Com um elenco composto por estrelas como Ingrid Bergman, Lauren
Baccall, Sean Connery, Anthony Perkins, Jean-Pierre Cassel,
Jacqueline Bisset, Vanessa Redgrave, Albert Finney, Martin Balsam,
Richard Widmark, entre tantos outros nomes conhecidos, "Murder
on the Orient Express" surge como uma obra cinematográfica
marcada por algum mistério, boas interpretações, um argumento
sólido e elevados valores de produção. Realizado por Sidney Lumet,
um cineasta de talento praticamente inegável, "Murder on the
Orient Express" deixa-nos diante da enorme capacidade de
investigação e dedução do mítico detective Hercule Poirot
(Albert Finney), um personagem ficcional criado por Agatha Christie,
que tem de desvendar quem é o assassino de Ratchett (Richard
Widmark), um suposto empresário que se encontrava a viajar no
interior do Expresso do Oriente, um comboio de longa distância que,
no seu auge, ligava Paris a Constantinopla (agora Istambul). Poirot
procurava efectuar uma viagem calma de comboio, tendo Londres como
destino final, mas logo se depara com a estranha situação dos
camarotes de primeira classe estarem aparentemente todos esgotados,
algo que intriga Monsieur Bianchi (Martin Balsam), o director da
Compagnie
Internationale des Wagons-Lits e amigo pessoal do protagonista.
Bianchi procura assegurar junto de Pierre-Paul Michel (Jean-Pierre
Cassel), o funcionário responsável por organizar onde vão ficar
localizados os passageiros da primeira classe e de zelar pelos
interesses dos mesmos durante a viagem, que o detective fique nesta
zona do comboio, situando o mesmo na cama de cima do beliche onde se
encontra Hector McQueen (Anthony Perkins), o secretário de Ratchett.
McQueen é um indivíduo nervoso, com alguns tiques e uma
personalidade misteriosa,
com Anthony Perkins a destacar-se nos momentos em que o personagem
que interpreta se encontra presente no ecrã. Este é um dos primeiros passageiros a ser alvo das questões colocadas por Poirot, após o corpo de Ratchett ter sido encontrado
com as marcas de doze facadas, umas mais profundas do que outras.
Ratchett outrora pedira ajuda a Poirot para protegê-lo de um
inimigo, ou talvez mais, que se encontrava a enviar cartas com
ameaças de morte, um receio que se confirmou quando o comboio ficou
parado num território da Jugoslávia devido à forte presença da
neve que caiu sobre este espaço. Poirot é convencido por Bianchi a
investigar o caso e descobrir a identidade do assassino, tendo em
vista a entregá-lo às autoridades, algo que o personagem
interpretado por Albert Finney acede. Num elenco recheado de
estrelas de grande gabarito, cabe a Albert Finney ser o elemento que mais sobressai no interior desta "constelação", com o actor a interpretar um detective marcado por um comportamento relativamente excêntrico, uma
enorme capacidade de dedução e inteligência, gostos requintados,
um penteado que deixa o seu cabelo praticamente inamovível devido à excessiva utilização de cera, um bigode extremamente cuidado e uma
personalidade nem sempre fácil.
Nos momentos iniciais do filme
ficamos diante de uma rápida exposição dos passageiros que se
encontram em primeira classe, com as suas personalidades a serem
explanadas no interrogatório e na conclusão do caso, com o elenco a
ter oportunidade para sobressair. Poirot procura interrogar os
passageiros um a um, com os treze suspeitos a parecerem esconder
algo, ficando no ar a ideia de que quase todos podem ter sido
culpados pelo homicídio de Ratchett. Durante a investigação,
descobrimos que Ratchett é Cassetti, o orquestrador do rapto e morte
da jovem Daisy Armstrong, um caso que nos é apresentado de forma
rápida no prólogo, algo que nos coloca diante da situação ambígua
de estarmos a avaliar um assassinato cometido sobre um indivíduo que
extorquiu dinheiro e causou a destruição de uma família. No prólogo, ficamos diante das notícias relacionadas com o assassinato de Daisy,
após ter sido raptada da casa dos seus pais, em Long Island, nos
Estados Unidos da América. A tragédia não ficou por aqui, algo
exposto posteriormente por Poirot. A mãe de Daisy faleceu ao dar
vida a um nado-morto. O pai de Daisy, com o desgosto provocado pela
perda da filha e da esposa, cometeu suicídio, tal como Paulette, a
empregada doméstica, injustamente acusada de cumplicidade no rapto.
