Nos momentos iniciais de "SPECTRE" somos colocados
diante da frase "The Dead are Alive", algo que remete para
um indivíduo ligado ao passado de James Bond (Daniel Craig), que este julgava que se encontrava morto, bem como para as marcas deixadas na alma
do protagonista por parte daqueles que faleceram devido à sua acção ou por estarem
ligados à sua pessoa. Diga-se que o passado parece ser o mote de
"SPECTRE", com Sam Mendes e companhia a não terem
problemas em reciclar material da saga, ainda que seja apresentado com uma nova "roupagem",
algo revelador de uma certa reverência do cineasta para com uma
franquia que conta com exemplares intemporais como "Dr. No",
"Goldfinger", "You Only Live Twice", entre
outros, embora a maioria inculque alguns elementos inerentes à realidade da época em que foram lançados.
No caso de "SPECTRE" assistimos a todo um comentário
relacionado com a obtenção e utilização de dados para motivos relacionados com a segurança
nacional, ou não estivéssemos numa época onde cada vez mais todos
os nossos passos são controlados. Essa informação tanto pode
servir para a defesa nacional como para coartar algumas liberdades
individuais, existindo ainda o perigo destes dados poderem cair nas mãos erradas,
com "SPECTRE" a abordar de forma clara estas temáticas,
exibindo mais uma vez a vitalidade de uma saga que tem sabido
remodelar-se ao longo das décadas, sempre sem perder traços
transversais que contribuem para que James Bond se mantenha como um
personagem icónico. James Bond regressa letal,
lacónico, pronto a seduzir as mulheres e a cumprir até ao fim as
suas missões, com "SPECTRE" a recuperar diversos elementos
da saga. Não falta o regresso da organização do título, um bólide com um assento ejectável, um antagonista bem conhecido,
diversas referências a Vesper Lynd (Eva Green), uma luta num
comboio, para além das célebres deslocações de James Bond a uma
miríade de lugares ao mesmo tempo que conquista as mulheres com uma
facilidade indelével, passeia fatos caros, conduz veículos topo de
gama, apresenta uma perspicácia acima da média e uma personalidade
muito própria. Desde a Cidade do México em pleno Dia dos Mortos,
passando por Roma, pela Áustria até Tânger e Londres, "SPECTRE"
coloca o agente secreto 007 num ritmo praticamente imparável, ao
longo de uma narrativa com uma estrutura algo episódica que
raramente nos aborrece, embora a sua duração pareça claramente
excessiva para aquilo que tem para contar. Na espécie de prólogo, o
único momento em que “SPECTRE” atinge momentos de brilhantismo,
encontramos James Bond a eliminar Marco Sciarra em plena comemoração
do Dia dos Mortos na Cidade do México, com o exotismo do local a
contrastar com a intensidade das cenas de acção, com o protagonista
a agir por conta e risco numa missão que lhe fora dada por M (Judi
Dench), num vídeo enviado antes desta falecer. Esta pede para Bond
não perder o funeral, enquanto o agente secreto se depara com um
estranho anel com o símbolo de um polvo na mão de Sciarra, um
objecto que contém informação bastante mais lata sobre organização do título.
