18 novembro 2015

Resenha Crítica: "The Last Picture Show" (1971)

 Filmado a preto e branco, com uma aura simultaneamente nostálgica e melancólica, "The Last Picture Show" explora com sucesso o quotidiano de um grupo de adolescentes e alguns adultos de Anarene, uma pequena cidade do Texas, onde quase todos se conhecem, os segredos não duram muito tempo e as hormonas dos jovens encontram-se ao rubro. Esta é uma cidade algo desértica, povoada por gentes com várias histórias entrelaçadas, alguns preconceitos sociais, tabus e recordações em relação ao passado que parecem mais agradáveis do que as memórias que se formam no presente, existindo contrastes e afinidades entre os habitantes mais jovens e os mais velhos, ao mesmo tempo que Peter Bogdanovich explora com sucesso os ritmos e os episódios da época em que se desenrola a narrativa. O enredo desenrola-se em 1951, com a Guerra da Coreia e o fecho de um cinema perante o apogeu da televisão (algo que promete gerar uma nova relação entre o espectador e os filmes) a serem algumas das temáticas mencionadas e sentidas pelos personagens. Peter Bogdanovich capta com sucesso quer as inquietações dos jovens, quer as frustrações dos mais velhos, com o cineasta a conseguir que o elenco se destaque ao mesmo tempo que nos transporta para um local com características muito próprias, marcado por personagens com sentimentos amplamente universais. Duane Jackson (Jeff Bridges) é um representante dos elementos mais jovens, um indivíduo que se encontra a terminar o ensino secundário e trabalha num poço de petróleo. Este é um jovem intempestivo, que conduz regularmente uma carrinha velha (até finalmente comprar um carro), algo abrutalhado mas de bom coração, que tem em Sonny Crawford (Timothy Bottoms) o seu melhor amigo e em Jacy Farrow (Cybill Shepherd) a sua namorada. Jacy é considerada a jovem mais bela e desejada da cidade, sendo filha de Lois Farrow (Ellen Burstyn), uma mulher infiel que se encontra envolvida num casamento que se parece aguentar acima de tudo por conveniência, com o esposo desta última a contar com um estatuto social e financeiro relativamente sólido. A relação entre Duane e Jacy é marcada pelo desejo entre ambos, com Cybill Shepherd a inculcar uma certa safadeza, sensualidade e alguma ingenuidade à personagem que interpreta, algo que é contrastado pelo estilo mais duro e impetuoso de Jeff Bridges como Duane. A mãe de Jacy procura que esta se afaste de Duane devido ao baixo estatuto social do jovem, embora a personagem interpretada por Cybill Shepherd inicialmente não ligue à progenitora, com o casal a contar com uma relação relativamente normal, com os dois elementos a saírem regularmente, tendo em Sonny um amigo em comum. Quando encontramos Jacy a mentir a Duane, tendo em vista a aceitar o convite de Lester Marlow (Randy Quaid), um colega, para ir a uma festa na casa de Bobby Sheen (Gary Brockette), um tipo financeiramente abastado, percebemos que a relação entre a primeira e Duane pode ter os dias contados.

A habitação de Bobby surge como um espaço onde Jacy se depara com uma realidade distinta, onde as extravagâncias são visíveis em situações como a necessidade de todos terem de estar nus na piscina, bem como nos poucos tabus apresentados pelos convidados, algo que entra em contraste com o falso espírito conservador que parece existir nesta cidade, com Peter Bogdanovich a não ter problemas em explorar temáticas relacionadas com a sexualidade destas figuras que povoam a narrativa. Jacy ainda beija Bobby, mas este não avança mais do que isso devido a não ter interesse em virgens, algo que parece aguçar o apetite desta para ter relações sexuais com Duane, até terminar o namoro com o personagem interpretado por Jeff Bridges. Esta é uma jovem mimada, que sempre pareceu ter tudo e todos de "mão beijada", envolvendo-se em conquistas que exibem a sua facilidade para encantar os homens, apesar de encontrar tanta felicidade nestas relações como aquela que a mãe se deparou no casamento. Os close-ups exacerbam alguns dos argumentos que contribuem para que esta jovem mulher seja alvo de desejo, com a própria a saber jogar com a sua capacidade de sedução quer com os seus gestos, quer com as suas falas, indo ao ponto de gerar um conflito entre Duane e Sonny, os dois melhores amigos, sobretudo quando se envolve com este último, após se ter separado do personagem interpretado por Jeff Bridges. Existe toda uma enorme atenção aos gestos entre estes jovens e à forma como as hormonas dos mesmos se encontram ao rubro. Uma mão que sobe um pouco mais sobre a perna pode servir para animar em demasia, um simples toque que parece aparentar alguma fragilidade esconde um desejo de sedução, algo que Cybill Shepherd consegue efectuar com enorme perícia, com Jacy a surgir como uma figura conquistadora, embora nunca pareça saber bem aquilo que pretende. A cinematografia, belíssima, a preto e branco, tem um enorme relevo para o tom algo nostálgico do filme, para além de contribuir para incrementar a atmosfera relacionada com a época em que se desenrola o enredo, com esta cidade a parecer um espaço que se encontra num enclave entre os espaços urbanos do Velho Oeste e os EUA modernos, com o cinema a ser um ponto de convívio, bem como o salão de jogos e o restaurante, três estabelecimentos que pertencem a Sam "the Lion" (Ben Johnson). O próprio trabalho de som, logo nos momentos iniciais, a exacerbar o vento que percorre esta cidade em decadência e a poeira que se levanta pelos ares, remete exactamente para esses trechos que parecem saídos dos westerns numa obra cinematográfica pontuada por algumas situações mais dramáticas, mas também de algum humor, com Peter Bogdanovich a colocar-nos diante de adolescentes em transição para a idade adulta que se encontram a formar as suas personalidades, para além de nos exibir alguns personagens mais velhos que procuram esconder as suas frustrações, com as traições surgirem muitas das vezes como um meio para se escapulirem das diatribes do destino.

