Não faltou coragem a Benoît Jacquot ao aventurar-se por terrenos arriscados tendo em vista a adaptar "Le
Journal d’une femme de chambre", um livro escrito por Octave
Mirbeau. Veja-se que nomes incontornáveis como Jean Renoir e Luis Buñuel já tinham realizado adaptações
cinematográficas do livro, algo que nos faz questionar a
pertinência de pegar novamente nesta obra literária como ponto de
partida para desenvolver mais um filme. Jacquot não teve problemas
em expor as suas motivações para elaborar mais uma adaptação
cinematográfica desta obra literária, com o cineasta a aproveitar o facto do enredo se desenrolar no passado para explorar temáticas que continuam relativamente actuais: "I
detected a direct echo in it of our current socio-political climate.
In a roundabout way, Mirbeau’s novel, which takes place at the
beginning of the twentieth century, gave me the opportunity to deal
with issues that our society no longer does, other than in a
roundabout way: salaried slavery, anti-Semitism, sexual
discrimination". A espaços podemos criticar a falta de
desenvolvimento de alguns personagens secundários e a abertura de
subtramas que pediam maior conteúdo, embora Benoît Jacquot tenha em
Léa Seydoux uma aliada de peso, com a actriz a brindar o espectador com uma
interpretação praticamente inatacável que eleva o nível de "Journal d'une femme de chambre". Léa Seydoux exibe mais uma vez
o seu talento para a representação, com a personagem que interpreta
a estar quase sempre em destaque ao longo de uma obra cinematográfica
que surge dotada de todo um cuidado a nível do design do cenário
interior da habitação onde a protagonista trabalha e do guarda-roupa
dos personagens. As roupas com que Célestine (Léa Seydoux) se
apresenta são consideradas demasiado luxuosas para a
profissão de criada de quarto, o seu comportamento é irreverente e
impertinente, enquanto os seus comentários sardónicos sobre a
realidade que a rodeia são expostos em voiceover ou num tom de
sussurro ao longo de "Journal d'une femme de chambre", a
quarta adaptação cinematográfica do livro homónimo de Octave
Mirbeau. Em bom tempo Benoît Jacquot recuperou a colaboração com
Léa Seydoux após "Les Adieux à la reine", com a actriz a
elevar uma obra cinematográfica onde parece circular como "peixe
na água" ou a personagem que interpreta não mesclasse um misto
de rebeldia, sensualidade, mordacidade e espírito de sobrevivência,
surgindo como alvo de desejo por parte da maioria das figuras masculinas. No
início do filme encontramos esta jovem camareira, habituada aos
luxos de Paris e a um estilo de vida mais aberto, a ser designada
para ir trabalhar numa propriedade localizada na Normandia. Esta vai
trabalhar para a casa dos Lanlaire, um casal burguês que habita numa
mansão situada no interior de uma vasta propriedade que é cuidada
por Joseph (Vincent Lindon). O casal que a emprega não poderia ser
mais distinto a nível de personalidade. O Monsieur Lanlaire (Hervé
Pierre) assedia constantemente Célestine, surgindo como um tarado que
não pode ver a esposa à frente. A Madame Lanlaire (Clotilde Mollet)
aparece como uma mulher frígida e austera que gosta de usar e abusar
da paciência dos seus funcionários.
Clotilde Mollet sobressai como esta mulher de gestos aparentemente
frios, pouco dada a grandes relações de amizade, que procura
desafiar a paciência da sua funcionária. Ora pede uma agulha, ora
pede uma linha, ora pede uma tesoura, procurando que Célestine suba
e desça as escadas a enorme velocidade, enquanto procura testar a
capacidade física e mental da protagonista. Léa Seydoux exibe no
seu rosto e em voiceover que os pensamentos de Célestine em relação
aos patrões nem sempre são os melhores, algo notório quando
salienta as maravilhas que uma cozinheira pode fazer se trocar algum
dos ingredientes por arsénico. A cozinheira da casa é Marianne, uma
mulher anafada e conservadora que procura desde logo rechaçar
algumas questões mais incómodas por parte da protagonista. Marianne (Mélodie Valemberg) é
alvo de assédio por parte do patrão, acedendo com alguma facilidade
aos avanços do mesmo, surgindo como uma figura feminina mais passiva
e temerosa do que Célestine. A relação de Marianne com o patrão é
o paradigma da sociedade pontuada pelas aparências e falsos
moralismos que é criticada ao longo do filme, com o enredo a
desenrolar-se no início do século XX, embora algumas temáticas
sejam transversais aos dias de hoje. A dicotomia entre o ser e o
parecer, os falsos pudores, a xenofobia, os abusos cometidos pelas
entidades empregadoras são temas que continuam a fazer parte do
nosso quotidiano. A juntar a todo este grupo de personagens, temos
ainda Joseph, um indivíduo que parece inicialmente recatado, com
Vincent Lindon a atribuir algum mistério e rudeza a este jardineiro
anti-semita que observa constantemente Célestine. O desejo sexual
parece rodear o quotidiano de Célestine, seja pelos sentimentos
desta, ou pelos actos daqueles que a rodeiam. Veja-se um flashback
onde encontramos Célestine com a antiga patroa no interior de um
comboio, com esta última a procurar evitar abrir uma caixa vermelha
quando é revistada. A caixa das "joias" contém um dildo
para a ex-patroa de Célestine se acariciar sexualmente, enquanto a
empregada logo aproveita para jocosamente salientar que prefere estas
"joias" ao natural. Não faltam diálogos mordazes, com a
narração em off e os sussurros a permitirem que Célestine seja muitas das vezes a
nossa confidente ao longo de uma narrativa pontuada por personagens
que nem sempre despertam a nossa simpatia. Veja-se o caso do Capitão
Mauger (Patrick d'Assumçao), um indivíduo cruel e peculiar, que tem
como hobbie atirar pedras à habitação dos Lanlaire. Quando o
encontramos a eliminar brutalmente a doninha que tem como animal de
estimação, logo percebemos que o Capitão esconde uma enorme violência
por detrás da sua figura aparentemente patética e inofensiva,
embora o argumento raramente atribua profundidade a este indivíduo
meio tresloucado. A doninha é um dos vários animais irracionais que
encontramos a assumirem brevemente algum destaque ao longo do filme.