O prólogo é intenso, marcado pelo calor e a poeira do local, os
tons quentes da paleta cromática e o exotismo dos festejos, bem como por uma coreografia exímia nas cenas de acção, com Daniel
Craig a convencer mais uma vez como este James Bond capaz de se
envolver nas perseguições e missões mais intrincadas, mesmo que
para isso tenha de andar por telhados de edifícios, subir para o
interior de helicópteros e trazer consigo a destruição, com o
trabalho de câmara a ser exemplar na exposição destes trechos. A
cinematografia é um dos pontos fortes de "SPECTRE", com
Sam Mendes e Hoyte van Hoytema, o director de fotografia, a
elaborarem um plano-sequência memorável onde nos deparamos com James Bond
disfarçado com a máscara de uma caveira, em plena celebração do
Dia dos Mortos, bem acompanhado por uma mulher de enorme beleza, até
entrar num edifício. Bond entra num apartamento desse edifício, libertando-se facilmente da sua companheira, tendo em vista a circular pelos telhados até ficar em boa posição para disparar sobre Sciarra e os seus homens, com estes a encontrarem-se no prédio em frente. Tudo
funciona, com Sam Mendes a ter aqui um momento que surpreende quer pela
sua execução irrepreensível, quer pela emotividade e capacidade de
explorar o carisma de Daniel Craig que, com poucas ou nenhumas falas,
consegue transmitir imenso para o espectador. A destruição que
James Bond provoca é imensa, com os danos a ganharem uma relevância
mais acentuada devido ao facto do espião não contar com ordens oficiais para cumprir estes actos. Em
Londres, o MI6 encontra-se num reboliço, com o actual M (Ralph
Fiennes) a suspender Bond, devido às acções do
espião terem provocado um incidente diplomático e colocado ainda
mais em causa o programa 00. Max Denbigh (Andrew Scott), um elemento
do Governo, também conhecido como C, procura suspender o programa
00, no qual James Bond se encontra integrado, com o incidente
diplomático gerado pelo personagem interpretado por Daniel Craig a
piorar ainda mais a situação. C pretende activar o "Nine Eyes", um programa que resulta de uma
parceria de segurança entre nove
países, com a informação a ser partilhada entre todos, algo que é
descrito por M como o "pesadelo de George Orwell". O
personagem interpretado por Andrew Scott considera que agentes como
James Bond são obsoletos e um perigo em caso de descontrolo
emocional, preferindo antes a utilização de drones. Por sua vez, M
é adepto de contar com agentes no terreno, confiando no poder de
decisão dos mesmos. Esta diferença de ideias entre C e M permite abordar, ainda que levemente, o debate bastante contemporâneo entre aqueles que defendem a "guerra limpa", marcada pela utilização de drones, em oposição aos elementos que consideram necessário que existam homens no terreno que saibam avaliar as
situações ao invés de se encontrarem a "controlar" a situação à distância. C surge como um indivíduo misterioso, cujos objectivos apenas são exibidos de forma clara na segunda metade de "SPECTRE", algo que promete colocar este indivíduo em confronto com M. O programa que C pretende implementar permite
vigiar os elementos do MI6, entre os quais Moneypenny (Naomi Harris)
e Q (Ben Wishaw), dois agentes que ajudam James Bond a cumprir o
desiderato de encontrar informações sobre uma organização
misteriosa, ainda que de forma não oficial. Em Roma, no funeral de
Marco Sciarra, o espião encontra Lucia (Monica Bellucci), a viúva
do criminoso, uma mulher que é alvo de ataques por parte de
elementos da organização liderada por um indivíduo que outrora
dera pelo nome de Franz Oberhauser (Christoph Waltz). Lucia e James
Bond logo contam com um momento de sedução, com Monica Bellucci a
ter praticamente uma participação especial na narrativa, tal o
pouco tempo que lhe é dedicado no grande ecrã, com Sam Mendes e os
argumentistas a terem uma diva de enorme calibre apenas para ajudar a
promover o filme. Bellucci irradia carisma, sensualidade e mistério,
embora Sam Mendes praticamente apenas utilize a personagem que esta interpreta para
contar com um momento mais quente com Bond e revelar o local onde
Marco se reunia com o grupo criminoso. É na capital italiana que
James Bond invade uma reunião da SPECTRE, onde se depara pela
primeira vez com este grupo que mais tarde descobre estar ligado aos
episódios de "Casino Royale", "Quantum of Solace"
e "Skyfall", algo indiciado desde o momento em que nos
deparamos com os créditos iniciais, acompanhados pela canção
"Writing's on the Wall" de Sam Smith, onde os tentáculos de
um polvo sobressaem, enquanto o protagonista e diversas figuras
ligadas aos outros filmes surgem representadas.
