29 novembro 2015

Resenha Crítica: "Journal d'une femme de chambre" (Diário de Uma Criada de Quarto)

 Não faltou coragem a Benoît Jacquot ao aventurar-se por terrenos arriscados tendo em vista a adaptar "Le Journal d’une femme de chambre", um livro escrito por Octave Mirbeau. Veja-se que nomes incontornáveis como Jean Renoir e Luis Buñuel já tinham realizado adaptações cinematográficas do livro, algo que nos faz questionar a pertinência de pegar novamente nesta obra literária como ponto de partida para desenvolver mais um filme. Jacquot não teve problemas em expor as suas motivações para elaborar mais uma adaptação cinematográfica desta obra literária, com o cineasta a aproveitar o facto do enredo se desenrolar no passado para explorar temáticas que continuam relativamente actuais: "I detected a direct echo in it of our current socio-political climate. In a roundabout way, Mirbeau’s novel, which takes place at the beginning of the twentieth century, gave me the opportunity to deal with issues that our society no longer does, other than in a roundabout way: salaried slavery, anti-Semitism, sexual discrimination". A espaços podemos criticar a falta de desenvolvimento de alguns personagens secundários e a abertura de subtramas que pediam maior conteúdo, embora Benoît Jacquot tenha em Léa Seydoux uma aliada de peso, com a actriz a brindar o espectador com uma interpretação praticamente inatacável que eleva o nível de "Journal d'une femme de chambre". Léa Seydoux exibe mais uma vez o seu talento para a representação, com a personagem que interpreta a estar quase sempre em destaque ao longo de uma obra cinematográfica que surge dotada de todo um cuidado a nível do design do cenário interior da habitação onde a protagonista trabalha e do guarda-roupa dos personagens. As roupas com que Célestine (Léa Seydoux) se apresenta são consideradas demasiado luxuosas para a profissão de criada de quarto, o seu comportamento é irreverente e impertinente, enquanto os seus comentários sardónicos sobre a realidade que a rodeia são expostos em voiceover ou num tom de sussurro ao longo de "Journal d'une femme de chambre", a quarta adaptação cinematográfica do livro homónimo de Octave Mirbeau. Em bom tempo Benoît Jacquot recuperou a colaboração com Léa Seydoux após "Les Adieux à la reine", com a actriz a elevar uma obra cinematográfica onde parece circular como "peixe na água" ou a personagem que interpreta não mesclasse um misto de rebeldia, sensualidade, mordacidade e espírito de sobrevivência, surgindo como alvo de desejo por parte da maioria das figuras masculinas. No início do filme encontramos esta jovem camareira, habituada aos luxos de Paris e a um estilo de vida mais aberto, a ser designada para ir trabalhar numa propriedade localizada na Normandia. Esta vai trabalhar para a casa dos Lanlaire, um casal burguês que habita numa mansão situada no interior de uma vasta propriedade que é cuidada por Joseph (Vincent Lindon). O casal que a emprega não poderia ser mais distinto a nível de personalidade. O Monsieur Lanlaire (Hervé Pierre) assedia constantemente Célestine, surgindo como um tarado que não pode ver a esposa à frente. A Madame Lanlaire (Clotilde Mollet) aparece como uma mulher frígida e austera que gosta de usar e abusar da paciência dos seus funcionários.

Clotilde Mollet sobressai como esta mulher de gestos aparentemente frios, pouco dada a grandes relações de amizade, que procura desafiar a paciência da sua funcionária. Ora pede uma agulha, ora pede uma linha, ora pede uma tesoura, procurando que Célestine suba e desça as escadas a enorme velocidade, enquanto procura testar a capacidade física e mental da protagonista. Léa Seydoux exibe no seu rosto e em voiceover que os pensamentos de Célestine em relação aos patrões nem sempre são os melhores, algo notório quando salienta as maravilhas que uma cozinheira pode fazer se trocar algum dos ingredientes por arsénico. A cozinheira da casa é Marianne, uma mulher anafada e conservadora que procura desde logo rechaçar algumas questões mais incómodas por parte da protagonista. Marianne (Mélodie Valemberg) é alvo de assédio por parte do patrão, acedendo com alguma facilidade aos avanços do mesmo, surgindo como uma figura feminina mais passiva e temerosa do que Célestine. A relação de Marianne com o patrão é o paradigma da sociedade pontuada pelas aparências e falsos moralismos que é criticada ao longo do filme, com o enredo a desenrolar-se no início do século XX, embora algumas temáticas sejam transversais aos dias de hoje. A dicotomia entre o ser e o parecer, os falsos pudores, a xenofobia, os abusos cometidos pelas entidades empregadoras são temas que continuam a fazer parte do nosso quotidiano. A juntar a todo este grupo de personagens, temos ainda Joseph, um indivíduo que parece inicialmente recatado, com Vincent Lindon a atribuir algum mistério e rudeza a este jardineiro anti-semita que observa constantemente Célestine. O desejo sexual parece rodear o quotidiano de Célestine, seja pelos sentimentos desta, ou pelos actos daqueles que a rodeiam. Veja-se um flashback onde encontramos Célestine com a antiga patroa no interior de um comboio, com esta última a procurar evitar abrir uma caixa vermelha quando é revistada. A caixa das "joias" contém um dildo para a ex-patroa de Célestine se acariciar sexualmente, enquanto a empregada logo aproveita para jocosamente salientar que prefere estas "joias" ao natural. Não faltam diálogos mordazes, com a narração em off e os sussurros a permitirem que Célestine seja muitas das vezes a nossa confidente ao longo de uma narrativa pontuada por personagens que nem sempre despertam a nossa simpatia. Veja-se o caso do Capitão Mauger (Patrick d'Assumçao), um indivíduo cruel e peculiar, que tem como hobbie atirar pedras à habitação dos Lanlaire. Quando o encontramos a eliminar brutalmente a doninha que tem como animal de estimação, logo percebemos que o Capitão esconde uma enorme violência por detrás da sua figura aparentemente patética e inofensiva, embora o argumento raramente atribua profundidade a este indivíduo meio tresloucado. A doninha é um dos vários animais irracionais que encontramos a assumirem brevemente algum destaque ao longo do filme. Temos ainda os dois cães que apenas parecem obedecer a Joseph, com estes e o seu dono a parecerem representar uma brutalidade que estranhamente desperta a atenção da protagonista.

