Filmado a preto e branco, com uma aura simultaneamente nostálgica
e melancólica, "The Last Picture Show" explora com sucesso
o quotidiano de um grupo de adolescentes e alguns adultos de Anarene,
uma pequena cidade do Texas, onde quase todos se conhecem,
os segredos não duram muito tempo e as hormonas dos jovens encontram-se ao
rubro. Esta é uma cidade algo desértica, povoada por gentes com
várias histórias entrelaçadas, alguns preconceitos sociais, tabus
e recordações em relação ao passado que parecem mais agradáveis
do que as memórias que se formam no presente, existindo contrastes e afinidades entre os habitantes mais jovens e os mais velhos, ao mesmo
tempo que Peter Bogdanovich explora com sucesso os ritmos e os episódios da
época em que se desenrola a narrativa. O enredo desenrola-se em 1951, com a Guerra da Coreia e o fecho
de um cinema perante o apogeu da televisão (algo que promete gerar
uma nova relação entre o espectador e os filmes) a serem algumas das temáticas mencionadas e sentidas pelos personagens. Peter
Bogdanovich capta com sucesso quer as inquietações dos jovens, quer
as frustrações dos mais velhos, com o cineasta a conseguir que o
elenco se destaque ao mesmo tempo que nos transporta para
um local com características muito próprias, marcado por personagens
com sentimentos amplamente universais. Duane Jackson (Jeff Bridges) é um representante dos elementos mais jovens, um indivíduo que se
encontra a terminar o ensino secundário e trabalha num poço de
petróleo. Este é um jovem intempestivo, que conduz regularmente uma
carrinha velha (até finalmente comprar um carro), algo abrutalhado mas de bom coração, que tem
em Sonny Crawford (Timothy Bottoms) o seu melhor amigo e em Jacy
Farrow (Cybill Shepherd) a sua namorada. Jacy é considerada a jovem
mais bela e desejada da cidade, sendo filha de Lois Farrow (Ellen
Burstyn), uma mulher infiel que se encontra envolvida num casamento
que se parece aguentar acima de tudo por conveniência, com o esposo desta última a contar com um estatuto
social e financeiro relativamente sólido. A
relação entre Duane e Jacy é marcada pelo desejo entre ambos, com
Cybill Shepherd a inculcar uma certa safadeza, sensualidade e alguma
ingenuidade à personagem que interpreta, algo que é contrastado pelo estilo
mais duro e impetuoso de Jeff Bridges como Duane. A mãe de Jacy procura
que esta se afaste de Duane devido ao baixo estatuto social do jovem,
embora a personagem interpretada por Cybill Shepherd inicialmente não
ligue à progenitora, com o casal a contar com uma relação
relativamente normal, com os dois elementos a saírem regularmente, tendo em Sonny um amigo em comum. Quando encontramos Jacy a mentir a Duane, tendo em vista a aceitar o convite de Lester Marlow (Randy
Quaid), um colega, para ir a uma festa na casa de Bobby Sheen (Gary
Brockette), um tipo financeiramente abastado, percebemos que a relação entre a primeira e Duane pode ter os dias contados.
A habitação de Bobby surge como um
espaço onde Jacy se depara com uma realidade distinta, onde as
extravagâncias são visíveis em situações como a necessidade de
todos terem de estar nus na piscina, bem como nos poucos tabus apresentados pelos
convidados, algo que entra em contraste com o falso espírito
conservador que parece existir nesta cidade, com Peter Bogdanovich a
não ter problemas em explorar temáticas relacionadas com a
sexualidade destas figuras que povoam a narrativa. Jacy ainda beija
Bobby, mas este não avança mais do que isso devido a não ter
interesse em virgens, algo que parece aguçar o apetite desta para
ter relações sexuais com Duane, até terminar o namoro com o personagem interpretado por Jeff Bridges. Esta é uma
jovem mimada, que sempre pareceu ter tudo e todos de "mão
beijada", envolvendo-se em conquistas que exibem a sua
facilidade para encantar os homens, apesar de encontrar tanta
felicidade nestas relações como aquela que a mãe se deparou no casamento. Os close-ups exacerbam alguns dos argumentos que contribuem para que esta jovem
mulher seja alvo de desejo, com a própria a saber jogar com a sua
capacidade de sedução quer com os seus gestos, quer com as suas
falas, indo ao ponto de gerar um conflito entre Duane e Sonny, os dois
melhores amigos, sobretudo quando se envolve com este último, após
se ter separado do personagem interpretado por Jeff Bridges. Existe toda uma enorme atenção
aos gestos entre estes jovens e à forma como as hormonas dos mesmos
se encontram ao rubro. Uma mão que sobe um pouco mais sobre a perna
pode servir para animar em demasia, um simples toque que parece aparentar
alguma fragilidade esconde um desejo de sedução, algo que Cybill
Shepherd consegue efectuar com enorme perícia, com Jacy a surgir
como uma figura conquistadora, embora nunca pareça saber bem aquilo
que pretende. A cinematografia, belíssima, a preto e branco, tem um enorme relevo para o tom
algo nostálgico do filme, para além de contribuir para incrementar a atmosfera relacionada com a época em que se desenrola o enredo,
com esta cidade a parecer um espaço que se encontra num enclave
entre os espaços urbanos do Velho Oeste e os EUA modernos, com o
cinema a ser um ponto de convívio, bem como o salão de jogos e o restaurante, três estabelecimentos que pertencem a
Sam "the Lion" (Ben Johnson). O próprio trabalho de som,
logo nos momentos iniciais, a exacerbar o vento que percorre esta
cidade em decadência e a poeira que se levanta pelos ares, remete
exactamente para esses trechos que parecem saídos dos westerns numa
obra cinematográfica pontuada por algumas situações mais dramáticas, mas também
de algum humor, com Peter Bogdanovich a colocar-nos diante de adolescentes em transição para a
idade adulta que se encontram a formar as suas personalidades, para além de nos exibir alguns
personagens mais velhos que procuram esconder as suas
frustrações, com as traições surgirem muitas das vezes como um meio
para se escapulirem das diatribes do destino.
