02 novembro 2015

Resenha Crítica: "The Man Who Shot Liberty Valance" (1962)

 A certa altura de "The Man Who Shot Liberty Valance", Maxwell Scott (Carleton Young), o editor do Shinbone Star, um jornal local, acaba de saber a verdade, ou uma interpretação da mesma, sobre a morte de Liberty Valance (Lee Marvin), que contraria a lenda oficial. Ao ser questionado se vai publicar a história, Maxwell responde o seguinte: "This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend", naquela que é uma das falas mais conhecidas desta magnífica obra cinematográfica realizada por John Ford, um filme onde ficamos diante das transformações no "Velho Oeste" a partir do olhar do cineasta. Não é a primeira vez que John Ford nos apresenta a algumas alterações à veracidade histórica para a construção do mito, algo latente em “Fort Apache”, com o Capitão Kirby York (John Wayne) a omitir que Owen Thursday (Henry Fonda), o seu superior, não conseguiu conter o início de um conflito militar com os índios. Estas mudanças no "Velho Oeste" são desde logo abordadas nos momentos iniciais de "The Man Who Shot Liberty Valance" quando Hallie (Vera Miles) conversa com Link Appleyard (Andy Devine) sobre as alterações que o território de Shinbone conheceu ao longo do tempo, existindo lojas, uma escola do segundo ciclo, igrejas, algo que remete desde logo para a tradição de alguns westerns em expor-nos a um território dos Estados Unidos da América em construção e transformação. Diga-se que este é um dos géneros de filmes que John Ford ajudou a popularizar e a inculcar no imaginário colectivo, com "The Man Who Shot Liberty Valance" a chegar até numa fase mais avançada da sua carreira, após este ter realizado obras cinematográficas memoráveis como "Stagecoach", "Fort Apache", "She Wore a Yellow Ribbon", "Rio Grande", "The Searchers", entre outros westerns (embora a sua carreira seja mais diversificada mas, para o filme em análise, interessa-nos sobretudo este género). Ao contrário de alguns trabalhos de John Ford, como “She Wore a Yellow Ribbon” e "The Searchers", lançados antes da obra em análise, "The Man Who Shot Liberty Valance", foi filmado a preto e branco, com o cineasta a explorar de forma brilhante o contraste entre as luzes e as sombras em momentos de maior impacto, tais como o célebre duelo entre Ransom Stoddard (James Stewart) e Liberty Valance, nas ruas da cidade fronteiriça de Shinbone. Ransom encontra-se encoberto entre as sombras, saindo a pedido do antagonista, com os dois a prepararem-se para discutir o destino das suas vidas, através do cano da pistola, após o personagem interpretado por James Stewart ter procurado evitar um conflito armado de forma respeitar as leis que tanto admira. O resultado do tiroteio surpreende todos os presentes, com excepção do espectador que leu o título do filme, embora a história do mesmo não se fique por aqui, já que Tom Doniphon (John Wayne) teve um papel fulcral nesta troca de tiros, ou o seu intérprete não fosse um actor cujo carisma é demasiado latente para ficar secundarizado num episódio fulcral.

