19 novembro 2015

Resenha Crítica: "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain" (O Fabuloso Destino de Amélie)

 Entre a melancolia e a nostalgia, os sentimentos que teimam em surgir incessantemente e aqueles que são reprimidos, "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain" é um deleite para os sentidos, uma obra cinematográfica visualmente belíssima, onde a fantasia e a realidade se juntam, com Jean-Pierre Jeunet a colocar-nos diante do quotidiano de um grupo de personagens peculiares que facilmente conquistam a nossa atenção. A narração de André Dussollier é essencial para inserir o espectador no meio que envolve e rodeia os personagens, com a espécie de segundo prólogo a colocar-nos diante da infância de Amélie Poulain (Audrey Tautou), uma jovem de seis anos de idade, com uma personalidade reservada e criativa, que habita num meio peculiar. Raphaël Poulain (Rufus), o pai de Amélie, é inicialmente apresentado como um antigo médico do exército que trabalha nas termas de Enghien-les-Bains, enquanto Amandine Poulain (Lorella Cravotta), a mãe da protagonista, labora como professora. O pai é reservado, pouco dado a grandes falas ou demonstrações de sentimentos, algo que difere da mãe da protagonista, descrita como instável, com o narrador a expor-nos àquilo que estas duas figuras gostam e não gostam, transportando-nos para um mundo que tanto tem de real como de artificial. Por sua vez, Amélie, aos seis anos de idade, é educada em casa devido ao facto do pai pensar que a protagonista padece de uma anomalia cardíaca. Na realidade, Amélie sofre com a falta de atenção por parte do pai, um indivíduo que apenas contacta fisicamente com a rapariga quando efectua um exame clínico mensal, aquele que é o único momento de alguma aproximação entre ambos, algo que desperta o batimento acelerado desta jovem que tem uma imaginação fértil e uma visão do Mundo que facilmente nos conquista. É um mundo mágico e fantasioso este que nos é apresentado, onde as nuvens podem ter formas de animais, um peixe pode querer cometer suicídio, os quadros e as fotografias começam a falar e os candeeiros movimentam-se, numa obra cinematográfica onde a imaginação do realizador Jean-Pierre Jeunet e o seu sentido estético parecem estar no topo. A paleta cromática é utilizada de forma criativa, sobressaindo as tonalidades verde e vermelha, com "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain" a surgir como uma comédia com traços de drama e romance capaz de nos prender quer aos seus pequenos pormenores, quer aos acontecimentos mais relevantes que se desenrolam ao longo do enredo, com Audrey Tautou a estar no centro de boa parte do mesmo. Curiosamente, Audrey Tautou não foi a opção inicial para o papel de Amélie, embora pareça praticamente impossível imaginar "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain" sem a presença da actriz, com a carreira desta a encontrar-se intimamente ligada a esta personagem sonhadora, ingénua, tímida e prestável, de gestos e visual muito próprios, algo que se deve em boa parte à intérprete mas também ao argumento e a todo um cuidado a nível de guarda-roupa e caracterização. 

