a reunir-se com Sammy,
com quem mantém uma conversa nocturna regada a álcool, como nos deixa diante das cenas mais tensas onde Bobby parte para a matança. Veja-se
quando Bobby se coloca no topo de um tanque de armazenamento de gasolina no
San Fernando Valley e começa a exibir as suas habilidades como
sniper ao acertar num conjunto de condutores e passageiros dos
veículos que circulam pela estrada. Ainda tem tempo para beber o seu
refrigerante e comer uma sandes, exibindo uma frieza latente, em
momentos onde explana na prática os receios que Orlok apresentara em relação
aos perigos da sociedade do seu tempo. Com a polícia no seu encalço, o personagem interpretado por Tim O'Kelly consegue fugir, até iniciar uma onda de matança no Drive-in
onde se encontra a ser exibido "The Terror", com as
histórias de Bobby e de Orlok a
reunirem-se num último terço onde a inquietação é mais do que
muita. Bogdanovich elabora um thriller competente e envolvente, com o cineasta a explorar algumas temáticas inerentes ao período em que "Targets" foi lançado, algo que vai desde os traumas do protagonista relacionados com a participação na Guerra do Vietname, passando pela enorme facilidade com que Bobby acede às armas, até aos massacres provocados em inocentes, numa obra cinematográfica que
seria lançada alguns meses depois do assassinato de Robert F.
Kennedy e de Martin Luther King, embora tivesse sido terminada no final
de 1967. Parece existir um certo desencanto em relação à violência
que permeia a sociedade dos EUA, onde os maiores sustos aparentam
surgir das ameaças reais e não daquelas apresentadas no grande
ecrã, com Bobby a representar isso mesmo. Diga-se que Bobby foi
parcialmente inspirado em Charles
Whitman, um antigo marine que assassinou a mãe e a esposa, tendo
ainda cometido o homicídio de mais catorze pessoas e ferido outras
trinta e duas. Tim O'Kelly interpreta Bobby com alguma competência,
conseguindo transmitir as perturbações deste personagem niilista a
quem dá vida, embora caiba a Boris Karloff ter o maior destaque,
incluindo no último terço onde o trabalho de montagem e a
criatividade de Peter Bogdanovich permitem reunir duas ameaças
distintas. O orçamento era baixo mesmo para a época mas Peter
Bogdanovich conseguiu ultrapassar essa situação com alguma
criatividade à mistura, inserindo com sucesso os trechos de "The
Terror", um filme realizado por Roger Corman (com colaborações
não creditadas de Jack Nicholson, Francis Ford Coppola, Monte
Hellman e Jack Hill), que o produtor exigiu que estivessem
presentes em "Targets". A obra de Corman contribuiu para Peter
Bogdanovich criar um último terço intenso, reunindo as cenas do
tiroteio no Drive-in com a atmosfera de terror de "The Terror",
transformando Boris Karloff num herói involuntário, com a sua
figura a surgir ameaçadora no grande ecrã e na realidade inerente ao enredo. De
andar aparentemente cansado, necessitando de uma bengala para se
locomover, de cabelos grisalhos e discurso ponderado, Orlok ganha
outra dimensão com a interpretação de Boris Karloff, com o actor a surgir como o maior destaque de "Targets", parecendo em alguns momentos
transportar para o ecrã algumas das suas experiências pessoais com
os produtores e executivos dos estúdios, algo notório quando o
personagem que interpreta decide deixar de representar. Veja-se ainda
quando Orlok decide simular que vai contar uma história de terror
após a exibição de "The Terror", com Boris Karloff a dominar por completo os ritmos da
exposição do diálogo e a expor algumas das razões para ter
ficado ligado ao género.
Bogdanovich sobressai não só na realização mas também a
interpretar um realizador e argumentista que se procura afirmar na
Sétima Arte e parece manter uma relação de relativa amizade com
Orlok, procurando convencê-lo a ler o seu novo argumento, aquele que
considera ser o seu melhor trabalho. Sammy tem um caso com Jenny, uma
assistente algo mordaz, competente no seu ofício, que segue Orlok
praticamente para todo o lado. O elenco é relativamente competente,
enquanto o argumento, sem uma profundidade e complexidade
extraordinárias (o trauma que a Guerra do
Vietname provocou em Bobby, apesar de exposto nos actos do
personagem, poderia ter sido mais aprofundado, tal como a relação
deste com a esposa e os pais), consegue explanar as temáticas que apresenta, com Peter Bogdanovich a construir com competência os
momentos de tensão, sem descurar a procura de incutir algum humor ao enredo (o momento em que Orlok
ouve as perguntas que lhe pretendem fazer no âmbito da apresentação do filme
é hilariante e a espaços faz-me recordar a reacção de
John Ford às questões colocadas por Bogdanovich numa entrevista).
O filme conta ainda com uma boa utilização da música diegética,
algo que viria a marcar outras obras cinematográficas do cineasta, tais como
"The Last Picture Show". Diga-se que "Targets"
permitiu ainda que Peter Bogdanovich começasse desde logo a
despertar a atenção dos estúdios e da crítica, tendo entrado numa
fase positiva marcada por filmes como "The Last Picture Show",
"What's Up, Doc?", entre outros (se não contabilizarmos
"Voyage to the Planet of Prehistoric Women", onde trabalhou
sob o pseudónimo de Derek Thomas) que marcariam uma carreira algo
errática. O seu conhecimento cinéfilo e reverência para alguns dos
grandes mestres é visível em várias situações do filme: o nome
de Orlok é inspirado no personagem interpretado por Max Schreck em
"Nosferatu"; a exibição do trecho de "The Criminal Code", um
filme realizado por Howard Hawks, que contou com a presença de Boris
Karloff, numa cena onde o protagonista visualiza
um dos seus antigos sucessos, ao mesmo tempo que é efectuado um
elogio ao modo como o cineasta contava histórias; a referência a
"Anatomy of a Murder" de Otto Preminger; o nome
"Sammy Michaels" em modo de agradecimento a Samuel Fuller
(cujo nome do meio era "Michael") por ter ajudado na
escrita do argumento, entre outros exemplos. Thriller eficiente, marcado por uma interpretação muito positiva de Boris Karloff e um engenho notório de Peter Bogdanovich para jogar com as limitações do parco orçamento que tinha à sua disposição e da necessidade de introduzir pedaços de outra obra cinematográfica,
"Targets" explana algumas das qualidades deste talentoso cineasta que beneficiou da parceria com Roger Corman, um produtor profícuo que tem aqui
mais uma aposta ganha da sua carreira.
Título original: "Targets".
Realizador: Peter Bogdanovich.
Argumento: Peter Bogdanovich.
Elenco: Boris Karloff, Peter Bogdanovich, Tim O'Kelly, Nancy Hsueh, Monte Landis.

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