03 novembro 2015

Resenha Crítica: "Manhattan" (1979)

 Woody Allen tem em "Manhattan" mais uma obra cinematográfica memorável, com o cineasta a representar o espaço citadino do título como algo simultaneamente belo e melancólico, cheio de vida e histórias para contar, capaz de proporcionar alegrias, romances, desilusões e traições, contando com características intrínsecas que parecem desafiar as transformações inerentes à passagem do tempo. Em "Manhattan", o realizador, actor e argumentista aborda e utiliza diversos elementos transversais a alguns dos seus trabalhos: a presença de Manhattan, com Nova Iorque a ser um dos territórios urbanos como pano de fundo; as relações intrincadas entre homens e mulheres; as personagens femininas complexas e distintas; as traições e o desejo sexual; as falas sardónicas; as referências cinéfilas; a relevância da banda sonora; os personagens que laboram no meio cultural ou académico; os elementos que frequentam o psicanalista, entre outros exemplos. Os momentos iniciais surgem marcados pela música de George Gershwin, em particular alguns trechos de "Raphsody in Blue", que atribuem um tom semelhante a um musical a estas cenas de "Manhattan", com o belíssimo trabalho de fotografia de Gordon Willis a sobressair, enquanto Isaac Davis (Woody Allen), o protagonista, apresenta em off os vários esboços para a introdução do livro que se encontra a escrever. Este início de "Manhattan" coloca-nos diante do fascínio que o espaço citadino de Nova Iorque desperta em Isaac, algo que é exposto num tom que mescla fantasia e realidade, com o acto quotidiano mais banal a poder ganhar características especiais e os edifícios que povoam este território urbano a conterem toda uma poesia, mesmo quando o protagonista expõe alguns trechos mais inflamados. Isaac é um indivíduo de quarenta e dois anos de idade, algo egocêntrico e neurótico, que conta com dois divórcios, várias relações falhadas e um emprego como argumentista de um programa televisivo que não lhe parece trazer grande satisfação profissional. Este acaba por se passar da cabeça e apresentar a demissão, algo que o conduz a apostar na escrita de um livro, um projecto que andava a adiar, apesar de temer as repercussões negativas que este acto intempestivo pode trazer à sua conta bancária. Isaac mantém uma relação com Tracy (Mariel Hemingway), uma jovem de dezassete anos de idade, ainda algo imatura, que se encontra a concluir o ensino secundário. Este ironiza com a situação de ser mais velho do que o pai da namorada, com a disparidade a nível de idades a conduzir a que raramente leve o relacionamento a sério, indo ao ponto de incentivar Tracy a sair com outros jovens. No entanto, esta adolescente, quase maior de idade, de personalidade calma, simpática e afável, parece querer ser fiel a Isaac, com quem visita alguns eventos culturais, assiste a programas televisivos, tem momentos de alguma intimidade, parecendo encarar o relacionamento com mais seriedade do que o protagonista. Woody Allen tem em Isaac um personagem muito ao seu jeito: culto, cinéfilo (não vão faltar referências a Federico Fellini, "Casablanca", uma defesa acirrada a Ingmar Bergman, um cineasta que considera como "o único génio do cinema", entre outras), pronto a salientar as suas origens judaicas, divorciado ou com algumas relações nem sempre bem sucedidas do foro sentimental, apreciador de Nova Iorque (independentemente de algumas atribulações), com o actor a ser exímio no timing em que expõe as suas falas.

