17 novembro 2015

Resenha Crítica: "Targets" (1968)

 Longa-metragem que marcou a estreia de Peter Bogdanovich na realização após vários trabalhos como crítico cinematográfico e estudos sobre a Sétima Arte, "Targets" surge com o "selo Roger Corman" de produções a baixo custo, com este a aproveitar para reciclar material de "The Terror", naquele que seria o último filme protagonizado por Boris Karloff nos EUA. Karloff interpreta Byron Orlok, um actor em final de carreira, cansado das lides relacionadas com a representação, sempre espirituoso e consciente em relação ao mundo que o rodeia, que conta com Jenny (Nancy Hsueh) como a sua fiel secretária, uma mulher de origem chinesa que namora com Sammy Michaels (Peter Bogdanovich), um argumentista e realizador. Sammy realizou e escreveu o argumento dos três últimos filmes de Orlok, pretendendo que este protagonize o seu próximo projecto, algo rejeitado pelo actor, uma situação que enfurece Marshall Smith (Monte Landis), o produtor, que apenas consegue que a obra cinematográfica avance se o personagem interpretado por Boris Karloff aceitar participar na mesma. Boris Karloff interpreta praticamente uma versão ficcional de si próprio, um actor com uma vasta carreira nos filmes de terror, cujas obras cinematográficas são consideradas "kitsch" por alguns sectores da crítica e do público, com o intérprete a sobressair ainda pelo timing para os episódios de algum humor. A entrada de Boris Karloff no projecto deveu-se ao facto deste ainda ter de cumprir dois dias do contrato que tinha estabelecido com Roger Corman, algo que permitiu a Peter Bogdanovich contar com o contributo relevante do primeiro. Diga-se que Karloff terá ficado agradavelmente impressionado com o argumento, algo que o conduziu a aceitar participar em cinco dias de filmagens, com Peter Bogdanovich a conseguir extrair uma interpretação de relevo por parte do carismático actor. Se Karloff apresenta um desempenho assinalável, já Orlok parece algo cansado de representar, para além de temer que os monstros que interpreta deixem de ser considerados ameaçadores diante das ameaças reais contemporâneas, entre as quais diversas figuras que se encontram a perpetrar actos violentos e massacres, algo notório quando exibe um jornal onde aparece a notícia de um assassinato cometido no interior de um supermercado. Orlok não é o único elemento em destaque ao longo de "Targets". Peter Bogdanovich aproveita ainda para nos colocar diante da história de Bobby Thompson (Tim O'Kelly), um veterano da Guerra do Vietname, que apresenta claras perturbações do foro mental, com o cineasta a reunir as duas tramas no último terço. Bobby costuma caçar com o seu pai, tendo um generoso armamento em casa, adquirindo armas e munições com enorme facilidade, uma situação que se vai tornar problemática (parece existir um comentário sobre esta situação que ainda consta na ordem do dia nos EUA, com a pouca restrição no acesso às armas a surgir mais como um problema do que solução). A habitação da família de Bobby é marcada por diversos retratos emoldurados, algo que permite encontrarmos uma fotografia do protagonista, fardado como militar, num espaço que conta ainda com troféus de caça e um conjunto diversificado de armas. A caça parece ser um hobbie que Bobby partilha com o seu pai. Quando encontramos Bobby a mirar a arma em direcção ao pai, enquanto se encontravam a treinar o tiro, percebemos que algo vai mal na cabeça deste antigo militar. É então que, em casa, Bobby decide assassinar de rompante a esposa, a mãe e o empregado da mercearia que se encontrava a fazer as entregas, deixando uma carta onde expõe o seu acto e promete eliminar mais gente.

