Como lidar com a morte daqueles que nos são próximos? Nunca saberei responder peremptoriamente a esta questão, embora, muito provavelmente, o método seguido
por Julien Davenne, o protagonista de "La chambre verte",
não seja o mais saudável. "La chambre verte" surge como um filme bastante pessoal de François Truffaut, com o cineasta a tomar a decisão de protagonizar o mesmo,
enquanto nos faz reflectir sobre assuntos como a morte, aqueles que
perdemos e as maneiras distintas que cada um encontra para enfrentar
as perdas que marcam a sua existência. Diga-se que a morte é algo transversal a diversos filmes realizados por François Truffaut.
Desde "Tirez sur le pianiste" a "La peau douce",
passando por "Jules et Jim" a "La Mariée était en
noir", até "La femme d'à Côté" e "Vivement
dimanche!" não faltam exemplos de obras cinematográficas
realizadas por François Truffaut em que a morte se encontra
presente. No caso de "La chambre verte", François Truffaut
assume as funções de realizador, argumentista, produtor e
protagonista, interpretando Julien Davenne, um indivíduo que tem
como profissão escrever os obituários no "Le Globe", um
pequeno jornal de uma cidade francesa de dimensões diminutas. A
narrativa inicia-se dez anos depois do final da I Guerra Mundial, um
conflito bélico que deixou marcas no território e naqueles que
sobreviveram. Julien continua a guardar na memória aqueles que viu
morrer, tendo regressado do conflito bélico sem um único
arranhão, apesar da sua alma se encontrar completamente dilacerada.
A perda da esposa, pouco tempo depois de se ter casado com a mesma,
conduziu a que Julien se enclausurasse cada vez mais no interior da
sua habitação, um espaço onde vive acompanhado por Rambaud (Jeanne
Lobre), a sua governanta e o jovem Georges (Patrick Maléon), um
surdo-mudo adoptado por esta última. Georges parece manter uma
relação de alguma amizade com Julien, enquanto Rambaud apresenta um
respeito notório pelo protagonista. No início do filme encontramos
Davenne a procurar consolar Gerard Mazet (Jean-Pierre Moulin), um
amigo que perdeu a esposa, com o velório a ser marcado
pela tentativa do segundo em suicidar-se e um discurso pueril por
parte do padre presente no evento. Julien consegue convencer o amigo a não cometer suicídio, ao
mesmo tempo que explana os procedimentos que tomou para lidar com a morte da esposa, com François Truffaut a expor desde logo alguns dos
traços da personalidade do protagonista. Existe um misto de devoção
e obsessão por parte de Julien em relação à falecida esposa, com o
personagem interpretado por François Truffaut a contar com um
quarto pontuado por tonalidades verdes e diversas velas, onde guarda
fotografias emolduradas da amada, chegando a oferecer-lhe um anel
adquirido num leilão como se esta ainda estivesse viva.
Julien tenta que a amada permaneça viva na sua
memória, embora se esqueça muitas das vezes de seguir em frente com
a sua vida, procurando que as recordações que guarda da falecida
não se desvaneçam diante do avançar do tempo. O personagem interpretado por François Truffaut é uma figura estoica, que parece viver para o passado e para os mortos, com Julien a gerar uma obsessão doentia em relação àqueles que partem. Julien não é
uma figura de trato fácil, algo visível quando descobre que Gerard decidiu iniciar uma relação com outra mulher, poucos meses depois da morte da esposa, um acto que o protagonista considera uma
falta de respeito. Gerard simboliza o oposto do protagonista, com o
personagem interpretado por Jean-Pierre Moulin a procurar seguir em frente com
a sua vida ao invés de continuar agrilhoado ao passado. Não quer dizer que se tenha esquecido da falecida
esposa, apenas decidiu que a melhor opção seria avançar para outra
relação sentimental, com um envolvimento a não apagar o outro. É
uma das várias questões complexas que "Le chambre verte"
aborda, com o argumento de Jean Gruault e François Truffaut a não
ter problemas em explorar temáticas melindrosas. Inspirado livremente
nas obras literárias "The Altar of the Dead". "The
Beast in the Jungle" e "The Friends of the Friends",
ambas da autoria de Henry James, o argumento de "La chambre
verte" não só procura abordar questões relacionadas com a morte, mas
também as maneiras distintas que cada um procura encontrar para seguir em frente com a sua vida e respeitar aqueles que partem. Diga-se que o argumento também é inspirado nas
experiências pessoais de François Truffaut, em particular nas
perdas que este foi conhecendo ao longo da sua vida, tais como André
Bazin, Françoise Dorléac, Henri Langlois, Roberto Rossellini, Jean
Cocteau, entre outros. A morte da esposa marcou Julien de forma indelével, bem como a
presença na I Guerra Mundial, algo latente nos seus actos. A certa altura da narrativa, uma tempestade assola esta pequena cidade, enquanto um raio destrói parte do quarto onde o protagonista praticamente criou um
altar em honra à sua falecida esposa. É então que Julien decide restaurar uma capela em ruínas, perto do
cemitério onde a esposa se encontra enterrada, com o protagonista a procurar utilizar este
espaço para honrar os mortos. Nesse sentido, Julien dota a capela de retratos dos falecidos, acendendo um largo conjunto de velas dedicadas a estas figuras. Diga-se que, nesta fase da
narrativa, Julien já contactara com Cecilia Mandel (Nathalie Baye), a empregada da casa de leilões onde este conseguira o anel para oferecer à falecida.