Temos ainda os dois cães que apenas parecem obedecer a Joseph, com
estes e o seu dono a parecerem representar uma brutalidade que
estranhamente desperta a atenção da protagonista.
Célestine é mordaz e inteligente, embora não pareça opor-se
ferozmente à sua profissão, com "Journal d'une femme de chambre" a surgir como uma obra cinematográfica que procura efectuar uma
crítica às hipocrisias do meio aburguesado no qual a protagonista
se envolve, com esta a deparar-se com uma plêiade de figuras que, na
sua maioria, deixam os seus defeitos virem ao de cima. Diga-se que
"Journal d'une femme de chambre" também deixa muitas das
vezes as suas lacunas sobressaírem em relação às suas virtudes.
Os flashbacks surgem como um recurso utilizado de forma amiúde ao
longo do enredo, algo que permite expor alguns episódios relacionados com passado da protagonista, que explanam a formação
da personalidade desta mulher, embora Benoît Jacquot por vezes
pareça introduzi-los a martelo na narrativa quando se pedia maior
subtileza. Veja-se quando Célestine recebe a notícia da morte da
mãe, apresentando um estado de enorme desespero, com a Madame Lanlaire a exibir
uma falta de sensibilidade latente. Esperamos que a notícia tenha
algum impacto mas Benoît Jacquot prefere cortar esta cena com um
flashback. É certo que o episódio que nos é exposto permite exibir
outra perda na vida de Célestine, com a morte a ligar o presente e o
passado, com estes flashbacks a exporem alguns dos trabalhos anteriores desta mulher, ao mesmo tempo que nos oferecem uma visão mais
aprofundada sobre a personagem interpretada por Léa Seydoux, embora
nem sempre sejam introduzidos de forma orgânica no enredo. No
presente, Célestine tem nas fofocas com Rose (Rosette) e um grupo de
mulheres que se costumam reunir de forma amiúde, alguns momentos de
descontração, embora estas personagens secundárias raramente sejam
devidamente exploradas (por vezes fica a ideia que Benoît Jacquot
tinha material para um filme que durasse bem mais do que cerca de
hora e meia). É nesse grupo que descobrimos que a srª Gouin (Yvette Petit) faz
"anjos", ou melhor, abortos clandestinos, numa sociedade
onde muito se procura esconder embora quase tudo se descubra. É uma
cidade onde as notícias voam a grande velocidade, ocorre um
assassinato misterioso e os ecos do Caso Dreyfus se encontram bem presentes, embora boa parte do enredo tenha como pano de
fundo a habitação dos Lanlaire, um casal que mantém uma relação marcada pela frieza. Ela é frígida e solitária. Ele é um
mulherengo que roça o ridículo com as suas atitudes depravadas.
Escusado será dizer que o personagem interpretado de forma quase
caricatural por Hervé Pierre também se vai interessar por
Célestine, embora os seus avanços sejam quase sempre rechaçados
por esta jovem que gosta de provocar os homens, embora apenas avance
para a fase seguinte com aqueles que pretende.
A protagonista também é alvo dos galanteios de Joseph, com este
a esconder uma agenda secreta que exibe paradigmaticamente que a
corrupção moral surge como algo transversal a todos os elementos que habitam esta
mansão, independentemente do escalão social de cada um. Benoît Jacquot
procura exactamente explorar essa faceta imoral que rodeia estes
personagens que habitam um espaço recheado de mobiliário e objectos
caros, embora o estatuto financeiro dos Lanlaire não se pareça
traduzir nos seus comportamentos e educação. Diga-se que este é um
filme onde não existem heróis e vilões, com cada elemento a
parecer ter que se adaptar da melhor forma ao meio que o rodeia, algo
visível na figura de Célestine. Esta procura conseguir sobreviver
da maneira que pode, embora acabe por encontrar uma série de
contratempos, parecendo incapaz de tomar as melhores decisões, algo
notório quando se envolve com Joseph, um indivíduo violento, rude,
xenófobo, misógino e pouco polido a nível de educação. Os dois
são figuras bastante distintas, sem grande química, embora
Célestine pareça encontrar neste homem um modo de fugir ao meio que a rodeia. A relação entre estes dois personagens é
marcada pelo desejo de fugirem da casa dos Lanlaire, embora raramente
pareça existir sentimentos amorosos fortes entre ambos, bem pelo
contrário. Com uma crítica mordaz à sociedade
burguesa da época, um guarda-roupa digno de atenção e um trabalho
de câmara pronto a fazer-se sentir, "Journal d’une
femme de chambre" nem sempre deslumbra, embora esteja longe de ser algo completamente descartável, com o desempenho praticamente imaculado de Léa Seydoux a contribuir para elevar esta nova adaptação cinematográfica do livro de Octave Mirbeau.
Título original: "Journal d'une femme de chambre".
Título em Portugal: "Diário de Uma Criada de Quarto".
Realizador: Benoît Jacquot.
Argumento:
Benoît Jacquot e Hélène Zimmer.
Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Clotilde Mollet, Hervé Pierre, Mélodie Valemberg.

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