Célestine é mordaz e inteligente, embora não pareça opor-se ferozmente à sua profissão, com "Journal d'une femme de chambre" a surgir como uma obra cinematográfica que procura efectuar uma crítica às hipocrisias do meio aburguesado no qual a protagonista se envolve, com esta a deparar-se com uma plêiade de figuras que, na sua maioria, deixam os seus defeitos virem ao de cima. Diga-se que "Journal d'une femme de chambre" também deixa muitas das vezes as suas lacunas sobressaírem em relação às suas virtudes. Os flashbacks surgem como um recurso utilizado de forma amiúde ao longo do enredo, algo que permite expor alguns episódios relacionados com passado da protagonista, que explanam a formação da personalidade desta mulher, embora Benoît Jacquot por vezes pareça introduzi-los a martelo na narrativa quando se pedia maior subtileza. Veja-se quando Célestine recebe a notícia da morte da mãe, apresentando um estado de enorme desespero, com a Madame Lanlaire a exibir uma falta de sensibilidade latente. Esperamos que a notícia tenha algum impacto mas Benoît Jacquot prefere cortar esta cena com um flashback. É certo que o episódio que nos é exposto permite exibir outra perda na vida de Célestine, com a morte a ligar o presente e o passado, com estes flashbacks a exporem alguns dos trabalhos anteriores desta mulher, ao mesmo tempo que nos oferecem uma visão mais aprofundada sobre a personagem interpretada por Léa Seydoux, embora nem sempre sejam introduzidos de forma orgânica no enredo. No presente, Célestine tem nas fofocas com Rose (Rosette) e um grupo de mulheres que se costumam reunir de forma amiúde, alguns momentos de descontração, embora estas personagens secundárias raramente sejam devidamente exploradas (por vezes fica a ideia que Benoît Jacquot tinha material para um filme que durasse bem mais do que cerca de hora e meia). É nesse grupo que descobrimos que a srª Gouin (Yvette Petit) faz "anjos", ou melhor, abortos clandestinos, numa sociedade onde muito se procura esconder embora quase tudo se descubra. É uma cidade onde as notícias voam a grande velocidade, ocorre um assassinato misterioso e os ecos do Caso Dreyfus se encontram bem presentes, embora boa parte do enredo tenha como pano de fundo a habitação dos Lanlaire, um casal que mantém uma relação marcada pela frieza. Ela é frígida e solitária. Ele é um mulherengo que roça o ridículo com as suas atitudes depravadas. Escusado será dizer que o personagem interpretado de forma quase caricatural por Hervé Pierre também se vai interessar por Célestine, embora os seus avanços sejam quase sempre rechaçados por esta jovem que gosta de provocar os homens, embora apenas avance para a fase seguinte com aqueles que pretende.

A protagonista também é alvo dos galanteios de Joseph, com este a esconder uma agenda secreta que exibe paradigmaticamente que a corrupção moral surge como algo transversal a todos os elementos que habitam esta mansão, independentemente do escalão social de cada um. Benoît Jacquot procura exactamente explorar essa faceta imoral que rodeia estes personagens que habitam um espaço recheado de mobiliário e objectos caros, embora o estatuto financeiro dos Lanlaire não se pareça traduzir nos seus comportamentos e educação. Diga-se que este é um filme onde não existem heróis e vilões, com cada elemento a parecer ter que se adaptar da melhor forma ao meio que o rodeia, algo visível na figura de Célestine. Esta procura conseguir sobreviver da maneira que pode, embora acabe por encontrar uma série de contratempos, parecendo incapaz de tomar as melhores decisões, algo notório quando se envolve com Joseph, um indivíduo violento, rude, xenófobo, misógino e pouco polido a nível de educação. Os dois são figuras bastante distintas, sem grande química, embora Célestine pareça encontrar neste homem um modo de fugir ao meio que a rodeia. A relação entre estes dois personagens é marcada pelo desejo de fugirem da casa dos Lanlaire, embora raramente pareça existir sentimentos amorosos fortes entre ambos, bem pelo contrário. Com uma crítica mordaz à sociedade burguesa da época, um guarda-roupa digno de atenção e um trabalho de câmara pronto a fazer-se sentir, "Journal d’une femme de chambre" nem sempre deslumbra, embora esteja longe de ser algo completamente descartável, com o desempenho praticamente imaculado de Léa Seydoux a contribuir para elevar esta nova adaptação cinematográfica do livro de Octave Mirbeau.

Título original: "Journal d'une femme de chambre".
Título em Portugal: "Diário de Uma Criada de Quarto".
Realizador: Benoît Jacquot.
Argumento: Benoît Jacquot e Hélène Zimmer.
Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Clotilde Mollet, Hervé Pierre, Mélodie Valemberg.

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