20 novembro 2015

Resenha Crítica: "The Private Life of Sherlock Holmes" (A Vida Íntima de Sherlock Holmes)

 Sem ter problemas em expor Sherlock Holmes como um indivíduo capaz de errar, algo neurótico quando não tem um caso para investigar, ou até de ironizar com a relação próxima entre o famoso detective e Dr. Watson, "The Private Life of Sherlock Holmes" mescla sátira, aventura e mistério, com Billy Wilder a apresentar alguma irreverência, ainda que não deixe cair por completo as convenções associadas ao icónico personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle. Billy Wilder coloca o protagonista como se fosse uma figura real, que embirra com as liberdades tomadas por Dr. Watson nas crónicas escritas para a Strand Magazine. Estas crónicas contribuíram para aumentar a popularidade de Sherlock Holmes e criar uma mitologia em volta do famoso detective, com Billy Wilder a colocar o Dr.Watson como um dos culpados para os exageros criados em volta dos feitos do protagonista, enquanto aproveita para destrinçar alguns elementos associados ao personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle. Robert Stephens incute um estilo algo confiante e mordaz a Sherlock Holmes, um detective que não aprecia casos pouco desafiadores, viciado em cocaína, fumador de cachimbo, excêntrico, arrogante e pouco dado a confiar em mulheres. O protagonista irrita-se com a roupa que tem de utilizar devido às histórias criadas por Watson, não gosta dos convites para tocar violino quando se considera um amador, tem uma altura menor do que aquela que é apresentada nos textos escritos pelo personagem interpretado por Colin Blakely, com "The Private Life of Sherlock Holmes" a colocar-nos, sobretudo durante os momentos iniciais, perante a vida privada do protagonista. Os diálogos entre Watson e Holmes são marcados por alguns momentos hilariantes, seja quando discutem a quantidade de cocaína consumida pelo segundo, ou quando o protagonista ironiza com as deduções falhadas do seu fiel companheiro de aventuras. O filme conta com dois casos distintos, com o primeiro a surgir dotado de alguns momentos de humor, enquanto o segundo coloca o famoso detective a ter de se superar, ainda que cometa alguns erros pelo caminho, com "The Private Life of Sherlock Holmes" a não ter problemas em desconstruir a lenda em volta do personagem do título ao mesmo tempo que explana algumas das suas qualidades. O primeiro caso relaciona-se com a chamada de Madame Petrova (Tamara Toumanova), uma bailarina russa que pretende engravidar do protagonista. Não faltam piadas sobre a orientação sexual de Tchaikovsky e diversas situações caricatas, com Sherlock Holmes a aproveitar para fugir de cena ao fingir que o seu interesse amoroso é o Dr. Watson, algo que enfurece este último, sobretudo quando se andava a divertir alegremente com bailarinas russas, até o rumor se espalhar e passar a ser alvo do interesse dos bailarinos. Este é um momento de maior leveza que, acima de tudo, efectua justiça ao título da obra cinematográfica ao procurar desconstruir e satirizar as convenções associadas a Sherlock Holmes e Dr. Watson. O segundo caso promete colocar o espectador diante de uma investigação mais associada às histórias de Sherlock Holmes, com este a ter inicialmente de descobrir o paradeiro do esposo de Gabrielle Valladon (Geneviève Page). Esta mulher de origem belga esconde uns quantos segredos, sendo inicialmente transportada para o apartamento e escritório de Holmes e Watson, na Baker Street, após ter sido encontrada no Rio Tamisa, prestes a afogar-se.

