Sem ter problemas em expor Sherlock Holmes como um indivíduo capaz
de errar, algo neurótico quando não tem um caso para
investigar, ou até de ironizar com a relação próxima entre o
famoso detective e Dr. Watson, "The Private Life of Sherlock
Holmes" mescla sátira, aventura e mistério, com Billy Wilder a
apresentar alguma irreverência, ainda que não deixe cair por
completo as convenções associadas ao icónico personagem criado por
Sir Arthur Conan Doyle. Billy
Wilder coloca o protagonista como se fosse uma figura real, que embirra com as
liberdades tomadas por Dr. Watson nas crónicas escritas para a Strand Magazine. Estas crónicas contribuíram para aumentar a popularidade de Sherlock Holmes e criar uma mitologia em volta do famoso detective, com Billy Wilder a colocar o Dr.Watson como um dos
culpados para os exageros criados em volta dos feitos do protagonista, enquanto aproveita para destrinçar alguns elementos associados ao personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle. Robert
Stephens incute um estilo algo confiante e mordaz a Sherlock Holmes,
um detective que não aprecia casos pouco desafiadores, viciado em
cocaína, fumador de cachimbo, excêntrico, arrogante e pouco dado a
confiar em mulheres. O protagonista irrita-se com a roupa que tem de
utilizar devido às histórias criadas por Watson, não gosta dos
convites para tocar violino quando se considera um amador, tem uma
altura menor do que aquela que é apresentada nos textos escritos
pelo personagem interpretado por Colin Blakely, com "The Private
Life of Sherlock Holmes" a colocar-nos, sobretudo durante os
momentos iniciais, perante a vida privada do protagonista. Os
diálogos entre Watson e Holmes são marcados por alguns momentos
hilariantes, seja quando discutem a quantidade de cocaína consumida
pelo segundo, ou quando o protagonista ironiza com as deduções
falhadas do seu fiel companheiro de aventuras. O filme conta com dois
casos distintos, com o primeiro a surgir dotado de alguns momentos de
humor, enquanto o segundo coloca o famoso detective a ter de se
superar, ainda que cometa alguns erros pelo caminho, com "The
Private Life of Sherlock Holmes" a não ter problemas em
desconstruir a lenda em volta do personagem do título ao mesmo tempo
que explana algumas das suas qualidades. O primeiro caso relaciona-se
com a chamada de Madame Petrova (Tamara Toumanova), uma bailarina
russa que pretende engravidar do protagonista. Não faltam piadas
sobre a orientação sexual de Tchaikovsky e diversas situações
caricatas, com Sherlock Holmes a aproveitar para fugir de cena ao
fingir que o seu interesse amoroso é o Dr. Watson, algo que enfurece
este último, sobretudo quando se andava a divertir alegremente com
bailarinas russas, até o rumor se espalhar e passar a ser alvo do
interesse dos bailarinos. Este é um momento de maior leveza que,
acima de tudo, efectua justiça ao título da obra cinematográfica
ao procurar desconstruir e satirizar as convenções associadas a
Sherlock Holmes e Dr. Watson. O segundo caso promete colocar o
espectador diante de uma investigação mais associada às histórias
de Sherlock Holmes, com este a ter inicialmente de descobrir o
paradeiro do esposo de Gabrielle Valladon (Geneviève Page). Esta
mulher de origem belga esconde uns quantos segredos, sendo
inicialmente transportada para o apartamento e escritório de Holmes
e Watson, na Baker Street, após ter sido encontrada no Rio Tamisa,
prestes a afogar-se.
Geneviève Page incute um estilo misterioso a Gabrielle, uma
mulher que inicialmente surge sem memória, obrigando Sherlock a
utilizar algumas das suas qualidades para a investigação, até esta
recuperar e convencer a dupla a procurar por Emile, o seu esposo.