A reunião da SPECTRE surge representada de forma inspirada, com o
líder a aparecer inicialmente encoberto pelas sombras, de voz
sibilina, procurando um substituto para Marco Sciarra, algo que vai
acontecer na figura do violento Mr. Hinx (Dave Bautista), uma espécie
de Oddjob, com este a aparecer como um indivíduo imponente, lacónico
e perigoso. Diga-se que esta reunião comprova mais uma vez o
magnífico trabalho de Hoyte van Hoytema na cinematografia, com as
sombras a envolverem muitas das vezes os personagens, enquanto o
perigo e o mistério são sentidos pelo espectador. O trabalho primoroso de Hoyte van Hoytema é ainda visível no aproveitamento dos cenários exteriores e interiores, algo incrementado por alguns bons valores de produção (pese os diversos erros de continuidade). A Cidade do México surge
representada de forma mais quente e poeirenta, sendo ainda visível
todo um cuidado a nível do figurino, com o trabalho a nível de
câmara a contribuir e muito para alguns momentos de maior tensão. A
cidade de Roma surge representada de forma mais misteriosa, tal como
as figuras que a habitam, enquanto o território austríaco é
pontuado pela neve e a frieza, com a morte de um indivíduo a trazer
ainda mais desenvolvimentos para a investigação. No entanto,
regressemos à entrada de James Bond na reunião da SPECTRE. Bond
entra na reunião com facilidade, embora saia com estrondo,
protagonizando uma fuga no seu bólide, enquanto é perseguido por Hinx, com "SPECTRE" a brindar-nos com um duelo nas estradas
que, mais uma vez, surpreende pela sua execução: a velocidade dos
veículos é palpável, a tensão e o humor funcionam, enquanto o
trabalho de montagem permite uma transição exímia entre a procura
de 007 em escapar ao personagem interpretado por Dave Bautista e os
diálogos que mantém com Moneypenny, com esta a encontrar-se em
Londres, a prestar informação essencial ao protagonista. Diga-se
que esta missão que Bond inicia, em busca da "cabeça do polvo"
da SPECTRE é encetada de forma não oficial, com este a actuar por
sua conta e risco, incluindo quando se dirige à Áustria onde se
encontra com Mr. White (Jesper Christensen), uma figura da
organização Quantum, uma subsidiária da SPECTRE. White encontra-se
em estado terminal, com Bond a prometer proteger Madeleine Swann (Léa
Seydoux), a filha do primeiro, uma psicóloga que contém informações
de relevo sobre a SPECTRE, com a ida de ambos a Tânger, após mais
uma fuga, a conduzir a mais revelações. Léa Seydoux tem em
Madeleine uma “Bond Girl” que não chega a atingir o “nível
Vesper Lynd”, embora provavelmente fique em segundo lugar na
hierarquia desde que Daniel Craig assumiu o “manto sagrado”, com
esta psicóloga a surgir como uma figura inteligente, que conhece o
ofício de Bond, embora tenha procurado evitar lidar com as questões
associadas à actividade do pai. Aos poucos, Madeleine começa a ceder a
Bond, acabando por se envolver numa investigação que promete trazer
algumas revelações que são mais surpreendentes para os personagens
do que para os espectadores. As fugas e as traições vão ser mais
do que muitas ao longo do filme, bem como alguns erros de
continuidade, enquanto Daniel Craig convence mais uma vez como James
Bond, com o actor a sobressair quer nos momentos de violência
física, quer nos trechos de maior sedução com as figuras
femininas, quer em situações de algum humor. Veja-se a interacção
entre James Bond e Q, com Ben Whishaw a exibir uma enorme aptidão
para a comédia, algo notório quando oferece um relógio ao
protagonista, comentando num tom jocoso que o objecto serve para dar
as horas (embora percebamos que conta com características
explosivas). O próprio diálogo inicial entre James Bond e
Madeleine, no consultório desta, surge pontuado por algum humor, com
"SPECTRE" a contar com algumas situações mais leves, algo
que contrasta até com a maioria dos filmes da franquia que foram
protagonizados por Daniel Craig. Não é que o filme tenha perdido totalmente
o tom mais sério que é notório
na saga desde "Casino Royale", embora tenha existido um esforço
para "SPECTRE" surgir como uma obra mais leve e exagerada,
assumindo que estamos diante de um espião que é capaz das proezas
mais mirabolantes e sair das mesmas praticamente sem um arranhão.
