15 novembro 2015

Resenha Crítica: "Mr. Holmes" (2015)

 Não faltam diversas adaptações cinematográficas e televisivas relacionadas com Sherlock Holmes, o icónico personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle, algo revelador do enorme apelo que este detective continua a despertar nos espectadores, mas também a capacidade que existe para inserir este elemento em novos contextos. Veja-se as catorze incursões de Basil Rathbone como o famoso detective, ou a procura de Billy Wilder em satirizar um pouco a história do personagem em "The Private Life of Sherlock Holmes", ou a exposição de uma investigação protagonizada por este indivíduo durante a sua juventude em "Young Sherlock Holmes", entre outros exemplos. "Mr. Holmes", um filme realizado por Bill Condon, inspirado no livro "A Slight Trick of the Mind" de Mitch Cullin, procura afastar-se do ritmo frenético das adaptações realizadas por Guy Ritchie ao colocar-nos diante daquele que promete ser um dos maiores mistérios que Sherlock Holmes tem para desvendar, ou este não tivesse de enfrentar as limitações físicas e mentais inerentes aos seus noventa e dois anos de idade. A memória falha cada vez mais, as recordações relacionadas com o passado tornam-se gradualmente mais difusas, a locomoção já não é efectuada com a fluidez de outrora, com Ian McKellen a ter em "Mr. Holmes" mais uma demonstração do seu enorme talento para a interpretação, com o actor a convencer quer nos flashbacks, quer nas cenas do presente, ao mesmo tempo que consegue explanar a complexidade deste indivíduo solitário. Diga-se que "Mr. Holmes" desafia as expectativas que poderíamos ter em relação a um filme que conta com o famoso detective como protagonista. É certo que temos uma investigação e algum mistério mas o cerne da narrativa encontra-se na complexidade desta figura envelhecida que se decidiu aposentar e viver na sua casa de campo, localizada nos arredores de Sussex, encontrando-se acompanhado de Mrs. Munro (Laura Linney), a sua governanta e do filho desta última, o jovem Roger (Milo Parker). Os close-ups exacerbam o rosto envelhecido deste detective aposentado da sua actividade (existe todo um meritório trabalho na caracterização para que Ian McKellen pareça vinte anos mais velho), que se procura recordar do último caso da sua carreira, aquele que o conduziu a abandonar o ofício no qual era uma lenda. Nesse sentido, "Mr. Holmes" coloca-nos diante de três tempos narrativos distintos. No presente encontramos Sherlock Holmes (Ian McKellen) a procurar repor a verdade sobre o último caso da sua carreira, longe dos exageros que Mr. Watson expusera na história que escrevera sobre o evento. Watson faleceria três anos depois de publicar esta história, com Holmes a aparecer representado como um indivíduo solitário que tem no jovem Roger a sua melhor companhia, surgindo como uma figura quase paternal para este rapaz que perdeu o pai na II Guerra Mundial. Roger procura que Holmes mantenha o interesse em recordar todos os pormenores do último caso do detective, partilhando ainda o interesse do protagonista no que diz respeito a cuidar do apiário. A criação de abelhas e a produção de mel são alguns dos hobbies de Holmes, um indivíduo que nos é apresentado de forma distinta daquela que Mr. Watson expusera nos seus livros, com "Mr. Holmes" a exibir estas figuras ficcionais como se fossem reais, algo latente quando encontramos diversas pessoas a salientarem que o personagem interpretado por Ian McKellen não corresponde àquilo que esperavam encontrar.