Quando a narrativa avança no tempo, após a morte da mãe de Amélie, um evento que tanto tem de trágico como de cómico (um recurso muito utilizado ao longo do filme, onde não falta um sem-abrigo que tira folgas ao Domingo), logo encontramos a protagonista a sair de casa, um local onde ficou a habitar o seu pai, um indivíduo que se encontra cada vez mais absorto nos seus pensamentos. Amélie foi trabalhar como empregada de mesa para o Deux Moulins, um café localizado em Montmartre, onde conta com Suzanne (Claire Maurier), uma senhora que coxeia de uma perna, como sua chefe. No Deux Moulins trabalham ainda Georgette (Isabelle Nanty), uma hipocondríaca que labora na tabacaria, bem como Gina (Clotilde Mollet), outra empregada de mesa. Gina é vigiada de perto por Joseph (Dominique Pinon), um antigo namorado desta, que não aceita a rejeição e passa os dias neste espaço. O café conta ainda com a presença regular de Hipolito (Artus de Penguern), um escritor falhado que não consegue que as suas obras sejam publicadas, com este indivíduo a surgir como um dos vários personagens de "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain" que contam com especificidades muito próprias. Um desses personagens peculiares que entram na vida de Amélie é Raymond Dufayel (Serge Merlin), o seu vizinho, um indivíduo de idade algo avançada que é conhecido como "O Homem de Vidro" devido a padecer de uma doença congénita que conduziu a que os seus ossos ficassem frágeis como cristal, procurando não sair de casa tendo em vista a evitar o agravamento de uma possível doença. Este tem como hobbie pintar uma réplica por ano do quadro "Almoço dos Barqueiros" de Pierre-Auguste Renoir, algo que efecua ao longo de vinte anos, embora tenha dificuldade no que diz respeito a reproduzir os olhares das figuras que copia. Raymond comunica pela primeira vez com Amélie quando esta decide encontrar Dominique Bretodeau, um antigo morador do seu prédio. A busca remete para uma série de acontecimentos que incluem a notícia da morte da Princesa Diana, mas também a queda de uma tampa que conduz Amélie a descobrir o tesouro que um menino, de seu nome Bretodeau, escondera há quarenta anos no interior de uma parede da habitação. Amélie procura fazer de tudo para devolver o "tesouro" que promete trazer várias recordações a este homem, algo que consegue, embora não fale directamente com Bretodeau. Diga-se que Amélie encontra-se muitas das vezes em silêncio ao longo do filme, cabendo a Audrey Tautou expressar-se através dos seus gestos e olhares, com o narrador a preencher elementos-chave da narrativa. A partir do momento em que percebe que pode despertar a felicidade dos outros, Amélie decide praticar gestos como auxiliar um cego a deslocar-se até à estação de metro, ou tentar formar um romance entre Joseph e Georgette, algo que estranhamente resulta, pelo menos a nível inicial. Georgette é uma mulher marcada por diversos tiques nervosos e uma incapacidade notória em controlar o receio que tem de adoecer, embora pareça esquecer-se temporariamente destas neuroses quando Joseph demonstra algum interesse na sua pessoa. Este é um indivíduo algo brusco e abrutalhado, meio stalker e falhado, que grava boa parte das observações que faz em relação aos acontecimentos que decorrem no café, com Dominique Pinon e Isabelle Nanty a formarem uma dupla capaz de despertar alguns sorrisos. O humor está muito presente ao longo do filme quer em episódios mais histriónicos, quer em situações completamente inesperadas, quer em momentos mais subtis, quer em acontecimentos meio non-sense onde esperamos um diálogo sério e Jean-Pierre Jeunet coloca-nos diante de uma mulher que tenta que o seu interlocutor complete ditados populares para avaliar o seu carácter.

No cerne da narrativa encontra-se ainda as tentativas que Amélie efectua para devolver um álbum de fotografias a Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz), com estes a iniciarem um jogo entre o "gato e o rato" para se conhecerem. O álbum contém diversas fotografias tiradas por várias pessoas nas máquinas de fotos instantâneas, com Nino a parecer o equivalente masculino de Amélie, ou não fossem ambos duas figuras estranhas e sonhadoras, que tiram pequenos prazeres de situações aparentemente comuns. Veja-se o caso de Amélie, com esta a gostar de enfiar a mão no saco de cereais para sentir os mesmos, para além de apreciar quebrar a cobertura do leite de creme com a colher. Amélie sente ainda um enorme prazer a ajudar os outros, embora tenha grandes dificuldades em comunicar com Nino, com este a fazer o seu coração bater aceleradamente. Esta guarda o álbum, após apanhar o mesmo quando Nino partira apressadamente na sua bicicleta, com a jovem a procurar descobrir um meio adequado para devolver o objecto, algo que vai conduzir Amélie a utilizar mais uma vez a sua imaginação e a iniciar um jogo peculiar com o personagem interpretado por Mathieu Kassovitz. Amélie procura encontrar Nino, inclusive nos dois empregos que este tem, ou seja, numa loja de material erótico e pornográfico e numa feira popular, deixando pistas até este chegar ou não ao café onde a protagonista trabalha. O jogo entre ambos tem tanto de fantasioso como de cândido, com Amélie a exibir simultaneamente curiosidade e receio em relação à possibilidade de falar com Nino. A cidade de Paris é o palco para os jogos desta jovem mulher, embora a sua mente demasiado fantasiosa, capaz de iludi-la até em relação ao que está a ver na televisão, a surgir regularmente como a sua maior aliada e inimiga. Amélie é uma jovem que facilmente desperta a nossa atenção. No início é-nos apresentada como uma jovem que cresceu de forma isolada, sem grandes demonstrações de afecto, embora distribua simpatia e tenha uma criatividade que muitas das vezes nos faz esboçar um sorriso, com o seu rosto a ter uma expressividade desarmante. Veja-se quando procura imaginar quantas pessoas estão a ter um orgasmo no momento em que observa a cidade e vira-se para o espectador de forma a comentar: "quinze". A sua casa é marcada por tonalidades verdes e vermelhas, enquanto as figuras que a rodeiam conseguem ser quase tão peculiares como Amélie. Veja-se Lucien (Jamel Debbouze), o empregado de uma loja de legumes e frutas que é fã da Princesa Diana e trata todos os produtos com enorme delicadeza, mesmo que isso lhe custe diversas reprimendas e injúrias por parte de Collignon (Urbain Cancelier), o seu patrão. Temos ainda os casos já salientados das figuras que rodeiam o café, mas também Raymond, o seu vizinho, com este a não ser o único elemento do prédio de Amélie a ter destaque. Outra das vizinhas a sobressair é Madeleine Wallace (Yolande Moreau), com esta a guardar um enorme retrato do falecido marido, um homem que a abandonara indo em viagem com a amante. O retrato tem à sua frente um cão embalsamado, com o canino a ter sido outrora o animal de estimação do casal, com Amélie a procurar ajudar esta mulher a afogar as mágoas do seu passado e reconciliar-se com o mesmo.