É no salão de jogos que encontramos Sam a ironizar com a fraca prestação de Duane e Sonny na equipa de futebol americano local, com a dupla a não parecer apresentar talento para este desporto, algo que irrita diversos habitantes de Anarene. Duane e Sonny são praticamente inseparáveis, com o primeiro a surgir como uma figura mais expansiva e impulsiva, enquanto o segundo é um jovem mais introvertido, tendo inicialmente um namoro com Charlene Duggs (Sharon Ullrick), que dura pouco tempo, até iniciar um affair com Ruth Popper (Cloris Leachman), uma mulher de meia idade, em notória depressão, casada com o seu treinador. A relação entre Ruth e Sonny é inicialmente marcada pela estranheza, com estes a começarem a ganhar alguma intimidade, até esta expor que o seu casamento se encontra num estado miserável, um adjectivo que se parece adequar ao seu ego. Ruth e Lois surgem como duas mulheres adúlteras para quem o casamento apenas se mantém por questões morais, sociais ou financeiras, numa sociedade ainda marcada por alguns tabus ou, pelo menos, pelas aparências. Se os mais velhos parecem viver relações de fachada, já os mais jovens encontram-se a iniciar a sua vida sexual, com Duane e Sonny a encontrarem-se nesta segunda categoria, embora conheçam diversas desilusões pelo caminho. Estes chegam a efectuar uma viagem de um fim de semana ao México, embora não tenham muito tempo para degustarem o divertimento, com o regresso a ser marcado pela trágica notícia da morte de Sam. Este era um habitante icónico de Anarene, com Ben Johnson a conseguir atribuir enorme carisma e credibilidade a esta personagem que surge como uma figura quase paternal para Sonny e Billy (Sam Bottoms), um jovem que não fala. Billy apresenta um atraso mental, surgindo como uma figura a espaços trágica, rejeitada pela maioria, com Sonny a procurar proteger o jovem, embora não evite um episódio mais embaraçoso com uma prostituta, algo que enfurece Ben, ainda que temporariamente. O momento em que o trio se encontra a pescar é paradigmático da relevância que Sam tem para Sonny, com este último a pouco se relacionar com o pai, tal como Duane não se dá com a sua mãe. A dinâmica entre Duane e Sonny é convincente, com Jeff Bridges e Timothy Bottoms a terem alguns momentos de destaque, enquanto "The Last Picture Show" apresenta-nos ao quotidiano destes jovens, seja no bar onde jogam bilhar, no cinema, a saírem de carro, no baile, a irem para motéis baratos para terem sexo, a cometerem actos que certamente se irão arrepender ou recordar, com o filme a não poupar nos episódios que envolvem estas figuras que povoam Anarene.