Estes episódios ocorreram em 1930. A narrativa logo avança cinco
anos, com um conjunto de pessoas, aparentemente sem ligação ao
caso, a reunirem-se no Orient Express. Entre estes elementos
encontram-se o já citado Hector McQueen, bem como Harriet Belinda
Hubbard (Lauren Bacall), uma mulher bastante faladora, extrovertida e
algo neurótica, duplamente viúva, com uma personalidade difícil de
aturar e um pedantismo ainda maior do que o seu ego; Greta Ohlsson
(Ingrid Bergman), uma missionária sueca que é bastante religiosa e contida na exposição
das suas emoções; o Conde Rudolf Andrenyi (Michael York) e a sua
esposa Elena Andrenyi (Jacqueline Bisset), um casal que sobressai
pelas suas vestes caras e estilo pomposo; a princesa Natalia
Dragomiroff (Wendy Hiller), uma mulher de idade avançada, de rosto
pálido e bastante evasiva nas suas respostas apesar de ter sido
madrinha da mãe de Daisy e próxima da família; Hildegarde Schmidt
(Rachel Roberts), a criada de Natalia, uma alemã já de meia idade,
de expressões aparentemente frias e enorme lealdade para com a sua
empregadora; o Coronel Arbuthnott (Sean Connery), um elemento que
serviu o exército britânico na Índia, que mantém um caso
extra-conjugal com Mary Debenham (Vanessa Redgrave), uma inglesa que
se encontrava a dar aulas em Bagdade; Antonio Foscarelli (Denis
Quilley), um vendedor de automóveis que procura desde logo
associar o assassinato à máfia; Cyrus B. "Dick" Hardman
(Colin Blakely), um suposto detective privado; Edward Henry
Beddoes (Sir John Gielgud), o criado de Ratchett. Se contarmos ainda
com o empregado do comboio, ao todo existem treze elementos
suspeitos, todos eles entrevistados por Poirot, uns com mais tempo
para responderem às questões do que outros, com o detective a
procurar estabelecer toda uma teia interpretativa que vai resultar em
duas conjecturas sobre o caso, com uma a ser mais simpática para
todos os envolvidos, enquanto a outra promete ser mais polémica. O último terço é
marcado pelo desenlace do caso, com Albert Finney a conseguir
transmitir alguma emotividade a uma resolução que aos poucos tanto parece ter de óbvia como de surreal, com os flashbacks a permitirem
uma desmontagem dos discursos dos envolvidos mas também a exposição
daquilo que eventualmente terá mesmo acontecido.
Sidney Lumet incute
alguma elegância a esta obra marcada por um assassinato e diversos
interrogatórios, conseguindo agilizar a narrativa e fazer com que a
miríade de actores e actrizes de nomeada consigam ter o seu pequeno
espaço para sobressair e elevar o filme, com o cenário do comboio a
ser tomado pelo mistério e pelas dúvidas relacionadas com a
identidade do assassino ou dos vários assassinos. O elenco é
fulcral para atribuir uma dimensão extra à miríade de personagens
que povoam a narrativa, com elementos como Ingrid Bergman, Lauren
Bacall, Sean Connery, entre tantos outros já citados, a elevarem
"Murder on the Orient Express", com estes a conseguirem
criar figuras que facilmente se destacam durante o interrogatório. Lauren Bacall destaca-se com facilidade
ao dar vida a uma personagem marcada por alguma histeria, um
guarda-roupa elegante e tiques de diva que se adaptam na perfeição
à interpretação da actriz, embora esta não seja a única a
sobressair. Veja-se o caso de Sean Connery como um coronel
aparentemente polido a nível de comportamentos, que esconde uns
quantos segredos e procura proteger a sua amante a todo o custo. Por
sua vez, Jean-Pierre Cassel transmite de forma competente a preocupação
sentida por Pierre-Paul Michel quando descobre que Poirot se prepara para viajar no comboio, com este indivíduo a surgir com uma personalidade que varia entre o
confiável e o suspeito. Estes não são os únicos destaques.
Veja-se Ingrid Bergman como Greta Ohlsson, com a actriz a explorar a aparente dificuldade que a personagem que
interpreta tem em comunicar, com Poirot a confirmar no último terço que a pouca
fluidez da missionária para a oratória é propositadamente pouco
convincente, ou Wendy Hiller como a austera princesa, com esta
conceder traços de enorme frieza a uma mulher que procura calcular
ao máximo o seu discurso. No entanto, o maior destaque é Albert
Finney como Poirot, com a câmara de filmar a centrar-se muitas das
vezes no rosto do actor, algo que permite explorar a expressividade
do mesmo, enquanto este se transforma por completo no detective.
Poirot questiona, desconfia, descobre provas, traça uma perspectiva
global sobre o caso e aos poucos demonstra as razões para ser
considerado uma lenda da investigação. O espaço limitado do
comboio é explorado de forma eficaz, ficando particularmente na
memória quando Poirot reúne todos os suspeitos tendo em vista a
ficar virado para os mesmos, enquanto estabelece as suas duas
conjecturas. Marcado por algum mistério, diversos personagens com segredos por
revelar e um elenco de luxo que permite elevar o enredo, "Murder on the Orient Express" surge como uma das
adaptações cinematográficas mais populares de um obra literária
de Agatha Christie, com Sidney Lumet a realizar um filme que
facilmente fica na memória.
Título original: "Murder on the Orient Express".
Título em Portugal: "Um Crime no Expresso do Oriente".
Realizador: Sidney Lumet.
Argumento: Paul Dehn.
Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Richard Widmark.

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