Não faltam diversas adaptações cinematográficas e televisivas
relacionadas com Sherlock Holmes, o icónico personagem criado por
Sir Arthur Conan Doyle, algo revelador do enorme apelo que este
detective continua a despertar nos espectadores, mas também a
capacidade que existe para inserir este elemento em novos
contextos. Veja-se as catorze incursões de Basil Rathbone como o
famoso detective, ou a procura de Billy Wilder em satirizar um pouco
a história do personagem em "The Private Life of Sherlock
Holmes", ou a exposição de uma investigação protagonizada
por este indivíduo durante a sua juventude em "Young
Sherlock Holmes", entre outros exemplos. "Mr. Holmes",
um filme realizado por Bill Condon, inspirado no livro "A Slight
Trick of the Mind" de Mitch Cullin, procura afastar-se do ritmo
frenético das adaptações realizadas por Guy Ritchie ao colocar-nos
diante daquele que promete ser um dos maiores mistérios que Sherlock
Holmes tem para desvendar, ou este não tivesse de enfrentar as
limitações físicas e mentais inerentes aos seus noventa e dois
anos de idade. A memória falha cada vez mais, as recordações
relacionadas com o passado tornam-se gradualmente mais difusas, a
locomoção já não é efectuada com a fluidez de outrora, com Ian
McKellen a ter em "Mr. Holmes" mais uma demonstração do
seu enorme talento para a interpretação, com o actor a convencer
quer nos flashbacks, quer nas cenas do presente, ao mesmo tempo que
consegue explanar a complexidade deste indivíduo solitário. Diga-se
que "Mr. Holmes" desafia as expectativas que poderíamos
ter em relação a um filme que conta com o famoso detective como
protagonista. É certo que temos uma investigação e algum mistério
mas o cerne da narrativa encontra-se na complexidade desta figura
envelhecida que se decidiu aposentar e viver na sua casa de campo,
localizada nos arredores de Sussex, encontrando-se acompanhado de
Mrs. Munro (Laura Linney), a sua governanta e do filho desta última,
o jovem Roger (Milo Parker). Os close-ups exacerbam o rosto
envelhecido deste detective aposentado da sua actividade (existe todo
um meritório trabalho na caracterização para que Ian McKellen
pareça vinte anos mais velho), que se procura recordar do último
caso da sua carreira, aquele que o conduziu a abandonar o ofício no
qual era uma lenda. Nesse sentido, "Mr. Holmes" coloca-nos
diante de três tempos narrativos distintos. No presente encontramos
Sherlock Holmes (Ian McKellen) a procurar repor a verdade sobre o
último caso da sua carreira, longe dos exageros que Mr. Watson
expusera na história que escrevera sobre o evento. Watson faleceria
três anos depois de publicar esta história, com Holmes a aparecer
representado como um indivíduo solitário que tem no jovem Roger a
sua melhor companhia, surgindo como uma figura quase paternal para
este rapaz que perdeu o pai na II Guerra Mundial. Roger procura que Holmes mantenha o interesse em recordar todos os pormenores do último caso do detective, partilhando ainda o interesse do protagonista no que diz respeito a cuidar do apiário. A criação
de abelhas e a produção de mel são alguns dos hobbies de Holmes, um
indivíduo que nos é apresentado de forma distinta daquela que Mr.
Watson expusera nos seus livros, com "Mr. Holmes" a exibir
estas figuras ficcionais como se fossem reais, algo latente quando
encontramos diversas pessoas a salientarem que o personagem
interpretado por Ian McKellen não corresponde àquilo que esperavam
encontrar.
Tal como "The Private Life of
Sherlock Holmes", uma obra realizada por Billy Wilder, também "Mr. Holmes" procura explorar a dicotomia entre o mito
criado em volta do detective e a realidade que rodeia o mesmo, com o
protagonista a abordar a situação com algum humor. O presente deste
indivíduo é marcado pelas dificuldades em se recordar do passado,
ao mesmo tempo que procura consumir produtos como pimenta do Japão
tendo em vista a conservar a memória. A pimenta foi obtida numa
viagem ao Japão, onde Sherlock contactara directamente com Tamiki
Umezaki (Hiroyuki Sanada), um indivíduo com quem se correspondera.
As cenas no Japão são expostas em flashback, tal como os trechos
relacionados com o caso que atormenta a mente de Sherlock. Tudo
começa quando Thomas Kelmot (Patrick Kennedy) contrata os serviços de Sherlock
Holmes. Thomas pretende que o detective resolva um caso relacionado com o comportamento estranho
de Ann (Hattie Morahan), a sua esposa, uma mulher que sofrera dois abortos espontâneos, nas duas tentativas para ter um filho ou uma filha. Estes acontecimentos parecem ter contribuído para o deteriorar da saúde mental desta mulher, com a resolução deste
caso intrincado a ser exposta nos diversos flashbacks que pontuam a narrativa.