Sherlock e Watson envolvem-se numa investigação que conduz a dupla a lidar com figuras tão distintas como abades, Mycroft Holmes
(Christopher Lee), o arrogante irmão do protagonista, a Rainha
Victoria (Mollie Maureen), entre outros, com uma ida à Escócia a proporcionar uma série de revelações que envolvem o fabrico de um submarino, a rivalidade entre ingleses
e alemães, anões desaparecidos, identidades falsas e algumas
reviravoltas. Se a narrativa relacionada com a Madame Petrova serve
acima de tudo para expor um lado mais leve de Sherlock Holmes, já o
caso iniciado com a chegada de Gabrielle evidencia que as
investigações do famoso detective nem sempre são tão fáceis como
parecem, com este a cometer alguns erros pelo caminho. A relação
entre Sherlock e Watson é um dos vários elementos que incrementam o
filme, com o primeiro a não ter problemas em ironizar com as
deduções do segundo e a forma como este romantiza os casos que
resolvem, enquanto o personagem interpretado por Colin Blakely mantém
uma enorme lealdade para com o detective. Colin Blakely apresenta
quase sempre um tom mais atrapalhado e caricato como Watson, com este
a apresentar um poder para a dedução inferior ao famoso detective,
algo latente quando parece acreditar na lenda associada ao Monstro
do Lago Ness. Diga-se que estas lendas, ainda que falsas, remetem
para uma tradição de adaptações como "The Hound of the
Baskervilles" e "The Adventures of Sherlock Holmes",
que aproveitavam situações ligadas ao misticismo e sobrenatural
para incrementar o mistério em volta das investigações
protagonizadas por Sherlock Holmes e Dr. Watson. A juntar a esta
dupla temos ainda uma série de personagens secundários que aos
poucos sobressaem na narrativa, tais como Gabrielle, com esta mulher
a contribuir para o facto de Sherlock não confiar nas figuras
femininas, parecendo estar praticamente à altura do intelecto do
famoso detective, tal a forma como o consegue ludibriar. Outra das
figuras em destaque é o pedante Mycroft, com Christopher Lee a
voltar a integrar um filme inspirado em Sherlock Holmes (após ter
interpretado o detective em "Sherlock Holmes and the Deadly Necklace"), para além de
contarmos com a presença de Mrs. Hudson (Irene Handl), a célebre
senhoria do personagem do título. É um universo narrativo marcado
por alguma leveza, algo que tira algum peso à investigação
protagonizada por Sherlock Holmes, embora permita subverter algumas
das expectativas que podemos formar antecipadamente em relação ao
protagonista e aos casos que este procura desvendar. Diga-se que o
primeiro terço surge marcado por enorme inspiração, com o
argumento de Billy Wilder e I. A. L. Diamond a não ter problemas em
entrar por caminhos mais arriscados ao mesmo tempo que nos diverte
imenso, sobretudo quando Sherlock se procura livrar da Madame
Petrova.
A ideia inicial de Billy Wilder centrava-se numa obra
cinematográfica com quatro casos, marcada por uma duração a rondar
os cento e sessenta e cinco minutos, algo que não se concretizou com
os produtores a cortarem a narrativa de forma a contarem com uma
duração que potencialmente conseguisse atrair mais público às salas de cinema.
Esta situação é abordada por Brian Cady no artigo para o TCM: "The
Private Life of Sherlock Holmes was made during a period when
Hollywood was sinking its money into road show movies running three
hours or more with engagements only at exclusive theaters.
Unfortunately, by the time of this film's release in 1970, the fad
was long past and the producers insisted on an average-length film".
Diga-se que Billy Wilder não terá ficado totalmente satisfeito com
o resultado da montagem final efectuada pelo estúdio, embora "The
Private Life of Sherlock Holmes" apresente uma interpretação interessante sobre o famoso
detective, pontuada por alguns laivos de irreverência e genialidade.
Não faltam algumas piadas de cariz sexual, com a orientação sexual
de Holmes a ser inicialmente colocada em causa, embora este até se
deixe convencer em demasia pela bela Gabrielle, uma mulher com uma
agenda muito própria. Os momentos na Escócia, marcados por uma cena
onde o forte nevoeiro adensa o mistério, contrastam com os
irreverentes e coloridos momentos iniciais, enquanto a banda sonora
de Miklós Rózsa surge como um dos muitos destaques desta obra
cinematográfica. A proposta efectuada por Billy Wilder nem sempre se
mantém ao longo do enredo, embora o cineasta tenha a capacidade de
mesclar de forma harmoniosa a desconstrução de alguns mitos
associados a Sherlock Holmes ao mesmo tempo que o coloca em acção,
com o caso principal a contar com a descoberta de diversas pistas,
algumas reviravoltas, traições, humor e explicações inesperadas,
com "The Private Life of Sherlock Holmes" a surgir como uma
obra cinematográfica que nos apresenta uma versão bastante
recomendável do icónico detective criado por Sir Arthur Conan
Doyle.
Título original: "The Private Life of Sherlock Holmes".
Título em Portugal: "A Vida Íntima de Sherlock Holmes".
Realizador: Billy Wilder.
Argumento: I. A. L. Diamond e Billy Wilder.
Elenco: Robert Stephens, Geneviève Page, Colin Blakely, Christopher Lee.

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