A morte de Liberty Valance é apresentada em flashback, bem como os episódios que conduziram a este feito. No presente, Ransom é um Senador de sucesso, casado com Hallie, que decide regressar temporariamente a Shinbone para participar no funeral de Tom, com a maioria da população local a não saber a ligação que existe entre estes dois homens. Um jornalista (Joseph Hoover), a mando de Maxwell Scott (Carleton Young), o seu editor, procura entrevistar Ransom, com o segundo a procurar ir mais a fundo na investigação sobre a ligação entre Doniphon e o personagem interpretado por James Stewart. Ransom decide revelar a sua história, bem como a do território, desde que chegara como um advogado idealista, há vinte e cinco anos, com a narrativa a contar com um longo flashback. O protagonista teve desde logo que lidar com a violência de Liberty Valance e o seu bando (onde temos Lee Van Cleef num papel muito secundário), com estes últimos, um grupo de assaltantes, a roubarem a carruagem onde se encontrava Ransom e uma viúva. O advogado é espancado, sendo alvo da fúria do chicote de prata de Liberty Valance, um indivíduo violento, hábil no disparo, inflexível e sempre pronto a atormentar a população, parecendo apenas temer Tom Doniphon, bem como Pompey (Woody Strode), o homem de confiança do personagem interpretado por John Wayne. Se Liberty Valance é um tipo duro, vale a pena realçar que Tom Doniphon não se fica atrás, ou não fosse uma figura respeitada localmente, contando com um enorme sentido de justiça, embora adaptada aos ideais locais, onde estar armado, mais do que um ideal parece ser uma necessidade (fica aberto o debate sobre a utilização e a relevância ou não das armas). Ransom fica revoltado perante o facto de ninguém parecer ser capaz de impor a lei, com Link Appleyard, o xerife local, a procurar não arranjar confusões, apresentando uma personalidade medrosa que contrasta com os ideais vincados dos personagens interpretados por John Wayne, Lee Marvin e James Stewart, um trio de meter respeito, com os actores a fazerem justiça ao seu talento e carisma. O advogado acredita na lei e pretende que esta seja cumprida, embora seja inicialmente alvo de escárnio por parte de alguns elementos locais devido a parecer algo naïve. Diga-se que Tom, um indivíduo que apelida o protagonista de "peregrino", procura desde logo avisar Ransom que, ou este tem uma arma para se proteger, ou o melhor será sair do local, algo revelador da violência que permeia esta cidade. Estes dois homens formam gradualmente uma relação de respeito, apesar da rivalidade inerente ao facto de gostarem de Hallie, a empregada de uma das tabernas locais, um espaço que conta com Peter Ericson (John Qualen), e Nora (Jeanette Nolan), a esposa deste último, como proprietários. Ransom vai trabalhar nesta taberna a lavar pratos, iniciando uma relação de amizade com Hallie que aos poucos se transforma em algo mais forte, com este a procurar ensiná-la a ler e a escrever, bem como a vários cidadãos locais. Gradualmente, Ransom começa a ganhar o respeito das gentes deste território, a ponto de Dutton Peabody (Edmond O'Brien), o dono do Shinbone Star, um indivíduo pronto a contar a verdade, falador e beberrão, convidar o advogado a ter uma placa com o seu nome no espaço onde fica situada a espécie de redacção do jornal. Ransom procura explicar e ensinar as leis aos habitantes de Shinbone, entrando em conflito aberto com Liberty Valance. Lee Marvin destaca-se como um personagem muito ao seu jeito, de feições e gestos rudes, capaz de despertar o receio dos locais e do espectador devido aos seus comportamentos imprevisíveis. Liberty Valance é um dos representantes dos antagonistas do "Velho Oeste", para quem os problemas se resolvem à lei da bala, aterrorizando tudo e todos, incluindo aqueles que defendem oficialmente a lei, pelo menos até aparecer Ransom, com este herói relutante a prometer mudar a vida dos habitantes de Shinbone. Ransom representa todo um estilo distinto de Liberty Valance, acreditando no primado da lei, sendo um indivíduo educado e polido, afável e cordial, embora guarde em si alguma coragem ao procurar defender os seus ideais, independentemente de colocar a sua vida em perigo. James Stewart é um actor carismático, tal como John Wayne e Lee Marvin, conseguindo transmitir essa "aura" para vários dos personagens que interpretou ao longo da sua carreira, algo que acontece com Ransom, um indivíduo idealista, que terá de aprender a conviver com uma mentira, enquanto procura zelar pelos interesses dos locais, algo que será visível durante uma eleição onde defende o território contra os poderosos rancheiros a norte de Picketwire que pretendem que Shinbone seja uma zona livre, uma situação que iria colocar em causa os pequenos proprietários.