A cidade é marcada por gentes com falsos pudores e valores conservadores, contando com poucos lugares de diversão, com o cinema a surgir como um ponto de encontro fulcral, uma salinha que facilmente nos desperta alguma nostalgia perante a raridade destes espaços nos dias de hoje. O destino da mesma também não será o mais feliz, com Peter Bogdanovich a expor-nos ao findar destes espaços. Temos ainda o restaurante de Sam, onde trabalha Genevieve (Eileen Brennan), uma funcionária de personalidade forte, que mantém uma relação de enorme afabilidade com o chefe e o jovem Sonny, um dos melhores clientes da casa, entre outras figuras de uma narrativa povoada por um leque alargado de personagens, com o argumento de Larry McMurtry e Peter Bogdanovich, baseado no livro "The Last Picture Show", escrito pelo primeiro, a desenvolver com sucesso estes personagens e os relacionamentos entre os mesmos. Peter Bogdanovich consegue ainda aproveitar o talento de vários elementos do elenco que conta à sua disposição, incluindo a estreante Cybill Shepherd, que beneficia imenso da forma como é idolatrada pela câmara de filmar. Com uma carreira algo irregular, marcada por trabalhos televisivos tão memoráveis como a série "Modelo e Detective" e diversas obras cinematográficas (encontra-se presente no elenco de "She's Funny That Way", o mais recente filme de Peter Bogdanovich a estrear nas salas de cinema), Cybill Shepherd tem uma estreia de grande nível na Sétima Arte ao interpretar uma jovem mimada, pouco decidida em relação às ideias para o futuro, que tanto parece querer afrontar a decisão dos familiares como indica aceitar o destino que lhe traçaram. Jacy é algo ingénua, parecendo ter tudo e todos a seus pés, indo ao ponto de descartar Duane e colocá-lo, em parte, contra o melhor amigo ao envolver-se com o mesmo. Jeff Bridges incute um tom "casca grossa" ao personagem que interpreta, um jovem que espelha com facilidade os seus sentimentos. Já Timothy Bottoms apresenta quase sempre um registo mais melancólico e ponderado como Sonny, com este último a iniciar um caso com uma mulher mais velha, que parece verdadeiramente respeitar o mesmo, embora o protagonista cometa alguns erros pelo caminho que vão minar a relação. Cloris Leachman é uma das actrizes secundárias que mais sobressai ao interpretar uma figura feminina insegura e solitária, que procura recuperar a sua auto-estima num affair. A cena de sexo com Sonny está longe de apresentar algum erotismo ou transmitir totalmente se estes personagens tiveram efectivamente prazer no acto. Ela chora, as molas do colchão são bem audíveis, enquanto Sonny cumpre o serviço. O casamento de Ruth parece apenas manter-se devido a parecer mal divorciar-se, com esta a ter contraído matrimónio sem ter ponderado possíveis incompatibilidades com aquele que viria a ser o seu esposo, algo representativo de um período onde a separação ainda era vista com algumas reticências, sobretudo neste espaço fechado onde as alternativas à solidão parecem ser muito poucas, embora quase todos saibam dos affairs uns dos outros.

O filme conta ainda com elementos como Jessie Lee Fulton como Miss Mosey, a empregada do cinema que fica a tomar conta do mesmo após a morte de Sam, uma figura simpática que não parece ter a força necessária para continuar com um negócio em decadência; Ellen Burstyn como uma mulher cujo casamento é marcado pela falta de chama e uma imensa monotonia, para além do já citado Ben Johnson, entre outros actores e actrizes. Peter Bogdanovich cria um universo narrativo credível em volta desta pequena cidade durante a época representada, expondo-nos ao quotidiano de diversos personagens, uns com algumas esperanças em relação ao futuro, outros desencantados com o presente, com este espaço citadino a surgir mais como um ponto de partida do que como um ponto de chegada. O cineasta faz parte de uma geração de realizadores da chamada New Hollywood, tendo chegado à Sétima Arte oriundo sobretudo da crítica e da escrita de ensaios relacionados com o cinema, com "The Last Picture Show" a surgir como uma das obras mais populares da sua carreira. Esta cidade que nos apresenta é marcada por poucos locais de diversão, gentes dispostas a sair da mesma e outras que permanecem sem saberem bem as razões para isso, com o sexo e o desejo sexual a serem abordados de forma aberta. Duane deseja Jacy, esta não tem problemas em entrar nua numa piscina com desconhecidos ou ter sexo casual numa mesa de snooker com um funcionário do seu pai, enquanto Sonny procura inicialmente avançar junto de Charlene, embora quem se envolva sexualmente com o mesmo seja Ruth. "The Last Picture Show" procura destrinçar esta cidade e exibi-la ao pormenor, para além de explorar uma época em mudança onde a exibição do último filme numa sala de cinema traz consigo uma enorme nostalgia e a noção de que nada será como dantes. Não faltam ainda as temáticas sobre os jovens que se deparam com os problemas inerentes à chegada à idade adulta, o choque de gerações, as relações falhadas, entre outras que povoam o enredo deste magnífico filme, pontuado ainda por uma utilização imaculada dos cenários e uma banda sonora seleccionada de forma a adequar-se à atmosfera da época representada (muitas das vezes as canções são utilizadas de forma diegética, algo que faz com que estas não só incrementem a narrativa mas também façam parte da "vida" destes personagens que aos poucos ficamos a conhecer). Com uma cinematografia belíssima, uma abordagem assertiva das inquietações que envolvem os personagens e os seus relacionamentos, uma representação da época que varia entre a melancolia e a nostalgia, "The Last Picture Show" apresenta um conjunto de atributos que fazem merecer cada elogio que a obra cinematográfica tem vindo a receber desde o seu lançamento em 1971.

Título original: "The Last Picture Show".
Título em Portugal: "A Última Sessão".
Realizador: Peter Bogdanovich.
Argumento: Larry McMurtry e Peter Bogdanovich.
Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ellen Burstyn, Ben Johnson, Cloris Leachman.

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