 Os melhores filmes de Woody Allen surgem muitas das vezes dotados de falas que facilmente ficam na memória, algo que se repete em "Manhattan", com o cineasta a deixar o espectador diante de alguns momentos hilariantes. Veja-se quando encontramos Isaac a efectuar uma exposição acirrada de como se deve combater uma manifestação nazi ("A força física é sempre melhor com os nazis pois é difícil satirizar um tipo com botas brilhantes"), ou a ironizar com a duração dos seus relacionamentos ("Nunca tive um relacionamento com uma mulher que durasse mais do que o de Hitler e Eva Braun"), entre outras falas e momentos que facilmente ficam na memória. A qualidade dos argumentos e a capacidade para fazer sobressair as virtudes dos actores e actrizes que dirige são alguns dos atributos que podemos apontar a Woody Allen, algo que volta a acontecer em "Manhattan", com este a elaborar uma obra cinematográfica onde praticamente tudo parece funcionar. Diga-se que ajuda imenso ter um elenco composto por elementos como Diane Keaton (numa das suas oito colaborações com Woody Allen), Mariel Hemingway, Michael Murphy e Meryl Streep que, independentemente do maior ou menor tempo no ecrã, conseguem sobressair pela positiva, em particular a primeira que volta a ter mais uma interpretação acima da média num filme realizado por Woody Allen. No entanto, o nome que mais sobressai é Woody Allen, com este a incutir características muito próprias a Isaac, um indivíduo algo indeciso, egocêntrico e neurótico. Isaac tem um filho do seu segundo casamento, um relacionamento que terminou devido a Jill Davis (Meryl Streep) ter descoberto que é lésbica e iniciado uma relação com Connie (Karen Ludwig). Jill encontra-se a escrever um livro sobre a sua vida, algo que inclui o processo de divórcio e a relação com Connie, bem como alguns episódios comprometedores em relação a Isaac. Este fica pouco satisfeito com a decisão de Jill, procurando dissuadi-la, ainda que em vão, enquanto o próprio também se encontra a escrever uma obra literária, aquela que é a sua maior esperança para sair do buraco financeiro em que se envolveu após ter apresentado o despedimento do programa televisivo. O momento em que é obrigado a mudar de casa é hilariante, com Allen a exibir mais uma vez o talento para o humor físico (algo demonstrado em filmes como "Bananas"), com o episódio das mudanças a praticamente não ter diálogos, enquanto ficamos diante do trabalho algo descuidado dos indivíduos que transportam o material para a nova habitação, com a banda sonora a dar o mote para esta cena. A casa é marcada por uma canalização medíocre ao ponto da água da torneira sair castanha, algo que acaba por se tornar numa piada recorrente, com o protagonista a não gostar das condições da habitação, embora tenha de se aguentar devido a não ter condições financeiras para algo melhor. Isaac tem em Yale Pollack (Michael Murphy), um professor universitário, o seu melhor amigo, um indivíduo com quem está muitas das vezes em desacordo, embora seja uma companhia frequente. Yale é casado com Emily (Anne Byrne), tendo iniciado um affair com Mary Wilkie (Diane Keaton), uma jornalista que facilmente entra em choque de ideias com o protagonista, com ambos a não terem problemas em exporem as suas opiniões, embora também tenham as suas inseguranças. Veja-se quando Mary descobre que Isaac namora com uma jovem de dezassete anos e logo salienta que "Em algum lugar Nabokov está a sorrir, não é?", ou começa a arrasar com Ingmar Bergman, algo que causa escândalo junto do protagonista que, tal como Woody Allen é fã do cineasta. Mary e Isaac pareciam ter tudo para chocarem de frente e gerarem um ódio mútuo, algo que não acontece, uma situação que podemos comprovar quando estes se encontram inadvertidamente num evento de angariação de fundos para a Equal Rights Amendment, que decorre no Museum of Modern Art, sendo apresentado por Bella Abzug, onde a primeira se encontra acompanhada por um grupo de amigos, que descreve como geniais, embora quem mais sobressaia seja mesmo esta mulher que tanto aparenta confiança como logo de seguida exibe as suas fragilidades emocionais.