A eleição é efectuada no restaurante/taberna de Peter e Nora (vários dos episódios de relevo do filme ocorrem em cenários fechados como o restaurante, a sala de aula improvisada, entre outros), com Dutton e Ransom a serem eleitos como delegados para representarem o território do Sul de Picketwire na Convenção Territorial para a Criação do Estado. Liberty Valance e os seus homens ainda tentam intrometer-se nas eleições, efectuando uso da violência, com Tom e Pompey a travarem os ímpetos destes homens. Diga-se que este não é o primeiro conflito entre ambos, com Tom e Liberty a terem protagonizado um momento mais tenso quando o segundo rasteira Ransom e este deixa cair o bife do personagem interpretado por John Wayne no meio do chão. Tom sente desde logo o ímpeto de procurar fazer justiça, surgindo como o representante do "herói do Velho Oeste". É um dos vários momentos que ficam na memória. O personagem interpretado por James Stewart cai, Tom levanta-se e expõe a sua faceta imponente e cara de poucos amigos, Liberty desafia-o, enquanto a câmara logo se vira para Pompey em momentos rápidos, onde a tensão que toma conta dos acontecimentos parece estar prestes a dar lugar a uma onda de violência, até Ransom condenar a atitude de todos os envolvidos. Ransom representa todo um novo conjunto de ideais, um indivíduo que defende o desenvolvimento do território e o cumprimento das leis, conseguindo aos poucos conquistar o respeito de Tom e Dutton, para além de ter em Hallie um interesse amoroso. A dinâmica entre os vários elementos do elenco é sublime, com John Ford a aproveitar os nomes de respeito que tem à sua disposição para incrementar um western onde apresenta um olhar simultaneamente desencantado, nostálgico e optimista em relação ao Velho Oeste, onde os territórios tanto se encontram a evoluir gradualmente, como a perder os seus mitos e lendas, bem como os seus heróis (veja-se que Ransom e a esposa deslocam-se ao funeral de Tom, um indivíduo que a par de Liberty Valance, embora com valores distintos deste, representava os ideais do Velho Oeste). Ford deixa-nos diante de elementos como a evolução da política e do jornalismo, uma maior procura em fazer valer a lei, a alfabetização gradual da população, colocando-nos entre o passado e o presente de uma cidade fronteiriça, enquanto nos deixa diante de uma história onde ficamos perante um herói relutante que, tal como em algumas lendas e mitos, contou com um acto que não fez para aumentar inadvertidamente a sua popularidade. James Stewart interpreta o símbolo deste "novo" Oeste, enquanto cabe a Lee Marvin interpretar o tipo duro que procura resolver tudo através da violência e o medo. Por sua vez, John Wayne dá vida a um elemento carismático, por vezes algo cínico e mais experiente do que Ransom, situando-se nos ideais ligados ao Velho Oeste. Veja-se quando Ransom vai treinar o disparo, com Tom a exibir paradigmaticamente como este pode cair num ardil de Liberty Valance se não tiver o cuidado necessário, com John Wayne a incutir um carisma indelével a este personagem. Este a espaços traz-nos à memória personagens idealistas que Wayne interpretara como em “Stagecoach”, “Fort Apache” e “She Wore a Yellow Ribbon”, com John Ford a incutir alguma complexidade a “The Man Who Shot Liberty Valance” ao expor que o tempo de figuras heroicas como Doniphon já terminou. Ford já apresentara um faceta mais cínica em “The Searchers”, onde assistíramos John Wayne a interpretar Ethan Edwards, um indivíduo racista, imoral e violento, que nos deixa sempre na dúvida em relação aos seus próximos passos, com o argumento do filme, escrito por Frank S. Nugent, a exibir uma complexidade latente.

Alguns dos pontos fortes de "The Man Who Shot Liberty Valance" centram-se exactamente no seu argumento e na criteriosa escolha do elenco, com o filme a contar com um conjunto notável de personagens secundários que conseguem sobressair ao longo do filme (uma situação comum em vários trabalhos de John Ford como “Stagecoach”, “Fort Apache”, “She Wore a Yellow Ribbon”, “The Searchers”), entre os quais: Hallie, uma mulher de enorme beleza, analfabeta, que aos poucos começa a ter um enorme interesse em Ransom, com ambos a trabalharem inicialmente no mesmo espaço; Link Appleyard, o cobarde xerife local, um indivíduo que raramente consegue impor a lei ou respeito junto dos criminosos, em particular nos homens de Liberty Valance e no bandido; Dutton Peabody, um jornalista falador e beberrão que procura acima de tudo expor a verdade no seu jornal, permitindo a John Ford apresentar um retrato até algo idealista da imprensa, a espaços a fazer recordar a quase homenagem ao trabalho dos jornalistas dignos dessa designação que Samuel Fuller efectuara em "Park Row"; Pompey, o fiel ajudante de Tom, um tipo de poucas falas que apresenta uma enorme lealdade e amizade para com o personagem interpretado por John Wayne. Vera Miles, Andy Devine, Edmond O'Brien e Woody Strode sobressaem a interpretar os respectivos personagens secundários, numa obra cinematográfica que conta com um argumento coeso, inspirado num conto de Dorothy M. Johnson, mas também uma excelência a nível da cinematografia e do aproveitamento dos cenários (na maioria filmado em estúdio). No seu texto sobre o filme, Roger Ebert destaca, entre várias outras qualidades, a "pureza" do estilo de John Ford, com o crítico a observar de forma concisa boa parte daquilo que vamos encontrar em "The Man Who Shot Liberty Valance": "There is a purity to the John Ford style. His composition is classical. He arranges his characters within the frame to reflect power dynamics--or sometimes to suggest a balance is changing. His magnificent Western landscapes are always there, but as environment, not travelogue. He films mostly on sets, but we're not particularly aware". Veja-se quando encontramos os personagens interpretados por James Stewart e John Wayne a falarem de forma séria após o primeiro ter terminado abruptamente a aula que estava a leccionar, com Tom a avisar o seu interlocutor dos planos dos grandes proprietários e de Liberty, existindo um misto de revolta e consternação por parte do protagonista, enquanto a bandeira dos EUA surge presente como pano de fundo, com tudo a parecer tão simples mas ao mesmo tempo tão bem arquitectado.

A bandeira não parece ter sido colocada por acaso, com a atenção concedida a pormenores aparentemente simples a contribuir para John Ford atribuir uma enorme credibilidade ao filme. Veja-se ainda a dinâmica frenética na cozinha da taberna, um espaço onde não faltam frigideiras penduradas pelas paredes, gente a circular e muito bife a ser cozinhado. É também na cozinha que Ransom fica com a noção de que boa parte da população local é analfabeta, procurando desde logo alterar essa situação. Os momentos na cozinha são marcados pelo nascer das bases para a relação entre Ransom e Hallie, enquanto na parte de fora assistimos muitas das vezes à tensão. Veja-se quando Liberty Valance entra com os seus homens, com o silêncio a acercar-se do local, até este irromper de forma violenta e tirar alguns clientes das suas cadeiras para os elementos do grupo sentarem-se. Segue-se a troca de galhardetes com Tom, com John Ford a explorar muita da tensão e do receio inerentes ao feitio imprevisível do antagonista. Na cena em questão, Ransom reclama devido à facilidade com que todos se ameaçam de morte e utilizam armas, embora sejam as pistolas de Tom e Pompey que vão colocar os criminosos em sentido, com o filme a apresentar ainda a ironia do facto do personagem interpretado por James Stewart ter aumentado a sua popularidade devido ao feito do título. O feito não corresponde totalmente à realidade, com "The Man Who Shot Liberty Valance" a apresentar um mito ou uma lenda num tom desencantado, com John Ford a abordar de forma sublime os vários episódios que envolvem o trio de protagonistas e a estabelecer assertivamente as dinâmicas entre os mesmos. A morte de Tom conduz ao regresso do protagonista e da esposa, com a dupla a deparar-se com um território diferente daquele que deixaram ao partirem, com os cenários e a simbologia inerente à flor de cacto a serem utilizados, como salienta Temenuga Trifonova no site Senses of Cinema, como um meio para Ford expor a "nova ordem": "There are no breathtaking vistas, no heart-stopping chases across the vast expanses of the desert. The real desert has already shrunk down to a symbol: the wild cactus roses growing among the ruins of Tom’s unfinished house, or the single cactus rose Hallie leaves on the tomb of “the old West” (Tom’s coffin)". A flor de cacto é deixada por Hallie no caixão de Tom, tal como este outrora oferecera uma planta semelhante. Tom pretendia casar-se com Hallie, embora os planos desta tenham sido diferentes, com este a ser ultrapassado pelo representante de um novo estilo de vida, embora tenha conquistado o respeito de Ransom, um sentimento que foi recíproco. No passado, Tom, Hallie e Ransom formaram um triângulo amoroso, com o personagem interpretado por James Stewart a conquistar o coração da bela mulher, num western onde um cacto deixa de estar no deserto selvagem para passar a ser "domesticado" num jardim ou a decorar um caixão, enquanto um mito envolve a população e desfaz-se diante do olhar atento do espectador naquela que é merecidamente uma das obras mais populares e elogiadas de John Ford.

Título original: "The Man Who Shot Liberty Valance".
Título em Portugal: "O Homem Que Matou Liberty Valance".
Realizador: John Ford.
Argumento: James Warner Bellah e Willis Goldbeck.
Elenco: John Wayne, James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin, Edmond O'Brien, Woody Strode, Andy Devine, John Carradine, Lee Van Cleef.

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