É no salão de jogos que encontramos Sam a ironizar com a fraca
prestação de Duane e Sonny na equipa de futebol americano local, com a dupla a não parecer apresentar talento para este desporto, algo que irrita diversos habitantes de Anarene. Duane e Sonny são praticamente inseparáveis, com o
primeiro a surgir como uma figura mais expansiva e impulsiva,
enquanto o segundo é um jovem mais introvertido, tendo inicialmente
um namoro com Charlene Duggs (Sharon Ullrick), que dura pouco tempo,
até iniciar um affair com Ruth Popper (Cloris Leachman), uma mulher
de meia idade, em notória depressão, casada com o seu treinador. A
relação entre Ruth e Sonny é inicialmente marcada pela estranheza,
com estes a começarem a ganhar alguma intimidade, até esta expor
que o seu casamento se encontra num estado miserável, um adjectivo
que se parece adequar ao seu ego. Ruth e Lois surgem
como duas mulheres adúlteras para quem o casamento apenas se mantém
por questões morais, sociais ou financeiras, numa sociedade ainda marcada
por alguns tabus ou, pelo menos, pelas aparências. Se os mais
velhos parecem viver relações de fachada, já os mais jovens
encontram-se a iniciar a sua vida sexual, com Duane e Sonny a
encontrarem-se nesta segunda categoria, embora conheçam diversas
desilusões pelo caminho. Estes chegam a efectuar uma viagem de um fim de semana ao México, embora não tenham muito tempo para degustarem o
divertimento, com o regresso a ser marcado pela trágica notícia da morte
de Sam. Este era um habitante icónico de Anarene, com Ben Johnson a
conseguir atribuir enorme carisma e credibilidade a esta personagem
que surge como uma figura quase paternal para Sonny e Billy (Sam
Bottoms), um jovem que não fala. Billy apresenta
um atraso mental, surgindo como uma figura a espaços trágica, rejeitada
pela maioria, com Sonny a procurar proteger o jovem, embora não evite um
episódio mais embaraçoso com uma prostituta, algo que enfurece Ben, ainda
que temporariamente. O momento em que o trio se encontra a pescar é
paradigmático da relevância que Sam tem para Sonny, com este
último a pouco se relacionar com o pai, tal como Duane não se dá
com a sua mãe. A dinâmica entre Duane e Sonny é
convincente, com Jeff Bridges e Timothy Bottoms a terem alguns
momentos de destaque, enquanto "The
Last Picture Show" apresenta-nos ao quotidiano destes jovens, seja no
bar onde jogam bilhar, no cinema, a saírem de carro, no baile, a
irem para motéis baratos para terem sexo, a cometerem actos que
certamente se irão arrepender ou recordar, com o filme a não poupar
nos episódios que envolvem estas figuras que povoam Anarene.