O próprio antagonista interpretado por Dave Bautista remete
para esses excessos, com o actor a dar vida a uma figura
relativamente unidimensional, que apenas serve para dar pancada e
ameaçar o protagonista, algo que nos faz recordar alguns dos vilões
clássicos da saga como Oddjob, enquanto Christoph Waltz interpreta
um personagem muito semelhante a tantos outros que tem interpretado
recentemente. Aparentemente polido mas dissimulado, Oberhauser tem em
Waltz um intérprete competente mas incapaz de surpreender, ficando a
anos-luz dos antagonistas criados recentemente por Mads Mikkelsen e
Javier Bardem. É certo que tem um ou outro momento inspirado, em
particular quando expõe de forma maliciosa o prazer que tem em
assistir a uma vida a esvair-se enquanto a morte chega de forma
inabalável. No entanto, um dos pontos fracos de "SPECTRE"
acaba por ser a reviravolta mais do que esperada em volta do
personagem interpretado por Waltz, bem como a necessidade de associar
o seu passado a James Bond, algo que parece ser obrigatório nas
franquias actuais onde tudo tem de estar ligado independentemente do
argumento ser marcado por uma enorme simplicidade. Permite atribuir uma maior carga dramática a esta rivalidade entre
Bond e Oberhauser, embora seja um esticar de corda desnecessário,
com o líder da SPECTRE a não necessitar desta ligação ao
protagonista para causar danos no mesmo. A SPECTRE surge como uma
organização que tem ramificações ao redor do Mundo, incluindo
junto de elementos associados a Governos e agências de segurança,
com Oberhauser a contar com uma vasta rede de influências, uma
situação que os argumentistas aproveitaram tendo em vista a "colar"
esta instituição a alguns dos episódios dos três filmes
anteriores. Esta situação permite a espaços atribuir uma maior
profundidade ao protagonista, com James Bond a guardar na memória as
recordações de figuras como Vesper, Le Chiffre, Raoul Silva, entre
outros, com Sam Mendes a explorar um lado mais atormentado deste
agente secreto que bebe o vodka martini "batido, não mexido",
gosta de seduzir as mulheres e parece não ter grande paciência em
relação à burocracia crescente que envolve a sua actividade. Bond
tem em Daniel Craig um dos seus intérpretes mais memoráveis, embora
nunca iguale Sean Connery, com o actor a ter em "SPECTRE" a
oportunidade de exibir em alguns momentos um lado mais leve do agente
secreto. Este lado mais leve do agente e algumas das situações mais
descontraídas de "SPECTRE" remetem para uma procura de Sam
Mendes e a equipa de argumentistas em aproximar as características
destes filmes mais recentes em relação àqueles que fizeram sucesso
no passado.
Não faltam referências a "From Russia
With Love", "Thunderball", entre vários outros filmes
da saga (algo exposto neste interessante artigo do Flickering
Myth), com "SPECTRE" a procurar ainda explorar
elementos ligados ao passado do protagonista, ou este não tivesse
que confrontar um elemento que julgara morto, enquanto forma uma
relação de proximidade com a bela Madeleine e exibe que continua um
agente relevante. A relação entre Madeleine e James Bond quase que
nos remete para "águas" de "On Her Majesty's
Secret Service", embora sem o tom negro da obra mencionada, com Léa
Seydoux a interpretar uma mulher que tanto exibe um lado mais forte
como logo de seguida explana as suas fragilidades emocionais. Madeleine é uma
mulher que compreende o estilo de vida de James Bond, apesar de não apreciar os actos que este comete, tendo coragem para questionar o mesmo sobre as suas acções,
embora seja certo que mais cedo ou mais tarde vai ceder diante do protagonista, com 007 a surgir mais uma vez como um agente secreto que é tão letal a eliminar os inimigos como a conquistar as figuras femininas. O
filme conta ainda com um ou outro problema de continuidade, ou
coincidências que parecem algo estranhas, uma situação que podemos
comprovar quando Madeleine adormece vestida e acorda em lingerie, ou
uma luta intensa entre Bond e Hinx que ocorre num comboio praticamente vazio, para além das diversas mudanças abruptas de roupa da personagem interpretada por Léa Seydoux, entre outras situações onde nem sempre parece
ter existido o maior dos zelos por parte dos envolvidos. Ao longo do
filme, James Bond e o programa 00 são muitas das vezes questionados, embora o célebre agente com licença para matar demonstre de forma clara que continua
mais relevante do que nunca, tendo de explanar algumas da suas qualidades para enfrentar uma ameaça que conta com "tentáculos" espalhados por vários locais. Daniel Craig volta a convencer como James Bond, aparecendo bem acompanhado por elementos como Léa Seydoux, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomi Harris, Andrew Scott, embora os antagonistas nem sempre pareçam ser uma ameaça à altura do icónico agente secreto, ou o personagem interpretado por Christoph Waltz não surgisse como uma figura relativamente previsível. "SPECTRE" também comprova que
a saga cinematográfica de James Bond se encontra bem viva, com Sam
Mendes a realizar um exemplar que pode não ficar entre os mais
memoráveis da saga mas nem por isso desilude por completo.
Título original: "SPECTRE".
Realizador: Sam Mendes.
Argumento: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade, Jez Butterworth.
Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, Naomie Harris, Dave Bautista, Monica Bellucci, Ralph Fiennes.





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