Geneviève Page incute um estilo misterioso a Gabrielle, uma mulher que inicialmente surge sem memória, obrigando Sherlock a utilizar algumas das suas qualidades para a investigação, até esta recuperar e convencer a dupla a procurar por Emile, o seu esposo. Sherlock e Watson envolvem-se numa investigação que conduz a dupla a lidar com figuras tão distintas como abades, Mycroft Holmes (Christopher Lee), o arrogante irmão do protagonista, a Rainha Victoria (Mollie Maureen), entre outros, com uma ida à Escócia a proporcionar uma série de revelações que envolvem o fabrico de um submarino, a rivalidade entre ingleses e alemães, anões desaparecidos, identidades falsas e algumas reviravoltas. Se a narrativa relacionada com a Madame Petrova serve acima de tudo para expor um lado mais leve de Sherlock Holmes, já o caso iniciado com a chegada de Gabrielle evidencia que as investigações do famoso detective nem sempre são tão fáceis como parecem, com este a cometer alguns erros pelo caminho. A relação entre Sherlock e Watson é um dos vários elementos que incrementam o filme, com o primeiro a não ter problemas em ironizar com as deduções do segundo e a forma como este romantiza os casos que resolvem, enquanto o personagem interpretado por Colin Blakely mantém uma enorme lealdade para com o detective. Colin Blakely apresenta quase sempre um tom mais atrapalhado e caricato como Watson, com este a apresentar um poder para a dedução inferior ao famoso detective, algo latente quando parece acreditar na lenda associada ao Monstro do Lago Ness. Diga-se que estas lendas, ainda que falsas, remetem para uma tradição de adaptações como "The Hound of the Baskervilles" e "The Adventures of Sherlock Holmes", que aproveitavam situações ligadas ao misticismo e sobrenatural para incrementar o mistério em volta das investigações protagonizadas por Sherlock Holmes e Dr. Watson. A juntar a esta dupla temos ainda uma série de personagens secundários que aos poucos sobressaem na narrativa, tais como Gabrielle, com esta mulher a contribuir para o facto de Sherlock não confiar nas figuras femininas, parecendo estar praticamente à altura do intelecto do famoso detective, tal a forma como o consegue ludibriar. Outra das figuras em destaque é o pedante Mycroft, com Christopher Lee a voltar a integrar um filme inspirado em Sherlock Holmes (após ter interpretado o detective em "Sherlock Holmes and the Deadly Necklace"), para além de contarmos com a presença de Mrs. Hudson (Irene Handl), a célebre senhoria do personagem do título. É um universo narrativo marcado por alguma leveza, algo que tira algum peso à investigação protagonizada por Sherlock Holmes, embora permita subverter algumas das expectativas que podemos formar antecipadamente em relação ao protagonista e aos casos que este procura desvendar. Diga-se que o primeiro terço surge marcado por enorme inspiração, com o argumento de Billy Wilder e I. A. L. Diamond a não ter problemas em entrar por caminhos mais arriscados ao mesmo tempo que nos diverte imenso, sobretudo quando Sherlock se procura livrar da Madame Petrova.

 A ideia inicial de Billy Wilder centrava-se numa obra cinematográfica com quatro casos, marcada por uma duração a rondar os cento e sessenta e cinco minutos, algo que não se concretizou com os produtores a cortarem a narrativa de forma a contarem com uma duração que potencialmente conseguisse atrair mais público às salas de cinema. Esta situação é abordada por Brian Cady no artigo para o TCM: "The Private Life of Sherlock Holmes was made during a period when Hollywood was sinking its money into road show movies running three hours or more with engagements only at exclusive theaters. Unfortunately, by the time of this film's release in 1970, the fad was long past and the producers insisted on an average-length film". Diga-se que Billy Wilder não terá ficado totalmente satisfeito com o resultado da montagem final efectuada pelo estúdio, embora "The Private Life of Sherlock Holmes" apresente uma interpretação interessante sobre o famoso detective, pontuada por alguns laivos de irreverência e genialidade. Não faltam algumas piadas de cariz sexual, com a orientação sexual de Holmes a ser inicialmente colocada em causa, embora este até se deixe convencer em demasia pela bela Gabrielle, uma mulher com uma agenda muito própria. Os momentos na Escócia, marcados por uma cena onde o forte nevoeiro adensa o mistério, contrastam com os irreverentes e coloridos momentos iniciais, enquanto a banda sonora de Miklós Rózsa surge como um dos muitos destaques desta obra cinematográfica. A proposta efectuada por Billy Wilder nem sempre se mantém ao longo do enredo, embora o cineasta tenha a capacidade de mesclar de forma harmoniosa a desconstrução de alguns mitos associados a Sherlock Holmes ao mesmo tempo que o coloca em acção, com o caso principal a contar com a descoberta de diversas pistas, algumas reviravoltas, traições, humor e explicações inesperadas, com "The Private Life of Sherlock Holmes" a surgir como uma obra cinematográfica que nos apresenta uma versão bastante recomendável do icónico detective criado por Sir Arthur Conan Doyle.

Título original: "The Private Life of Sherlock Holmes".
Título em Portugal: "A Vida Íntima de Sherlock Holmes".
Realizador: Billy Wilder.
Argumento: I. A. L. Diamond e Billy Wilder.
Elenco: Robert Stephens, Geneviève Page, Colin Blakely, Christopher Lee.

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