05 novembro 2015

Resenha Crítica: "La stanza del figlio" (O Quarto do Filho)

 Como enfrentar a morte de um ente querido e seguir em frente com a vida? A resposta a esta questão é difícil e complexa, algo que podemos comprovar em "La stanza del figlio", uma obra cinematográfica tocante e delicada, realizada e protagonizada por Nanni Moretti. Em "Mia Madre", o novo filme de Nanni Moretti, encontramos uma realizadora de cinema a enfrentar a inevitabilidade de perder a mãe, uma mulher que padece de uma doença terminal. Em "La stanza del figlio", uma obra premiada com a Palma de Ouro na edição de 2001 do Festival de Cannes, Nanni Moretti coloca o espectador diante de um psicanalista que se depara com um rombo enorme no núcleo familiar ao receber a notícia devastadora do falecimento do seu filho. Nanni Moretti aborda esta situação com uma enorme sensibilidade e subtileza, algo que contribui para nos embalar para o interior do drama vivido pelos personagens e para as dificuldades que estes apresentam em seguir em frente com as suas vidas. Aos poucos sentimos as suas dores e frustrações, os seus arrependimentos e a luta constante para ultrapassarem um momento difícil que teima em regressar aos seus pensamentos. Os momentos iniciais são marcados por alguma leveza, com Nanni Moretti a apresentar-nos a este núcleo familiar, bem como a algumas situações relacionadas com o quotidiano dos seus integrantes. Este núcleo familiar é composto por quatro elementos, com Giovanni (Nanni Moretti), um psicanalista, a surgir muitas das vezes em plano central. Nanni Moretti consegue transmitir a enorme calma que este personagem tem a ouvir os seus pacientes, mesmo quando estes apresentam alguma arrogância, algo que muda por completo quando perde o filho. Giovanni é casado com Paola (Laura Morante), uma mulher aparentemente mais descontraída do que o protagonista, com a relação entre ambos a parecer sólida, com a dupla a apresentar alguma cumplicidade. Paola e Giovanni são pais de Andrea (Giuseppe Sanfelice) e Irene (Jasmine Trinca), dois adolescentes com personalidades muito próprias. Irene tem no basquetebol um desporto que aprecia e gosta de jogar, enquanto Andrea prefere praticar ténis, apesar de não apresentar espírito competitivo, contando com uma personalidade algo imprevisível. Giovanni tem como hábito fazer jogging, um facto que podemos comprovar no início do filme, algo que o conduz a convidar o filho a correr consigo, tendo em vista a fortalecer os laços entre ambos. A chamada de Oscar (Silvio Orlando), um doente com características suicidas, leva a que Giovanni tenha de adiar a corrida, tendo em vista a deslocar-se a casa deste individuo. Esta acto vai marcar Giovanni, com o personagem interpretado por Nanni Moretti a não deixar de pensar no que teria acontecido se tivesse ido praticar jogging com o filho ao invés de visitar o paciente, com a sua mente a efectuar diversas conjecturas que adensam ainda mais a dor provocada por esta perda.