Este é um filme sobre gentes solitárias e peculiares, figuras que vivem intensamente ou a reprimem os seus sentimentos, com o argumento a conseguir fazer sobressair esta panóplia de personagens que rodeiam a obra cinematográfica, enquanto Jean-Pierre Jeunet exibe uma capacidade notória para aproveitar os elementos que constituem o elenco secundário. Nem sempre são figuras que soam reais, parecendo, isso sim, que são verdadeiras no interior do contexto do enredo. Veja-se o caso do pai de Amélie, um indivíduo que se depara com a situação do seu gnomo de cerâmica ter sido roubado pela filha, com esta a fingir, através de cartas enviadas, que o objecto decorativo decidiu viajar pelo Mundo, com Raphaël a acreditar nessa possibilidade. A própria estação de metro é um local importante, onde se inicia e desfaz um estranho mistério sobre um homem que tira fotografias e deixa as mesmas ficar na máquina, numa obra que nos coloca ainda diante de um jogo que tanto tem de estranho como de romântico entre duas figuras que parecem ter nascido uma para a outra embora tardem em reunir-se. Audrey Tautou é a pedra de toque para tudo funcionar, com esta a incutir uma faceta sonhadora, frágil e romântica a esta jovem bem intencionada, com Amélie a procurar despertar o interesse de Nino e tornar felizes aqueles que a rodeiam. Mathieu Kassovitz interpreta uma figura igualmente criativa, com Nino a surgir como um indivíduo que guarda fotografias que foram deitadas fora ou ficaram perdidas nas máquinas, numa obra cinematográfica ritmada por uma banda sonora encantadora de Yann Tiersen. A música que envolve a narrativa é um dos vários triunfos de uma obra cinematográfica que nos faz muitas das vezes questionar a nossa capacidade para conseguir captar todas as subtilezas e pormenores deste universo narrativo onde a realidade se esbate diante da fantasia e as barreiras entre ambas parecem tornar-se mais ténues do que nunca. A própria narração surge pronta a exacerbar as especificidades que envolvem o enredo de "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain", aquela que é uma das obras mais populares da carreira de Jean-Pierre Jeunet. Diga-se que sem a narração de André Dussollier, o filme muito provavelmente perderia um pouco do seu efeito, com este recurso a permitir que o espectador receba informações essenciais. A narração reforça o quão peculiares são os personagens que permeiam o enredo, abordando aquilo que gostam e não apreciam, explicando aquilo que pode ou não passar pela cabeça dos mesmos, com o narrador a tornar-se facilmente num cúmplice e guia do espectador ao longo desta aventura cinematográfica onde as barreiras da realidade são quebradas pela fantasia. Este é um triunfo também a nível de todo o design dos cenários e aproveitamento dos mesmos, algo notório em espaços como o café onde trabalha Amélie, um local onde nascem paixões, mal-entendidos, dúvidas e episódios peculiares, enquanto os sentimentos voam, assim como em quase toda a narrativa. A própria casa da protagonista é paradigmática da personalidade peculiar desta mulher que gosta de atirar pedras para a água para as ver a fazer ricochete, parecendo ter em Nino uma figura que lhe desperta curiosidade e desejo, algo que irá ser recíproco. "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain" conquista-nos pela sua delicadeza, enquanto deambula entre as margens da fantasia e da realidade, num filme povoado por figuras peculiares com sentimentos que são bem reais, com Audrey Tautou a ter em Amélie Poulain uma personagem que marca uma carreira e o espectador.

Título original: "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain"
Título em Portugal: "O Fabuloso Destino de Amélie".
Realizador: Jean-Pierre Jeunet.
Argumento: Guillaume Laurant.
Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Serge Merlin, André Dussollier.

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