Entre o presente e o passado, "Mr. Holmes" efectua um
retrato complexo do personagem do título quer quando se encontrava
ainda no topo das suas capacidades, quer quando a sua memória começa
a falhar. É um indivíduo culto, algo arrogante e pomposo, com Ian
McKellen a explorar de forma convincente as qualidades e fragilidades
deste detective que tem no jovem Roger um admirador. Milo
Parker é uma das agradáveis surpresas do filme, com o actor a
contar com uma dinâmica convincente com Ian McKellen, com Sherlock
Holmes e Roger a surgirem quase como se fossem pai e filho. Ambos
partilham a preocupação pelo facto do contingente de abelhas do apiário se encontrar a
diminuir, com Roger a surgir ainda como um elemento que procura instigar
Sherlock a escrever de uma vez por todas a história do caso que
conduziu ao findar da sua carreira. A relação entre Roger e a progenitora nem sempre é pacífica, sobretudo quando esta cogita responder de forma positiva a uma proposta para
trabalhar num hotel em Portsmouth, com Mrs. Munro a surgir como uma
mãe dedicada, que procura educar o filho da melhor maneira possível,
embora nem sempre consiga evitar alguma irrisão com o mesmo. Laura
Linney convence como esta mulher protectora do seu filho, que conhece
Sherlock Holmes como poucas pessoas, com o elenco secundário a
contar com uma miríade de figuras que apresentam interpretações
competentes. Veja-se o caso de Hiroyuki Sanada como um indivíduo de
comportamentos polidos, que guarda alguns segredos em relação aos
motivos que o conduziram a convidar Sherlock Holmes a viajar até ao
Japão, ou Hattie Morahan como uma mulher solitária com tendências
suicidas. No entanto, o elemento do elenco que mais sobressai é Ian
McKellen, com este a conseguir transmitir que o personagem que
interpreta já viveu uma miríade de episódios ao longo da sua vida,
surgindo como uma figura atormentada por tardar em conseguir recordar
o caso que o conduziu a reformar-se da sua actividade como detective.
Ainda existe espaço para algum humor, seja quando Sherlock Holmes
vai a assistir a uma adaptação cinematográfica dos livros do Dr.
Watson (com Nicholas Rowe, o protagonista de "Young Sherlock
Holmes" a interpretar o detective), seja quando esclarece que
deixou de gostar de fumar cachimbo quando este acto se tornou uma
moda, entre outros exemplos.
A certa altura de "Mr. Holmes" encontramos o famoso
detective do título a salientar que: "Ninguém deveria deixar a
vida sem um sentimento de conclusão". "Mr. Holmes"
quase que poderia funcionar como uma conclusão perfeita para a
história deste indivíduo perspicaz na arte da investigação e
dedução, com uma personalidade algo arrogante e a noção que se
tornou numa figura solitária que, aos poucos, perdeu todos aqueles
que lhe eram próximos. Dr. Watson faleceu, bem como Mycroft, o irmão
do protagonista, com "Mr. Holmes" a abordar com subtileza
diversas questões relacionadas com o avançar da idade, entre as
quais a perda de diversas figuras que nos marcaram ao longo do tempo.
Diga-se que Sherlock Holmes surge representado com enorme dignidade,
mas também diversas fragilidades, com Bill Condon a saber explorar o
argumento de Jeffrey Hatcher. Este Holmes que nos é dado a conhecer
decidiu habitar no campo, teme perder as memórias que guardou ao
longo da sua vida, enquanto Bill Condon nos coloca diante da
subjectividade inerente às nossas recordações e as dificuldades em
conviver com a noção de que os nossos melhores dias já passaram,
algo sentido pelo personagem interpretado por Ian McKellen. Bill
Condon realizou uma obra cinematográfica que, infelizmente, não foi
totalmente apreciada aquando da sua exibição original, embora
pareça ter um conjunto de ingredientes que prometem tornar "Mr.
Holmes" num filme incontornável entre as diversas adaptações do famoso detective. Não apresenta a mordacidade
de Billy Wilder, nem um Sherlock com a arrogância e confiança
daquele que fora interpretado por Basil Rathbone, ou o ritmo
imparável e o estilo das duas obras cinematográficas realizadas por
Guy Ritchie, embora ofereça uma proposta interessante que pede para
ser degustada com calma e ponderação. O enredo decorre cerca de
trinta e cinco anos depois da II Guerra Mundial (o último caso de
Holmes decorreu após o final do conflito bélico), naquela que é
mais uma adaptação que foge aos cenários e elementos da Era
Vitoriana, com Bill Condon a expor-nos a um Sherlock Holmes
envelhecido, ainda capaz de interpretar as pistas que encontra,
embora as suas fragilidades sejam mais do que muitas. A banda sonora
atribui um ritmo algo melancólico e brando a esta obra
cinematográfica que decorre entre o presente e o passado, enquanto
exibe Sherlock Holmes a enfrentar algumas limitações inerentes ao
avançar da idade, com Ian McKellen a ter um desempenho sublime ao
longo de uma adaptação cinematográfica cujo valor promete perdurar
ao longo do tempo.
Título original: "Mr. Holmes".
Realizador: Bill Condon.
Argumento: Jeffrey Hatcher.
Elenco: Ian McKellen, Laura Linney, Hiroyuki Sanada, Milo Parker.

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