As tramas relacionadas com Orlok e Bobby vão ser maioritariamente apresentadas em separado, com Peter Bogdanovich a reunir as duas figuras no final do filme. Nesse sentido, "Targets" tanto nos coloca perante situações como Orlok a procurar evitar marcar presença numa sessão ao ar livre onde "The Terror" vai ser exibido, ou a ter alguns diálogos com a sua secretária, ou a reunir-se com Sammy, com quem mantém uma conversa nocturna regada a álcool, como nos deixa diante das cenas mais tensas onde Bobby parte para a matança. Veja-se quando Bobby se coloca no topo de um tanque de armazenamento de gasolina no San Fernando Valley e começa a exibir as suas habilidades como sniper ao acertar num conjunto de condutores e passageiros dos veículos que circulam pela estrada. Ainda tem tempo para beber o seu refrigerante e comer uma sandes, exibindo uma frieza latente, em momentos onde explana na prática os receios que Orlok apresentara em relação aos perigos da sociedade do seu tempo. Com a polícia no seu encalço, o personagem interpretado por Tim O'Kelly consegue fugir, até iniciar uma onda de matança no Drive-in onde se encontra a ser exibido "The Terror", com as histórias de Bobby e de Orlok a reunirem-se num último terço onde a inquietação é mais do que muita. Bogdanovich elabora um thriller competente e envolvente, com o cineasta a explorar algumas temáticas inerentes ao período em que "Targets" foi lançado, algo que vai desde os traumas do protagonista relacionados com a participação na Guerra do Vietname, passando pela enorme facilidade com que Bobby acede às armas, até aos massacres provocados em inocentes, numa obra cinematográfica que seria lançada alguns meses depois do assassinato de Robert F. Kennedy e de Martin Luther King, embora tivesse sido terminada no final de 1967. Parece existir um certo desencanto em relação à violência que permeia a sociedade dos EUA, onde os maiores sustos aparentam surgir das ameaças reais e não daquelas apresentadas no grande ecrã, com Bobby a representar isso mesmo. Diga-se que Bobby foi parcialmente inspirado em Charles Whitman, um antigo marine que assassinou a mãe e a esposa, tendo ainda cometido o homicídio de mais catorze pessoas e ferido outras trinta e duas. Tim O'Kelly interpreta Bobby com alguma competência, conseguindo transmitir as perturbações deste personagem niilista a quem dá vida, embora caiba a Boris Karloff ter o maior destaque, incluindo no último terço onde o trabalho de montagem e a criatividade de Peter Bogdanovich permitem reunir duas ameaças distintas. O orçamento era baixo mesmo para a época mas Peter Bogdanovich conseguiu ultrapassar essa situação com alguma criatividade à mistura, inserindo com sucesso os trechos de "The Terror", um filme realizado por Roger Corman (com colaborações não creditadas de Jack Nicholson, Francis Ford Coppola, Monte Hellman e Jack Hill), que o produtor exigiu que estivessem presentes em "Targets". A obra de Corman contribuiu para Peter Bogdanovich criar um último terço intenso, reunindo as cenas do tiroteio no Drive-in com a atmosfera de terror de "The Terror", transformando Boris Karloff num herói involuntário, com a sua figura a surgir ameaçadora no grande ecrã e na realidade inerente ao enredo. De andar aparentemente cansado, necessitando de uma bengala para se locomover, de cabelos grisalhos e discurso ponderado, Orlok ganha outra dimensão com a interpretação de Boris Karloff, com o actor a surgir como o maior destaque de "Targets", parecendo em alguns momentos transportar para o ecrã algumas das suas experiências pessoais com os produtores e executivos dos estúdios, algo notório quando o personagem que interpreta decide deixar de representar. Veja-se ainda quando Orlok decide simular que vai contar uma história de terror após a exibição de "The Terror", com Boris Karloff a dominar por completo os ritmos da exposição do diálogo e a expor algumas das razões para ter ficado ligado ao género.

Bogdanovich sobressai não só na realização mas também a interpretar um realizador e argumentista que se procura afirmar na Sétima Arte e parece manter uma relação de relativa amizade com Orlok, procurando convencê-lo a ler o seu novo argumento, aquele que considera ser o seu melhor trabalho. Sammy tem um caso com Jenny, uma assistente algo mordaz, competente no seu ofício, que segue Orlok praticamente para todo o lado. O elenco é relativamente competente, enquanto o argumento, sem uma profundidade e complexidade extraordinárias (o trauma que a Guerra do Vietname provocou em Bobby, apesar de exposto nos actos do personagem, poderia ter sido mais aprofundado, tal como a relação deste com a esposa e os pais), consegue explanar as temáticas que apresenta, com Peter Bogdanovich a construir com competência os momentos de tensão, sem descurar a procura de incutir algum humor ao enredo (o momento em que Orlok ouve as perguntas que lhe pretendem fazer no âmbito da apresentação do filme é hilariante e a espaços faz-me recordar a reacção de John Ford às questões colocadas por Bogdanovich numa entrevista). O filme conta ainda com uma boa utilização da música diegética, algo que viria a marcar outras obras cinematográficas do cineasta, tais como "The Last Picture Show". Diga-se que "Targets" permitiu ainda que Peter Bogdanovich começasse desde logo a despertar a atenção dos estúdios e da crítica, tendo entrado numa fase positiva marcada por filmes como "The Last Picture Show", "What's Up, Doc?", entre outros (se não contabilizarmos "Voyage to the Planet of Prehistoric Women", onde trabalhou sob o pseudónimo de Derek Thomas) que marcariam uma carreira algo errática. O seu conhecimento cinéfilo e reverência para alguns dos grandes mestres é visível em várias situações do filme: o nome de Orlok é inspirado no personagem interpretado por Max Schreck em "Nosferatu"; a exibição do trecho de "The Criminal Code", um filme realizado por Howard Hawks, que contou com a presença de Boris Karloff, numa cena onde o protagonista visualiza um dos seus antigos sucessos, ao mesmo tempo que é efectuado um elogio ao modo como o cineasta contava histórias; a referência a "Anatomy of a Murder" de Otto Preminger; o nome "Sammy Michaels" em modo de agradecimento a Samuel Fuller (cujo nome do meio era "Michael") por ter ajudado na escrita do argumento, entre outros exemplos. Thriller eficiente, marcado por uma interpretação muito positiva de Boris Karloff e um engenho notório de Peter Bogdanovich para jogar com as limitações do parco orçamento que tinha à sua disposição e da necessidade de introduzir pedaços de outra obra cinematográfica, "Targets" explana algumas das qualidades deste talentoso cineasta que beneficiou da parceria com Roger Corman, um produtor profícuo que tem aqui mais uma aposta ganha da sua carreira.

Título original: "Targets".
Realizador: Peter Bogdanovich.
Argumento: Peter Bogdanovich.
Elenco: Boris Karloff, Peter Bogdanovich, Tim O'Kelly, Nancy Hsueh, Monte Landis.

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