Cecilia contactara pela primeira vez com Julien quando ainda era uma jovem, reencontrando
o mesmo quando este se dirigiu à casa de leilões, com esta mulher a
denotar simpatia e
alguma delicadeza. Também Cecilia perdeu uma pessoa relevante, surgindo como uma figura recatada que parece algo presa ao passado, começando a nutrir algo mais pelo
protagonista, ou não fossem dois personagens peculiares que formam uma estranha relação de respeito.
Nathalie Baye interpreta uma figura que parece criar
uma ligação de proximidade com o protagonista, com a actriz a apresentar uma dinâmica relativamente convincente com François Truffaut. Cecilia parece, ainda que gradualmente, aceitar algumas
das excentricidades do protagonista, com este indivíduo a dar sinais
que pretende partilhar algo com esta mulher, embora esteja demasiado
preso aos mortos e ao passado.
François Truffaut explora o lado negro das obsessões e depressões, com Julien a surgir como uma figura que se encontra num estado caótico, algo que o leva a apresentar uma série de comportamentos doentios que desafiam os limites do bom senso. Esta situação
conduz a que nos deparemos com situações como Julien a parecer
preferir o contacto com os mortos ao invés de lidar com os vivos,
com François Truffaut a criar um drama que a espaços ganha
contornos mais negros e pesados. O
cineasta interpreta um indivíduo deprimido que descura os vivos e a sua
própria vida, tendo em vista a reverenciar aqueles que partiram, uma situação doentia que exibe mais os desequilíbrios de Julien do que o seu respeito pelos mortos. A certa altura do
filme encontramos esta figura a esconder-se atrás de uma porta, com
o vidro da mesma a contribuir para que Julien surja distorcido junto
do espectador, com este plano a parecer praticamente simbolizar a
existência difusa e caótica deste personagem que se parece recusar a
lutar contra os seus instintos. A interpretação de François Truffaut permite realçar a
incapacidade deste indivíduo em lidar com aqueles que o rodeiam e enfrentar o presente, com o actor a expor ainda as dificuldades de Julien em
explanar aquilo que sente. Ainda tem um momento onde exibe que não
tem contemplações para com aqueles que o marcaram pela negativa,
algo notório quando pedem para que escreva o obituário de
Massigny, um indivíduo que desiludiu Julien no passado.
Curiosamente, Massigny também se encontra ligado a Cecilia, algo que
promete causar alguma irrisão entre esta e Julien, com este último
a não perdoar aqueles que outrora o desiludiram. Julien é
uma figura solitária, que tem no culto dos mortos um modo de vida,
enquanto Truffaut cria algo de muito pessoal, ao mesmo tempo que nos
alerta para o perigo de nos deixarmos consumir pela dor relacionada com a perda daqueles que nos são próximos. François Truffaut recupera a
colaboração com Néstor Almendros, o responsável pela
cinematografia, com este a efectuar uma utilização notável da luz
das velas, algo notório na capela que o protagonista reformula ou no
quarto do mesmo (existe um tom algo gótico a rodear o filme). A
capela é composta por diversos retratos de figuras que
marcaram o protagonista, com Truffaut a deixar-nos diante de imagens
de elementos como Oskar
Werner, Jean
Cocteau, Raymond
Queneau, Jeanne
Moreau, Oscar
Wilde, entre outros, algo que transforma este espaço numa espécie de "quem é quem" para o espectador. É nesta capela que assistimos a alguma
aproximação e afastamento entre Julien e Cecilia, dois elementos
que frequentam regularmente o cemitério, com esta última a
estranhamente apreciar este espaço dedicado ao culto dos
mortos, para além de gostar da companhia do primeiro, embora pareça praticamente impossível que os personagens interpretados por Nathalie Baye e François Truffaut venham a ser felizes. Truffaut
aborda de forma eficaz a incapacidade que este indivíduo tem em conseguir afastar-se das memórias do passado, com o protagonista a apresentar uma postura cada vez
mais doentia, uma situação notória quando assistimos a um plano
onde as velas e o seu rosto se fundem, parecendo cada vez mais certo
que a morte consome a existência de Julien. Com um argumento capaz de abordar temáticas melindrosas e intrincadas, uma interpretação
sóbria e eficaz de François Truffaut, uma boa utilização da
paleta cromática ao serviço da narrativa e um aproveitamento assertivo dos cenários, "La chambre verte"
surge como um drama desgastante onde o cineasta explora com argúcia
a história de uma figura complexa e incompreendida que parece incapaz de seguir em
frente com a sua vida após a morte de vários elementos que povoaram o
seu quotidiano.
Título original: "La chambre verte".
Título em Portugal: "O Quarto Verde".
Realizador: François Truffaut.
Argumento:
Jean Gruault e François Truffaut.
Elenco: François Truffaut, Nathalie Baye, Jean Dasté.

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