A
cidade é marcada por gentes com falsos pudores e valores
conservadores, contando com poucos lugares de diversão, com o cinema a
surgir como um ponto de encontro fulcral, uma salinha que facilmente nos desperta alguma nostalgia perante a raridade destes espaços nos
dias de hoje. O destino da mesma também não será o mais feliz, com
Peter Bogdanovich a expor-nos ao findar destes espaços. Temos ainda
o restaurante de Sam, onde trabalha Genevieve (Eileen Brennan), uma funcionária de personalidade forte, que mantém uma relação de enorme afabilidade com
o chefe e o jovem Sonny, um dos melhores clientes da casa, entre
outras figuras de uma narrativa povoada por um leque alargado de
personagens, com o argumento de Larry McMurtry e Peter Bogdanovich,
baseado no livro "The Last Picture Show", escrito pelo
primeiro, a desenvolver com sucesso estes personagens e os
relacionamentos entre os mesmos. Peter Bogdanovich consegue ainda
aproveitar o talento de vários elementos do elenco que conta à sua
disposição, incluindo a estreante Cybill Shepherd, que beneficia
imenso da forma como é idolatrada pela câmara de
filmar. Com uma carreira algo irregular, marcada por trabalhos
televisivos tão memoráveis como a série "Modelo e Detective"
e diversas obras cinematográficas (encontra-se presente no elenco de
"She's Funny That Way", o mais recente filme de Peter
Bogdanovich a estrear nas salas de cinema), Cybill Shepherd tem uma
estreia de grande nível na Sétima Arte ao interpretar uma jovem mimada, pouco
decidida em relação às ideias para o futuro, que tanto parece
querer afrontar a decisão dos familiares como indica aceitar o destino que lhe traçaram. Jacy é algo ingénua, parecendo ter tudo e todos a seus pés, indo ao ponto de descartar Duane e colocá-lo, em parte, contra o melhor amigo ao envolver-se com o
mesmo. Jeff Bridges incute um tom "casca grossa" ao
personagem que interpreta, um jovem que espelha com facilidade os
seus sentimentos. Já Timothy Bottoms apresenta quase sempre um
registo mais melancólico e ponderado como Sonny, com este último a
iniciar um caso com uma mulher mais velha, que parece verdadeiramente
respeitar o mesmo, embora o protagonista cometa alguns erros pelo
caminho que vão minar a relação. Cloris Leachman é uma das actrizes
secundárias que mais sobressai ao interpretar uma figura
feminina insegura e solitária, que procura recuperar a sua
auto-estima num affair. A cena de sexo com Sonny está longe de
apresentar algum erotismo ou transmitir totalmente se estes
personagens tiveram efectivamente prazer no acto. Ela chora, as molas
do colchão são bem audíveis, enquanto Sonny cumpre o serviço. O casamento
de Ruth parece apenas manter-se devido a parecer mal divorciar-se,
com esta a ter contraído matrimónio sem ter ponderado possíveis
incompatibilidades com aquele que viria a ser o seu esposo, algo
representativo de um período onde a separação ainda era vista com
algumas reticências, sobretudo neste espaço fechado onde as
alternativas à solidão parecem ser muito poucas, embora quase todos
saibam dos affairs uns dos outros.
O filme conta ainda com elementos como Jessie Lee Fulton como Miss
Mosey, a empregada do cinema que fica a tomar conta do mesmo após a morte de Sam,
uma figura simpática que não parece ter a força necessária para
continuar com um negócio em decadência; Ellen Burstyn como uma
mulher cujo casamento é marcado pela
falta de chama e uma imensa monotonia, para além do já citado Ben
Johnson, entre outros actores e actrizes. Peter Bogdanovich cria um
universo narrativo credível em volta desta pequena cidade durante a época representada, expondo-nos ao quotidiano de diversos
personagens, uns com algumas esperanças em relação ao futuro,
outros desencantados com o presente, com este espaço citadino a surgir mais como um ponto de partida do que como um ponto de
chegada. O cineasta faz parte de uma geração de realizadores da
chamada New Hollywood, tendo chegado à Sétima Arte oriundo sobretudo da
crítica e da escrita de ensaios relacionados com o cinema, com "The
Last Picture Show" a surgir como uma das obras mais populares da
sua carreira. Esta cidade que nos
apresenta é marcada por poucos locais de diversão, gentes dispostas
a sair da mesma e outras que permanecem sem saberem bem as razões para
isso, com o sexo e o desejo sexual a serem abordados de forma aberta.
Duane deseja Jacy, esta não tem problemas em entrar nua numa piscina
com desconhecidos ou ter sexo casual numa mesa de snooker com um
funcionário do seu pai, enquanto Sonny procura inicialmente avançar
junto de Charlene, embora quem se envolva sexualmente com o mesmo
seja Ruth. "The Last Picture Show" procura destrinçar esta
cidade e exibi-la ao pormenor, para além de explorar uma época em mudança onde
a exibição do último filme numa sala de cinema traz consigo uma
enorme nostalgia e a noção de que nada será como dantes. Não
faltam ainda as temáticas sobre os jovens que se deparam com os
problemas inerentes à chegada à idade adulta, o choque de gerações,
as relações falhadas, entre outras que povoam o enredo deste
magnífico filme, pontuado ainda por uma utilização imaculada dos cenários e uma banda sonora seleccionada de forma
a adequar-se à atmosfera da época representada (muitas das vezes as canções
são utilizadas de forma diegética, algo que faz com
que estas não só incrementem a narrativa mas também façam parte da
"vida" destes personagens que aos poucos ficamos a
conhecer). Com uma cinematografia belíssima, uma abordagem assertiva
das inquietações que envolvem os personagens e os seus
relacionamentos, uma representação da época que varia entre a
melancolia e a nostalgia, "The Last Picture Show" apresenta
um conjunto de atributos que fazem merecer cada elogio que a obra
cinematográfica tem vindo a receber desde o seu lançamento em 1971.
Título original: "The Last Picture Show".
Título em Portugal: "A Última Sessão".
Realizador: Peter Bogdanovich.
Argumento: Larry McMurtry e Peter Bogdanovich.
Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ellen Burstyn, Ben Johnson, Cloris Leachman.

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