Andrea já tinha combinado praticar mergulho com alguns amigos, utilizando equipamento próprio para se aventurar pelas profundezas do mar, embora acabe por sofrer um acidente fatal. A família fica devastada, bem como os amigos e todos aqueles que lhe são próximos, com o momento do velório a surgir como algo de tocante e comovente. A certa altura de "La stanza del figlio", Giovanni é questionado sobre o seu desporto preferido a nível sonoro, ou seja, aquele cujos sons mais gosta de ouvir. Giovanni salienta que talvez seja o hóquei no gelo. No entanto, não temos dúvidas que um dos sons que mais vai atormentar a existência de Giovanni é aquele que é efectuado quando os pregos se encontram a ser colocados no caixão de Andrea. Os três elementos do núcleo familiar reagem de forma distinta à perda. Giovanni continua a trabalhar, embora seja notório que não consegue encarar Oscar, nem tem a mesma paciência para com os seus doentes. Irene passa a apresentar um comportamento mais agressivo. Paola opta por "desligar-se" temporariamente do trabalho, tenta falar sobre o filho, ao mesmo tempo que apresenta um ou outro arrufo com Giovanni, com a relação do casal a apresentar algumas fissuras. Quando encontramos Paola a entrar no quarto de Andrea, após receber uma carta, percebemos que este espaço permanece praticamente intocável, como se o adolescente ainda estivesse vivo, algo que exibe bem o quão difícil é para a família encarar esta divisória da casa e saber que aquele que a habitava nunca mais regressará. As camisas continuam no guarda-roupa como se Andrea fosse utilizar alguma no dia seguinte, o computador permanece no mesmo sítio, tal como os cadernos, com Nanni Moretti a demonstrar que esta família ainda não ultrapassou o período de luto. É visível que existiu todo um cuidado a nível do design dos cenários interiores, com uma simples abertura do quarto de Andrea, após a sua morte, a transmitir muito sobre o estado de alma desta família. As feridas são mais do que muitas, com uma saída para jantar a poder envolver um choro convulsivo, uma carta a trazer uma surpresa comovente, com o casal a perceber que não sabia tudo sobre o filho. Isso fica patente quando Arianna (Sofia Vigliar), uma jovem que se encontrava interessada em Andrea, mostra umas fotos tiradas por este, ou Giovanni procura ouvir o estilo de música que era apreciado pelo filho. Parece claro que muito ficou por ser dito e sentido, com a morte do adolescente a trazer um desafio hercúleo para esta família: seguir em frente. O argumento é sublime a explorar esta situação, ao mesmo tempo que incute pelo meio alguns episódios de maior leveza, procurando exibir a complexidade inerente a toda este período de luto. O regresso de um sorriso pode demorar uma eternidade a chegar, o sentimento de vazio parece que irá durar para sempre, enquanto todos são obrigados a mudar o seu quotidiano. Veja-se o caso de Giovanni, um psicanalista habituado a ouvir as histórias mais mirabolantes e as manias dos seus pacientes, acabando, aos poucos, por ser o próprio a ter necessidade de exprimir os seus sentimentos. Temos ainda a situação da jovem Irene, com Jasmine Trinca a convencer como esta adolescente que procura controlar os seus sentimentos embora muitas das vezes não consiga deixar de extravasá-los.

 A entrada em cena de Arianna incute uma novidade na narrativa e no quotidiano da família de Giovanni, com esta jovem a procurar entregar as fotografias tiradas por Andrea e conhecer o quarto do falecido, antes de partir para uma mini-aventura. Arianna desperta a atenção do núcleo familiar do falecido, enquanto o trio procura ultrapassar algo que parece impossível de esquecer. É uma situação delicada, abordada de forma subtil e comovente ao longo de "La stanza del figlio", com Nanni Moretti a saber criar a empatia necessária entre os espectadores e os personagens até introduzir uma perda dolorosa na vida do protagonista. Veja-se os momentos onde encontramos Andrea, Giovanni, Irene e Paola a cantarem no interior do carro, ou outras situações de alguma intimidade que ajudam a construir os personagens, até Nanni Moretti inserir o episódio trágico na vida da família. Anteriormente tínhamos visto episódios de algum humor, tais como Paola a tentar que Giovanni não trave a conversa entre Irene e Matteo, o namorado e colega de escola da filha, enquanto estes últimos se encontram a efectuar um trabalho na sala, ou mais sérios, como o momento em que o personagem interpretado por Nanni Moretti é chamado pelo director da escola devido à possibilidade de Andrea ter roubado um fóssil. Nanni Moretti é o nome que mais sobressai ao longo do filme quer pela sua interpretação sentida, quer pela sensibilidade a realizar um filme que facilmente fica na memória. Se em "Mia Madre" somos colocados diante daquele que é o maior pesadelo de um(a) filho(a), já em "La stanza del figlio" ficamos perante o terror de qualquer pai e mãe. Em ambas as obras fica latente a sensibilidade de Nanni Moretti a abordar as temáticas e a explorar os relacionamentos, sempre com uma atenção notória aos pormenores, uma capacidade de extrair boas interpretações aos diversos elementos que povoam o enredo e uma facilidade em fazer com que o espectador partilhe os sentimentos com os personagens. Os próprios cenários externos são aproveitados com alguma assertividade, algo notório quando encontramos Giovanni a correr, ou os personagens num momento algo nostálgico e terno quando transportam Arianna e o amigo até ao autocarro, entre outras situações. Entre a dor sentida pela perda de um ente querido e a procura em seguir em frente com a vida, "La stanza del figlio" surge como uma obra cinematográfica pontuada por uma enorme sensibilidade e delicadeza, com Nanni Moretti a realizar e protagonizar um drama que roça a perfeição.

Título original: "La stanza del figlio".
Título em Portugal: "O Quarto do Filho".
Realizador: Nanni Moretti.
Argumento: Nanni Moretti.
Elenco: Nanni Moretti, Laura Morante, Jasmine Trinca, Giuseppe Sanfelice, Silvio Orlando, Sofia Vigliar, Claudio Santamaria, Stefano Accorsi, Simona Lisi.

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