06 novembro 2015

Resenha Crítica: "Murder on the Orient Express" (1974)

 Com um elenco composto por estrelas como Ingrid Bergman, Lauren Baccall, Sean Connery, Anthony Perkins, Jean-Pierre Cassel, Jacqueline Bisset, Vanessa Redgrave, Albert Finney, Martin Balsam, Richard Widmark, entre tantos outros nomes conhecidos, "Murder on the Orient Express" surge como uma obra cinematográfica marcada por algum mistério, boas interpretações, um argumento sólido e elevados valores de produção. Realizado por Sidney Lumet, um cineasta de talento praticamente inegável, "Murder on the Orient Express" deixa-nos diante da enorme capacidade de investigação e dedução do mítico detective Hercule Poirot (Albert Finney), um personagem ficcional criado por Agatha Christie, que tem de desvendar quem é o assassino de Ratchett (Richard Widmark), um suposto empresário que se encontrava a viajar no interior do Expresso do Oriente, um comboio de longa distância que, no seu auge, ligava Paris a Constantinopla (agora Istambul). Poirot procurava efectuar uma viagem calma de comboio, tendo Londres como destino final, mas logo se depara com a estranha situação dos camarotes de primeira classe estarem aparentemente todos esgotados, algo que intriga Monsieur Bianchi (Martin Balsam), o director da Compagnie Internationale des Wagons-Lits e amigo pessoal do protagonista. Bianchi procura assegurar junto de Pierre-Paul Michel (Jean-Pierre Cassel), o funcionário responsável por organizar onde vão ficar localizados os passageiros da primeira classe e de zelar pelos interesses dos mesmos durante a viagem, que o detective fique nesta zona do comboio, situando o mesmo na cama de cima do beliche onde se encontra Hector McQueen (Anthony Perkins), o secretário de Ratchett. McQueen é um indivíduo nervoso, com alguns tiques e uma personalidade misteriosa, com Anthony Perkins a destacar-se nos momentos em que o personagem que interpreta se encontra presente no ecrã. Este é um dos primeiros passageiros a ser alvo das questões colocadas por Poirot, após o corpo de Ratchett ter sido encontrado com as marcas de doze facadas, umas mais profundas do que outras. Ratchett outrora pedira ajuda a Poirot para protegê-lo de um inimigo, ou talvez mais, que se encontrava a enviar cartas com ameaças de morte, um receio que se confirmou quando o comboio ficou parado num território da Jugoslávia devido à forte presença da neve que caiu sobre este espaço. Poirot é convencido por Bianchi a investigar o caso e descobrir a identidade do assassino, tendo em vista a entregá-lo às autoridades, algo que o personagem interpretado por Albert Finney acede. Num elenco recheado de estrelas de grande gabarito, cabe a Albert Finney ser o elemento que mais sobressai no interior desta "constelação", com o actor a interpretar um detective marcado por um comportamento relativamente excêntrico, uma enorme capacidade de dedução e inteligência, gostos requintados, um penteado que deixa o seu cabelo praticamente inamovível devido à excessiva utilização de cera, um bigode extremamente cuidado e uma personalidade nem sempre fácil.