Sempre disposta a dizer que é de Filadélfia (algo que Isaac não compreende), com um casamento falhado e um affair que pode ou não estar condenado, Mary ganha toda uma outra dimensão com a interpretação de Diane Keaton, com a actriz a exibir mais uma vez uma química latente com Woody Allen, com ambos a trocarem os diálogos com um timing que se conjuga praticamente na perfeição. A dupla protagoniza alguns dos melhores momentos do filme, ficando particularmente na memória quando vão passear após o evento anteriormente mencionado e ficam a conversar até praticamente de manhã, tendo a ponte de Queensboro como pano de fundo, naquele que é um dos planos mais belos do filme, com Gordon Willis a esmerar-se na cinematografia. Filmado a preto e branco, algo que parece contribuir para conceder um tom atemporal ao filme, “Manhattan” procura explorar a maneira como estes personagens se inserem no quotidiano do local do título e a forma como este espaço parece influenciar as suas vidas, com Woody Allen a não poupar nos momentos dignos de merecerem a nossa atenção, sejam estes pontuados por humor, romantismo, candura, nostalgia, ou tristeza. Veja-se quando Isaac deixa Tracy planear uma saída, com esta a escolher passear a cavalo, numa carruagem, que circula pelo Central Park durante a noite. Tracy é uma jovem algo ingénua, com Mariel Hemingway a adensar estes traços de uma personagem imatura, que parece gostar genuinamente do protagonista, apesar de toda a estranheza que envolve este relacionamento entre uma jovem de dezassete anos e um indivíduo de quarenta e dois anos. A personagem interpretada por Mariel Hemingway é encorajada por Isaac para viajar até Londres, onde vai ter a oportunidade de estudar na Academia de Música e Artes Dramáticas, com o protagonista a terminar a relação com Tracy ao apaixonar-se por Mary, após esta última e Yale terem finalizado o affair. A relação do protagonista com Mary é marcada por maior maturidade e troca de ideias, enquanto Tracy surge como uma jovem mais inocente, também sexualmente activa, parecendo nutrir alguma admiração pelo escritor. Isaac também parece gostar de Tracy, embora nunca consiga levar o relacionamento totalmente a sério, indo ao ponto de cometer actos que prometem magoar esta jovem. Tal como em obras realizadas por Woody Allen como "Hanna and Her Sisters", "Crimes and Misdemeanors", "Match Point", "Vicky Cristina Barcelona", as figuras femininas surgem pontuadas por diversas idiossincrasias, marcadas por alguma complexidade e relações distintas com o protagonista, algo que se repete em "Manhattan". Mary é marcada por uma personalidade aparentemente mais forte, embora nem por isso deixe de ser algo insegura em relação a si própria e aos próximos passos que deve tomar para a sua vida. A personagem interpretada por Diane Keaton tanto procura evitar desfazer um casamento como logo de seguida parece não conseguir resistir a Yale, com Mary a surgir como uma figura complexa que, tal como Isaac, também frequenta um psicanalista. Os problemas de Mary são distintos daqueles que são vividos por Tracy, com esta última a encontrar-se ainda em transição para a idade adulta e a descobrir todo um mundo novo de perspectivas, descobertas, alegrias e desilusões. Outra das personagens de relevo é Manhattan, apresentada de forma quase romântica, algo fantasiosa e melancólica, com os espaços do Central Park, o planetário, os museus, ruas e cafés a surgirem como locais que marcam o quotidiano destas figuras que povoam o enredo, enquanto Woody Allen parece expor uma interpretação muito própria daquilo que este território parece ou na altura parecia simbolizar para si. Enquanto isso, Woody Allen coloca-nos perante os relacionamentos dos personagens que povoam a narrativa, com estes homens e mulheres a apresentarem uma enorme habilidade para desfazerem a felicidade ou lutarem por ela, procurando ao mesmo tempo atribuir algum significado às suas vidas. Pontuado por um misto de melancolia e humor, "Manhattan" surge como um filme marcado por um argumento coeso, um elenco principal capaz de sobressair, uma cinematografia belíssima e uma banda sonora que facilmente fica na memória, com Woody Allen a ter nesta obra cinematográfica um dos seus trabalhos mais marcantes e brilhantes.

Título original: "Manhattan".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen e Marshall Brickman.
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne.

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