 Tal como "The Private Life of Sherlock Holmes", uma obra realizada por Billy Wilder, também "Mr. Holmes" procura explorar a dicotomia entre o mito criado em volta do detective e a realidade que rodeia o mesmo, com o protagonista a abordar a situação com algum humor. O presente deste indivíduo é marcado pelas dificuldades em se recordar do passado, ao mesmo tempo que procura consumir produtos como pimenta do Japão tendo em vista a conservar a memória. A pimenta foi obtida numa viagem ao Japão, onde Sherlock contactara directamente com Tamiki Umezaki (Hiroyuki Sanada), um indivíduo com quem se correspondera. As cenas no Japão são expostas em flashback, tal como os trechos relacionados com o caso que atormenta a mente de Sherlock. Tudo começa quando Thomas Kelmot (Patrick Kennedy) contrata os serviços de Sherlock Holmes. Thomas pretende que o detective resolva um caso relacionado com o comportamento estranho de Ann (Hattie Morahan), a sua esposa, uma mulher que sofrera dois abortos espontâneos, nas duas tentativas para ter um filho ou uma filha. Estes acontecimentos parecem ter contribuído para o deteriorar da saúde mental desta mulher, com a resolução deste caso intrincado a ser exposta nos diversos flashbacks que pontuam a narrativa. Entre o presente e o passado, "Mr. Holmes" efectua um retrato complexo do personagem do título quer quando se encontrava ainda no topo das suas capacidades, quer quando a sua memória começa a falhar. É um indivíduo culto, algo arrogante e pomposo, com Ian McKellen a explorar de forma convincente as qualidades e fragilidades deste detective que tem no jovem Roger um admirador. Milo Parker é uma das agradáveis surpresas do filme, com o actor a contar com uma dinâmica convincente com Ian McKellen, com Sherlock Holmes e Roger a surgirem quase como se fossem pai e filho. Ambos partilham a preocupação pelo facto do contingente de abelhas do apiário se encontrar a diminuir, com Roger a surgir ainda como um elemento que procura instigar Sherlock a escrever de uma vez por todas a história do caso que conduziu ao findar da sua carreira. A relação entre Roger e a progenitora nem sempre é pacífica, sobretudo quando esta cogita responder de forma positiva a uma proposta para trabalhar num hotel em Portsmouth, com Mrs. Munro a surgir como uma mãe dedicada, que procura educar o filho da melhor maneira possível, embora nem sempre consiga evitar alguma irrisão com o mesmo. Laura Linney convence como esta mulher protectora do seu filho, que conhece Sherlock Holmes como poucas pessoas, com o elenco secundário a contar com uma miríade de figuras que apresentam interpretações competentes. Veja-se o caso de Hiroyuki Sanada como um indivíduo de comportamentos polidos, que guarda alguns segredos em relação aos motivos que o conduziram a convidar Sherlock Holmes a viajar até ao Japão, ou Hattie Morahan como uma mulher solitária com tendências suicidas. No entanto, o elemento do elenco que mais sobressai é Ian McKellen, com este a conseguir transmitir que o personagem que interpreta já viveu uma miríade de episódios ao longo da sua vida, surgindo como uma figura atormentada por tardar em conseguir recordar o caso que o conduziu a reformar-se da sua actividade como detective. Ainda existe espaço para algum humor, seja quando Sherlock Holmes vai a assistir a uma adaptação cinematográfica dos livros do Dr. Watson (com Nicholas Rowe, o protagonista de "Young Sherlock Holmes" a interpretar o detective), seja quando esclarece que deixou de gostar de fumar cachimbo quando este acto se tornou uma moda, entre outros exemplos.

A certa altura de "Mr. Holmes" encontramos o famoso detective do título a salientar que: "Ninguém deveria deixar a vida sem um sentimento de conclusão". "Mr. Holmes" quase que poderia funcionar como uma conclusão perfeita para a história deste indivíduo perspicaz na arte da investigação e dedução, com uma personalidade algo arrogante e a noção que se tornou numa figura solitária que, aos poucos, perdeu todos aqueles que lhe eram próximos. Dr. Watson faleceu, bem como Mycroft, o irmão do protagonista, com "Mr. Holmes" a abordar com subtileza diversas questões relacionadas com o avançar da idade, entre as quais a perda de diversas figuras que nos marcaram ao longo do tempo. Diga-se que Sherlock Holmes surge representado com enorme dignidade, mas também diversas fragilidades, com Bill Condon a saber explorar o argumento de Jeffrey Hatcher. Este Holmes que nos é dado a conhecer decidiu habitar no campo, teme perder as memórias que guardou ao longo da sua vida, enquanto Bill Condon nos coloca diante da subjectividade inerente às nossas recordações e as dificuldades em conviver com a noção de que os nossos melhores dias já passaram, algo sentido pelo personagem interpretado por Ian McKellen. Bill Condon realizou uma obra cinematográfica que, infelizmente, não foi totalmente apreciada aquando da sua exibição original, embora pareça ter um conjunto de ingredientes que prometem tornar "Mr. Holmes" num filme incontornável entre as diversas adaptações do famoso detective. Não apresenta a mordacidade de Billy Wilder, nem um Sherlock com a arrogância e confiança daquele que fora interpretado por Basil Rathbone, ou o ritmo imparável e o estilo das duas obras cinematográficas realizadas por Guy Ritchie, embora ofereça uma proposta interessante que pede para ser degustada com calma e ponderação. O enredo decorre cerca de trinta e cinco anos depois da II Guerra Mundial (o último caso de Holmes decorreu após o final do conflito bélico), naquela que é mais uma adaptação que foge aos cenários e elementos da Era Vitoriana, com Bill Condon a expor-nos a um Sherlock Holmes envelhecido, ainda capaz de interpretar as pistas que encontra, embora as suas fragilidades sejam mais do que muitas. A banda sonora atribui um ritmo algo melancólico e brando a esta obra cinematográfica que decorre entre o presente e o passado, enquanto exibe Sherlock Holmes a enfrentar algumas limitações inerentes ao avançar da idade, com Ian McKellen a ter um desempenho sublime ao longo de uma adaptação cinematográfica cujo valor promete perdurar ao longo do tempo.

Título original: "Mr. Holmes".
Realizador: Bill Condon.
Argumento: Jeffrey Hatcher.
Elenco: Ian McKellen, Laura Linney, Hiroyuki Sanada, Milo Parker.

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