O modo distinto como cada um dos irmãos encara a doença da mãe remete um pouco para aquilo que Nanni Moretti nos apresentara em "La stanza del figlio", onde cada um dos elementos de um núcleo familiar enfrentara de maneira diferente a perda de um ente querido. No caso de "Mia Madre" não estamos diante da dor provocada pela morte e o período de luto inerente à mesma, mas sim perante a angústia sentida pela noção de que uma familiar se encontra em estado terminal, com Giovanni e Margherita a encararem esta situação de maneira distinta. Margherita encontra-se a realizar um filme sobre uma fábrica que foi vendida a uma multinacional, tendo contratado os serviços de Barry Huggins (John Turturro), um actor irascível e fleumático, oriundo dos EUA, que surge com tiques de vedeta e uma personalidade problemática. Se Margherita Buy incute um estilo algo controlador e nervoso a Margherita, já John Turturro interpreta um actor completamente destravado que tanto nos faz rir como nos repele com os seus gestos exagerados. Turturro procura testar ao máximo os limites do espectador e dos restantes personagens, com Barry a surgir como um actor algo irresponsável, pronto a enfrascar-se e pouco dado a decorar as falas. A certa altura parece levar tudo e todos ao desespero devido à sua constante incapacidade em decorar as falas ou incutir alguma naturalidade aos seus gestos, transformando-se num pesadelo para Margherita, embora tenha um ou outro momento de maior sensibilidade, algo que fica latente ao despachar uma cena à primeira quando percebe que a cineasta se encontra numa situação emocionalmente mais delicada. Esta tenta controlar todos os elementos que envolvem a elaboração da obra cinematográfica, algo que é visível na relação que Margherita mantém com Sandro, o responsável pela cinematografia, com a cineasta a procurar que tudo seja captado como pretende, tendo em Barry o elemento mais incontrolável e instável. Margherita procura desdobrar-se entre as filmagens do seu novo filme e as idas regulares ao hospital para visitar a mãe, para além de ter de cuidar de Livia (Beatrice Mancini), a sua filha, uma jovem adolescente ou pré-adolescente. A protagonista tem uma relação relativamente cordial com Federico (Stefano Abbati), o ex-marido e pai de Livia, algo que não acontece com Vittorio (Enrico Ianniello), o seu ex-namorado, o único que parece capaz de confrontá-la com alguns dos seus defeitos, com esta a coleccionar relacionamentos amorosos falhados. Nanni Moretti consegue explorar com acerto as diferentes facetas desta mulher quer como mãe, quer como filha desesperada por saber que vai perder a sua progenitora, quer como irmã, quer como cineasta, com Margherita Buy a estar à altura das exigências de uma personagem complexa que parece ter sido inspirada em diversos episódios vividos pelo realizador de "Mia Madre". Nanni Moretti teve de lidar com a morte da mãe, uma professora, enquanto se encontrava a trabalhar, com a sua progenitora a leccionar disciplinas como Latim. Ada (Giulia Lazzarini), a mãe de Margherita e Giovanni trabalhou como professora de Latim, procurando transmitir o gosto por esta língua a Livia, a sua neta.
Alguns ex-alunos procuram visitar Ada, enquanto esta tanto parece melhorar como logo de seguida aparece num estado confuso que destroça os familiares. Giulia Lazzarini tem aquele que é um dos papéis de maior destaque de "Mia Madre", com Ada a conseguir mexer com o quotidiano de quase todos aqueles que a rodeiam, algo que é incrementado pela interpretação praticamente imaculada da actriz, com esta a explanar a imensidão de sentimentos que a veterna procura expressar. A certa altura de "Mia Madre", Ada fica temporariamente impedida de falar, algo que obriga Lazzarini ter de se exprimir muitas das vezes apenas com os seus gestos e olhares, com a actriz a revelar enorme competência. Mais do que fazer planos a longo prazo, Ada pensa no amanhã, enquanto a sua filha parece lidar mal com a inevitabilidade de poder perder a progenitora. É inevitável mas esta não consegue deixar de ser afectada por toda esta situação, com o desespero a tomar muitas das vezes conta de si, embora não faltem episódios que ocorrem no set de filmagens que ocupem a mente da protagonista. Existe ainda um comentário sobre o papel do realizador, com Nanni Moretti a parecer aproveitar para adicionar mais alguns elementos inspirados nas suas experiências pessoais para incrementar a narrativa de "Mia Madre" e fazer com que a mesma ganhe características bem reais. Essa situação é visível quando encontramos Margherita a salientar que um realizador não tem resposta para tudo, ou quando nos deparamos com esta cineasta a participar numa conferência de imprensa. Os jornalistas são mais do que muitos, as perguntas por vezes são sempre as mesmas, enquanto a protagonista tem a certeza que muito daquilo que faz e diz nem sempre tem uma explicação. Esta procura efectuar uma obra cinematográfica de cariz social, algo que permite a Nanni Moretti abordar, ainda que indirectamente, questões ligadas aos despedimentos e ao desemprego, aos grandes proprietários que assumem empresas tradicionais que de um momento para o outro ficam descaracterizadas, entre outras, para além de nos deixar diante do intrincado trabalho que envolve as filmagens, com "Mia Madre" a não ter problemas em recorrer à metalinguagem. Temos ainda a relação da protagonista com Livia, a sua filha, com a primeira a reprimir alguns sentimentos e a esconder alguns segredos, mantendo uma relação relativamente normal com a mãe. Margherita tem de se desdobrar em diferentes facetas para aguentar tudo aquilo que a rodeia, uma tarefa assaz complicada se pensarmos que a própria também se encontra a passar por uma crise. As cenas dos sonhos desta mulher que, por vezes, invadem o ecrã sem aviso, exibem algumas das suas inquietações, bem como os flashbacks, com o próprio quotidiano de Margherita a assumir a espaços situações surreais, algo desde logo visível na sua relação com Barry.