Nos momentos iniciais do filme ficamos diante de uma rápida exposição dos passageiros que se encontram em primeira classe, com as suas personalidades a serem explanadas no interrogatório e na conclusão do caso, com o elenco a ter oportunidade para sobressair. Poirot procura interrogar os passageiros um a um, com os treze suspeitos a parecerem esconder algo, ficando no ar a ideia de que quase todos podem ter sido culpados pelo homicídio de Ratchett. Durante a investigação, descobrimos que Ratchett é Cassetti, o orquestrador do rapto e morte da jovem Daisy Armstrong, um caso que nos é apresentado de forma rápida no prólogo, algo que nos coloca diante da situação ambígua de estarmos a avaliar um assassinato cometido sobre um indivíduo que extorquiu dinheiro e causou a destruição de uma família. No prólogo, ficamos diante das notícias relacionadas com o assassinato de Daisy, após ter sido raptada da casa dos seus pais, em Long Island, nos Estados Unidos da América. A tragédia não ficou por aqui, algo exposto posteriormente por Poirot. A mãe de Daisy faleceu ao dar vida a um nado-morto. O pai de Daisy, com o desgosto provocado pela perda da filha e da esposa, cometeu suicídio, tal como Paulette, a empregada doméstica, injustamente acusada de cumplicidade no rapto. Estes episódios ocorreram em 1930. A narrativa logo avança cinco anos, com um conjunto de pessoas, aparentemente sem ligação ao caso, a reunirem-se no Orient Express. Entre estes elementos encontram-se o já citado Hector McQueen, bem como Harriet Belinda Hubbard (Lauren Bacall), uma mulher bastante faladora, extrovertida e algo neurótica, duplamente viúva, com uma personalidade difícil de aturar e um pedantismo ainda maior do que o seu ego; Greta Ohlsson (Ingrid Bergman), uma missionária sueca que é bastante religiosa e contida na exposição das suas emoções; o Conde Rudolf Andrenyi (Michael York) e a sua esposa Elena Andrenyi (Jacqueline Bisset), um casal que sobressai pelas suas vestes caras e estilo pomposo; a princesa Natalia Dragomiroff (Wendy Hiller), uma mulher de idade avançada, de rosto pálido e bastante evasiva nas suas respostas apesar de ter sido madrinha da mãe de Daisy e próxima da família; Hildegarde Schmidt (Rachel Roberts), a criada de Natalia, uma alemã já de meia idade, de expressões aparentemente frias e enorme lealdade para com a sua empregadora; o Coronel Arbuthnott (Sean Connery), um elemento que serviu o exército britânico na Índia, que mantém um caso extra-conjugal com Mary Debenham (Vanessa Redgrave), uma inglesa que se encontrava a dar aulas em Bagdade; Antonio Foscarelli (Denis Quilley), um vendedor de automóveis que procura desde logo associar o assassinato à máfia; Cyrus B. "Dick" Hardman (Colin Blakely), um suposto detective privado; Edward Henry Beddoes (Sir John Gielgud), o criado de Ratchett. Se contarmos ainda com o empregado do comboio, ao todo existem treze elementos suspeitos, todos eles entrevistados por Poirot, uns com mais tempo para responderem às questões do que outros, com o detective a procurar estabelecer toda uma teia interpretativa que vai resultar em duas conjecturas sobre o caso, com uma a ser mais simpática para todos os envolvidos, enquanto a outra promete ser mais polémica. O último terço é marcado pelo desenlace do caso, com Albert Finney a conseguir transmitir alguma emotividade a uma resolução que aos poucos tanto parece ter de óbvia como de surreal, com os flashbacks a permitirem uma desmontagem dos discursos dos envolvidos mas também a exposição daquilo que eventualmente terá mesmo acontecido.

Sidney Lumet incute alguma elegância a esta obra marcada por um assassinato e diversos interrogatórios, conseguindo agilizar a narrativa e fazer com que a miríade de actores e actrizes de nomeada consigam ter o seu pequeno espaço para sobressair e elevar o filme, com o cenário do comboio a ser tomado pelo mistério e pelas dúvidas relacionadas com a identidade do assassino ou dos vários assassinos. O elenco é fulcral para atribuir uma dimensão extra à miríade de personagens que povoam a narrativa, com elementos como Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Sean Connery, entre tantos outros já citados, a elevarem "Murder on the Orient Express", com estes a conseguirem criar figuras que facilmente se destacam durante o interrogatório. Lauren Bacall destaca-se com facilidade ao dar vida a uma personagem marcada por alguma histeria, um guarda-roupa elegante e tiques de diva que se adaptam na perfeição à interpretação da actriz, embora esta não seja a única a sobressair. Veja-se o caso de Sean Connery como um coronel aparentemente polido a nível de comportamentos, que esconde uns quantos segredos e procura proteger a sua amante a todo o custo. Por sua vez, Jean-Pierre Cassel transmite de forma competente a preocupação sentida por Pierre-Paul Michel quando descobre que Poirot se prepara para viajar no comboio, com este indivíduo a surgir com uma personalidade que varia entre o confiável e o suspeito. Estes não são os únicos destaques. Veja-se Ingrid Bergman como Greta Ohlsson, com a actriz a explorar a aparente dificuldade que a personagem que interpreta tem em comunicar, com Poirot a confirmar no último terço que a pouca fluidez da missionária para a oratória é propositadamente pouco convincente, ou Wendy Hiller como a austera princesa, com esta conceder traços de enorme frieza a uma mulher que procura calcular ao máximo o seu discurso. No entanto, o maior destaque é Albert Finney como Poirot, com a câmara de filmar a centrar-se muitas das vezes no rosto do actor, algo que permite explorar a expressividade do mesmo, enquanto este se transforma por completo no detective. Poirot questiona, desconfia, descobre provas, traça uma perspectiva global sobre o caso e aos poucos demonstra as razões para ser considerado uma lenda da investigação. O espaço limitado do comboio é explorado de forma eficaz, ficando particularmente na memória quando Poirot reúne todos os suspeitos tendo em vista a ficar virado para os mesmos, enquanto estabelece as suas duas conjecturas. Marcado por algum mistério, diversos personagens com segredos por revelar e um elenco de luxo que permite elevar o enredo, "Murder on the Orient Express" surge como uma das adaptações cinematográficas mais populares de um obra literária de Agatha Christie, com Sidney Lumet a realizar um filme que facilmente fica na memória.

Título original: "Murder on the Orient Express".
Título em Portugal: "Um Crime no Expresso do Oriente".
Realizador: Sidney Lumet.
Argumento: Paul Dehn.
Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Richard Widmark.

Sem comentários: