30 novembro 2015

Resenha Crítica: "Le voleur" (O Ladrão de Paris)

 O crime percorre as veias de Georges Randal (Jean-Paul Belmondo), inquieta a sua alma e oferece-lhe um prazer que nem um grande amor consegue dar. Não são crimes de sangue que este pratica. Georges é um assaltante de enorme perícia, inteligência e astúcia, capaz de se envolver nos meandros da alta sociedade e fingir que é um arquitecto de construções particulares e enganar quase todos aqueles que não o conhecem. Tal como em várias das obras de Louis Malle, a narração é essencial para nos apresentar ao protagonista de "Le voleur", com o cineasta a colocar-nos desde logo com Georges em plena prática de um assalto enquanto o protagonista nos explica o seu ofício e o seu modus operandi: "Às vezes, alguns ladrões passam por muitas dificuldades para não causarem danos no mobiliário. Eu não. Outros, cuidadosamente, colocam tudo de volta no lugar antes de saírem. Eu, nunca. Faço um serviço sujo. Mas há um motivo. Faço o serviço. Além do mais, não tenho tempo a perder. Para uma casa como esta, olhar tudo, selecionar e escolher, levaria a noite inteira...ou mais. Eu sei do que estou a falar. Sou um ladrão. Essa é a minha vida. Não escolhemos nosso destino. Mas não estou a reclamar". Ficamos desde logo com a exposição de parte da personalidade do protagonista, enquanto Louis Malle o transporta de local em local para praticar o seu ofício e afasta-o do amor. Georges é um indivíduo sempre bem vestido, de bigode, galanteador quando tem belas mulheres por perto, que apresenta uma enorme perícia a colocar os seus crimes em prática. No início, Georges apresenta-se como um ladrão experiente, com Louis Malle a deixar-nos perante a história deste homem num longo flashback, estabelecendo a sua personalidade e como chegou a esta situação. Este perdeu os pais ainda durante a juventude, tendo ficado a viver com Urbain Randal (Christian Lude), o seu tio e Charlotte (Geneviève Bujold), a sua prima. Se Urbain é um homem algo odioso e desprezível, capaz de se aproveitar da herança deixada pelos pais de Georges, já Charlotte desperta o interesse do primo, que se apaixona pela mesma, um sentimento que parece recíproco. No entanto, essa união foi impossibilitada devido a Urbain querer casar a filha com alguém de famílias abastadas, com Louis Malle a explorar mais uma vez as distinções entre as classes sociais ao mesmo tempo que assistimos novamente a um comentário nem sempre positivo sobre a burguesia conservadora (algo que já tinha acontecido em obras como "Les Amants", “Le feu follet” e até no destravado "Viva Maria!"). Estamos em plena França da última década do Século XIX, com "Le voleur" a não poupar no guarda-roupa e comportamentos associados ao período histórico, valendo ainda a pena realçar o trabalho de Jacques Saulnier (é sempre bom recordar o seu magnífico trabalho em "L'Année dernière à Marienbad" de Alain Resnais) na preparação e decoração dos cenários, ou Louis Malle não nos colocasse diante de um protagonista habituado a visitar locais marcados pelo luxo e requinte tendo em vista a esvaziar os mesmos. O primeiro assalto de Georges acontece na casa de Armand de Montareuil (Christian de Tillière), o noivo de Charlotte, um homem oriundo de uma família abastada que conta com um conjunto de joias valiosas no interior do seu cofre.

A Madame de Montareuil retirou as joias do cofre para que Charlotte escolhesse o seu anel de noivado, algo que vai conduzir Georges a vingar-se do tio e sabotar o evento ao roubar os objectos de valor desta família. É também neste local que Georges conhece Félix La Margelle (Julien Guiomar), um suposto padre que procura recolher fundos para supostamente criar uma igreja na China. Félix é um assaltante, ou melhor, organiza parte dos assaltos, tendo em Roger Voisin (Paul Le Person), um especialista em arrombar cofres, um aliado de peso. O protagonista vai colaborar com esta dupla, após ser bem sucedido a furtar o noivo da prima. Charlotte descobre que o primo foi o assaltante das joias da família do noivo, embora não o denuncie, com este a partir depois da amada não querer sair da casa de Urbain. O personagem interpretado por Christian Lude é um indivíduo avarento, que colecciona casos com mulheres e desperta o desprezo de Georges, tendo certamente contribuído para o desejo de ascensão rápida por parte do protagonista. O casamento de Charlotte acaba por ser cancelado devido à falta de fundos da família de Armand, com Georges a viajar em direcção à Bélgica, encontrando pelo caminho o padre. No comboio, a dupla conhece Emile Van der Busch (Fernand Guiot), um empresário que ascendeu graças ao fabrico de tintas e a explorar os seus funcionários, falador e pronto a revelar inconfidências, tais como o facto de guardar o seu dinheiro e os títulos do tesouro no cofre da sua casa. Escusado será dizer que Georges e Félix vão preparar o assalto, com o segundo a instalar o protagonista no Hotel Rei Salomão, um local conhecido por albergar os ladrões. Georges é apresentado a Roger, com a dupla a exibir desde logo a sua competência para a função. Georges e os seus colegas apenas parecem furtar elementos de finanças abastadas, assaltando cofres, roubando joias e títulos, contando com uma rede montada e uma enorme perícia tendo em vista a não serem capturados pelas autoridades. Diga-se que estes procuram sempre evitar mortes, com o pároco a salientar para o protagonista: "Evita qualquer morte desnecessária. É vulgar, desagradável, e tão fora de moda! O caminho mais seguro para o coração de um burguês é o seu cofre". Posteriormente, Roger e Georges deslocam-se a Londres, descrita como "capital mundial dos ladrões", tendo em vista a trocarem o material roubado com um negociante. É neste local que Georges conhece Broussaille (Marlène Jobert), a irmã de Roger, ficando temporariamente instalado na casa desta, até regressar ao seu país com Ida (Françoise Fabian), uma parisiense que tem uma loja de roupa na capital francesa, embora também se dedique a outros negócios menos lícitos. Georges viaja com Ida até Paris, de comboio, de forma a preparar uma série de roubos na cidade. Um desses assaltos é efectuado a um banqueiro, o marido de Geneviève (Marie Dubois), uma oportunista com quem o Georges se envolve. Esta irá ainda ter um caso com o tio do protagonista, enquanto Georges se envolve temporariamente no mundo da política, reencontra Charlotte e tarda em largar o vício de roubar. Em alguns momentos quase que é apanhado, mas nem por isso deixa de sentir um gostinho especial pelos furtos cometidos, algo que efectua mais pelo prazer do que pelo dinheiro e poder. Jean-Paul Belmondo constrói um personagem que está longe de ser um exemplo a seguir, embora consiga gerar alguma empatia junto do espectador, com o actor a expor com competência o lado frio de Georges nos assaltos e a sua faceta menos pragmática com as mulheres, sobretudo com Charlotte. No entanto, é demasiado viciado neste jogo proporcionado por cada assalto, onde os alarmes são cada vez mais eficazes e este tem de procurar ser astuto o suficiente para acompanhar a mudança dos tempos.

Quase todos os elementos que o rodeiam deixam o ofício, procurando seguir um rumo mais calmo, incluindo Roger e o padre, mas existe algo que compele o protagonista a não conseguir largar os furtos, tornando-se num "lobo solitário" para quem o crime é uma paixão. É uma droga que o consome e vicia, com a adrenalina de cada furto a parecer essencial para sentir-se vivo e manter o estatuto de melhor entre os melhores na área. Louis Malle elabora um interessante estudo de personagem, exibindo-nos a personalidade do seu protagonista, o seu sentimento de dor por não poder casar com a amada devido ao fraco estatuto social e financeiro, com os assaltos a parecerem uma vingança constante de Georges em relação aos elementos da burguesia ao mesmo tempo que tira algum prazer a colocar os furtos  em prática e ganhar algum estatuto no seio de um grupo restrito. Georges não é politicamente engajado como Canonnier (Charles Denner), um assaltante que fugiu da prisão e defende a anarquia e a diluição das distinções entre grupos sociais, com "Le voleur" a apresentar um comentário político e social. Cannonier é um assaltante com uma enorme reputação, procurando despertar o medo na burguesia, causar o caos e rebentar com o status quo da sociedade do seu tempo. Georges quer ser o melhor no ofício ao qual dedica a sua vida, parecendo mais interessado em executar os furtos com sucesso do que em mudar o Mundo. Os políticos não são representados da forma mais simpática ao longo de "Le voleur", com o protagonista a conhecer Courbassol (Jacques Debary), um político algo demagogo, através de um amigo, uma figura descrita como pouco inteligente. A própria igreja é subtilmente criticada através de Félix, um elemento disposto a quase tudo para conseguir fundos, acumulando as funções de padre e ladrão. Ora está num noivado a pedir dinheiro para uma igreja na China, ora trabalha com assaltantes, ora não se importa com a falsificação de um testamento desde que a paróquia seja beneficiada, entre outros gestos pouco recomendáveis, com Julien Guiomar a incutir quase sempre uma mescla de malícia e alguns princípios a este padre. Este acaba por formar uma relação de proximidade com Georges, enquanto Charlotte ainda se volta a reunir com o protagonista embora o romance entre ambos pareça fadado ao insucesso. Ela não o quis seguir na altura certa. Ele não consegue deixar os crimes. Os dois poderiam ter sido felizes, mas voltamos a estar perante uma das narrativas negras de Louis Malle onde a felicidade nem sempre é conhecida pelo casal de amados, que o digam os protagonistas de "Ascenseur pour l'échafaud". O papel de criminoso não é propriamente novo para Jean-Paul Belmondo. Veja-se os seus trabalhos em obras como "À Bout de Souffle", "Le Doulos", "Pierrot le Fou", entre outros, tendo em Georges um elemento complexo, que procura preparar cada crime com o máximo detalhe de forma a cumprir os seus intentos, mesmo que para isso tenha de destruir o mobiliário das vítimas. Para este os assaltos são uma profissão e um modo de vida que consome o seu quotidiano, formando pelo meio algumas parcerias até acabar praticamente isolado. Sabe que mais cedo ou mais tarde poderá ser capturado pelas autoridades, mas nem essa possibilidade leva a que abandone esta actividade, procurando desafiar a morte e a moral. Quando comete os assaltos está no poder e consegue o controlo que nunca teve na vida, surgindo como um anti-herói que despreza a burguesia embora até seja capaz de andar nos seus meandros. O momento em que falsifica o testamento do tio, em frente deste, quando o mesmo já não se pode mover e falar, surge exposto num misto de humor negro e crueldade, com Georges a vingar-se do familiar, procurando que o dinheiro fique para Charlotte, para além de fingir que Urbain pretende um funeral civil de características modestas, provocando o personagem interpretado por Christian Lude nos últimos minutos da vida do idoso, exibindo uma frieza impressionante para cumprir o ditado "a vingança serve-se fria".

O humor negro também está presente em algumas situações, tais como Urbain ter mantido um caso com Geneviève, uma oportunista que se relaciona com quem lhe der mais luxos, incluindo com o protagonista. Marie Dubois atribui uma enorme malícia e sensualidade a esta personagem que sabe aproveitar a sua beleza para cumprir os seus intentos, sendo uma das muitas personagens imorais do filme. Temos ainda Renée (Martine Sarcey), uma mulher que costuma vender informações aos criminosos, com Martine Sarcey a destacar-se como esta figura feminina que tenta utilizar a sua beleza para atrair aos homens ao mesmo tempo que procura lucrar com os furtos de Georges e companhia. Outro dos personagens pouco recomendáveis é Urbain, um elemento desprezível, cujos actos imorais aliam-se a uma personalidade atroz, ao contrário de Georges, embora este último esteja longe de ser alguém imaculado, com os dois a terem alguns momentos de tensão que são elevados pelas interpretações da dupla formada por Jean-Paul Belmondo e Christian Lude. Já Geneviève Bujold procura que a sua personagem não se apague diante dos homens, embora a personalidade frágil da mesma torne complicado que esta se imponha junto dos mesmos, sobretudo do seu tio. Baseado no livro homónimo de Georges Darien, "Le voleur" conta com um argumento relativamente eficaz a explorar a faceta de assaltante do protagonista, colocando-o a viajar de local em local, a conhecer uma diversidade de pessoas que em certa medida acabam por influenciar o seu comportamento ao longo do tempo. Louis Malle nem sempre atribui a tensão necessária aos assaltos, embora em alguns momentos pareça certo que o protagonista pode correr perigo de vida, sobretudo quando vê um colega de profissão ser assassinado diante de si. A sua maior preocupação é conseguir ser bem sucedido, mesmo que para isso tenha de descurar uma relação estável e possivelmente feliz com Charlotte. Ainda os encontramos reunidos e existe alguma química entre Geneviève Bujold e Jean-Paul Belmondo, mas "Le voleur" não é um filme para grandes momentos de romantismo. Por vezes imaginamos como será a vida deste personagem daqui a uns anos. Provavelmente será um pouco como os protagonistas de "Touchez Pas au Grisbi" e "Bob le Flambeur", dois assaltantes envelhecidos que contam com algum espírito de lealdade. Temos ainda alguma camaradagem entre assaltantes, em particular entre Georges, o padre e Roger, com o argumento a conseguir explorar esta mini-sociedade que formam temporariamente. Georges é um anti-herói fadado a não ter sucesso no amor mas a ter uma enorme eficácia nos assaltos, qual jogador que coloca a sua vida como garantia numa aposta arriscada, numa obra marcada por bons valores de produção, uma cinematografia sempre certeira de Henri Decaë e uma interpretação de um nível que o melhor Jean-Paul Belmondo nos habituou.

Título original: "Le voleur".
Título em Portugal: "O Ladrão de Paris".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Jean-Claude Carrière e Louis Malle.
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Geneviève Bujold, Marie Dubois, Paul Le Person, Christian Lude, Julien Guiomar.

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