John Turturro a espaços parece um elemento estranho ao filme, com os exageros do personagem que interpreta a tanto conseguirem repelir como a parecerem uma capa que Barry utiliza para esconder algumas das suas fragilidades, com o próprio a indiciar que anda farto da sua profissão. Barry encontra-se a interpretar o elemento responsável por concluir a aquisição da fábrica, com Turturro a surgir numa espécie de papel duplo, enquanto Nanni Moretti aproveita ainda para explorar temáticas que envolvem a relação entre os realizadores e os actores. Temos ainda Giovanni, com Nanni Moretti a atribuir uma faceta ponderada a este indivíduo que aparenta ter alguma cumplicidade com a irmã, que dedica boa parte do seu tempo a cuidar da mãe, apresentando algum desgaste perante a situação delicada em que se encontra a progenitora, com este engenheiro a conquistar facilmente a nossa simpatia. Nanni Moretti rendilha de forma harmoniosa as diferentes facetas de uma narrativa que explora - para além daquilo que já foi mencionado - a complexidade do quotidiano dos seres humanos. No mesmo dia somos capazes de ir da alegria à tristeza, de um estado enérgico para uma enorme letargia. No caso de Margherita, esta tem de controlar um set de filmagens, embora nem sempre o consiga, com este espaço a surgir como o paradigma daquilo que é a sua vida, ou seja, instável. Por mais que esta tente controlar tudo aquilo que a rodeia, ou procure exibir uma força inabalável, aquilo que é certo é que Margherita não vai conseguir fugir aos imponderáveis. O destino é incontrolável, bem como as acções daqueles que nos rodeiam. Margherita encontra a sua mãe a perder as suas faculdades de dia para dia, com o seu coração e o seu cérebro a fraquejarem, enquanto a filha está em pleno crescimento e promete trazer-lhe mais imponderáveis. Já o personagem interpretado por John Turturro parece ser o destino em pessoa: incontrolável. O argumento explora assertivamente estas temáticas ao longo do filme, mesclando um tom melancólico, dramático e a espaços mais leve, sempre sem fugir às questões mais complexas ou tensas, que povoam uma obra cinematográfica tocante e envolvente. Os cenários são relativamente bem aproveitados, destacando-se acima de tudo por nos transmitirem alguma informação sobre os personagens, algo notório na casa da mãe de Margherita, onde temos alguns dos trechos mais marcantes. Por vezes leio e oiço que o maior pesadelo de um pai e de uma mãe é perder um(a) filho(a). Acredito que seja verdade, com o próprio Nanni Moretti a ter abordado esta temática de forma sublime em “La stanza del figlio”. No entanto, também não deixa de ser verdade que o maior pesadelo de um filho é lidar com a inevitabilidade de um dia os seus pais terem de partir. "Mia Madre" coloca-nos diante dessa inevitabilidade de forma sensível e delicada, sem apelar excessivamente ao sentimento, embora tudo seja abordado de forma tão humana e realista que aos poucos as temáticas do filme transcendem as barreiras da ficção e acercam-se do nosso estado de espírito.
Título original: "Mia Madre".
Título em Portugal: "Minha Mãe".
Realizador: Nanni Moretti.
Argumento: Nanni Moretti, Valia Santella, Francesco Piccolo.

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